segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TABACARIA - FERNANDO PESSOA




      TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

A onça e o bode, fábula brasileira, texto de Luís da Câmara Cascudo


3022012
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Ilustração M&V Editores
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A onça e o bode
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O Bode foi ao mato procurar lugar para fazer uma casa.  Achou um sítio bom.  Roçou-o e foi-se embora.  A Onça que tivera a mesma ideia, chegando ao mato e encontrando o lugar já limpo, ficou radiante.  Cortou as madeiras e deixou-as no ponto.  O Bode, deparando a madeira já pronta, aproveitou-se, erguendo a casinha.  A Onça voltou e tapou-a de taipa.  Foi buscar seus móveis e quando regressou encontrou o Bode instalado.  Verificando que o trabalho tinha sido de ambos, decidiram morar juntos.
Viviam desconfiados, um do outro.  Cada um teria sua semana para caçar.  Foi a Onça e trouxe um cabrito, enchendo o Bode de pavor.  Quando chegou a vez deste, viu uma onça abatida por uns caçadores e a carregou até a casa, deixando-a no terreiro.  A Onça vendo a companheira morta, ficou espantada:
– Amigo Bode, como foi que você matou essa onça?
– Ora, ora… Matando!… Respondeu o Bode cheio de empáfia.  Porém, insistindo sempre a Onça em perguntar-lhe como havia matado a companheira, disse o Bode:
– Eu enfiei este anel de contas no dedo, apontei-lhe o dedo e ela caiu morta.
A Onça ficou toda arrepiada, olhando o Bode pelo canto do olho.  Depois de algum tempo, disse o Bode:
– Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…
A Onça pulou para o meio da sala gritando:
– Amigo Bode, deixe de brinquedo…
Tornou o Bode a dizer que lhe apontava o dedo, pulando a Onça para o meio do terreiro.  Repetiu o Bode a ameaça e a onça desembandeirou pelo mato a dentro, numa carreira danada, enquanto ouviu a voz do Bode:
– Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…
Nunca mais a Onça voltou.  O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.
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Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967
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Este conto foi arrebanhado por Câmara Cascudo do volume de J da Silva Campos,Contos e fábulas populares da Bahia, em Folk-Lore no Brasil, Ed. Basílio de Magalhães, Rio de Janeiro, 1928.
Câmara Cascudo lembra que esta variante do conto, [popular no Brasil inteiro, com versões também de origem indígena], “tem reminescência africana, resquício religioso dos negros do Congo Zambese“, da região Bantu.

DOIS POEMINHAS DE ARIANO SUASSUNA



BREVE BIOGRAFIA

Nascimento - A Viagem
Com tema de Fernando Pessoa

Meu sangue, do pragal das Altas Beiras,
boiou no Mar vermelhas Caravelas:
À Nau Catarineta e à Barca Bela
late o Potro castanho de asas Negras.

E aportou. Rosas de ouro, azul Chaveira,
Onça malhada a violar Cadelas,
Depôs sextantes, Astrolábios, velas,
No planalto da Pedra sertaneja.

Hoje, jogral Cigano e tresmalhado,
Vaqueiro de seu couro cravejado.
Com Medalhas de prata, a faiscar,

bebendo o Sol de fogo e o Mundo oco,
meu coração é um Almirante louco
Que abandonou a profissão do Mar.


AQUI MORAVA UM REI

Aqui morava um Rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão
Pedra da sorte sobre o meu destino
Pulsava junto ao meu seu coração

Para mim, seu cantar era divino
Quando ao som da viola e do bordão
Cantava com voz rouca o desatino
O sangue o riso e as mortes do sertão

Mas mataram meu pai, desde esse dia
Eu me vi como um cego sem meu guia
Que se foi para o sol, transfigurado

Sua Efígie me queima, eu sou a presa
Ele a brasa que impele ao fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto Ensangüentado

GILBERTO FREYRE - 'NÉLSON RODRIGUES , ESCRITOR'



NÉLSON RODRIGUES, ESCRITOR

Dizem-me que um "colunista" - pobre palavra de origem tão nobre quanto, quase sempre, degradada - estranhou que, em artigo para uma revista do Rio, eu considerasse Nelson Rodrigues não só "um novo, Eça de Queirós" como, na prosa jornalística, "mais vigoroso do que Eça".
Nada mais cristalinamente exato como equivalência. Estou agora mesmo procurando desenvolver num pequeno ensaio o que chamo "sugestões para uma sociologia das equivalências literárias". Uma sociologia que, dentro da Sociologia da Literatura, considere equivalências de conteúdos sociais - em poemas, em romances, em ensaios, em peças de teatro - ao mesmo tempo que coincidências de formas de expressão literária. Aliás, no trabalho que acabo de escrever para ser lido no Pen Club, no Rio, já me aventuro a esboçar algumas dessas sugestões. Desenvolvidas, serão expostas noutra conferência, a ser proferida em São Paulo.
As equivalências da espécie aqui sugerida existem. Precisam, é certo, de ser identificadas com extrema acuidade. Mas, uma vez identificadas, dão ao estudo comparado de literaturas que se faça sob um critério sociológico, complementar do estético, uma extraordinária riqueza.
Nelson Rodrigues avulta na literatura atual do Brasil, como o nosso maior teatrólogo. O maior de hoje e o maior de todos os tempos. Pode ser considerado um equivalente, nesse setor, do Eugene O'Neil: do que foi O'Neil na literatura, dos Estados Unidos.
Mas ele é também o mais incisivamente escritor, sem deixar de ser vibrantemente jornalístico, dos cronistas brasileiros de hoje. O maior dos jornalistas literários - potencialmente literários - que tem tido o Brasil. Nesse setor é um equivalente do que foi e é - quem o superou? - Eça de Queirós na literatura portuguesa. Apenas com esta diferença: no brasileiro há um vigor de expressão maior do que em Eça - um Eça até hoje inatingido e, talvez, inatingível, na graça artística que soube dar ao seu jornalismo literário.
Por jornalismo literário não se deve entender o jornalismo que se ocupe de assuntos literários; e sim o que se caracteriza pela potência literária do jornalista-escritor. Um característico relativamente fácil de ser captado: contanto, que se dá tempo ao tempo.
O escritor-jornalista ou o jornalista-escritor é o que sobrevive ao jornal: ao momento jornalístico. Ao tempo jornalístico. Pode resistir à prova tremenda de passar do jornal ao livro.
As correspondências de Eça de Queirós, de Paris e da Inglaterra, para jornais portugueses e brasileiros, passaram a ter seu maior esplendor quando publicadas em livro. E esse esplendor continua. Enquanto artigos, para o momento em que apareceram em jornais, magníficos - magníficos como pura expressão jornalística - reunidos em livros não resistem à terrível prova: morrem. Fenecem. Rosas de Malherbe. Conchas de Emerson. Vários exemplos poderiam ser invocados dessa precariedade da expressão apenas jornalística: os artigos reunidos em livro de Costa Rego - jornalista magistral; os de Annibal Fernandes - outro, jornalista magistral; os de Plínio Barreto - ainda outro jornalista admirável. Mas admiráveis, os três, quando lidos quentes e quase intoleráveis quando frios.
Em Nelson Rodrigues, como em Eça de Queirós, o escritor vence o tempo como escritor, embora servindo-se do jornal; da correspondência para jornal; do comentário ao acontecimento do dia. Nelson Rodrigues é, dos dois, o mais vigoroso nessa espécie de expressão literária: a transferível de jornal para livro. Ele é lido em livro, tão forte de virtude literária, quanto lido em jornal. Repete Eça. Repete Eça neste particular, com maior vigor do que Eça.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Nelson Rodrigues, escritor. In: RODRIGUES, Nelson. O reacionário: memórias e confissões. Rio de Janeiro: Record, 1977. p. 9-10.

ARTIGO - GILBERTO FREYRE - DIÁRIOS E MEMÓRIAS - ABRIL DE 1941

DIÁRIOS E MEMÓRIAS

É um gênero de literatura - às vezes de sub-literatura, é certo, porém, outras vezes de literatura na sua expressão mais forte e na sua forma mais transbordante de vida - de tradição muito débil na nossa língua: o diário ou o livro de memórias. Entretanto, reune ao interesse artístico ou literário - quando o possue, ostensivo ou dissimulado - um interêsse humano considerável. É material ótimo para a análise e a interpretação do caráter de um povo ou da fisionomia de uma época, através da personalidade ou simplesmente da pessoa que, ora pelo excesso de extroversão, ora pelo gosto de introspecção revela aspectos interessantes ou traços profundamente íntimos do seu tempo ou da sua gente. E não apenas de sua própria e restrita intimidade individual. Traços de patologia social e não apenas pessoal.
O gôsto pela leitura de tais documentos - quando não os iluminam, de dentro para fora, as luzes festivais de personalidades em grandes evidência ou de vida espetacular - não é entretanto um gosto comum e fácil. Ao contrário: precisa, em geral, de ser adquirido. Adquirido aos poucos. É um tanto como o gosto pelo wiskey e pela própria cerveja amarga em relação com o entusiasmo fácil - de adolescente, de moça, antigamente, de deputado federal brasileiro - pela champagne doce e pelos vinhos de sobremesa. Mas é um gosto que, uma vez adquirido, nos enriquece a vida. Junta à experiência de cada um uma variedade de experiências alheias; ao sabor de nossa época, o de outras épocas; ao conhecimento da intimidade do nosso povo, o da intimidade de outros povos. E a verdade é que êsse conhecimento ou êsse sabor do geral através do particular, nós o vamos recolher mais puro em diários onde se registra o miudo de preferência ao grandioso; em memórias onde se anotam as repetições da vida doméstica ou pessoal, de preferência aos fatos extraordinários ou excepcionais.
É claro que para o leitor guloso de pitoresco ou ansioso de dramaticidade ou de regalo simplesmente literário ou estético - o leitor a quem só um Dannunzio memorialista é capaz de contentar - tais repetições se apresentam como coisa monótona e tristonha, nas quais êle não acha jeito de enxergar valor histórico de espécie alguma; nem significação sociológica ou psicológica por mais rasteira. Diante de um memorialista pachorrento que nos fale, com voz igual e baixa, de nascimentos de filhos e de netos, de casamentos e mortes na família, de doenças predominantes em sua casa, de fugas de suas crias, de remédios caseiros e tradicionais, de intimidades suas e de parentes - tudo isso com simplicidade e mesmo com simplismo, com candura e até com ingenuidade - é natural que o guloso de pitoresco, de variedade, de aventura, de heroísmo, de drama, se sinta incomodado e até revoltado, como um meu conhecido que muito se indignou com a publicação do diário íntimo do engenheiro Vauthier e, depois, com o do velho Felix Cavalcanti.
Mas se do mesmo leitor alguem que se interesse em experiências de transformar amantes de champagne em amigos de bebidas profundas como o wiskey, fizer não só um estudante de literatura menos ostensivamente literária, dando-lhe a lêr memórias e diários clássicos - desde Santo Agostinho aos ingleses, e desde o velho Pepys aos da época de colonização puritana nos Estados Unidos - como um estudante de sociologia e de psicologia, que chegue até ao estudo sociológico e psicológico dos diários e das confissões e à análise e interpretação das recorrencias na vida doméstica, estou certo de que o mesmo leitor - admitido, é claro, o seu bom capital de inteligência, de sensibilidade e de gosto - se tornará um entusiasta dos diários e das memórias monótonas. E um entusiasta - aventuro-me a acrescentar - capaz de preferir, às vezes, tal monotonia à prosa polifônica dos memorialistas dannuzianos. Não que estes não sejam sugestivos e até fascinantes com sua exaltação do heróico, do raro, do genial e até do anormal. Falta-lhes, porém, o encanto da rotina, da repetição, da constância, da normalidade, da regularidade na qual tantas vezes é agradável descansar do ruído das exterioridades grandiosas e da impressão das aventuras heróicas. Não só agradável como proveitoso à saúde inteletual. E humano, demasiadamente humano.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Diários e memórias. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 15 abr. 1941.

ALGUMAS FRASES DE NÉLSON RODRIGUES



"Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante"

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.

Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.

No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.

A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.

Deus só freqüenta as igrejas vazias.

Copacabana vive, por semana, sete domingos.

Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!

A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.

Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.

No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.

Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.

Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.

Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.

Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.

O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: - dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses

Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.

Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.

O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.

Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.

Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: - não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.

Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.

Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: - a nossa.

Sexo é para operário.

Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.

Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Má educação é a nossa Cartago - TONY BELLOTTO O GLOBO - 22/12 - Confusão no domingo - FERREIRA GULLAR FOLHA DE SP - 22/12


Má educação é a nossa Cartago - TONY BELLOTTO

O GLOBO - 22/12

Torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos


Colosso

O coliseu de Roma tem seu nome originado na expressão latina colosseum, que se referia à estátua gigantesca do imperador Nero que adornava seus entornos. O anfiteatro foi usado por quatro séculos como centro de entretenimento, e suas ruínas permanecem como símbolo fotografável do Império Romano e ponto turístico concorrido. Lá se exibiam combates de gladiadores, lutas e caçadas de animais selvagens, execuções sangrentas e até batalhas navais, quando a arena era inundada por dutos subterrâneos alimentados por aquedutos, prodígio da arquitetura etrusca assimilado pelos romanos.

Panis et circensis

A política do pão e circo foi utilizada por antigos administradores romanos com o intuito de dirimir o descontentamento do povo com seus governantes. A estratégia consistia em oferecer grandes espetáculos públicos enquanto se distribuía pão ao povaréu animado. A prática teve como consequências elevação de impostos e a subsequente derrocada da economia do Império. Vale dizer que tudo isso ocorreu dois mil anos antes da criação do Bolsa Família, do Ultimate Fighting e do Campeonato Brasileiro de Futebol.

De volta para o futuro

Há duas semanas um grupo de bárbaros brasileiros protagonizou na Arena Joinville — na aprazível cidade catarinense de altos índices de desenvolvimento humano — cenas lamentáveis de violência, embora desafortunadamente corriqueiras. Durante o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos, socando-se e chutando-se como se vivêssemos na Roma antiga. Injustiça: na Roma antiga o pessoal era mais civilizado. Lá os espetáculos aconteciam na arena, conduzidos por lutadores profissionais, enquanto o povo se divertia nas arquibancadas. Em Joinville, ao mesmo tempo em que jogadores profissionais se horrorizavam em campo com a barbárie, nas arquibancadas alguns representantes do cordial, alegre e pacífico povo brasileiro se incumbiam de tentar matar uns aos outros.

Breve pausa para orientação espacial

Onde está o Brasil verdadeiro? Na imagem dos boçais se agredindo em Joinville ou na da bela figura de Fernanda Lima anunciando na Bahia o sorteio das seleções da Copa do Mundo? Ambas as alternativas estão corretas? Respostas para a Redação.

Rebeldes sem causa, sem calça e sem graça

Com torcedores como esses, por que se preocupar com manifestantes?

As autoridades, a FIFA, a polícia e os brasileiros pacíficos não devem temer black blocs e outros possíveis — e prováveis — manifestantes que se insurjam violentamente contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Torcedores como os que se digladiaram em Joinville são manifestantes muito mais contundentes e radicais da grande desgraça brasileira e representam uma ameaça bem mais aterradora e eficiente. Ainda que se possa reduzi-los todos a farelo do mesmo sacolé, ao contrário dos black blocs os bárbaros de Joinville não usam máscaras, despreocupados com a revelação de suas identidades. Se forem presos, outros milhares surgirão, como zumbis, com a mesma determinação obstinada de destruição. Também ao contrário dos black blocs, os vândalos dos estádios — desculpe, das “arenas” — não agem motivados por nenhuma ideologia além da devoção canina a agremiações esportivas e preferem o aniquilamento sangrento de semelhantes à ingênua depredação de vidraças e placas de trânsito.

“Eis a beleza da coisa”, diria o doutor Strangelove com um sorriso, momentos antes de o mundo acabar numa grande hecatombe.

Catão

Os acontecimentos de Joinville só atestam mais uma vez que chegamos ao fundo do poço. E que o fundo do poço — surpresa! — não tem fundo. Desculpem-me os burocratas, os otimistas e os empreendedores de plantão, mas parece só haver uma solução para a barbárie brasileira: a Educação. Claro que situações como essa demandam medidas urgentes de segurança pública, infraestrutura, organização dos estádios e vergonha na cara, mas é bastante coerente que enquanto angariarmos resultados pífios em pesquisas sobre índices de educação, continuaremos a manifestar nossa violência irracional com requintes de campeões do mundo. No primeiro governo Lula uma das poucas coisas realmente animadoras foi a nomeação de Cristovam Buarque como ministro da Educação. Cristovam, assim como seu xará genovês, sabe que só se descobre um novo mundo com coragem, conhecimento de causa e determinação inabaláveis. Buarque preconizava uma revolução radical no ensino, mas caiu fora do governo tão logo os escândalos de corrupção começaram a pipocar. “Delenda est Carthago”, dizia Catão, político romano que sempre finalizava seus discursos alertando que Cartago, por ameaçar o Império Romano, devia ser aniquilada.


Confusão no domingo - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 22/12

Cada qual tem seus hábitos e manias; se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto


Eles são namorados, mas moram em casas separadas. Ele no Leme, ela em Botafogo. É que, como já não são jovens, cada qual tem seus hábitos e manias, como querer de repente ficar só, gostar de programas de televisão diferentes, enfim, se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto.

Disso resulta que, em vez de marido e mulher, continuam namorados. Telefonam-se todos os dias, mas nem sempre se encontram. Quando se encontram é para passear, jantar ou ir ao cinema, em geral aos domingos e feriados.

Ele lê para ela ao telefone o nome dos filmes que estão passando, a que hora e em qual cinema, e se encontram lá. Depois vão tomar um lanche, ou vai um para a casa do outro que ninguém é de ferro. Tudo certinho, como convém aos casais que não gostam de dramas nem de arranca-rabos.

E assim foi que marcaram para ir ao cinema naquela tarde de domingo. A escolha do filme foi feita, como de hábito, e já que o cinema era mais perto da casa dela que da dele, encarregou-se ela de comprar os ingressos.

Ele almoçou na hora de sempre e ligou a televisão para a última corrida do ano da Fórmula 1, particularmente interessante porque era a despedida de Felipe Massa da equipe da Ferrari. Depois lembrou-se que não ia dar tempo de ver o fim da corrida, pois prometera chegar ao cinema uns 20 minutos antes de começar o filme.

Fez os cálculos e concluiu que, se saísse de casa às 15h15, chegaria a tempo. Por isso, às 15h, começou a trocar de roupa, e na hora prevista estava já na rua tomando um táxi que o levaria ao cinema.

Chegou um pouco antes do que previra, pois o trânsito estava fluente, mais do que de costume. Ela ainda não havia chegado, conforme deduziu depois de atravessar a sala de espera e entrar na livraria que há ali. Estranhou, mas ficou vendo os livros para fazer hora. Abriu um deles, leu alguma coisa e, depois de um tempo, foi sentar-se na única cadeira que ainda estava livre, na entrada da lanchonete. Havia gente demais, formara-se uma fila enorme para ver não sabia qual filme. Mas ela não chegava!

Consultou o relógio, já estava na hora de entrar na sala de projeção, ela nada. Isso nunca havia acontecido, ela sempre chegava antes. Foi então que se lembrou de que, ao sair do apartamento, ao entrar no elevador, ouviu um telefone tocar, poderia ser o seu? Entrou no elevador e seguiu adiante. Seria ela? Teria acontecido alguma coisa e ela tentara avisar? E pior é que ele não usa celular, só o telefone fixo de casa. Não é nada disso, pensou, ela deve estar chegando.

Mas a aflição não cedia. Viu um rapaz com um celular e pediu a ele para fazer uma ligação. Ligou para a casa dela e ninguém atendeu. Ela tem celular, mas ele não sabia o número. Aflito, foi até a porta de entrada para esperá-la. Ficou ali uns dez minutos e nada. Decidiu tomar um táxi, ir até em casa e de lá telefonar para o celular dela. Foi, ligou, ela atendeu. "Estou aqui no cinema, acabei de chegar". E ele: "Mas já passam das 16 horas, o filme já começou. Você chegou depois de ter começado? Não acredito!".

E ela: "Já vou para aí", disse e desligou. Ele ficou perplexo, mas logo tomou uma decisão: desceu, pegou um táxi e voltou para o cinema. Encontrou-a na lanchonete: "Você está maluco. Por que veio tão cedo para o cinema? O filme só começa às cinco, são quatro e meia".

"É, você tem razão. Estou ficando matusquela. Meti na cabeça que o filme começava às quatro. Como você não chegou, fui para casa e de lá te liguei". E ela: "Você estava em casa?! Pensei que estivesse na porta do cinema me esperando! Que confusão!".

Riram e decidiram entrar na sala de cinema. Sentaram-se rindo da encrenca em que se haviam metido, até que as luzes se apagaram e na tela surgiram os anúncios. Depois a projeção de um trailer que não terminava nunca e, de repente, a luz acendeu de novo, cessou a projeção. Passaram-se os minutos e nada. Até que surgiu um funcionário do cinema e anunciou que o projetor dera um defeito, a sessão estava cancelada.

Sem dúvida alguma, aquele não era um dia de sorte do casal.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Supervulcão de Yellowstone é 2,5 vezes maior que se pensava, diz estudo

Atualizado em  12 de dezembro, 2013 - 12:40 (Brasília) 14:40 GMT
Lago de água quente em Yellowstone. Foto: AFP
Lagos de água quente são provas da magma quente que está abaixo da superfície em Yellowstone
Um "supervulcão" que está abaixo do solo no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, é muito maior do que se pensava inicialmente, segundo um estudo.
A pesquisa mostra que a câmera de magma é 2,5 vezes maior do que o apontado por um levantamento anterior. A caverna teria 90 quilômetros de largura e algo entre 2 e 15 quilômetros de altura, com 200 a 600 quilômetros cúbicos de rocha fundida.
Os dados foram apresentados durante um encontro da Sociedade Americana de Geofísica, de São Francisco.
"Nós estamos trabalhando lá há muito tempo, e sempre pensamos que ele poderia ser maior. Mas esta descoberta é estarrecedora", diz Bob Smith, pesquisador da Universidade de Utah.
Caso o supervulcão de Yellowstone entrasse em erupção, as consequências poderiam ser catastróficas. Na última vez que isso aconteceu – há 640 mil anos –, ele espalhou cinzas por todo o continente da América do Norte, afetando o clima do planeta.

Próxima erupção

Os cientistas acreditam que, com o novo estudo, passam a ter informações mais precisas sobre o supervulcão.
Eles usaram uma rede de sismógrafos espalhados pelo Parque Nacional para tentar mapear o conteúdo da câmera de magma.
"Nós registramos terremotos no Yellowstone e arredores e medimos as ondas sísmicas na medida em que passam pelo solo. As ondas viajam mais lentamente por material quente e fundido. Assim conseguimos medir o que está abaixo do solo", diz o pesquisador Jamie Farrell, também da Universidade de Utah.
Smith explica que apesar de o tamanho ser muito maior do que o medido em outros estudos, isso não aumenta os riscos para a fauna no Parque Nacional.
Ele disse também que não há forma de prever quando o supervulcão voltará a entrar em erupção.
Alguns acreditam que o vulcão deveria entrar em erupção a cada 700 mil anos, mas Smith acredita que é preciso coletar mais dados para sustentar essa teoria. Até agora, os cientistas só têm informações sobre três erupções passadas do supervulcão, ocorridas há 2,1 milhões, 1,3 milhão e 640 mil anos.
É apenas com base nestes registros que eles estimam esse intervalo de cerca de 700 mil anos entre erupções.

Evolução humana Fóssil de neandertal indica miscigenação entre humanos primitivos

Evolução humana

Fóssil de neandertal indica miscigenação entre humanos primitivos

O sequenciamento mais completo do genoma de hominídeo de 50.000 anos permitiu a comparação

Exposição em museu croata mostra reprodução de uma família de neandertais
Exposição em museu croata mostra reprodução de uma família de neandertais (Nikola Solic/Reuters)
O minúsculo osso de um dedo do pé de uma mulher neandertal que viveu há cerca de 50.000 anos revela que houve miscigenação entre algumas linhagens humanas primitivas. A partir deste fóssil, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, obtiveram o mais completo genoma de um neandertal já sequenciado. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira, na revista Nature.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: The complete genome sequence of a Neanderthal from the Altai Mountains

Onde foi divulgada: periódico Nature

Quem fez: Kay Prüfer, Fernando Racimo, Nick Patterson, Flora Jay, Sriram Sankararaman, Ed S. Lein, David Reich, Janet Kelso, Svante Pääbo e outros

Instituição: Universidade da Califórnia, EUA

Resultado: Os pesquisadores compararam o genoma dos neandertais com outros grupos humanos e descobriram que existia miscigenação entre eles
Os autores compararam o genoma encontrado com o de dois outros grupos, os humanos modernos e os denisovanos – um subgrupo misterioso, que teve vestígios descobertos na Sibéria. Embora tenham desaparecido, neandertais e denisovanos deixaram sua herança genética porque ocasionalmente se miscigenaram com humanos modernos. Os pesquisadores descobriram que entre 1,5 e 2,1% do genoma do homem moderno não africano está ligado aos neandertais.
Já vestígios denisovanos foram encontrados em 0,2% de genomas da etnia Han, majoritária na China, e de americanos nativos. Segundo as comparações, os denisovanos se miscigenaram com humanos primitivos, que os pesquisadores suspeitam se tratar do Homo erectus.
Diferenças – Os cientistas identificaram 87 genes presentes nos humanos modernos que são muito diferentes daqueles encontrados nos neandertais ou denisovanos. Eles podem ser os responsáveis pelas diferenças comportamentais que diferenciaram o homem das demais espécies extintas.
"Não há um gene que possamos apontar e dizer: 'este responde pela linguagem ou alguma outra característica única dos humanos modernos'. Mas, a partir desta lista, aprenderemos algo sobre as mudanças que aconteceram na linhagem humana, embora elas provavelmente sejam sutis", afirma Montgomery Slatkin, professor de biologia integrativa da Universidade da Califórnia.
Homens das cavernas – Os ossos foram encontrados em uma caverna nas montanhas Altai, no sul da Sibéria. Em 2008, pesquisadores localizaram no mesmo lugar o osso de um dedo mindinho de uma mulher denisovana em solo de 40.000 anos. A caverna também contém artefatos feitos pelos humanos modernos, o que significa que pelo menos três grupos de humanos primitivos ocuparam o local em diferentes épocas.