domingo, 7 de abril de 2019

"Oposição quer terceiro turno", por Ruy Fabiano


O governo Bolsonaro pode se queixar de tudo, menos de surpresa. O que lhe ocorre – e a recepção selvagem a Paulo Guedes, na CCJ da Câmara, esta semana, resume a ópera – era previsível.
Ele foi eleito para faxinar o establishment político, um dos mais corruptos e poluídos do planeta. E não se faz isso impunemente.
A reação se manifesta em todos os poderes, instituições e áreas de influência: mídia, oligarquia cultural, OAB, CNBB, entre outros.
Há uma ameaça latente a todas as zonas de conforto da sociedade, habituadas a conviver com a corrupção, desde que em dosagens que não matassem o paciente – isto é, o país.
O PT levou-o à UTI, o que desagradou a alguns. Mas o combate empreendido pela Lava Jato, a princípio saudado, passou a incomodar a mais gente ainda, sobretudo quando excedeu o âmbito do PT e chegou a setores que antes o criticavam, como PSDB e outros.
O ministro Gilmar Mendes é o rosto mais visível dessa mutação. Antes, classificava o governo petista de “cleptocracia”; depois, achou interessante que os petistas se tornassem habitués de seu gabinete e já o chamassem de “pátio dos milagres”. O temor comum os uniu.
Bolsonaro capitalizou eleitoralmente o despertar da maioria silenciosa, que começou a sair de sua retração já nas manifestações de 2013. O crescimento da Lava Jato levou ao impeachment e à eleição do candidato que personalizava a ruptura. Os derrotados estão unidos na tarefa comum de providenciar um terceiro turno.
José Dirceu, condenado em segunda instância a 30 anos de prisão – e não obstante solto e sem tornozeleira -, disse, em uma de suas entrevistas, que o projeto liberal de Paulo Guedes tem tudo para dar certo, o que tornaria o período Bolsonaro longo e próspero.
É preciso, portanto, dentro de sua visão estratégica, impedir que esse projeto seja posto em prática – e mãos à obra.
O ato primeiro, em pleno curso, é inviabilizar a reforma da Previdência, o que imporá impacto negativo ao mercado, com o respectivo agravamento dos índices sociais negativos (desemprego, violência, descrédito do governo etc.). A rejeição ao pacote anticrime de Sérgio Moro faz parte dessa estratégia, o que une establishment e facções criminosas, ambos movidos pelo mesmo interesse.
Basta ver a ameaça que o relator do pacote de Moro, senador Marcos do Val, recebeu por parte de criminosos contrariados com o seu conteúdo. Teve sua família ameaçada e a ameaça descrita em detalhes sórdidos e irreproduzíveis. A oposição radical (PT, PSol, PcdoB etc.) não chancela a forma, mas subscreve o conteúdo.
O que até aqui o governo concebeu como estratégia de reação é a ocupação das mídias sociais, de modo a falar direto à população. É um começo. Mas as reformas não serão votadas pela internet. Algo mais precisa ser feito para que o Congresso se sinta pressionado.
Se não haverá troca-troca – não ao menos na escala capaz de estabelecer maiorias seguras -, a pressão terá de vir das ruas. Ulysses Guimarães, que conhecia bem a Casa, dizia que só um poder reinava soberano sobre o Congresso: o das ruas.
A história recente dá-lhe razão.
Ruy Fabiano é jornalista 

sexta-feira, 8 de março de 2019

A ESPOSA É COMO O FOGO - CHESTERTON

A esposa é como o fogo

A esposa é como o fogo



Ou, melhor dizendo, o fogo é como a esposa

Trecho do capítulo “Feminismo ou erro em relação à mulher” do livro “O Que Há de Errado com o Mundo”.
A tradição decidiu que somente metade da humanidade precisa ser monomaníaca. Decidiu que em cada lar há de haver um comerciante e um faz-tudo. Mas também decidiu, entre outras coisas, que esse faz-tudo deve ser uma faz-tudo. Acertadamente, ou não, decidiu que essa especialização e esse universalismo deveriam ser divididos entre os sexos, que se deveria deixar a inteligência para os homens e a sabedoria para as mulheres; pois a inteligência mata a sabedoria, e essa é uma das poucas coisas certas e tristes.
Mas esse ideal de capacidade compreensiva (ou senso comum), que é próprio das mulheres, deve ter se esvaído há muito, deve ter derretido nas pavorosas fornalhas da ambição e do ávido tecnicismo. Um homem tem de ser, até certo ponto, um homem de uma só idéia, visto que é um homem de uma só arma — e é lançado nu à luta. As demandas do mundo chegam diretamente a ele; a sua mulher, chegam indiretamente. Em suma, ele tem de dar “o melhor de si” (como pregam os livros de receita de sucesso); e que pequena parte de um homem é “o melhor de si”! Seu segundo e seu terceiro “melhor” são frequentemente muito melhores. Se ele é o primeiro violino, terá de tocá-lo a vida inteira; não precisará se lembrar que é um ótimo quarta gaita-de-foles, um razoável quinquagésimo taco de bilhar, um florete, uma caneta-tinteiro, uma mão no uíste, uma arma e uma imagem de Deus (…).

(…) Mas há somente uma forma de conservar no mundo aquela elevada leveza e aquela perspectiva mais calma que corresponde à antiga visão do universalismo; e esta consiste em permitir que exista uma metade da humanidade parcialmente protegida, uma metade a que as agressivas demandas da indústria decerto afligem, mas apenas indiretamente. Em outras palavras, em cada núcleo da humanidade é essencial a presença de um ser humano apoiado num plano mais amplo, alguém que não “dê o melhor de si”, mas que se dê por inteiro.
Nossa antiga analogia do fogo continua sendo a mais funcional. O fogo não precisa luzir como a eletricidade ou ferver como a água; importa que ilumine mais do que a água e aqueça mais do que a luz.
A esposa é como o fogo, ou, colocando as coisas em sua devida proporção, o fogo é como a esposa.


Como o fogo, é de esperar que a mulher cozinhe, e cozinhe melhor do que seu marido, enquanto ele lhe obtém o coque à custa de conferências sobre botânica ou quebrando pedras. Como o fogo, espera-se que a mulher conte a filhos histórias- nãos histórias que primem pela originalidade ou sejam obras de arte, mas simplesmente histórias, histórias mais interessantes do que contaria um chefe de cozinha. Como o fogo, espera-se que a mulher ilumine e ventile — não com alarmantes revelações ou com os mais selvagens sopros de pensamento, mas que o faça melhor que um homem faria depois de quebras pedras ou fazer prelações.
O que não se pode esperar de uma mulher é que suporte algo como esse dever de cunho universal, quando tem igualmente de suportar a crueldade direta de um trabalho competitivo ou burocrático. A mulher deve ser cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores, mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva. Ela não deve ter um ofício, mas vinte hobbies. E, ao contrário do homem, ela pode-se permitir desenvolver todas as qualidades em que alcançaria um modesto segundo lugar.
Isto é o que na verdade se pretendia com aquilo a que chamam “reclusão, ou mesmo “opressão” da mulher. As mulheres não foram mantidas nos lares par conservá-los estreitos; ao contrário, foram mantidas nos lares para conservá-los amplos. Do lado de fora do lar, o mundo era uma massa de exigüidades, um labirinto de vias estreitas, um manicômio de monomaníacos. E foi somente com limitá-la e protegê-la parcialmente, que ela se fez capaz de desempenhar cinco ou seis profissões e, com isso, aproximar-se tanto de Deus quanto a criança quando brinca de cem coisas diferentes. Mas as ocupações da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e quiçá terrivelmente — frutíferas; tão tragicamente reais que nada as impediria de se tornarem meramente mórbidas, não fosse a universalidade e o equilíbrio da mulher. Isso é o que há de substancial na discussão que proponho sobre o papel histórico das mulheres.
Não nego que mulheres foram prejudicadas ou mesmo torturadas. Mas duvido que em algum momento tenham sofrido tortura maior do que esta que lhes impõe a absurda tentativa moderna de fazer delas a um só tempo imperatrizes do lar e funcionárias competitivas.
Não nego que, mesmo sob a antiga tradição, as mulheres tiveram vidas mais árduas que os homens; e é por esse motivo que lhes tiramos nossos chapéus. Não nego que todas essas variadas funções femininas foram exasperantes; mas afirmo que havia algum fim e sentido em conservar tal variedade. Tampouco nego que a mulher tenha sido uma serva; mas ela, ao menos, era uma serva faz-tudo. (…)



(…) Elas possuem a propriedade de, como o remédio, varias sua atuação de acordo com a doença. Para o marido mórbido, há que ser uma otimista; mas uma pessimista salutar para o marido tomado de uma alegria irresponsável e cega. Ela tem de impedir que o Dom Quixote seja pisado e que o brigão pise os outros. O rei da França escreveu: “A mulher sempre varia / louco o que nela se fia”. Que a mulher sempre varia é fato; porém, é exatamente tal fato que justifica sempre confiarmos nela.
Corrigir toda a aventura e extravagância ministrando o antídoto do senso comum não é — como os modernos parecem pensar — estar na posição de um espião ou de um escravo; é estar na posição de Aristóteles ou — baixando ao mais rasteiro dos níveis — de Herbert Spencer, é ser uma moral universal, todo um sistema de pensamento. O escravo bajula, o moralista integral censura. Em suma, é ser um trimmer, no sentido primeiro e verdadeiro deste ilustre termo — o sentido de “estivador” — que por alguma razão é sempre empregado numa acepção exatamente contrária — a de oportunista, vira-casaca. De fato, parecem supor que um trimmer seja uma pessoa covarde que sempre passar para o lado mais forte, quando, na verdade, o termo originalmente faz referência a um homem altamente cavalheiro que sempre passa para o lado mais fraco, tal como aquele que redistribui a carga de um barco indo sentar-se onde poucos estão sentados. A mulher é um trimmer, um estivador, e seu ofício é generoso, perigoso e ao mesmo tempo romântico.
(O que há de errado com o mundo —G.K. Chesterton)

terça-feira, 5 de março de 2019

A diferença básica entre globalismo e globalização econômica: um é o oposto do outro - Thorsten Polleit


   
A diferença básica entre globalismo e globalização econômica: um é o oposto do outro
Defender o segundo não implica defender o primeiro
Com a ascensão do populismo nos países desenvolvidos, a globalização econômica caiu em descrédito. Cada vez mais pessoas estão rejeitando a globalização com o argumento de que ela não apenas é injusta como também representa a fonte de todos os males — sendo inclusive a fonte de crises econômicas e imigrações em massa.
Esse tipo de condenação generalizada e abrangente da globalização, porém, apresenta dois erros graves: ela não só é factualmente errada — a globalização econômica comprovadamente aumentou o padrão de vida da população mundial — como também é conceitualmente errada.
Existe o globalismo e existe a globalização. O globalismo é um conceito político. Já a globalização é um conceito econômico.
Globalização econômica
A globalização econômica significa "divisão do trabalho em nível mundial".
A população de cada país se especializa naquilo em que é boa, adquirindo assim uma vantagem comparativa em relação às outras: faço aquilo em que sou melhor que os outros e vendo para eles; e compro dos outros aquilo que eles fazem melhor do que eu. Todas essas transações econômicas devem ser feitas o mais livremente possível, sem a intervenção de governos na forma de tarifas protecionistas e de outras barreiras alfandegárias. (Veja aqui um exemplo prático).
A consequência deste arranjo foi, é e sempre será um aumento no padrão de vida de todos os envolvidos.
Hoje, nenhum país é capaz de viver em autarquia, produzindo absolutamente tudo de que sua população necessita para viver decentemente. Caso um país realmente tentasse produzir tudo o que consome, isso não apenas seria um monumental desperdício de recursos escassos, como também levaria a custos de produção e, consequentemente, preços exorbitantes, afetando drasticamente o padrão de vida da população.
Pense em uma simples camisa. Fabricada na Malásia utilizando máquinas feitas na Alemanha, algodão proveniente da Índia, forros de colarinho do Brasil, e tecido de Portugal, em seguida sendo vendida no varejo em Sidney, em Montreal e em várias cidades dos países em desenvolvimento (ao menos naqueles que são mais abertos ao comércio exterior), a camisa típica da atualidade é o produto dos esforços de diversas pessoas ao redor do mundo.  E, notavelmente, o custo de uma camisa típica é equivalente aos rendimentos de apenas umas poucas horas de trabalho de um cidadão comum do mundo industrializado.
Obviamente, o que é verdadeiro para uma camisa vale também para incontáveis produtos disponíveis à venda nos países capitalistas modernos.
Como é possível que, atualmente, um trabalhador comum seja capaz de adquirir facilmente uma ampla variedade de bens e serviços, cuja produção requer os esforços coordenados de milhões de trabalhadores? A resposta é que cada um desses trabalhadores faz parte de um mercado tão vasto e abrangente, que faz com que seja vantajoso para muitos empreendedores e investidores ao redor do mundo organizarem operações de produção altamente especializadas, as quais são lucrativas somente porque o mercado para seus produtos é de escala global.
Esta especialização tanto do trabalho quanto da produção, ao longo de diferentes setores industriais ao redor do mundo, é exatamente o fenômeno da globalização econômica.
(Recentemente, um homem resolveu fabricar, do zero, um simples sanduíche. Ele plantou o trigo para fazer o pão, retirou o sal da água do mar, ordenhou uma vaca para fazer o queijo e a manteiga, matou uma galinha para retirar o filé de frango, fez o próprio picles e teve até de extrair o mel do favo. Seis meses e US$ 1.500 depois, o sanduíche ficou pronto. E, a julgar pela reação dele próprio, a qualidade do produto final foi medíocre).
O fato é que, hoje, nenhum país produz apenas para satisfazer suas próprias necessidades, mas também para atender a produtores e consumidores de outros países. E cada país se especializa naquilo que sabe fazer melhor.
A globalização econômica, com o livre comércio sendo seu componente natural, aumenta a produtividade de todos os envolvidos. E, consequentemente, aumenta também o padrão de vida de todos. Sem a globalização econômica, a pobreza neste planeta não teria sido reduzida com a intensidade em que foi nas últimas décadas.
Por fim, vale ressaltar que todo e qualquer indivíduo é, em si mesmo, um defensor árduo da globalização econômica, mesmo que ele não saiba disso. As pessoas acordam cedo e vão trabalhar exatamente para ganhar dinheiro e, com isso, poderem consumir o que quiserem. As pessoas trabalham e produzem para poder consumir produtos bons e baratos, independentemente de sua procedência. Eles podem ser oriundos de qualquer parte do mundo; o que interessa é que sejam bons e baratos. Isso é globalização econômica.
Impor obstáculos a esse consumo — isto é, restringir a globalização econômica — significa restringir a maneira como as pessoas trabalhadoras podem usufruir os frutos do seu trabalho. No mínimo, isso é imoral e anti-humano.
Globalismo
Logo de início, é fácil ver que o globalismo — que também pode ser chamado de globalização política — não tem absolutamente nada a ver com a globalização econômica.
Globalização econômica significa livre comércio e livre mercado. Trata-se de um arranjo que não apenas não necessita da intervenção de governos e burocratas, como funciona muito melhor sem eles. Indo mais além, trata-se de um arranjo que surge naturalmente quando não há políticos e burocratas impondo obstáculos às transações humanas.
Já o globalismo é o exato oposto: trata-se de um arranjo que só existe por causa de políticos e burocratas. Seria impossível haver globalismo se não houvesse políticos e burocratas.
O globalismo é uma política internacionalista, implantada por burocratas, que vê o mundo inteiro como uma esfera propícia para sua influência política. O objetivo do globalismo é determinar, dirigir e controlar todas as relações entre os cidadãos de vários continentes por meio de intervenções e decretos autoritários.
Eis o argumento central do globalismo: lidar com os problemas cada vez mais complexos deste mundo — que vão desde crises econômicas até a proteção do ambiente — requer um processo centralizado de tomada de decisões, em nível mundial. Consequentemente, leis sociais e regulamentações econômicas devem ser "harmonizadas" ao redor do mundo por um corpo burocrático supranacional, com a imposição de legislações sociais uniformes e políticas específicas para cada setor da economia de cada país.
O estado-nação — na condição de representante soberano do povo — se tornou obsoleto e deve ser substituído por um poder político transnacional, globalmente ativo e imune aos desejos do povo.
Obviamente, a filosofia por trás dessa mentalidade é puramente socialista-coletivista.
Representa também o pilar da União Europeia (UE). Em última instância, o objetivo da UE é criar um super-estado europeu, no qual as nações-estado da Europa irão se dissolver como cubos de açúcar em uma xícara quente de chá. Foi majoritariamente disso que os britânicos quiseram fugir.
Ao menos para o futuro próximo, este sonho burocrático chegou ao fim. O desejo de impor uma uniformidade afundou em meio a uma dura e difícil realidade política e econômica. A UE está passando por mudanças radicais — culminando com a decisão dos britânicos de sair dela — e pode até mesmo entrar em colapso dependendo dos resultados eleitorais em alguns importantes países europeus (França, Holanda, Alemanha e possivelmente Itália) neste ano de 2017.
Com Donald Trump na presidência americana não há mais qualquer apoio intelectual dos EUA ao projeto de unificação européia. A mudança de poder e de direção em Washington diminuiu o poder de influência dos globalistas — o que permite alguma esperança de que a futura política externa americana seja menos agressiva em termos militares. Trump — ao contrário de seus antecessores — ao menos não parece querer impingir uma nova ordem mundial.
Por outro lado, os defensores da globalização econômica têm motivos para estar preocupados. O governo Trump vem ameaçando utilizar medidas protecionistas — majoritariamente na forma de tarifas de importação —para supostamente estimular o emprego e a produção nos EUA, mesmo com toda a teoria e realidade econômicas demonstrando que o efeito será o oposto.
Tamanha interferência na globalização econômica, o que representaria um retrocesso no tempo, não apenas seria um ataque à prosperidade, como também pode se degenerar em conflitos políticos, reacendendo antigas rixas e contendas. Não precisaria ser assim.
Para atacar e até mesmo aniquilar o globalismo não é necessário atacar e fazer retroceder a globalização econômica.
A globalização é Steve Jobs, Jeff Bezos e Michael Dell; o globalismo é George Soros, o CFR, a Comissão Trilateral, os Rockefeller, os Rothschilds e a ONU.
Conclusão
Ao passo que o globalismo representa o autoritarismo e a centralização do poder político em escala mundial, a globalização econômica — que nada mais é do que a divisão do trabalho e o livre comércio — representa a descentralização e a liberdade, promovendo uma produtiva e, ainda mais importante, pacífica cooperação além fronteiras.
A restrição à globalização econômica — ou seja, o protecionismo — nada mais é do que o medo dos incapazes perante a inteligência e as habilidades alheias. Tal postura, além de moralmente condenável, por ser covarde, é também extremamente perigosa. Como já alertava Bastiat, se, em vez de nos permitirmos os benefícios da livre concorrência e do livre comércio, começarmos a atuar incisivamente para impedir o progresso de outras nações, não deveríamos nos surpreender caso boa parte daquela inteligência e habilidade que combatemos por meio de tarifas e restrições de importações acabe se voltando contra nós no futuro, produzindo armas para guerras em vez de mais e melhores bens de consumo que eles querem e podem produzir, e os quais nós queremos voluntariamente consumir.
Como também disse Bastiat, quando bens param de cruzar fronteiras, os exércitos o fazem. 
Por isso é de extrema importância preservarmos a globalização econômica.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

"Vamos salvar a Previdência", pr Nlzan Guanaes


SÓ MALUCO TORCE PARA QUE O AVIÃO

 EM QUE SE ESTÁ VIAJANDO CAIA; E O 

BRASIL SEM A REFORMA NÃO VAI VOAR




Um cara entrou no elevador outro dia e me disse: “Bom dia”. Eu respondi: “Se aprovarmos a Previdência, será um bom dia”. Peguei um táxi no aeroporto, e o motorista me perguntou: “Para onde vamos?”. Eu respondi: “Se não aprovarmos a Previdência, vamos para o brejo”.
Enfim, nos próximos meses, no elevador, no táxi, no artigo da Folha, na reunião de condomínio, no bar com os amigos, eu, você e qualquer pessoa de direita, centro e esquerda, mas com juízo, deve lutar para aprovar a reforma da Previdência.
O  Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), recebe das mãos de Jair Bolsonaro a proposta da reforma da Previdência
O Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), recebe das mãos de Jair Bolsonaro a proposta da reforma da Previdência - Luis Macedo - 20.fev.19/Câmara dos Deputados
O governo já enviou sua proposta ao Congresso Nacional, e agora cabe o debate democrático em torno dela. Só não cabe mais, no meu entender, aquele papo de dizer que é a favor da reforma, mas não desta, e aí acabamos sem reforma alguma. Não há mais tempo para isso.
A reforma é decisiva para a economia decolar. Já se calcula que US$ 100 bilhões estão para serem investidos no Brasil, mas esperam a aprovação das mudanças. Ninguém quer investir num país que pode quebrar mais à frente.
O Estado brasileiro está sufocado por déficits monstruosos. Os governos de turno não conseguem investir onde deveriam, como saúde, educação, segurança pública, saneamento básico, habitação...
Os dados não são novos e são bem conhecidos. Todo o mundo que chega ao governo é a favor da reforma, mas, quando está na oposição, fica tentado a fazer proselitismo com o eleitorado, brincando com fogo.
Eu inclusive acho errado o tema ser reforma da Previdência. O professor Lavareda disse algo que nunca esqueci —não se trata de reformar a Previdência, mas de salvar a Previdência.
Sem salvar a Previdência, não vamos conseguir pagar aos aposentados. Estados liderados por governadores de todos os partidos sabem disso. Estão quebrados ou a caminho de quebrar e não conseguirão custear obrigações básicas se seguirmos desse jeito.
Não é uma medida fria, liberal. É uma medida humana, difícil às vezes de entender, embora as pesquisas mostrem que a população cada vez mais entende a reforma.
Os empresários, em vez de comodamente jogarem a reforma no colo e na conta do governo e do Congresso, precisam ajudar a mobilizar o país para a importância desta hora. 
Os veículos de comunicação, da forma crítica que lhes é habitual e fundamental, têm o papel de mostrar a realidade e o perigo dos números. Não é questão de ideologia, mas de matemática. A conta não fecha.
Sem salvar a Previdência, quem trabalhou duro não vai ter proventos. E os jovens terão um futuro pior.
Não cabe a nós, formadores de opinião, líderes empresariais, influenciadores, ficarmos em cima do muro.
O celular é o microfone que a tecnologia deu a todos. Temos nos nossos grupos de WhatsApp a oportunidade de propagar essa mobilização.
Tenho amigos e parentes que são contra a reforma. Respeito todos eles, e que também façam a campanha pelo que acreditam. Mas os que concordam comigo precisam se mobilizar e ajudar a aprovação no Congresso.
Não é questão de apoiar ou não este governo. Só maluco torce para que o avião em que se está viajando caia. E o Brasil sem a reforma não vai voar.
É aritmética, não é ideologia. As pessoas vivem cada vez mais no mundo todo, e a conta atual não fecha.
Com todo o respeito às pessoas que pensam diferente de mim, eu convido aqueles que pensam como eu a repetirmos juntos esse mantra: Previdência, Previdência, Previdência.
Vamos salvar a Previdência.
Nizan Guanaes

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

"Mais médicos, menos fantasia", por Fernando Gabeira

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Os cubanos foram embora. O Programa Mais Médicos não existe mais, tal como foi criado no governo Dilma. Sou otimista quanto ao futuro do programa. Talvez possa ser feito de uma forma melhor.

Breve, a discussão ideológica ficará para trás, e então poderemos nos concentrar no que realmente interessa: a saúde de milhões de brasileiros.

A grande oportunidade que está diante de nós é a ida de milhares de jovens médicos brasileiros para o interior. As condições salariais são atraentes. O dinheiro ficaria no Brasil. 

Mas não é esse o principal ganho. O encontro de milhares de jovens da classe média urbana com os rincões do Brasil pode representar para eles um grande aprendizado.

Já houve grandes momentos históricos em que esse encontro se deu. Na Rússia, no século XIX, quando milhares de estudantes foram compartilhar o cotidiano dos camponeses. Havia muito romantismo, ideias revolucionárias, uma visão idealizada dos pobres do campo. Embora o resultado tenha sido revoluções esmagadas, foi um período rico para a própria cultura russa.

Aqui, no Brasil, as idealizações não são as mesmas. Minha impressão é que os brasileiros vão encontrar no interior surpresas positivas sobre as pessoas que vivem lá. Os russos se decepcionaram porque esperavam ver nos camponeses um reflexo de suas fantasias urbanas.

A ida dos médicos brasileiros teria o mesmo valor pedagógico que a carreira oferece aos militares: percorrer diferentes pontos do país, sentir a diversidade, acreditar mais ainda no potencial do Brasil.

Não há contraindicação ideológica. Ouso dizer mesmo para uma juventude de esquerda dos grandes centros: o choque cultural seria benéfico. Certamente, sairia mais realista.

Meu primeiro trabalho na TV, creio em 2014, foi sobre uma cidade do Maranhão chamada Buriti Bravo. Já era uma aproximação com o Programa Mais Médicos. Uma visita às cidades mais desamparadas, no Maranhão e no Amapá.

Semana passada, procurei algumas pessoas como o escritor Antonio Lino, que fez uma dezena de viagens para escrever sobre o Mais Médicos. E também o sanitarista Hermano Castro, da Fiocruz.

Minhas primeiras conclusões: o programa é essencial para as cidades cobertas; ele pode ser feito majoritariamente por brasileiros, o que não significa que alguns estrangeiros não possam participar, dentro das regras do jogo. Constatei também que o gargalo é a formação desse tipo de médico. Isto estava previsto no programa de Dilma, mas não foi bem desenvolvido.

É preciso ser realista. Apesar dos salários, ainda é muito difícil fixar um jovem médico no interior. A realidade me leva de novo ao mundo das ideias.

A única maneira de atenuar realmente o problema é uma valorização simbólica desse tipo de trabalho. Transmitir um pouco, por exemplo, a chama que ilumina um grupo como o Médicos Sem Fronteiras, que leva ajuda a pessoas em grandes dificuldades. No caso, o governo comprar essa ideia talvez não ajude tanto quanto se fosse aceita pelo mundo cultural. Não proponho heróis positivos, são pessoas de carne e osso que merecem um reconhecimento maior.

Tanto os cubanos quanto a esquerda encaram esse trabalho como o produto de uma visão socialista, e desafiamos a verem na medicina um mercado, e não adotarem suas teses.

Esquecem que a exportação de serviços médicos é um importante item no comércio exterior cubano. É um negócio de Estado. Não só o Médicos Sem Fronteiras, mas inúmeras organizações humanitárias no mundo demonstram que essa presença ao lado dos mais fracos não é, unicamente, uma consequência da visão socialista.

Para completar a semana, ouvi uma conferência do ministro alemão Cristoph Bundscherer num painel sobre indústria 4.0. Paradoxalmente, ele falava de um futuro tecnológico com diagnósticos à distância, portanto, com menos médicos.

Se combinarmos a formação dos novos médicos com uma abertura para o mundo tecnológico, é possível atenuar esse grande problema brasileiro.

No momento, temos um pepino. No futuro, talvez nos lembremos da passagem dos cubanos apenas como um doloroso aprendizado. É raro um contrato ser rompido assim, numa área tão sensível, sem que tenhamos salvaguardas. Isso faz parte do legado. Ideologias se interessam pelas ideias, não pelas pessoas.

"O novo governo", por Denis Lerrer Rosenfield


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UMA SÍNTESE DE VALORES CONSERVADORES

E LIBERAIS, DEMOCRACIA E EXERCÍCIO DA 

AUTORIDADE



O governo de Jair Bolsonaro começa sob a égide do novo. O novo a ser entendido não como uma mudança qualquer de governo, mas como uma diferente forma de exercício do poder, fundamentado no exercício da autoridade. Novo também no que diz respeito a uma recuperação das ideias de direita, seja em sua vertente liberal ou conservadora, relegando a segundo plano a oposição direita/esquerda.
Nos últimos anos, o petismo e sua herança consistiram numa dança à beira do precipício. A inflação estourou, o desemprego atingiu mais de 12 milhões de trabalhadores, o PIB afundou, os juros ganharam as alturas, a criminalidade tomou conta das cidades e do campo e a insegurança, em todos os sentidos, se generalizou. Neste último ano eleitoral, Lula ainda tentou, mesmo condenado e preso, ser candidato a presidente da República, utilizando-se da mentira como forma de conquista do poder. Uma séria crise institucional esteve muito próxima.
Nas peripécias dos últimos meses, constatou-se que a democracia terminou por adotar a forma de uma defesa de privilégios, cujo melhor exemplo talvez seja a resistência dos estamentos estatais à reforma da Previdência, como se o jogo político devesse ficar à mercê do arbítrio dos que têm mais condições de exercer influência e pressão. A população de baixa renda e os desempregados carecem desses instrumentos de pressão.
A criminalidade, em expansão, mostrou igualmente as dificuldades de exercício da autoridade, como se combater a bandidagem fosse uma questão de direitos humanos. Da mesma maneira, questões educacionais foram fortemente submetidas ao politicamente correto, como se toda a sociedade devesse submeter-se ao que intelectuais esquerdistas apresentavam como “progressista”, seja lá o que isso signifique.
A autoridade estatal foi substancialmente enfraquecida, com o sociedade clamando por seu restabelecimento, sem que isso signifique autoritarismo, que desconhece limites institucionais e constitucionais.
Logo, é nesse contexto que se deve compreender o novo governo, nas figuras do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e de seu vice, general Hamilton Mourão.
Primeiro, o núcleo militar. Ele representa o compromisso com a autoridade estatal, cuja preocupação central consiste em que o Brasil não caia na anomia, que poderia comprometer o futuro da democracia. Tanto o general Mourão quanto o general Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, são pessoas altamente qualificadas, comprometidas com a existência do Estado e a luta contra a corrupção. Ambos terão papel importante na orientação do novo governo, agindo dentro do próprio Palácio do Planalto. Se o vice-presidente vier, por delegação do presidente, a exercer a coordenação dos ministros, o ganho do novo governo será enorme na implementação das novas políticas e no restabelecimento hierárquico da administração.
Segundo, a Lava Jato. A nomeação do juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça segue outra linha de campanha do presidente eleito, a do compromisso com a honestidade no tratamento da coisa pública e do comprometimento no combate à corrupção. Responde igualmente a um clamor da sociedade por mudanças na condução dos negócios públicos. O então juiz, no exercício de suas funções, deu provas cabais de seu comprometimento com a verdade, não se submetendo a pressões ideológicas e partidárias.
Terceiro, a política econômica. O novo ministro da Economia representa um inequívoco compromisso com a economia de mercado, o direito de propriedade e a redução do poder de intervenção do Estado. Ao escolhê-lo e dar-lhe plenos poderes, o novo presidente assumiu um compromisso com o liberalismo, vital para o ajuste fiscal e o equilíbrio das finanças públicas, bases do crescimento econômico e do distributivismo social. A nova equipe, muito qualificada, está seguindo os passos da política econômica do presidente Michel Temer, ampliando-a.
Quarto, as frentes parlamentares. O sucesso do governo depende em grande medida de sua capacidade de aprovação de leis e, sobretudo, de emendas constitucionais na Câmara dos Deputados e no Senado. De nada adiantam belos planos de reformas se eles não conseguirem a aprovação no Legislativo. Seria um enorme impasse. O novo presidente aposta suas fichas no novo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, deputado que conhece bem o Congresso, e na escolha de ministros que representem frentes parlamentares importantes, como as da agricultura e pecuária, da saúde, da segurança pública, da construção civil e material de construção e dos evangélicos. Há aqui uma mudança relevante em relação ao governo Temer, que atuou com os partidos políticos e os líderes partidários. O desafio é interessante, porém não isento de riscos. Resta saber se conseguirá, com ela, alcançar os seus objetivos. A escolha para a pasta da Agricultura da deputada Tereza Cristina, pessoa competente, sinaliza para essa política de frentes parlamentares, assim como a do novo responsável pela Saúde.
Quinto, a concepção conservadora. A escolha dos novos ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, indicam, por sua vez, outro ponto de campanha, assentado nos valores conservadores, de compromisso com a família, a pátria e a religião. Coloca-se aqui uma questão espinhosa, a de saber se esses valores são de natureza a orientar a relação entre Estados, baseada nos interesses particulares de cada um, segundo seus objetivos geopolíticos. No que toca à educação, o novo ministro é um intelectual respeitado, com livros importantes de filosofia e de história das ideias no País. A caricatura que dele foi feita em alguns jornais não guarda correspondência com a verdade.
Por último, assinale-se que o novo governo está se organizando de forma coerente, fiel a suas ideias eleitorais, numa síntese de valores conservadores e liberais, democracia e exercício da autoridade. Eis a aposta.
*PROFESSOR DE FILOSOFIANA UFRGS.

O Estado de São Paulo

"Pequenos gestos insignificantes", por- Gustavo Pacheco “As únicas derrotas e as únicas vitórias que decidem a vida são as que você perde ou ganha sozinho, perante si mesmo”


"Pequenos gestos insignificantes", por Gustavo Pacheco

“As únicas derrotas e as únicas vitórias que decidem a vida são as que você perde ou ganha sozinho, perante si mesmo”

“É difícil acompanhar dia após dia o aumento progressivo das hostilidades. De repente você está cercado de todos os lados, sem saber como nem quando. Pequenos fatos isolados, pequenos gestos insignificantes, pequenas ameaças jogadas ao vento. Hoje uma briga no bonde, amanhã um artigo no jornal, depois de amanhã uma janela quebrada. Tudo parece casual, sem conexões, meio de brincadeira. Até que um certo dia você percebe que não consegue mais respirar.”

Essas palavras saíram de um romance, mas poderiam ter saído de um diário. O romance se chama Por dois mil anos e nele o narrador sem nome, um jovem estudante judeu, descreve a ascensão do antissemitismo na Romênia do entreguerras. Lançado em 1934, causou muitos problemas para seu autor, o escritor, dramaturgo e jornalista Mihail Sebastian.

Embora se apresente como ficção, Por dois mil anos, publicado no Brasil no ano passado, é um livro profundamente autobiográfico. Sua epígrafe é a célebre frase de Montaigne: 

“Ouso não somente falar de mim, mas falar somente de mim”. Sebastian era judeu e foi testemunha e alvo da onda de violência que, anos mais tarde, desaguaria na destruição de mais da metade da população judaica da Romênia, estimada em cerca de 750 mil pessoas antes da Segunda Guerra Mundial.

Por dois mil anos é um livro desconcertante, em grande medida por causa do tom contido e equilibrado do narrador, que presencia e sofre barbaridades sem deixar que afetem sua sanidade e sua integridade de caráter: “Por enquanto, recebi dois socos durante a aula de hoje e escrevi oito páginas de anotações. Por dois socos, foi uma pechincha.”

Os momentos mais contundentes do livro são os diálogos do narrador com seus amigos, que pouco a pouco o abandonam e passam a apoiar sem ressalvas a violência antissemita. Ainda assim, ele não rompe relações, nem expressa raiva ou amargura, mantendo sua dignidade estoica: “As únicas derrotas e as únicas vitórias que decidem a vida são as que você perde ou ganha sozinho, perante si mesmo.”

Entre os amigos de Sebastian, estavam alguns dos mais importantes artistas e intelectuais romenos do século XX, como Eugène Ionesco, Mircea Eliade e Emil Cioran – alguns deles reconhecíveis em personagens de Por dois mil anos. Quando o livro estava para sair, Sebastian pediu que seu amigo e mentor, o professor de lógica Nae Ionescu, escrevesse o prefácio. Ionescu, que serviu de inspiração para o personagem Ghiţă Blidaru, era uma figura carismática que exerceu grande influência sobre Sebastian e muitos outros escritores de sua geração. Quando o prefácio chegou, Sebastian ficou perplexo: era um texto violentíssimo, que atacava os judeus e dizia que eles nunca seriam realmente romenos – nem mesmo o autor do livro.

Numa decisão que até hoje é motivo de debate, Sebastian decidiu incluir o prefácio no livro, o que gerou um escândalo: Por dois mil anos foi atacado por comunistas e fascistas, judeus e cristãos, liberais e extremistas. Por que Sebastian se sujeitou a isso? Alguns dizem que, mesmo magoado, ele continuava prezando a amizade com Ionescu; outros dizem que o prefácio é a ilustração perfeita do processo de ascensão do antissemitismo, que é o tema central do livro.

Em 1935, pouco depois de o livro ser publicado, Mihail Sebastian começou a escrever um diário. As semelhanças entre os dois são notáveis: como disse o escritor inglês John Banville, Por dois mil anos é um romance escrito como se fosse um diário, enquanto o diário de Sebastian foi escrito como se fosse um romance. Ainda inédito em português, o diário é um registro ímpar de um ser humano que insiste em manter sua humanidade enquanto, à sua volta, o mundo se decompõe.

A primeira anotação no diário, em 12 de fevereiro de 1935, diz o seguinte: “O rádio está sintonizado em Praga. Estou escutando um concerto de J. S. Bach em sol maior, para trompete, oboé, cravo e orquestra.” A partir daí, os comentários de Sebastian sobre Mozart e Debussy, Shakespeare e Proust, se misturam a seu testemunho da escalada do fascismo, da perseguição aos judeus, do caos instaurado pela guerra e das cautelosas esperanças depois que a Romênia muda de lado e passa a apoiar os Aliados. A última anotação é de 31 de dezembro de 1944: “É o último dia do ano. Tenho vergonha de estar triste. No fim das contas, foi o ano que trouxe de volta a minha liberdade. Mesmo com toda a amargura e todo o sofrimento, mesmo com todas as decepções, esse fato básico permanece.”

Mihail Sebastian sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto. Morreu em 29 de maio de 1945, aos trinta e oito anos de idade, atropelado por um caminhão quando atravessava a rua.



O romancista romeno Mihail Sebastian (1907-1945) - Divulgação


Gustavo Pacheco é diplomata e antropólogo.