segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O fim do mundo e outras novidades - JOÃO UBALDO RIBEIRO


domingo, fevereiro 16, 2014


O fim do mundo e outras novidades - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 16/02

Já tive oportunidade de denunciar aqui a aleivosia segundo a qual, quando o mundo acabar, lá na ilha nós só iremos saber uns cinco dias depois. Isto é fruto de inveja e despeito contra a pátria itaparicana. Pelo contrário, a julgar por certas circunstâncias, deveremos estar entre os primeiros a ser informados ou até convidados especiais. Em meio aos nossos inúmeros filósofos, pensadores, visionários e estudiosos de alta escatologia, muitos têm opiniões sólidas sobre o assunto e diversos conhecem datas e pormenores copiosos. O finado Americano, que nunca esteve sóbrio um só instante em toda a vida e morreu com uns noventinha, me disse uma vez que um belo dia o mar ia felver, ia felver, escaldar a ilha toda e, logo em seguida, o resto do mundo. Hélio Bríbria, que não larga a Bíblia e sabe de cor todas as profecias terríveis, fica checando tsunamis, terremotos, erupções e outras catástrofes, lê um trecho da Bíblia que julga apropriado para o evento e, os olhos brilhando, dá umas casquinadazinhas de satisfação. “Hi-hi-hi!” faz ele. “Vocês todos vão se lascar, tá tudo escrito aqui, tá tudo acontecendo!”

Mesmo entre os que não costumam ocupar-se do assunto, como no caso de Toinho Sabacu, há posições claras. A dele, expressa várias vezes no Bar de Espanha, é não estar presente aos acontecimentos. Ao sentir o fim do mundo chegando, pirulitar-se-á rapidamente, para local não revelado mesmo aos mais íntimos e só sai até segunda ordem.

— Não faço a menor questão de estar presente — explica ele. — Não entendo nada do assunto e só ia piorar o sufoco. Tou fora, vou esperar para ver como ficam as coisas.

Nos dias recentes, o fim do mundo voltou ao debate público, espicaçado pelas mudanças climáticas. Quem ligava a tevê se espantava com as notícias sobre o calor no Sudeste, enquanto, lá no Nordeste, chegou a fazer frio e choveu. Houve dois dias em que os mais friorentos saíram meio agasalhados e muita gente chegou a mudar o figurino de casual para passeio completo, que, no caso de ilha é bermuda com camisa, aparição antigamente raríssima no verão. Ao contrário da previsão de Americano, o mar não parecia que ia ferver, mas talvez congelar-se, no ver quiçá exagerado de alguns observadores.

— Meus senhores, a situação é grave! — discursou Jacob Branco. — Estão ameaçadas a atmosfera, a troposfera e a própria ionosfera!

Aplausos respeitosos, belas palavras; Jacob nunca envergonhou, numa tribuna. Prosseguiu ele com uma dissertação sobre a destruição da camada de ozônio, que vários entenderam como a “camada de Osório”, o que levou alguns presentes a acharem que o lado Osório de minha família estava sendo prejudicado, e oferecerem sua solidariedade, diante daquele absurdo. E, mais, chuva ácida, desertificação, desmatamento, poluição ambiental, um deslumbramento ecológico.

Além disso, tinha Jacob razões para crer que evidências inquietantes pululavam por toda a ilha. O caso dos tatus ferrados com anzol já praticamente oficializara a pescaria do tatu, com a futura criação, no Ministério da Pesca, da Secretaria do Tatu, a ser ocupada por indicação da base governista. Só podia ser por causa dos agrotóxicos, que enlouqueceram os tatus, levando-os a acreditar que são peixes e mordendo isca de camarão. Noca Pequeno surgira com a notícia de que fora visto um pinguim em Salinas da Margarida, mas era muito tímido e sumiu logo, aparentando estar estranhando o frio. E Nilmete veio com a história de que botou para correr uma foca que a atacou no escuro, em sua casa na Ilha dos Porcos, mas há quem suspeite que o vulto dessa dita foca era mais parecido com Julinho da Gameleira — cala-te, boca.

Concluindo seu vistoso pronunciamento, Jacob afirmou a necessidade de conscientização, porque, de fato, entre tatus virados em peixes e pinguins tropicais, o mundo podia acabar a qualquer momento, nem neve tinha mais na Rússia. Seria a perfeita chave de ouro, se uma conhecida voz roufenha não viesse da entrada — quem, senão Zecamunista, regressando de mais uma vitoriosa turnê de pôquer, todo sorridente e cercado, não por uma, nem duas, mas seis esplendorosas jovens do Sul do País.

— Jacob, nobre amigo — disse ele. — Você ainda discute se o mundo vai acabar? Claro que já está acabando e eu, modéstia à parte, me antecipei.

Aquelas encantadoras moças antes renomadas acompanhantes, haviam sido as primeiras contratadas para trabalhar no Projeto Bom Apocalipse, destinado a produzir o melhor fim de mundo possível a clientes exigentes. Como não discriminaria ninguém, homens também serão contratados, para compor importante setor de lazer e entretenimento. Infelizmente, no começo o programa ia ter que ser restrito aos de melhor poder aquisitivo, embora já estivesse considerando aceitar participantes com bolsa apocalipse. O principal, como sempre, era entrar dinheiro na ilha. E era importante ressaltar que o mercado ia ser basicamente de corruptos e ladrões sortidos, que entre nós abundam.

— Vamos manter um quadro de advogados de primeiro time. O sujeito rouba, pega julgamento em liberdade e vem para cá. Como o julgamento não acaba nunca, ele passa o resto da vida aqui, no bem-bom, podendo sair até do país, se o juiz deixar e a Interpol não pegar. “Aproveite que o mundo neste país já acabou há muito tempo e viva aqui o melhor fim do mundo do mundo! Traga as propinas, que nós damos o paraíso fiscal! Roubar, todo mundo rouba, mas roubar com elegância e segurança só com o Bom Apocalipse — onde o que você rouba continua sempre seu! É agora ou nunca, não marque bobeira, não seja o único do bairro a ficar de fora! Ladrões de todo o Brasil, uni-vos!

Tragédia desnecessária - FERREIRA GULLAR

domingo, fevereiro 16, 2014


Tragédia desnecessária - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 16/02

Hoje, muitas clínicas psiquiátricas possuem campos de esporte e salas de leitura e de jogos

A morte de Eduardo Coutinho chocou o país e particularmente os seus amigos. Morrer assassinado era a última coisa que alguém poderia prever que ocorresse com ele. Por isso mesmo, ao chegar em casa e ver seu rosto na televisão, me detive pensando que se tratava de alguma notícia relacionada com sua atividade de cineasta. Não era, logo ouvi o locutor dizer que ele havia morrido, e fiquei surpreso. E logo acrescentou que havia sido morto por seu filho Daniel, de 41 anos.

Não dava para acreditar naquilo, era absurdo demais. Não obstante, aos poucos, aquele quadro trágico ia se completando e ganhando realidade. O filho era doente mental e consumia drogas. Matara o pai a facadas e tentara fazer o mesmo com a mãe; em seguida, esfaqueou-se a si mesmo, mas não morreu.

Teria declarado a um vizinho que fizera aquilo para libertar os pais e a si mesmo. Sem dúvida, é preciso estar louco e surtado para pensar e agir dessa maneira. Depois de saber essas coisas, não restava dúvida: Daniel agira tomado por um surto esquizofrênico.

Não sabia que Eduardo Coutinho tinha um filho com esse problema. Segundo ouvir dizer, parece que ele não admitia que o filho fosse doente mental e, se isso for verdade, certamente evitava tratá-lo com tal. Pode não ser verdade mas, se for, não seria o único caso de uma família não admitir que algum de seus membros seja louco. Conheci uma família que manteve trancado num quarto, por mais de uma década, um filho com problemas psíquicos.

Esse tipo de comportamento decorre quase sempre de uma visão preconceituosa da doença mental, como se sua incidência na família fosse uma espécie de maldição. Era assim no passado. Hoje, no entanto, são pessoas avançadas que negam a existência da doença mental. Segundo elas, trata-se apenas de um relacionamento diferente com o mundo real. Admitir que alguém é louco seria nada mais nada menos que um preconceito.

Certamente, quem pensa assim nunca viveu de fato o problema. Como pega bem mostrar-se avançado, aberto, antirrepressivo, muita gente não apenas nega que a loucura seja doença como, coerentemente, se opõe à internação nos chamados "manicômios". Criaram até um movimento que se intitula "antimanicomial", que visa, de fato, acabar com as clínicas psiquiátricas, uma vez que o que se chama de manicômio não existe mais.

É verdade que, no passado, a internação nesses hospitais implicava em agressão física e choques elétricos, mas não por simples crueldade e, sim, pelo desconhecimento das causas da doença e de medicamentos apropriados.

Com a descoberta dos remédios neuroléticos, os hospitais psiquiátricos mudaram radicalmente. Hoje, muitas dessas clínicas possuem campos de esporte e salas de leitura e de jogos. Já não lembram em nada os hospícios de antigamente, que mais pareciam prisões.

Os adeptos da nova psiquiatria fazem por ignorar essa mudança para justificar sua tese contra a internação. Essa tese surgiu em Bolonha, onde foi implantada com resultados desastrosos: os doentes pobres terminavam nas ruas como mendigos.

Isso já começa a acontecer no Brasil que, tendo adotado a tal nova psiquiatria, levou à extinção de mais de 30 mil leitos em hospitais públicos. Quem tem recursos interna seus doentes em clínicas particulares, enquanto os doentes pobres morrem na rua. E isso é obra de um governo que diz trabalhar em favor dos necessitados.

Tive oportunidade de conversar com pessoas que se opõem à internação de doentes mentais e me dei conta de que nada sabem da doença e aceitam a nova psiquiatria por acreditarem que favorece aos doentes. Na verdade, a internação só tem cabimento quando o doente entra em surto e consequentemente torna-se um perigo para si mesmo e para os outros. Foi o que aconteceu no caso de Eduardo Coutinho.

Desconheço a situação por que passava sua família naquele momento, mas não resta dúvida de que o filho Daniel, que é esquizofrênico, entrou em surto. Não sei por que os pais não solicitaram atendimento médico para interná-lo, mas não tenho dúvida de que, se o tivessem feito, aquela tragédia dificilmente teria ocorrido.

Espero que esse exemplo terrível leve as pessoas refletirem melhor sobre essa questão.

O terrorismo da banca sobre o STF - ELIO GASPARI

domingo, fevereiro 16, 2014

O terrorismo da banca sobre o STF - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 16/02

O Credit Suisse avisa: bancos exageram quando dizem que perderão R$ 150 bi, vale a pena comprar suas ações


No final do ano passado a banca fez uma ofensiva sobre o Supremo Tribunal Federal capaz de dar inveja às tropas do marechal Zhukov durante a Segunda Guerra. Queriam derrubar o pleito dos poupadores tungados nos planos econômicos da época da hiperinflação. Quem tinha mil cruzeiros novos (a moeda de então) na poupança em janeiro de 1989 deixou de receber 204 cruzeiros por causa da mudança do indexador. Esse dinheiro vale hoje R$ 880.

Por mais de uma década a banca fez de tudo, inclusive manobras tenebrosas no Supremo. Quando chegou a hora do julgamento, apareceu um número mágico: se os tungados prevalecessem, os bancos perderiam R$ 150 bilhões e iriam à breca. Outro cálculo falava em R$ 600 bilhões e o procurador-geral do Banco Central chegou a mostrar uma conta de R$ 1 trilhão. Os interesses da banca chegaram a produzir um manifesto de 13 ex-ministros da Fazenda. Cinco signatários tinham em suas biografias a glória de terem copatrocinado a ruína da hiperinflação. Falavam com a autoridade do fracasso.

O julgamento do Supremo foi adiado e recomeçará no fim do mês. A repórter Karin Sato revelou que uma equipe de economistas do Banco Credit Suisse estimou que a pancada da devolução do dinheiro tungado está longe dos R$ 150 bilhões. Ficaria entre R$ 8 bilhões e R$ 26,5 bilhões.

Há um aspecto relevante nessa iniciativa. Ela não se destinou a decifrar arcanas questões do direito, nem a defender o andar de baixo, mas a orientar grandes investidores internacionais. Se houvesse um risco de R$ 150 bilhões, os grandes bancos brasileiros estariam vulneráveis e seria arriscado comprar suas ações. É o contrário. O Credit Suisse informa que "a preocupação com o resultado do julgamento do Supremo Tribunal é exagerada e, a nosso ver, cria uma oportunidade de compra (de suas ações)".

Beleza de situação: banca cria o pânico e, se o Supremo vota com ela, tudo bem. Se acontece o contrário, meia dúzia de maganos do mercado financeiro que conhecem os números alegram-se com a queda do valor da ações, compram-nas e ganham um dinheirinho fácil.

MANTEGA

Pode-se atribuir a Lula tudo o que a doutora Dilma faz ou deixa de fazer, mas não se deve botar na conta de Nosso Guia a manutenção de Guido Mantega no Ministério da Fazenda.

Ele não defende sua permanência nem sua saída. Simplesmente já mostrou à doutora que deveria fazer o que achasse melhor.

PALPITE

É possível, apenas possível, que a Comissão Nacional da Verdade leve em conta um sinal de fumaça visto no céu por alguns de seus membros.

Os comandantes militares produziriam um documento reconhecendo a prática de crimes durante a ditadura. A iniciativa é despicienda, visto que os crimes estão perfeitamente documentados, mas teria a virtude de tirar dos ombros da cúpula militar do século 21 uma cumplicidade continuada com delitos ordenados, estimulados e louvados pelos hierarcas do século 20. Ao calar sobre a tortura e os assassinatos, os atuais comandantes comportam-se como se o presidente do Banco Central não tratasse da hiperinflação na história da instituição.

Além desse reconhecimento, seriam abertos ao público novos documentos. A ver.

Em troca, seria deixado de lado o tema da mudança na Lei da Anistia de 1979, que protegeu torturadores e assassinos. Só estão vivos oficiais que, à época, eram, no máximo, majores. Os generais que puseram a roda em movimento nada têm a temer, pois morreram.

Ademais, para que a Lei da Anistia seja mudada, seriam necessários o apoio do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, coisa difícil de acontecer.

LEWANDOWSKI PISCOU

A História é uma trapaceira. Às vezes passa na porta da biografia de uma pessoa e ela não percebe. Na quarta-feira, o ministro Ricardo Lewandowski presidia a sessão do Supremo Tribunal Federal quando a multidão convocada pelo MST colocou-se diante do prédio. Temendo uma invasão, suspendeu a sessão e foi para seu gabinete. Nenhum manifestante entrou no tribunal.

A biografia do ministro seria outra se tivesse outra atitude e dissesse: "Ninguém neste país interrompe uma sessão do Supremo Tribunal. Prossigamos". A doutora Dilma, alertada, transferiu sua agenda do Planalto para o Alvorada.

Faz tempo, Juscelino Kubitschek dizia que a capital devia ir para o cerrado goiano porque um quebra-quebra de bondes no Rio era suficiente para sitiar o governo. Com exemplos como os de Lewandowski e da doutora, um dia a capital vai para Roraima.

AVANÇOS SOCIAIS

Durante o governo de Lula o ministro Fernando Haddad anunciou a criação do Enem, que ofereceria à garotada dois exames por ano. A novidade diluiria a tensão que obriga milhões de jovens a jogar um ano de suas vidas num só exame. Em 2012 uma portaria do MEC oficializou a melhoria e, em 2013, a doutora Dilma reiterou o compromisso. Cadê? Ao assumir o Ministério da Educação, o doutor José Henrique Paim informou que a realização do segundo exame está fora de questão. Sobrou a lorota.

Haddad, por sua vez, está na Prefeitura de São Paulo, onde sua administração cortou a cota de lápis dos alunos das escolas públicas de seis para quatro.

Gestão de avanços sociais é isso aí.

PAIM NADA TEVE A VER COM O SURTO HISTÉRICO

Estava errada a informação segundo a qual o senador Paulo Paim (PT-RS) é o autor do projeto que tipifica os crimes de terrorismo com uma definição ambígua e penas mínimas superiores àquelas impostas pela Lei de Segurança Nacional da ditadura. Há dois projetos em andamento no Senado. Um é do senador Pedro Taques (PDT) e outro de Romero Jucá (PMDB).

Paim nada tem a ver com eles. Pelo contrário, uma iniciativa sua retarda a votação dos projetos. O senador Jorge Viana (PT-AC) propôs que eles fossem discutidos logo e pediu "um entendimento de líderes" para pôr "em apreciação já, no plenário, essa matéria".

Felizmente isso ainda não aconteceu e o presidente do PT, Rui Falcão, dissociou o partido da iniciativa, contrariando a doutrina dos autores da Lei de Segurança da ditadura.

Enquanto o Senado teve um surto de histeria, veio do secretário de Segurança do Rio uma proposta que racionaliza o debate. Em vez de criar fantasmas, é um texto básico que trata de coisas elementares. Proíbe mascarados, muda alguns dispositivos do Código Penal e repete leis já existentes. Fica faltando na proposta de Beltrame algo que responsabilize sua polícia por agressões a manifestantes. Por exemplo: jogar gás de pimenta nos outros como se os seus PMs fossem propagandistas de perfume. Nunca será demais lembrar que o governador Sérgio Cabral não mexeu nas tarifas dos transportes sob sua jurisdição.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Duplicidades, ou gatos por lebres... - ROBERTO DAMATTA

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Duplicidades, ou gatos por lebres... - ROBERTO DAMATTA

O Estado de S.Paulo - 12/02

Tive irmãos gêmeos idênticos e ouvi à exaustão que seus destinos eram parecidos. E o pior é que isso acontecia porque eles foram criados como uma só pessoa. Para nós, os adultos salientavam a diferença, mas os gêmeos estavam subordinados à lógica que os tomava como um paradoxo, pois, na hierarquia da casa, os dois ocupavam um só lugar.

Eles chamavam atenção pela semelhança e usavam isso para algumas malandragens, que só os que gozam da duplicidade recebida ou planejada podem realizar. Cansaram de enganar professores e namoradas, deleitando-se quando a vitima exigia saber quem era quem.

Era deles o uso de dois pesos e medidas tão trivializado neste nosso Brasil de mensalões, hiperpublicidade e ética dupla. Quando se diz uma coisa, mas se faz outra. Vivemos também na época do gato por lebre. Do bandido condenado que passa por herói e julga o tribunal. Temos hoje uma clara duplicidade entre um público interno e um outro, externo; exatamente como ocorria na ditadura militar.

*

Voltemos aos gêmeos. Um dia, um deles brigou com um garoto no colégio e prometeu "pegá-lo na rua". A ameaça de apanhar depois da aula, no espaço anônimo da rua, era aterrorizante. E foi com os olhos esbugalhados de medo que o menino apanhou de um dos gêmeos somente para dois quarteirões adiante, encontrar o mesmo menino que o havia surrado o esperando para repetir a dose! Era o irmão duplicando o outro. Recriando no plano da "inocência infantil" - desmascarada por Freud - uma fabulosa ubiquidade. Essa ubiquidade a que a propaganda governamental nos sujeita e surra diariamente.

*

A duplicidade faz parte da nossa estrutura dotada de um lado consciente e capaz de entender as consequências do que fazemos; e de um lado inconsciente que tem outros projetos e desejos.

Todo desvio inventa uma máscara. Todos os super-heróis americanos sofrem da síndrome da dupla personalidade. No Brasil, o Batman e o Super-homem seriam processados por falsidade ideológica. No Brasil, onde não existem super-heróis, mas abundam as celebridades, todos pagamos um alto preço por usar uma única máscara, pois existem muitas a serem usadas.

As ditaduras e os fundamentalismos induzem a duplicidade. Para o crente, haverá sempre uma verdade oculta ou essencial que o outro não vê.

*

Um pai não pode ser amante de um filho ou de uma filha. A menos que crie um duplo. Raposas não podem vigiar o galinheiro e é justamente essa confusão que jaz na base do incesto, da pedofilia e, nas democracias liberais, da corrupção oficial, realizada por governantes eleitos, logo escolhidos. Numa brilhante entrevista à revista Playboy, Salvador Dalí fala de um irmão que morreu e como ele se confundia com o falecido e a ele atribuía seus erros.

As utopias fundamentalistas (que não podem ser confundidas com ideais de vida difíceis de implementar, mas sujeitos a crítica) facilitam a confusão entre meios e fins. "Essa será a guerra que vai acabar com todas as guerra!", dizem. O duplo aparece sempre relacionado a uma luta final que vai consertar o mundo ou arrumar uma vida. Não é fácil viver com frustrações e admitir que o mundo jamais vai ser perfeito, pois, se assim ficar, a humanidade seria dispensável. Lutar pela igualdade é um dever, mas ela não justifica a violência nem a desonestidade rasteira e planificada.

*

A duplicidade serve tanto às utopias quanto para racionalizar o crime planificado e o golpe político, como infelizmente é comum e decepcionante no Brasil.

Temos, agora, o descaramento do sr. Pizzolato (anos se preparando para o golpe claramente planejado e a fuga realizada por meio de um irmão morto!); de quebra, tivemos o caso patológico do José Dirceu. Em seguida, descobrimos a farsa do desaparecimento de Rubens Paiva, montada pela ditadura militar. A duplicidade recorre onde não existe uma ética de sinceridade.

Há uma óbvia relação entre a duplicidade e os projetos políticos autoritários, avessos a oposição. A duplicidade inventa o que Merval Pereira bem identificou como a dupla personalidade de alguns meliantes da política.

Mas resta discutir, como fiz no meu trabalho, a segmentação esquizoide entre a casa e a rua a bloquear a sinceridade e a transparência no Brasil. A democracia é incompatível com as duplicidades patológicas da vida pública.

*

O duplo diabólico (o que é, afinal, o Diabo senão um duplo negativo de Deus?) é recorrente na reflexão ocidental. Ele foi elaborado na Inglaterra moderna por Robert Louis Stevenson, em 1886, no livro O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde e por Oscar Wilde, em 1890, no romance O Retrato de Dorian Gray. No Brasil, em 1899, Machado de Assis escreveu Esboço de Uma Nova Teoria da Alma Humana, um conto que fala de almas duplas, mas foi Freud que, ao elaborar uma teoria do inconsciente como o grande oceano a ligar tudo com tudo, colocou em xeque o voluntarismo e a crença individualista do controle consciente.

Não vou falar em Cervantes ou em Fernando Pessoa. Ambos demandariam muito espaço. Basta lembrar que Pessoa inventou três poetas os quais, além de si mesmo, tiveram uma obra e uma vida ao lado da sua!

Numa sociedade em que os amigos têm tudo e os inimigos ficam com a lei, penso que é muito complicado aceitar um mínimo de coerência entre esses duplos que surgem ferozes e impacientes a cada dia e em cada ciclo que tentamos desvendar.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

VÍDEO GENIAL, para quem gosta de história. Documentário mostra como seria, do espaço, a II Guerra Mundial

08/02/2014
 às 16:00 \ Vasto Mundo

VÍDEO GENIAL, para quem gosta de história. Documentário mostra como seria, do espaço, a II Guerra Mundial

Amigas e amigos do blog, este vídeo é para quem gosta de História e quer ter uma visão global do acontecimento mais importante do século XX — para alguns, o mais de todos os tempos: a II Guerra Mundial (1939-1945).
O History Channel bolou uma forma que permite “ver” a evolução dos acontecimentos como se a pessoa estivesse no espaço, contemplando a Terra lá de cima.
É desses vídeos que são obrigatórios quando nosso tempo permite — já que tem mais de uma hora de duração.
Não resisti, mesmo apesar da longa duração, em compartilhar com vocês essa maravilha.
Lá vai:

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ferreira Gullar declama "Poema Sujo"


Feliz aniversário, Facebook! - CORA RÓNAI

Feliz aniversário, Facebook! - CORA RÓNAI

O GLOBO - 06/02

O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros

Meus netos são lindos. Não digo isso por corujice sem critério; digo por fato bem comprovado. Todas as minhas amigas de Facebook concordam que Fábio e Nina são as criancinhas mais fofas do mundo (logo depois dos seus próprios netos, mas isso é só um detalhe).

Minhas amigas são avós militantes que fazem programas com os netos e que viajam para os lugares mais improváveis do mundo para acompanhar o seu nascimento e conferir como estão crescendo. Por causa disso, minha timeline começa a ter mais fotos de criancinhas do que de gatos, o que confirma algo de que eu já desconfiava há tempos:

— O Facebook é o canal das vovós — escreveu a Andrea, que ainda outro dia foi dar as boas-vindas à Mila em Nova York. — Antes do FB, como é que elas trocavam notícias de suas belezuras?

Não trocavam, ou trocavam de forma muito mais restrita e ocasional: uma gracinha compartilhada durante um telefonema ou um almoço, uma ou outra foto exibida numa festa. Se não fosse pelo Facebook, eu jamais saberia que um dos bebês mais gostosinhos do mundo é o Logan, netinho da Ana Pinta que mora em Londres.

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Segundo estatísticas amplamente divulgadas, 16% dos adolescentes deixaram de frequentar o Facebook no ano passado. É compreensível. Uma rede que faz o encanto das avós não é o lugar onde a garotada quer passar os seus momentos de lazer — e não faltou quem, por conta disso, decretasse o fim da rede social para daqui a dois ou três anos. Essa espécie de profecia maia pós-apocalíptica me pareceu um pouco exagerada, até porque os adolescentes podem ser o público alvo preferencial de 11 entre dez empresas, mas estão longe de ser a única faixa etária do mundo. Sem falar que o FB continua crescendo, ainda que não à velocidade vertiginosa dos últimos anos.

A ideia por trás dessas previsões sombrias é que o Facebook — que fez dez anos anteontem — estaria perto de cumprir o ciclo que rege os movimentos sociais. Tendo passado pelo nascimento, pela consolidação e pela inclusão no sistema, estaria chegando à dissolução, que é quando as pessoas se cansam da brincadeira. Isso já aconteceu com diversas redes sociais, do Second Life ao My Space, passando pelo Multiply e pelo Fotolog; não duvido de que, um dia, venha a acontecer também com o Facebook. Mas daqui até lá muita informação ainda vai correr por baixo da ponte.

Ainda que tenha sido abandonado por um percentual significativo de adolescentes, ele tem um público praticamente cativo nos adultos que aprenderam a usá-lo e sentem-se confortáveis com ele. Nenhuma rede social teve, até hoje, o alcance do Facebook, que tem mais de 1,2 bilhões de usuários, ou seja, cerca de metade do total de pessoas com acesso à internet. E olha que ele é proibido na China! Quando, na manhã de ontem, li a mensagem de aniversário postada por Mark Zuckerberg, ela já tinha sido curtida por 1.542.872 pessoas, e compartilhada 102.405 vezes.

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O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros, de preferência em rodinhas. Ora, desde que deixamos de viver em aldeias onde todos se viam constantemente, ainda não foi inventada forma mais simples de fazer isso do que usando o Facebook, onde tanto cabe um grave manifesto contra a violência quanto uma piada boba — exatamente como acontecia com a praça, no tempo em que as cidades eram calmas, as ruas, seguras, e a vizinhança toda se encontrava durante o footing.

Na praça virtual do Facebook podemos ter notícias dos que estão viajando, dos que moram longe e dos que vivem perto (mas mal têm tempo para respirar, que dirá tomar um chope na esquina). Podemos reencontrar amigos de infância dos quais nunca mais tínhamos ouvido falar, assim como podemos descobrir, em vagos conhecidos do dia a dia, afinidades de pensamento surpreendentes.

As teias que tecemos se ampliam e se consolidam também através dos amigos dos amigos, e nos dão um sentimento que é a base de qualquer comunidade humana: o do pertencimento. Não só encontramos a nossa tribo, como a informamos aos que nos cercam através de curtidas, comentários e compartilhamentos de postagens. Em suma: para além das relações que mantemos uns com os outros, há a percepção dessas relações num contexto mais amplo. Unir — e expor — tecidos sociais tão intrincados de forma tão simples talvez seja o grande segredo do sucesso do Facebook.

Antes de começar a escrever este último parágrafo, fui até o Orkut para ver se ainda acontece alguma coisa por lá (sim, surpreendentemente, acontece); encontrei uma foto antiga em que estou com o meu filho de um ano no colo, e a levei para o Facebook. No minuto seguinte, o bebê da foto, que vai fazer 42 anos na semana que vem e que mora longe do Brasil, fez um comentário:

— Hoje nem os meus bebês são tão novinhos. E você, gatíssima na foto, mamãe.

Quase nada, um alô, um fiapinho de conversa na madrugada; mas foi um carinho, um aceno que nos fizemos, mãe e filho, marcando presença na vida um do outro. Há dez anos, isso não teria acontecido.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Professor não tem direito de "fazer a cabeça" de aluno

Professor não tem direito de "fazer a cabeça" de aluno

Por Miguel Nagib *
É lícito ao professor, a pretexto de “despertar a consciência crítica dos alunos” – ou de “formar cidadãos”, “construir uma sociedade mais justa”, “salvar o planeta”, etc. –, usar a situação de aprendizado, a audiência cativa dos alunos e o recinto fechado da sala de aula para tentar obter a adesão dos estudantes a uma determinada corrente ou agenda política ou ideológica?
Com outras palavras: é lícito ao professor tentar “fazer a cabeça” dos alunos?
A resposta a essa pergunta está no art. 206 da Constituição Federal, que diz o seguinte:
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
Como se vê, ao lado da liberdade de ensinar dos professores – a chamada liberdade de cátedra –, a Constituição Federal também garante a liberdade de aprender dos estudantes.
Seja qual for, na sua máxima extensão, o conteúdo jurídico dessa liberdade de aprender, uma coisa é certa: ele compreende o direito do estudante a que o seu conhecimento da realidade não seja manipulado pela ação dolosa ou culposa dos seus professores. Ou seja: ele compreende o direito do aluno de não ser doutrinado por seus professores.
Esse direito nada mais é do que a projeção específica, no campo da educação, da principal liberdade assegurada pela Constituição: a liberdade de consciência.
A liberdade de consciência é absoluta. Os indivíduos são 100% livres para ter suas convicções e opiniões a respeito do que quer que seja. Ninguém pode obrigar uma pessoa, direta ou indiretamente, a acreditar ou não acreditar em alguma coisa. O Estado pode obrigá-la a fazer ou não fazer alguma coisa, mas não pode pretender invadir a consciência do indivíduo para forçá-lo ou induzi-lo a ter essa ou aquela opinião sobre determinado assunto. Isto só acontece em países totalitários como Cuba e Coreia do Norte.
Como o ensino obrigatório não anula e não restringe a liberdade de consciência do indivíduo – do contrário, ele seria inconstitucional –, o fato de o estudante ser obrigado a assistir às aulas de um professor impede terminantemente que este se utilize de sua disciplina, intencionalmente ou não, como instrumento de cooptação política ou ideológica.
Portanto, com base no art. 206 da CF, pode-se definir juridicamente a prática da doutrinação política e ideológica em sala de aula como sendo o abuso da liberdade de ensinar do professor em prejuízo da liberdade de aprender do estudante.
Esse abuso da liberdade de ensinar também compromete gravemente a liberdade política dos alunos, já que o fim último da doutrinação é induzir o estudante a fazer determinadas escolhas políticas e ideológicas. E como se alcança esse resultado? Mediante a desqualificação sistemática de todas as correntes políticas e ideológicas menos uma: aquela que desfruta da simpatia do professor.
Dessa forma, os estudantes são induzidos a fazer determinadas escolhas; escolhas que beneficiam, direta ou indiretamente, os movimentos, as organizações, os partidos e os candidatos que desfrutam da simpatia do professor ou que contam com a sua militância.
Sendo assim, não há dúvida de que esses estudantes estão sendo manipulados e explorados politicamente por seus professores, o que ofende o art. 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), segundo o qual “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de exploração”.
É certo que o professor doutrinador não se vale da violência para constranger os alunos. Mas, ao estigmatizar determinadas perspectivas políticas e ideológicas, a doutrinação cria as condições para um tipo de constrangimento muito menos sutil: o bullying político e ideológico que é praticado pelos próprios estudantes contra seus colegas. Em certos ambientes, um aluno que assuma publicamente uma militância ou postura que não seja a da corrente dominante corre sério risco de ser isolado, hostilizado e até agredido fisicamente pelos colegas. E isto se deve, principalmente, ao ambiente de sectarismo criado pela doutrinação.
Professor doutrinador é aquele que usa suas aulas para tentar transformar seus alunos em réplicas ideológicas de si mesmo. Assim agindo, porém, o professor infringe o art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante aos estudantes “o direito de ser respeitado por seus educadores”. Com efeito, um professor que deseja transformar seus alunos em réplicas ideológicas de si mesmo evidentemente não os está respeitando.
Por fim, a prática da doutrinação ideológica configura uma afronta ao próprio regime democrático, já que ela instrumentaliza o sistema público de ensino e os estudantes com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de um dos competidores.
Em suma, o professor que usa suas aulas para “fazer a cabeça” dos alunos, por mais justas e elevadas que lhe pareçam as suas intenções, está desrespeitando, ao mesmo tempo, a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Cabe às autoridades educacionais e aos responsáveis pelas escolas – públicas e privadas – adotar medidas eficazes para coibir essa práticacovarde, antiética e ilegal (covarde, porque se prevalece da situação de inferioridade do aluno e do fato de ser obrigatória a sua presença em sala de aula; antiética, porque exercida por meio da autoridade conferida pela cátedra; e ilegal, como acabamos de demonstrar). E cabe ao Ministério Público – a quem a Constituição Federal atribui “a defesa da ordem jurídica e do regime democrático” e a legislação ordinária, a defesa dos interesses das crianças e dos adolescentes e dos consumidores – exigir que essas medidas sejam adotadas.
E que medidas são essas?
Muito pode ser feito, sem dúvida. Mas o mais importante e urgente é informar os alunos sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores.
Trata-se, aqui, mais uma vez, de um direito assegurado pela Constituição Federal: o direito – que decorre do princípio constitucional da cidadania (CF, art. 1º, II) – de ser informado sobre os próprios direitos.
Conferindo efetividade a esse princípio, o Código de Defesa do Consumidor – que é aplicável no caso da relação professor-aluno, uma vez que o professor é preposto do fornecedor dos serviços prestados ao aluno – enumera entre os princípios da Política Nacional das Relações de Consumo a “educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e deveres” (art. 4º, inciso IV).
Além disso, o art. 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) estabelece que uma das finalidades da educação é preparar o educando “para o exercício da cidadania”.
Assim, tanto por força da Constituição, como por força do Código de Defesa do Consumidor e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, as escolas públicas e privadas têm o dever jurídico de educar e informar os estudantes sobre o direito que eles têm de não ser doutrinados por seus professores.
Como cumprir esse dever? É simples: basta afixar em locais onde possam ser lidos por estudantes e professores (preferentemente nas salas de aula, mas também nas salas dos professores) cartazes com os seguintes preceitos:
1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.
2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.
3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.
4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.
5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.
Negar aos alunos o conhecimento desses deveres do professor é o mesmo que sonegar-lhes as condições mínimas necessárias ao exercício da cidadania dentro da própria escola!
Portanto, é necessário e urgente educar e informar os estudantes sobre os direitos compreendidos na sua liberdade de aprender, a fim de que eles mesmos possam exercer a defesa desses direitos, já que, dentro da sala de aula, ninguém mais poderá fazer isso por eles

A falsidade da vida universitária ESCRITO POR KEN BANSHO NETO | 24 SETEMBRO 2013 ARTIGOS - EDUCAÇÃO

Como pode um sujeito que ESCOLHEU, ou seja, teve a ação deliberada de assumir o cargo de professor, a posição daquele que ensina, se ele só sabe raciocinar ideologicamente e sempre estudou medianamente a luz e semelhança de seus companheiros?

Todo jovem brasileiro imerso no senso comum tem o sonho de ingressar na universidade. Muitos deles abandonam suas famílias no interior para virem aos grandes centros com o intuito de elevar suas possibilidades de serem absorvidos pela universidade tão almejada mediante aprovação nos ditos “vestibulares”. O pobre sujeito projeta o seu futuro com afinco, bota a cabeça no travesseiro e vai dormir com algumas toneladas de responsabilidade nas costas. Quando ele transcende a fase robótica dos cursinhos pré-vestibular, pensa-o inocentemente que finalmente irá estudar aquilo que ama e que, caso ele se dedique, encontrará um ambiente totalmente receptivo às suas aspirações. Eis a mais ilusória mentalidade presente no imaginário dos estudantes sérios.
O indivíduo que entrar na universidade brasileira de hoje, pelo menos nos cursos de Ciências Humanas, vai se deparar com circunstâncias que colocarão em xeque suas expectativas. Ele irá notar de cara o curioso desinteresse dos colegas pelas matérias que eles dizem gostar e a sensação de estranhamento que leva a duvidar sobre a bagagem intelectual do corpo docente. “Como ousa atacar os professores-doutores das universidades e os jovens que tanto se esforçaram para estarem lá?”, indaga o apressadinho. O leitor que acha que este que vos escreve é apenas um palpiteiro deveria lidar com os fatos concretos: como pode um universitário (lê-se: leitor de xérox), mesmo sem a recomendação e exigência dos professores, não ler pelo menos uns 20 ou 30 livros ao ano? Como pode um sujeito que ESCOLHEU, ou seja, teve a ação deliberada de assumir o cargo de professor, a posição daquele que ensina, se ele só sabe raciocinar ideologicamente e sempre estudou medianamente a luz e semelhança de seus companheiros? Se o professor não domina direito nem o conteúdo, quem dirá o “status quaestionis” dos assuntos tratados em aula.                                      
Para elucidar e reviver a memória do leitor, dê graças a Deus aquele que nunca teve um professor que: a) postulasse o capitalismo e os princípios gerais do livre mercado como gênese de todos os males; b) chamasse a Idade Média de “Idade das Trevas” como meio para atacar a Igreja Católica; c) fosse reducionista no estilo “Aristóteles defendia a escravidão, logo toda sua teoria não deve ser estudada” ou (essa é clássica para os alunos de direito!) “Miguel Reale fez parte do integralismo, portanto ele era um fascista, antissemita, antidemocrático e não produziu nada de bom”; d) ao explanar as noções gerais de um novo assunto aos alunos, se recomendasse algum livro de “introdução crítica” que atacasse aquilo que os alunos ainda não conhecem.
Se você, caro universitário, já se viu em muitas dessas situações e estranhou tudo isso, sinto-lhe dizer: bem-vindo ao clube. Esse clube não está lotado, na realidade, está em escassez de pessoas. Nessa ala integram aqueles que sempre estiveram com a alma disposta ao conhecimento e que pagaram com o mais puro interesse para receber de troco o descaso. É um grupo de esquecidos? Provavelmente. Mas nunca esqueça de que no anonimato eles seguem estudando, suportando tudo sem dar um pio. No futuro, que tarde mais chega, veremos quem será alma viva e quem habitará as portas fechadas do esquecimento.


Publicado no caderno universitário do jornal Gazeta do Povo.

Ken Bansho Neto
, 18, é estudante universitário de Direito e aluno do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho.

Escola ideal para alunos não ideais Autor(es): Cláudio de Moura Castro

Escola ideal para alunos não ideais

Autor(es): Cláudio de Moura Castro
Veja - 03/02/2014
 

Na segunda metade do século XIX, dom Pedro II transformou a primeira escola pública secundária do Brasil em um modelo inspirado no colégio Louis Le Grand, reputado como o melhor da França. Mantiveram-se na sua réplica brasileira as exigências acadêmicas do modelo original. O próprio dom Pedro selecionava os professores, costumava assistir a aulas e arguir os alunos. Sendo assim, o colégio que, mais adiante, ganhou o seu nome constituiu-se em um primoroso modelo para a educação das elites brasileiras. Dele descendem algumas excelentes escolas privadas.
Mais tarde do que seria desejável, o ensino brasileiro se expande, sobretudo no último meio século. Como é inevitável, passa a receber alunos de origem mais modesta e sem o ambiente educacional familiar que facilita o bom desempenho. Sendo mais tosca a matéria-prima que chega, em qualquer lugar do mundo não se podem esperar resultados equivalentes com o mesmo modelo elitista.
Os países de Primeiro Mundo perceberam isso e criaram alternativas, sobretudo no ensino médio. A melhor escola é aquela que toma alunos reais — e não imaginários — e faz com que atinjam o máximo do seu potencial. Se os alunos chegam a determinado nível escolar com pouco preparo, o pior cenário é tentar ensinar o que não conseguirão aprender. O conhecimento empaca e a frustração dispara.
Voltemos a 1917, às conferências de Whitehead em Harvard. Para ele, o que quer que seja ensinado, que o seja em profundidade. Segue daí que é preciso ensinar bem o que esteja ao alcance dos alunos, e não inundá-los com uma enxurrada de informações e conhecimentos. Ouvir claudio de moura falar de teorias não serve para nada. O que se castro é economista aprende na escola tem de ser útil na vida real.
Se mesmo os melhores alunos das nossas melhores escolas são entulhados com mais do que conseguem digerir, e os demais, os alunos médios? Como suas escolas mimetizam as escolas de elite, a situação é grotesca. Ensina-se demais e eles aprendem de menos. Pelos números da Prova Brasil, pouco mais de 10% dos jovens que terminam o nível médio têm o conhecimento esperado em matemática! A escola está descalibrada do aluno real.
Aquela velha escola de elite deve permanecer, pois há quem possa se beneficiar dela. Mas, como fizeram os países educacionalmente maduros, respondendo a uma época de matrícula quase universal, é preciso criar escolas voltadas para o leque variado de alunos.
Nessa nova escola, os currículos e ementas precisam ser ajustados aos alunos, pois o contrário é uma quimera nociva. Na prática, devem-se podar conteúdos, sem dó nem piedade. É preciso mostrar para que serve o que está sendo aprendido. Ainda mais importante, é preciso aplicar o que foi aprendido, pois só aprendemos quando aplicamos. A escola deve confrontar seus alunos com problemas intrigantes e inspiradores. E deve apoiá-los e desafiá-los para que os enfrentem. No entanto, sem encolher a quantidade de matérias, não há tempo para mergulhar em profundidade no que quer que seja.
Atenção! Não se trata de uma escola aguada em que se exige menos e todos se esforçam menos. Sabemos que bons resultados estão associados a escolas que esperam muito de seus alunos, que acreditam neles. A diferença é que se vai exigir o que tem sentido na vida do estudante e está dentro do que realisticamente ele pode dominar. Precisamos redesenhar uma escola voltada para os nossos alunos, e não para miragens e sonhos. Quem fará essa escola? Claramente, o MEC precisa promover os ajustes dos currículos e ementas. Mas quem esculpirá essa nova instituição? As melhores escolas privadas recebem alunos peneirados e não precisam de muitas mudanças. A quase todos os estados faltam densidade técnica e apetência. Uma possibilidade são o Sesi e o Sesc, que operam um conjunto de instituições semipúblicas, têm amplos recursos e flexibilidade para tomar novos rumos. Quem sabe, querem ir para a história, embarcando nessa aventura?
Não é só isso. Cura mesmo, só enfrentando as fraquezas das faculdades de educação. Mas só a desobrigação de ensinar um currículo impossível já é uma bela ajuda para os mestres.

A epidemia secreta

A epidemia secreta

Veja - 03/02/2014
 

O governo de Brasília escondeu os casos de dengue durante a Copa das Confederações. Pior: a contaminação pode ser ainda maior em plena Copa do Mundo
Em junho do ano passado, as atenções do planeta estavam voltadas para Brasília. Palco da abertura da Copa das Confederações, a capital federal recebeu autoridades e milhares de torcedores dos mais variados países. O evento serviria de ensaio para a Copa do Mundo deste ano — um teste no qual a cidade acabou aprovada, mas sem muitos méritos. Marcada por confrontos entre polícia e manifestantes, a festa, sabe-se a gora, aconteceu em meio a uma epidemia de dengue. O problema é que ninguém dentro ou fora do Estádio Mané Garrincha sequer desconfiava dos riscos de contaminação porque o governo do Distrito Federal simplesmente decidiu esconder os relatórios técnicos que alertavam sobre o avanço da doença. Uma decisão que teve dois objetivos: evitar um monumental constrangimento aos organizadores e omitir a negligência dos administradores públicos. O vexame, porém, pode ter sido apenas adiado. Sem ações concretas de prevenção, é muito grande o risco de a dengue ressurgir com força às vésperas da Copa do Mundo.
O desaparecimento dos relatórios foi descoberto pelo Ministério Público do Distrito Federal em abril, quando os casos de dengue atingiam o pico (veja o quadro na pág. ao lado) e já representavam um aumento de 500% em relação aos números registrados no mesmo período do ano anterior. Investigando o episódio, a promotoria de Defesa da Saúde soube, através de funcionários do próprio governo do Distrito Federal, que houve uma ordem informal para embargar a divulgação das ocorrências de dengue notificadas. Os mapas epidemiológicos produzidos pelos técnicos, antes disponibilizados na internet, passaram a receber um carimbo de "circulação restrita" e sumiram da rede a partir de janeiro, mês em que os casos da doença começam a aumentar por causa das chuvas. "Essa omissão foi criminosa. A Secretaria de Saúde escondeu esses dados para não comprometer a imagem do governo, justamente às vésperas da Copa das Confederações", acusa o promotor Jairo Bisol.
A dengue é transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, que se reproduz em focos de água parada. A moléstia provoca febre alta, dores no corpo, dor de cabeça e pode até matar. A forma mais eficiente de combater a proliferação do mosquito é conscientizar a população a eliminar os pontos de reprodução do vetor. Um trabalho de campo que só pode ser feito adequadamente por meio da divulgação e do estudo dos dados sobre o avanço da doença. Em 2013, o Distrito Federal registrou 11594 ocorrências de dengue — oito vezes mais em relação aos 1437 casos verificados em 2012. O número de infectados por grupo de 100 000 habitantes atingiu níveis que caracterizam uma epidemia, segundo o Ministério Público. Para evitar que o problema voltasse a se repetir em plena Copa do Mundo, o governo precisaria ter investido em ações de prevenção. Mas nada foi feito — ou melhor, quase nada. No fim do ano passado, o governador Agnelo Queiroz anunciou a liberação de cerca de 40 milhões de reais para a realização de campanhas publicitárias para orientar a população sobre as maneiras de combater a doença.
Segundo o Ministério Público, nos últimos dois anos o governo investiu apenas 8 milhões de reais em ações de publicidade contra a dengue. Já os recursos aplicados no combate direto à moléstia foram praticamente irrisórios. "E aí o governo chega agora e diz que vai gastar 40 milhões apenas em publicidade? Não deixa de ser estranho esse descompasso justamente num ano eleitoral", critica o promotor, que vai entrar nesta semana com uma ação de improbidade contra os responsáveis pelo repasse de verbas. A Promotoria da Saúde também conseguiu fazer com que o governo voltasse a publicar os relatórios epidemiológicos sobre as ocorrências de dengue. E os mapas atualizados mostram um cenário não muito diferente do que se viu em 2013. O monitoramento fechado na semana passada revela que os casos da doença em Brasília já quadruplicaram em relação à primeira semana do ano. Indagada sobre as acusações de manipulação, a subsecretária de Vigilância em Saúde, Marília Coelho, negou qualquer irregularidade ou mesmo negligência, mas não soube explicar por que ainda hoje os dados da epidemia do ano passado continuam inacessíveis na página do governo.

A conta um dia chega

A conta um dia chega

Veja - 03/02/2014
 

O custo da energia no mercado de curto prazo bate recorde histórico, resultado da perigosa combinação de obras atrasadas, pouca chuva e planejamento falho
Seca em período de chuvas, verão excepcionalmente quente. O Sistema Cantareira, principal reservatório de água da Grande São Paulo, por exemplo, está com apenas 22% da sua capacidade preenchida, o seu mais baixo nível em quase quarenta anos. É o terceiro verão seguido de chuvas abaixo da média histórica. São Paulo e outra dezena de capitais brasileiras poderão lidar com racionamento de água, caso as chuvas não se intensifiquem nas próximas semanas. O abastecimento de energia elétrica também opera no limite. Em um período no qual as usinas termelétricas movidas a gás e a óleo deveriam estar desligadas, elas operam a todo o vapor. Como reflexo inevitável da falta de chuvas, do aumento no consumo e da utilização intensa das fontes emergenciais — e mais caras — de energia, o custo da eletricidade disparou. Ainda não na tarifa cobrada dos consumidores, mas no chamado mercado livre, no qual são negociados o fornecimento de curto prazo para as empresas que ainda não contrataram a totalidade do fornecimento de que necessitam. O preço atingiu a marca de 822,83 reais o megawatt-hora.
Trata-se de um aumento vertiginoso quando contraposto ao valor de 249.92 reais registrado na virada do ano. O preço é calculado por meio de um modelo matemático que reúne variáveis como as expectativas de chuva, a vazão dos rios, a carga e o custo de operação do sistema, entre outros fatores. O resultado dessa conta determina o preço de todo o estoque de energia contido no sistema naquele momento. Quando o preço sobe, as indústrias e os demais integrantes do mercado livre (que correspondem a 27% da demanda nacional e concentram os maiores consumidores) têm as suas tarifas reajustadas. Já os consumidores comerciais e residenciais contam com apenas um reajuste anual, e muitas vezes são beneficiados com descontos. Um exemplo disso foi a decisão da presidente Dilma Rousseff de promover no ano passado uma queda média de 20%. Vivemos a paradoxal situação de ver o preço da energia elétrica subindo mas as contas de luz permanecendo mais baratas. O prejuízo fica com as empresas distribuidoras, que compram a energia que será repassada para o destinatário final. Como forma de atenuar o problema, o governo oferece às companhias — com recursos do Tesouro, ou seja, do contribuinte brasileiro — empréstimos temporários para aliviar o baque no fluxo de caixa. A dinheirama para esse fim chegou a 13 bilhões de reais no ano passado. "O preço final da energia aos consumidores residenciais e comerciais caiu não por causa de um aumento na oferta, como seria o correto, mas por uma decisão política", afirma Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, a maior gestora independente do país. "Os consumidores ganharam um incentivo para gastar mais, em um período de escassez."
Os brasileiros, obviamente, não podem ser responsabilizados por terem melhorado o seu padrão de consumo. Se faz calor, eles têm todo o direito de ligar os seus aparelhos de ar condicionado. É o governo que não cumpriu seu dever de assegurar os investimentos necessários. Sem a conclusão de obras de transmissão atrasadas e a inauguração de mais usinas, o cenário ficará complicado. Segundo especialistas, só não vivemos um novo racionamento agora graças às usinas termelétricas. O custo de mantê-las operando está estimado entre 1 bilhão e 1,5 bilhão de reais por mês. Será mais uma conta pesada a ser paga no futuro pelos brasileiros, seja sob a forma de um aumento nas tarifas, mantidas hoje artificialmente mais baixas, seja sob a forma de mais subvenções para o setor, bancadas pelos impostos. O total gasto com tamanhos subsídios poderia na verdade estar alimentando investimentos em novas fontes. O governo, porém, preferiu abaixar o preço daquilo que não tinha a oferecer em quantidade suficiente — e agora torce para não ter de lidar com um novo e constrangedor apagão.