sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Banda fiscal: para que? MANSUETO ALMEIDA



Depois de três dias mofando na cama com uma forte virose, hoje já consigo ler e escrever. Mas três dias fora de ação e sem ler jornais nada mudou. O governo continua tentando dar sinalizações positivas para o mercado, mas essas sinalizações trazem mais dúvidas do que certezas sobre o real compromisso do governo Dilma com o ajuste econômico, inclusive, o ajuste fiscal.
A bola da vez agora passou a ser a ideia equivocada de uma banda fiscal ou meta fiscal flexível. Não se sabe muito bem o que seja isso, mas pelo que a imprensa divulga, seria um mecanismo pelo qual, em caso da arrecadação do governo ficar aquém daquela esperada, o governo poderia entregar um resultado primário menor devido à frustração de receita.
É impressionante como o governo, ao invés de fazer o básico, fica atrás de fórmulas salvadoras e de falsas soluções para reconquistar a sua credibilidade. O que as pessoas querem saber é como o governo voltará a ter superávit primário e o governo federal simplesmente não consegue responder esta pergunta. Uma banda fiscal não ajudará na recuperação do primário. A banda fiscal ajudará apenas ao próprio governo federal no fracasso de não cumprir a meta definida pelo ele próprio.
Quero destacar dois pontos. Primeiro, ao longo do primeiro governo Dilma (2011-2014), quando o desastre fiscal atual estava sendo cuidadosamente gerado, o governo tinha uma meta fiscal flexível. O governo definia uma meta do primário e, ao mesmo tempo, tinha autorização de descontar da meta as despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Se perdia tempo falando em meta “cheia” e meta com desconto e, no final, o que tivemos foi o agravamento da crise fiscal.
Segundo, qualquer pessoa de bom senso sabe que o governo terá uma grande frustração de receita este ano. A Lei Orçamentária Anual (LOA) 2016 foi aprovada com a previsão de receita liquida do governo central de R$ 1.223.335,11 milhões. A receita liquida do governo central, em 2015, foi de 1.034.424,9 milhões.
Logo, para que o valor da receita aprovado na LOA 2016 seja atingida seria necessário um crescimento nominal da receita liquida do governo central de R$ 188,9 bilhões em um ano de recessão. Sabe quanto foi o crescimento nominal da receita liquida do governo central no ano passado? R$ 20 bilhões! Por que em mais um ano de recessão essa receita cresceria perto de R$ 190 bilhões? Isso não vai ocorrer e quem acha que isso vai ocorrer deveria ser rapidamente internado.
É claro que haverá uma forte frustração na receita esperada e, assim, o mais correto seria o governo explicar o problema e assumir que terá mais um ano de déficit primário. Mas parece que algumas pessoas acham que o melhor é criar uma banda fiscal “caso haja frustração de receita esperada” o que já é liquido e certo.
Se o governo se comprometesse em respeitar a LRF, lei que ele governo desrespeitou seguidamente durante anos com o uso de contabilidade criativa e com o mecanismo das pedaladas fiscais, isso já seria um grande avanço. Mas se o governo insistir na “inovação institucional” de estabelecer uma banda fiscal para fazer frente a frustrações de receita isso não trará nenhum benefício e ainda aumentará a incerteza quanto a valor da meta do primário.
Podem ter certeza de uma coisa. Quanto mais o governo tentar inventar, inovar para sinalizar responsabilidade fiscal, menor será o seu real compromisso com o ajuste fiscal. A discussão importante agora não é mudanças na LRF, que funcionava muito bem até o governo atual começar sistematicamente a interpretar a Lei ao seu bel prazer.
O debate importante agora é, dado mais um ano de queda de PIB e perspectiva de baixo crescimento até 2018, como o governo pretende recuperar o superávit primário? Quais programas serão cortados até 2018 que tragam economia imediata? O governo pretende aumentar a contribuição previdenciária dos funcionários públicos? Em quanto o governo planeja aumentar a carga tributária até 2018? Qual é exatamente a proposta do governo de reforma da previdência?
Estabelecer uma banda fiscal no momento atual me parece uma estratégia equivocada de evitar debater o que realmente importa. Como o governo conseguirá cumprir com as metas de primário para 2016 e para os anos seguintes?

MOVIMENTOS SOCIAIS E DEMOCRACIA

MOVIMENTOS SOCIAIS E DEMOCRACIA
DITADURAS E REGIMES TOTALITÁRIOS NO SÉCULO XX
-TOTALITARISMO: Predomínio total do estado e do partido sobre a sociedade.  Os regimes totalitários apresentam como principal característica a presença de um partido e de uma ideologia de estado. 
Por exemplo, no comunismo a predominância do partido comunista, com a ideologia do predomínio da classe operária, esta representada pelo partido comunista, como condutora da sociedade.
No nazismo, a predominância do partido nazista, este com a ideologia da supremacia racial alemã (ariana) sobre as demais, e tendo o anti-semitismo como um fator da implantação da eugenia racial.
OBSERVAÇÃO: São considerados regimes totalitários, a ex União Soviética sob Stálin, e a Alemanha hitlerista.
REGIMES AUTORITÁRIOS: Onde não existe democracia política, com o predomínio de um regime autoritário, através de um ditador, ou mesmo de uma oligarquia política ou econômica.
Nestes regimes existem várias gradações: Existem ditaduras mais personalistas ou de grupos, porém o fator ideológico não é preponderante. A repressão, ou a presença do estado, é mais restrita às atividades políticas. Ou seja, combate-se o dissenso, base da democracia. Afinal, na democracia é fundamental o respeito ao dissenso, ou seja, as minorias que podem se tornar maiorias. 

TRADIÇÃO AUTORITÁRIA DA REPÚBLICA BRASILEIRA
- O golpe republicano e o caráter autoritário da República Brasileira. A tradição positivista e seu lema “ORDEM E PROGRESSO”.
- Do autoritarismo da República Velha ao varguismo. A ditadura de Vargas ( o Estado novo – 1937-1945).
- O golpe e os militares no poder.  A guerra fria e o golpe militar.
-Recrudescimento da ditadura, e edição do AI 5. O golpe dentro do golpe, em dezembro de 1968.
- Crescimento econômico e urbanização sob os governos militares. O “milagre brasileiro” de Médici.

- A distensão e abertura. De Geisel a Figueiredo.
- A vitória das oposições nas eleições de 1974, e a emergência dos movimentos da sociedade civil.
- A morte de Wladimir Herzog em 1975, e o desmonte do aparato repressivo sob Geisel.
- A campanha pela anistia.  A campanha pelas diretas já (1984). A derrota da Emenda Dante de Oliveira e a redemocratização através do Colégio Eleitoral. A Aliança Democrática e a eleição de Tancredo Neves.
- Os movimentos sociais e o impeachment de Collor. Dilemas da democracia brasileira, e o chamado presidencialismo de coalizão.


FILOSOFIA – DEMOCRACIA

- A Grécia e suas cidades-estado.
- A oligarquia e a tirania. O surgimento da democracia e da filosofia.
-Filosofia e alteridade. Sempre estamos em relação com os outros. A emergência da política como manifestação da individualidade na coletividade. O poder e o milagre da palavra no surgimento do novo.
- Os sofistas e o logos político. A arte do discurso e o surgimento do sofismo. Do sofismo a Sócrates. O surgimento da filosofia com o objetivo de compreender o mundo e tornar os homens melhores. A filosofia como amor ao conhecimento e a sabedoria.
- O cristianismo e o livre arbítrio de São Paulo. O processo de conversão ao cristianismo depende de uma decisão individual, interior. Eis o princípio do livre arbítrio, ou seja, a predominância do indivíduo perante os poderes do estado.
- A política e a democracia grega e a democracia no mundo contemporâneo.
- O despotismo oriental, e a democracia como uma tradição da cultura ocidental.



sábado, 23 de janeiro de 2016

"Como vim parar aqui?" - POR DIOGO MAINARDI



No final de 2012, eu (Mario) recebi a encomenda, por meio da agente literária Laura Susjin, de escrever um texto para a belíssima revista libanesa Portal 9 (www.portal9journal.org), editada em árabe e inglês. O tema era "Praça". Eu não podia fugir à coincidência, visto que morava numa praça, em Paris, como correspondente da revista Veja.
"Place du Palais Bourbon" foi publicado no Líbano, na primavera (no hemisfério Norte) de 2103. Quase um ano depois, a revista brasileira Dicta&Contradicta estampou uma segunda versão, "2, Place du Palais Bourbon", em que o narrador diz que o trabalho não foi aceito pelo editor libanês. Jogo de escritor.
É a segunda versão que resolvi reproduzir aqui (essa também é a graça de ser sócio de um jornal: você pode autodivulgar-se sem pudor). Espero que gostem. Há muita política nele:

2, Place du Palais Bourbon
Estou comendo uma madeleine de supermercado. Ainda que fosse uma madeleine caseira, como as que Proust comia, ela não teria efeito sinestésico em mim. E, se isso fosse possível, eu não saberia escrever como Proust. Ele teceria uma linda reflexão, por exemplo, sobre a praça em que moro, usando-a de pista de decolagem para voos vertiginosos como os de Harry Potter em sua vassoura mágica. Sim, estou juntando Proust e Harry Potter, o que é prova de como madeleines, no meu caso, reduzem ainda mais o que é já minúsculo – meu trabalho de escritor. Os bons autores, ou aqueles que se acreditam bons, usam o termo “minha literatura”, para denotar uma particularidade inerente a suas obras. Eu não ouso. Alguém que faz uma associação livre entre Proust e Harry Potter não pode falar em “minha literatura”. No máximo, pode culpar Proust por ter aberto a porta para que outros como eu pudessem fazer associações livres.
Madeleine de supermercado, Proust. A praça em que moro fica em Paris. Passo horas entrevendo-a através de uma das janelas da sala. Mas ela não me inspira nenhum sentimento. E, no entanto, é uma bela praça, em endereço elegante, com nome nobre: Place du Palais Bourbon. Fica em frente à verdadeira entrada da Assembleia Nacional francesa, cuja falsa entrada dá sobre outra praça, a da Concorde. Aqui do lado existe uma terceira. Tão grande que é uma esplanada, a dos Invalides, em cujo edifício majestoso repousa a tumba de Napoleão Bonaparte, meu vizinho mais ilustre, acho eu. Há também a praça da Igreja de Santa Clotilde, perto da minha agência bancária. O portão de ferro da igreja serve como gol para os meninos que jogam futebol no final da tarde -- e, invariavelmente, há uma bola presa entre as esculturas góticas tardias que enfeitam os arcos da entrada. Um dia, quando atravessava a praça, um menino me chamou: “Senhor, venha ver, venha ver!” Era um pato morto dentro de um saco plástico. O menino ficou esperando minha reação, mas eu só consegui dizer “que pena”. Eu não senti pena.
Como vim parar aqui, se não sou francês? Como vim parar aqui, se não sou um entusiasta de Paris, embora reconheça suas qualidades de mulher pela qual não se é apaixonado? (só para os franceses, Paris é uma cidade no masculino, “Le Vieux Paris”) Como vim parar aqui, se não fui anexado como o corso Napoleão Bonaparte? Sou um exilado. Limito-me a dizer que tive de sair do meu país natal por defender a lei no cumprimento do meu ofício. O dado irônico é que na praça em que moro há uma estátua chamada “A Lei”. É mais visível da janela do quarto. Quando acordo e abro a janela, dou de cara com a Lei.
Assim como madeleines jamais me transformariam em um Proust, o exílio não faz de mim um herói. Sou um homem e sua circunstância -- frase que, no mais das vezes, define um idiota. Mas não me sinto um idiota. Não sinto nada. É bom não sentir nada. É bom não sentir nada a respeito de si próprio. E não tenho ninguém a meu lado que possa ter uma opinião a meu respeito. É bom não ter ninguém ao lado que emita opiniões sobre você. Meu exílio é solitário como o último sanduíche de presunto ou atum que corro a comprar antes que a loja da rue de Bourgogne feche e eu fique sem jantar. Não julgue minhas linhas autocomplacentes, como o editor da revista libanesa que encomendou este – conto, ensaio, autografia? Elas só expressam o meu cotidiano. Os sanduíches são bons, e eu poderia ser mais organizado e fazer compras suficientes para não ter de sair correndo em busca da refeição noturna.
A Place du Palais Bourbon ajuda a que eu não sinta nada. Nela, não há crianças, não há fontes, não há árvores, não há bancos, não há namorados, não há bancas de jornal, não há vendedores de crepes, cachorros quentes ou badulaques turísticos. É uma praça de pedra, cercada por edifícios que datam do final do século XVIII e de meados do século XIX, dominada pela estátua “A Lei” e por uma bandeira da França em cima do pórtico da assembleia. Um pórtico com um relógio que, à noite, exibe um mostrador verde-limão. Às vezes, sinto algo, admito — que sou um estranho como o verde-limão do relógio. Mas não sei dizer se é um sentimento em relação a mim ou à praça. Talvez sejam dois sentimentos que se fundem. De qualquer forma, eles esvanecem rapidamente, e eu passo a meu presente estado natural: o de não sentir nada.
Eu diria que a Place du Palais Bourbon é uma cenografia da origem disso a que chamamos praça. Minha tese literária é que as praças nasceram como simulação urbana das grandes clareiras que proporcionavam a nossos ancestrais pré-históricos a sensação de amplidão. Era perigoso sair ao aberto de uma clareira, animais predadores e inimigos de tribos rivais sempre à espreita, mas o impulso devia ser irresistível. Finalmente, o céu. Finalmente, o horizonte infinito. Há um bom pedaço de céu sobre a Place du Palais Bourbon. A lua quase sempre permanece enquadrada na janela da sala próxima à mesa em que trabalho. Não sinto nada em relação à lua. Ela não evoca reminiscências, amores ou curiosidade sobre a origem do universo. A lua da Place du Palais Bourbon é só um ponto branco, ora maior, ora menor, nas noites límpidas. A lua da Place du Palais Bourbon é um rochedo morto que projeta sua luz morta sobre pedras mortas.
De simulações de clareiras, as praças passaram a ser cenários em que o céu e o horizonte só ampliavam o infinito de nossas crenças arrogantes, de nossas ideias boçais. Na Atenas antiga, as praças serviam à filosofia que elevou o homem a uma transcendência inexistente e à democracia dos poucos iguais. Na Roma dos césares, as praças serviam ao circo feroz proporcionado pelos poucos iguais ao restolho humano. Na Idade Média, as praças eram palco de autos de fé. Boa parte das praças ainda são extensões de igrejas. A mais monumental delas, a de San Pietro, em Roma, foi idealizada por Lorenzo Bernini, para que todos nós nos sentíssemos pequenos diante da Igreja Católica – e reverentes ao poder divino, representado por ela. Em San Pietro, eu me senti alegremente pequeno quando a conheci. Depois, comecei a não sentir nada quando ultrapasso o jogo barroco das colunas de Bernini e adentro o espaço projetado por ele.
Há também praças em que predominam símbolos do poder temporal. A praça da Signoria, em Florença, com seu Palazzo Vecchio, é uma das mais célebres. A primeira imagem que me vem à cabeça é a de uma noite chuvosa em que eu, acompanhado já não me recordo de quem, estava indisposto para apreciar a sua arquitetura magnífica. Um enjoo permanente, quase quimioterápico, tomara conta de mim na enésima visita à sala de visitas dos florentinos (aí está outra função das praças italianas). Anos depois, não muitos, estive em outra praça do poder temporal: a Tiananmen, em Pequim, na qual sobressai a fotografia de Mao Tsé-Tung pendurada na muralha do antigo palácio imperial. Lá, a imagem da Lei é o rosto redondo de Mao. Quando visitei a praça Tiananmen, fiquei perturbado com a quantidade de gente andando ao redor da bandeira chinesa no centro daquela imensidão desprovida de arquitetura. Não fiquei triste porque o regime havia matado lá um grupo de estudantes, vinte anos antes. É difícil entristecer-se diante da fotografia de Mao. Em Tiananmen, só senti o ridículo da ideologia que mata a tristeza, mata a alegria, mata a clareira.
Pela televisão e pelos jornais, acompanhei a multidão que ocupou a Praça Tahrir, no Cairo, para exigir o fim da ditadura egípcia. Assim como em Pequim, as grandes praças se transformaram em lugares de demonstração popular. Eu não sinto nada em relação a demonstrações populares. Minto. Sinto medo. A massa como um organismo único, dotado de vontade própria, é um monstro e, como tal, me assusta. Jamais irei à praça Tahrir. Pela televisão e pelos jornais, sua primavera pareceu-me um verão violento e nada mais.
Eu não tenho muito mais a dizer sobre praças, porque não tenho muito mais a dizer sobre mim ou sobre o mundo. O editor libanês não gostou de eu não ter muito mais a dizer sobre praças. Esse era o tema do número para a qual fui convidado a escrever. Ele até toleraria o que julgou ser autocomplacência, mas queria um sabor nacional em troca. Errou de cozinheiro. Sou sensaborão feito uma madeleine de supermercado. Queria também que eu discorresse sobre o meu exílio. Eu disse não. Assim, meu esboço – de conto, ensaio, autografia? -- foi rejeitado. Eu não tenho problemas com rejeição.
Na falta do que fazer, agora que cai a noite na Place du Palais Bourbon, e com a liberdade de ter sido recusado, decidi arrematar esta encomenda. Sabor nacional: as praças do meu país não passam de buracos mais feios do que o horror circundante. São povoadas de mendigos, traficantes, drogados, ladrões, prostitutas. Fedem a urina. Fim do sabor nacional. Sobre a minha relação com praças de verdade, não tenho a paixão antropológica que me permitiria apreciar aquelas que parecem simular tão-somente clareiras, como a dos museus em Amsterdam. As ruínas de Grécia e Roma deixaram de me emocionar, porque nelas só vejo a semente de nossa arrogância. Não acredito no Deus católico e, por isso, as grandes praças a ele dedicadas não me sensibilizam com a sua arquitetura que diminui o homem não à sua exata proporção, mas o reduz ainda mais a fim de engrandecer um ser sobrenatural que nós próprios criamos à nossa imagem e semelhança. Nas praças de Deus, ficamos menores porque nos vemos maiores do que somos, eis o paradoxo. Sou tão indiferente ao poder que já não desfruto histórica e esteticamente das praças construídas em homenagem a governantes. Temo a massa e, assim, fujo das que servem como palco para suas demonstrações, por mais justas que possam parecer.
O que me restou foi a Place du Palais Bourbon. Mas a sua beleza pétrea é desgastada continuamente pelos automóveis que a volteiam. No fundo, ela não passa de uma rotatória, em cujo centro está a estátua da Lei. Talvez eu devesse fechar as cortinas para nunca mais olhar a Place du Palais Bourbon. Talvez eu devesse procurar uma praça dentro de mim. Uma praça em que um menino brincava, e imaginava figuras desenhadas no céu vespertino, e projetava o futuro, e conversava com amigos. Um lugar tão comum quanto um lugar-comum. Mas eu teria de criar do nada esse menino. Eu teria de erigir do nada essa praça interior. Não posso, não ouso. Não sinto nada a meu respeito. O nada tem gosto de madeleines de supermercado. É bom poder comprar madeleines de supermercado.
"Quando abro a janela, dou de cara com a Lei."

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Fernando Gabeira: Das Cinzas ao carnaval


- O Estado de S. Paulo

A Operação Lava Jato começou o ano desatando fios de várias meadas. Um deles, as mensagens telefônicas do ex-diretor da OAS Léo Pinheiro. No vácuo político do recesso, a única variável com poder de alterar o quadro é o curso da Lava Jato e de outras operações da Polícia Federal.

As mensagens de Léo Pinheiro comprometem o ministro Jaques Wagner em alguns pontos. Um deles, sua interferência num fundo de pensão, a pedido da OAS. Negócio de R$ 200 milhões. Mais ou menos no mesmo período vazou trecho da delação de Nestor Cerveró também comprometendo Wagner. Desta vez na construção de um prédio destinado a abrigar a direção financeira da Petrobrás.

Cruzo os dados não para demonstrar culpa de Wagner. Mas para reafirmar que a Lava Jato é uma espécie de termômetro que permite vislumbrar ao menos algumas nesgas do futuro. No caso de Lula não poder disputar em 2018, Wagner era uma espécie de plano B. Há pedras no caminho.

As mensagens de Léo Pinheiro expuseram ainda mais o superexposto Eduardo Cunha. Trabalhavam intimamente, Cunha era um lobista da OAS. Eram tão próximos que combinavam doações que seriam feitas por empresa adversária, a Odebrecht. Na intimidade do diálogo com Léo Pinheiro, Cunha chamava a Odebrecht de “os alemães”, expressão usada nos morros do Rio para designar os rivais de outra área.

Eduardo Cunha já está enredado até a medula. E na troca de mensagens com o diretor da OAS ainda expôs outros políticos do PMDB e até a campanha de Temer para vice. Sinal de alerta para o futuro do partido. Lobão já teve seu sigilo bancário quebrado. Até que ponto é possível prever o futuro do PMDB antes do fim da Lava Jato?

O PSDB também aparece em delações premiadas. A primeira denúncia foi de Paulo Roberto Costa: teria pago R$ 10 milhões a Sérgio Guerra, então presidente do partido, para tornar inviável uma CPI da Petrobrás. Novos vazamentos da delação de Nestor Cerveró revelam que ele denunciou uma propina de US$ 100 milhões no período de Fernando Henrique Cardoso, paga por um negócio feito na Argentina, a venda da petrolífera Pérez Companc.

Tanto Sérgio Guerra como o ex-presidente da Petrobrás Francisco Gross já morreram. Mas isso não impede a investigação dos fatos, no momento muito vagos ainda. Mas se a Operação Lava Jato tiver a mesma duração de quatro anos da italiana Mãos Limpas, terá condições de iluminar ao máximo o período, para a nova fase da democracia brasileira começar a cumprir as promessas que vêm lá da luta pelas diretas.

O PT reclama de vazamentos seletivos. Tem vazado geral, para todos os lados. Parte do PP está atrás das grades. O problema do PT, além do volume, é o amplo domínio da máquina, a corrupção como forma de governo. Não bastasse Pasadena, surgiu agora Moamba-Major.

Esse é o nome de uma barragem em Moçambique, feita pela Andrade Gutierrez. Os africanos precisavam abrir uma conta no exterior, o governo brasileiro decidiu suspender essa condição para facilitar um empréstimo do BNDES de US$ 320 milhões. O banco afirma que foi uma operação normal e não viu risco no empréstimo. A resposta desse e de outros enigmas está na própria Lava Jato, pois deve começar logo a delação premiada da Andrade Gutierrez.

Como a agenda da Lava Jato domina os futuros passos políticos, o começo do ano novo é só um prolongamento do velho. Outra variável de peso que vem de 2015, a economia se degrada e o governo ainda me parece perdido. Ao mesmo tempo que lança metas inalcançáveis para melhorar suas contas, como CPMF e reforma da Previdência, orienta os bancos oficiais a facilitar o crédito.

Volta e meia se fala nas reservas nacionais, em detoná-las para criar um impulso na economia. O Brasil tem muito dinheiro, vamos gastá-lo. Mas o Brasil tem dívidas. Contando direitinho, ativos e dívidas, sobra menos do que parece. Além de ser pouco para o que pretendem, vai nos deixar totalmente na lona. Jaques Wagner disse que o governo não tem nenhum coelho na cartola para superar a crise econômica. A impressão é de que, se o tivesse, teria tirado. O enfoque da magia não foi rejeitado. Só acabaram os truques.

As variáveis Lava Jato e crise econômica não conseguem fechar o quadro. Mas influenciam uma terceira que, em combinação com elas, pode resultar na mudança.

Apesar de manifestações aqui e ali, a sociedade ainda não se pôs em movimento este ano. Até que ponto se vai manter distante? Não é uma passividade qualquer: cada vez recebe mais dados negativos sobre o País e seus governantes. É uma passividade informada. Ao menos tem os dados para avaliar, sabiamente, a hora de passar de um estado para outro, a hora de agir.

Dizem que o ano no Brasil só começa depois do carnaval. Mas o fluxo de dados não para. Ele transborda no carnaval em marchinhas, máscaras, fantasias e passa ele mesmo a ser um dado na própria análise da crise. Mesmo porque até o carnaval muita gente pode sambar.

A História não tira férias de verão. Já temos uma espécie big data dos escândalos, enriquecido diariamente com revelações, cruzamentos, checagens.

Sabemos que as chances de Eduardo Cunha ter feito fortuna no mercado são menores do que ganhar a Mega-Sena. As chances de os negócios de Cunha terem rendido o que declarou é de 1 em 257 setilhões; as de ganhar a Mega-Sena, 1 em 50 milhões. É o que diz um documento do inquérito. Não era preciso fazer tanta conta.

Melhor é apressar o passo. Num certo nível, o Brasil ganha credibilidade internacional com a Lava Jato: as investigações são independentes e nos põem no limiar da maturidade democrática. Em outro, as hesitações e fantasias diante da crise econômica agravam o quadro e solapam tal credibilidade.

Na Quaresma voltam os políticos. Mais uma variável da equação. Que instinto os moverá nessa volta, o de sobrevivência? Continuarão dançando na beira do abismo? Nessa hora o carnaval já terá passado. É 2016.

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*Fernando Gabeira é jornalista

Nelson Motta: Perguntas que não calam

• Os roubos para fins políticos deveriam ter um agravante de um terço da pena, pela amplitude dos danos que provocam

- O Globo

Roubo com fim político deveria ter uma pena maior. Com uma imensa população que adora futebol, grandes redes de televisão, patrocinadores poderosos, excelentes estádios, fartura de jogadores, o Brasil seria o mercado ideal para investimentos muito lucrativos no futebol profissional. Até nos Estados Unidos e na China o business do futebol está bombando. Por que os clubes brasileiros estão quebrados?

O pré-sal foi anunciado como o nosso “passaporte para o futuro” e houve briga acirrada pelo butim antes mesmo de extraída a primeira gota. Com o barril de petróleo a 30 dólares e os altos custos de produção do pré-sal crescendo, logo a exploração vai custar mais caro que a venda.

Mesmo sendo presidente da Petrobras durante a roubalheira institucionalizada, mesmo que os seus diretores e os seus maiores fornecedores estejam presos, José Sérgio Gabrielli ainda não foi sequer indiciado na Lava-Jato. O que a razão e a lógica não explicam, talvez só o esotérico possa responder: qual é o terreiro baiano que protege tanto Gabrielli?

Por que políticos ladrões acham que roubar para o partido, a campanha, o projeto, é mais nobre do que para si mesmo, se o dinheiro da corrupção servirá para fraudar o processo eleitoral e a democracia, roubando dos outros candidatos e de toda a sociedade o direito a eleições justas? Para criminalizar de verdade o caixa dois, os roubos para fins políticos deveriam ter uma agravante de um terço da pena, pela amplitude dos danos que provocam.

Como o setor público tem tantas vantagens funcionais e aposentadorias tão generosas, não seria justo que os funcionários que usem seus cargos vitalícios e seus poderes para roubar também tenham as suas penas agravadas?

O sociólogo petista Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que a culpa da corrupção é do capitalismo. No socialismo e no comunismo não se rouba? Mais Estado, mais corrupção.

Por que o governo federal e o estadual, em época de penúria da Saúde, não tem vergonha de seus orçamentos milionários de (auto)publicidade, que não sofreram cortes? Para nos dizer, com nosso dinheiro, que somos idiotas?

Eliane Cantanhêde: O mistério Lula-Collor



- O Estado de S. Paulo

Precisa-se criar, urgentemente, uma comissão multidisciplinar, com policiais, procuradores, advogados, cientistas políticos, economistas, matemáticos, gestores públicos e, claro, psiquiatras, para a sociedade brasileira tentar entender a incrível relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello.

Em 28 de junho, perguntou-se exatamente neste espaço por que raios a UTC teria doado R$ 20 milhões para Collor, duas décadas depois do impeachment. Afora o detalhe de que foi mais ainda que R$ 20 milhões, a nova pergunta é por que diabos Lula teria dado de presente para Collor uma estatal preciosa como a BR Distribuidora. Nem Freud explica.

Collor é de Alagoas, Estado pequeno com apenas nove dos 513 deputados federais, e é do PTB, partido que é o oitavo da Câmara, tinha 18 deputados em 2014 e elegeu 25. Detalhe: nenhum dos eleitos por Alagoas é do partido. Então, fica difícil compreender, com base na política e na aritmética, o que Lula tanto pretendia lucrar ao entregar a BR para Collor. Certamente, não eram votos no Congresso, ou só votos no Congresso.

Lula dirá que não sabe, não viu, não ouviu falar, não deu coisa nenhuma e, aliás, quem é mesmo esse tal de Collor? Como já disse que nunca teve nenhuma relação com o diretor de Finanças e Serviços da BR Nestor Cerveró, hoje delator da Lava Jato. Mas, se Collor não tinha nada com a BR, por que e para que ele recebeu o diretor de Finanças da empresa no aconchego da Casa da Dinda? E por orientação de quem?

Juntando as pontas: o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, escreveu numa denúncia formal ao Supremo Tribunal Federal que Lula entregou a BR para Collor e loteou a subsidiária da Petrobrás em troca de apoio político. E, em delação, Cerveró disse que Lula lhe deu de presente uma diretoria (justamente de Finanças, não custa repetir...) como recompensa por sua atuação junto ao banco Schahin para desviar uma graninha para o PT.

Há, portanto, algum motivo para o presente de Lula para Cerveró, mas nada explica, à luz do dia e da lógica, que ele tenha jogado a subsidiária da Petrobrás no colo de Collor (sem trocadilho, por favor). É um mistério.

As histórias do sindicalista Lula e do “playboy” Collor cruzam em 1989, na primeira eleição direta para presidente da República após a ditadura militar. Collor não teve o menor prurido nem ao jogar na TV a história de uma ex-namorada e de uma filha de Lula. Foi um golpe baixo ao quadrado: além de não se falar da filha dos outros em vão, o próprio Collor tinha um filho em situação semelhante à de Lurian.

Collor eleito, Lula foi à forra com unhas, dentes e as feras do PT. Em aliança com policiais, procuradores e jornalistas, ele, José Dirceu, Aloizio Mercadante e os Waldomiros Diniz da liderança petista na Câmara foram expondo os Fiat Elba, as cascatas da Casa da Dinda e os dossiês do PC Farias que geraram os caras-pintadas e enterraram o mandato de Collor.

Zero a zero? Passados os oito anos de inelegibilidade, eis que Collor não apenas volta das profundezas do ocaso como é recebido com pompa e circunstância pelo adversário cruento. Abraçado a ele, Lula reduziu os embates anteriores a mera guerrinha política, previu que Collor faria um mandato “extraordinário” no Senado e meteu o ex-presidente no Aerolula. Agora, o procurador-geral informa que o meteu também na BR Distribuidora.

Dorival Caymmi escreveu e Carmen Miranda imortalizou uma pergunta que atravessa o País há décadas: “O que que a baiana tem?” E ensinou: “Ai, quem não tem balangandãs não vai no Bonfim/ Oi, quem não tem balangandãs não vai no Bonfim”. Hoje, a pergunta é outra: o que que o Collor tem? Deve ter muito rosário de ouro, uma bolota assim e põe balangandãs nisso! Não foi por Alagoas e pelo PTB que ele chegou no Bonfim. Muito menos na BR Distribuidora.

Reinaldo Azevedo: Por que Lula não é investigado?


- Folha de S. Paulo

Todos os caminhos da Operação Lava Jato levam a Lula e, por alguma razão que se perde nas brumas das apurações, ninguém é capaz de explicar, o Ministério Público Federal tampouco, por que o ex-demiurgo, convertido em verdugo da institucionalidade, não é um investigado. Ou, vá lá, para ser preciso: existe uma apuração na Procuradoria da República em Brasília para saber se ele praticou tráfico de influência em favor da Odebrecht. Dada a, digamos, onipresença do Babalorixá de Banânia nessa história, é café pequeno. Suspeito que, fosse outra empreiteira, nem isso haveria.

Dois delatores, cujas confissões já receberam a devida chancela do STF, atestam a interferência do ex-presidente no que acabou se constituindo em mais um empréstimo fraudulento ao PT. Refiro-me a Nestor Cerveró e a Fernando Baiano.

José Carlos Bumlai, o empresário que serviu para lavar a operação, confirma a sua condição de laranja. O próprio emprestador, o grupo Schahin, revela que dispensou o PT do pagamento da dívida quando conseguiu um contrato de US$ 1,6 bilhão para operar um navio-sonda da Petrobras. Dito de outro modo: o empréstimo foi pago, na prática, pela estatal. Cerveró confessa: ganhou de presente, de Lula, um cargo na BR Distribuidora por ter viabilizado o acordo do Schahin com a Petrobras. Baiano confirma.

E, no entanto, lá vai todo pimpão o inimputável da República. Vai ver isso decorre daquela maioria excêntrica formada no STF, em 2009, que decidiu que o refúgio concedido a Cesare Battisti era ilegal, mas que cabia a Lula decidir se o terrorista ficaria ou não no Brasil. Ficou. Assim, os excêntricos de toga lhe concederam a licença única para decidir contra a lei. Com mais sorte do que Aquiles, não sobrou ao petista nem o calcanhar fora das águas da inimputabilidade. Ele próprio estranha o que está em curso e contratou, por precaução, um criminalista estrelado: Nilo Batista. Tenham paciência!

Na denúncia oferecida por Rodrigo Janot contra o deputado Vander Loubet (PT-MS), o procurador-geral informa que Lula dividiu as diretorias da BR Distribuidora entre o senador Fernando Collor (PTB-AL) e o PT. E todas serviam ao pagamento regular de propina. Ao se explicar, o ex-presidente dá uma resposta estupefaciente: as nomeações seriam de responsabilidade dos partidos. Pelo visto, ele apenas fazia a divisão dos feudos.

Por nada, o senador tucano Antonio Anastasia (PSDB-MG) se tornou um investigado. Um daqueles distribuidores de propina da quadrilha do petrolão disse ter entregado dinheiro a um homem muito parecido com o parlamentar. O reconhecimento foi feito por fotografia. Inquérito nele! Foi arquivado depois porque era lorota.

Petistas têm um modo muito peculiar de raciocinar. A cada vez que surge um indício contra o ex-presidente; a cada vez que seu nome é mencionado numa tramoia, a cada vez que se adensam as suspeitas, vociferam os companheiros: "Estão vendo? Tudo isso é para atingir Lula!" Pois é... Como ele vai se mostrando onipresente no escândalo, o petralha vê confirmada a sua tese.

Assim, segundo esse pensamento peculiaríssimo, quanto mais indícios aparecem contra Lula, menos a gente pode pedir que ele seja investigado para que não se caracterize, então, uma perseguição.
Entenderam?

O PT não é apenas uma fraude política, uma fraude ética e uma fraude histórica. É também uma fraude lógica.

Por que Lula não é investigado?

Alberto Goldman: Não há pena que pague os crimes


• Não há pena que pague os crimes cometidos pelo PT contra o Brasil. Nem há perdão possível.

- Blog do Goldman

O ano de 2016 começa ainda mais “quente” que o anterior. Cada dia que passa é uma notícia mais alarmante, um susto que supera o do dia anterior.

Poderíamos citar dezenas ou centenas de episódios nos últimos 13 anos que mostram o desastre dos governos petistas no Brasil. Chegamos à crise dos dias atuais pela gestação de diversas ações governamentais que emergem e explodem na atualidade. Contudo, vamos nos fixar no episódio que parece ser o mais gritante, que nos alarma cada vez mais sob o ponto de vista não só simbólico, mas como uma das questões mais importantes e de maior repercussão na economia brasileira: o que vem acontecendo com a nossa maior empresa, a Petrobrás.

Uma rápida lembrança: comecei minha vida política, em 1956, aos 18 anos de idade, no movimento estudantil na Escola Politécnica da USP e meus primeiros pronunciamentos foram na defesa do monopólio estatal do petróleo, recém inaugurado com a criação da Petrobrás. Durante anos e anos, esse foi o mote de vários discursos nos mais diversos cenários, defendendo um instrumento importante para a criação de uma Nação soberana que queria se desenvolver em benefício do seu povo.

Em 1991 escrevi um artigo para o Estadão, com o título “A Maioridade da Petrobrás” quando defendi que tantos anos após a sua criação o monopólio precisava ser flexibilizado fazendo com que a empresa passasse a disputar os mercados, sem a proteção de uma lei já ultrapassada. Os instrumentos precisavam ser modernizados. Isto é, era preciso que se permitisse que empresas privadas buscassem e disputassem o mercado para que a nossa estatal fosse obrigada a aperfeiçoar e modernizar a sua gestão garantindo que estivesse no mercado em função de sua competência e produtividade.

Só 5 anos depois, no governo FHC, é que se decidiu romper o monopólio, mantendo a Petrobrás como estatal, sem o monopólio que a lei lhe dava, competindo no mercado com outras petrolíferas. Na Câmara, como deputado federal, presidi as duas comissões que elaboraram a modificação da Constituição e a Lei do Petróleo então em vigor.

Esse novo quadro permitiu que a empresa desse um salto de qualidade permitindo-a a se associar às empresas privadas ou disputando com elas o mercado de exploração do petróleo.
Veio o governo Lula e a coisa desandou. Todos já conhecem hoje como ela foi tratada, como instrumento de captação de dinheiro, seja para as campanhas eleitorais, seja para o enriquecimento ilícito de alguns. O grande drama não é só o desvio de 2% ou 3% que foram as propinas pagas em licitações fraudulentas, inaceitável do ponto de vista moral. O pior é que as novas direções da estatal passaram a ter a propina como objetivo único da atuação da empresa, o que a levou a tomar decisões de gestão que se mostraram desastrosas, levando a prejuízos incalculáveis.

Para agravar a situação o governo Lula fez aprovar no Congresso Nacional uma nova lei do petróleo que garantia para a Petrobrás, na exploração do pré-sal, que ela teria um mínimo de 30% de participação nas empresas de propósito específico que se formariam para a sua exploração e que ela seria a operadora única na exploração, independentemente de ter ou não os recursos financeiros e a capacidade técnica de atender à exploração de todas novas jazidas, em todos novos contratos.

O resultado visível hoje é a incapacidade da Petrobrás de atender ao que a lei lhe destina e, em função do assalto que ela sofreu, a destruição do maior patrimônio econômico que o Brasil já construiu. Suas ações valem agora pouco mais que 5 reais cada uma, e chegaram a valer, em 2008, mais de 44 reais. Uma perda que vai se aproximando de 90%!

A empresa parece ter uma enorme dificuldade em recuperação, em especial agora que o preço do petróleo caiu, no mercado mundial, a menos de 30 dólares o barril. Ela faz uma tentativa desesperada de sobreviver vendendo grande parte do seu patrimônio, inclusive sua participação na Braskem, a grande empresa química e petroquímica, criada em associação à Odebrecht. Sua capacidade de investimento vem minguando e a sua meta de extração de petróleo que já foi de 4 milhões de barris para 2020, caiu para 2,7 milhões e a cada ano se apresenta menor.

Grande parte dos seus investimentos está paralisada, sem produzir nada, ou sem qualquer finalidade. Foram gastos inúteis, que não são negociáveis, feitos apenas para gerar contratos e propinas. Um crime de lesa pátria, impagável.

Lula e seu PT, inclusive a patética figura de Dilma Rousseff, são os grandes responsáveis pela situação atual da Petrobrás e de toda economia brasileira. Não há pena a ser imposta a eles que pague o prejuízo da Nação. Nem há perdão possível.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Falsificação integral - Olavo de Carvalho


Diário do Comércio, 25 de maio de 2014 
          

Já nos primeiros dez minutos do seu debate com Flávio Morgenstern no Grêmio Politécnico, sobre a ditadura militar (ver aqui), o prof. Igor Fuser exemplificou com rara concisão a regra de que ninguém pode mentir com eficiência se não falsifica primeiro a própria Ele começou se queixando de que não há espaço para debates sobre o tema na grande mídia, onde reina a versão oficial única e indiscutível. Quem o ouvisse acreditaria, portanto, estar diante de um porta-voz da minoria amordaçada. Uma vez transmitida essa impressão, o prof. Fuser estava livre para impingir à platéia, sem temor de represálias, a mesma versão oficial à qual ele parecia se opor. E assim ele fez.
 Essa versão é a seguinte: Em 1964 um governo democrático estava empreendendo, por vias legais democráticas, algumas reformas patrióticas que alarmaram o capital estrangeiro, o qual então se mobilizou para derrubar o presidente e instaurar uma ditadura.
É o que toda a mídia alardeia há mais de vinte anos, o que se repassa às crianças em todas as escolas do país, o que se imprime e reimprime em livros e mais livros de História. E foi o que o prof. Fuser repetiu com a cara mais bisonha do mundo, bem protegido sob a sua aparência enganosa de contestador da uniformidade.
É versão cem por cento falsa.
Em primeiro lugar, João Goulart não promoveu reforma nenhuma. Falou muito em reformas, mas até o último dia o Parlamento lhe implorou que enviasse ao menos um projeto delas, coisa que ele adiou, adiou e acabou não fazendo nunca. A lei mesma da remessa de lucros, que segundo o prof. Fuser teria sido a “causa imediata” do golpe, só o que Goulart fez com ela foi sentar-se em cima do projeto, que acabou sendo aprovado por iniciativa do Congresso, sem nenhuma participação do presidente. Se a fúria do capital estrangeiro contra essa lei fosse a causa do golpe, este teria se voltado não contra Goulart e sim contra o Congresso – Congresso que, vejam só, aprovou o golpe e tomou, sem pressão militar alguma, a iniciativa de substituir Goulart por um presidente interino.
Em segundo lugar, é falso que Goulart governasse por meios democráticos. Num governo democrático, o executivo não reina como um monarca absoluto, mas obedece as leis e cede às decisões do Congresso democraticamente eleito. Goulart fez tudo o que podia para fechar o Congresso, mandou invadir com tropas militares o Estado da Guanabara, fortaleza da oposição, e prender o governador Carlos Lacerda, matando-o se resistisse (a operação falhou por um triz). Não hesitou mesmo em usar contra esse Estado o recurso stalinista da “arma da fome”, vetando, através do seu cunhado Leonel Brizola, o fornecimento do arroz gaúcho que era uma das bases da alimentação do povo carioca. Como se isso não bastasse, protegeu a intervenção armada de Cuba no território brasileiro, ocultando as provas e enviando-as, por baixo do pano, a Fidel Castro. É eufemismo dizer que Goulart tramava um golpe de Estado: seu mandato foi uma sucessão de golpes de Estado abortados.
Terceiro: não houve nenhuma, literalmente nenhuma participação americana na preparação do golpe. A famosa “Operação Brother Sam”, tão demonizada pela esquerda, nunca foi nem poderia ter sido nada disso, e só adquiriu essa aparência graças a uma vasta campanha de desinformação lançada pela KGB logo após o golpe, conforme confessou o próprio chefe da agência soviética então lotado no Brasil, Ladislav Bittman. Nesse ponto a mendacidade esquerdista chega a ser deslumbrante. Todos os jornais do país – a maldita grande mídia a que o prof. Fuser finge se opor – até hoje usam como prova da cumplicidade americana a gravação de uma conversa telefônica na qual o embaixador Lincoln Gordon pedia ao presidente Lyndon Johnson que tomasse alguma providência ante o risco iminente de uma guerra civil no Brasil. Johnson, em resposta, determinou que uma frota americana se deslocasse para o litoral brasileiro. Fica aí provado, na cabeça ou pelo menos na boca dos fúseres, que os americanos foram, se não os autores, ao menos cúmplices do golpe. Mas, para que essa prova funcione, é necessário escamotear quatro detalhes: (1) A conversa aconteceu no próprio dia 31 de março, quando os tanques do general Mourão Filho já estavam na rua e João Goulart já ia fazendo as malas. Não foi nenhuma participação em planos conspiratórios, mas a reação de emergência ante um fato consumado. (2) A frota americana estava destinada a chegar aos portos brasileiros só em 11 de abril. Ante a notícia de que não haveria guerra civil nenhuma, retornou aos EUA sem nunca ter chegado perto das nossas costas. (3) É obrigação constitucional do presidente dos EUA enviar tropas imediatamente para qualquer lugar do mundo onde uma ameaça de conflito armado ponha em risco os americanos ali residentes. Se Johnson não cumprisse essa obrigação, estaria sujeito a um impeachment. (4) As tropas enviadas não bastavam nem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, quanto mais para espalhar-se pelos quatro cantos do país onde houvesse resistência pró-Jango e dar a vitória aos golpistas.
Para completar: se não houve intervenção americana, houve sim  intervenção soviética, e profunda. Se até hoje a esquerda vociferante não conseguiu dar o nome de nenhum agente da CIA então lotado no Brasil – e, sem eles, como participar de uma conspiração? --, documentos recém-revelados provam – com  Em dez minutos, o prof. Fuser conseguiu falsificar nada menos que tudo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Parem de acreditar em escola pública de qualidade - Por: Leandro Narloch


Em vez de gastar tanto com escolas públicas e professores ausentes, é melhor transferir o dinheiro direto para os pais e deixá-los escolher a escola particular que preferem

 
O mais intrigante na ocupação das escolas em São Paulo não é o personalismo dos manifestantes e de seus apoiadores – que se alvoroçaram contra uma proposta de separação de estudantes por faixa etária, mas ficaram bem quietinhos quando Dilma cortou o orçamento do Fies, do Pronatec e do ProUni.
O pior é a crença cega em “escolas públicas de qualidade”. Eles estão há um século rezando e fazendo procissões para que a Escola Pública de Qualidade desça dos Céus à Terra. Há um século seus pedidos dão em nada. No entanto, como seguidores de uma seita fanática, não largam a fé.
Pois deveriam. Escolas públicas, para darem certo, exigem boas pessoas. Políticos, professores e diretores que pensem apenas no bem comum, e não nos seus próprios interesses.
Se uma política pública exige que as pessoas se comportem como santos, pode acreditar: não vai dar certo. As pessoas até são naturalmente benevolentes, mas não são madres-teresas em tempo integral. O desenho de uma política precisa se basear em pessoas reais, não em seres imaginários.
No sistema atual, o cidadão que recebe o serviço não pode deixar de pagar por ele ou procurar uma escola concorrente caso esteja insatisfeito. Os contribuintes são obrigados a pagar pelo serviço mesmo que não gostem dele ou não o utilizem.
Já os professores e diretores são remunerados por uma entidade distante – o Estado – e não pelos clientes diretos. Sabem que não terão prejuízo se faltarem dezenas de vezes por ano ou se os pais ficarem insatisfeitos. Não têm incentivo para inovar, cortar custos, pensar em produtos diferentes. Podem se dar ao luxo de fazer greves que duram um, dois, três meses. Se um aluno desistir de ir à escola, isso é até uma boa notícia para o diretor, que terá um problema a menos com que se preocupar.
E os políticos que coordenam o serviço não precisam melhorar o sistema – apenas fazer parecer, a cada quatro anos, durante a campanha eleitoral, que deram um jeito nas escolas. Ou falar banalidades na televisão que toquem o público mais que as banalidades dos candidatos concorrentes. É como se o síndico do prédio fosse encarregado da educação dos filhos dos moradores. Uma loucura.
Com incentivos assim, não dar certo é a regra. As notícias de jornal não deveriam tratar de escolas que decepcionaram, mas dos raros casos em que o desempenho é satisfatório. O mistério é descobrir por que algumas escolas públicas funcionam, e não o contrário.
Os manifestantes que ocuparam as escolas parecem acreditar que conseguirão convencer todos os políticos, professores e diretores a agir apenas pelo bem comum. Embriagados pelo protagonismo, gastam a voz em discursos morais sobre a importância da educação e da necessidade de “cada um fazer a sua parte”, e outros clichês.
Desculpem cortar o barato, mas já passou da hora de desistir de escola pública de qualidade. Se dependermos apenas de incentivos morais, e não de incentivos financeiros, não vai dar certo. Não adianta mudar os políticos. Não adianta gastar ainda mais em educação. É preciso mudar os incentivos.
Em vez de gastar tanto em escolas ineficientes e professores que mais faltam do que aparecem, é melhor transferir o dinheiro diretamente para a família de alunos pobres, em forma de vales, ou pelo menos passar as escolas para gestores privados.
Os pais (e não uma autoridade) decidem qual linha pedagógica preferem e qual escola escolherão para os filhos. As escolas passam a responder aos pais – e a concorrer entre si por estudantes.
Já é assim em muitos países. Nos Estados Unidos, as escolas charter (escolas tocadas por ONGs ou associações comunitárias e bancadas com dinheiro público) têm notas acima da média até mesmo quando estão em áreas pobres, que historicamente decepcionam nos índices de escolaridade. Há 180 escolas assim em Nova York; 6 mil nos Estados Unidos.
Um estudo da Universidade Stanford mostra que 53% dos alunos de escolas charter são pobres, contra 48% de escolas públicas; e 29% são negros, contra 16% em escolas públicas. Estudantes negros estudando em escolas charter leem, em média, 29 dias a mais por ano e estudam matemática 36 dias por ano a mais que estudantes de escolas públicas tradicionais.
Esse modelo não é novidade no Brasil. O governo de Goiás já está criando um sistema de escolas charter. O ProUni não é nada mais que privatização da educação: em vez queimar dinheiro em universidades públicas perdulárias que param em greve quase todo ano, melhor financiar bolsas de estudo em faculdades privadas.
Essas alternativas não são uma solução livre de falhas. É preciso evitar a “falácia do nirvana”, segundo a qual há uma solução perfeita para todos os problemas do mundo. No Chile, o sistema de voucher nem sempre incentiva a concorrência entre escolas, porque os pais muitas vezes preferem escolas mais próximas de casa que as melhores da cidade. E não se pode descartar a possibilidade de corrupção entre os políticos e os gestores privados.
Além disso, o sistema privado é diverso. Como hotéis ou marcas de biscoitos, há escolas e faculdades privadas excelentes e picaretas. As melhores universidades do mundo (Harvard, Oxford, Cambridge, Yale, Stanford) são entidades privadas que ganham uma boa dose de recursos públicos. Assim como uma penca de “uniesquinas” de baixa qualidade.
Mesmo assim, o sistema está está léguas à frente do padrão tradicional de escolas públicas. Como podem receber doações privadas, as escolas charter americanas se esforçam para manter a reputação e evitar reclamações. Algo que jamais passaria pela cabeça da maioria dos diretores de escolas públicas brasileiras.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

KARL MARX SEGUNDO ERIC VOEGELIN - SEGUNDA PARTE



3.1. A génese do socialismo gnóstico.
O ponto de partida para o movimento do pensamento de Marx parece ser a posição gnóstica herdada de Hegel. O movimento do intelecto na consciência do ser empírico é a fonte maior de conhecimento. Donde a revolta contra a religião como esfera que reconhece um realissimum para além da consciência. ADissertação de 1840-41 abre o prefácio com um ataque a Plutarco que ousa criticar Epicuro. A confissão de Prometeus "Numa palavra, odeio todos os deuses" é a sentença lançada contra os que se recusam a reconhecer a autoconsciência humana (das menschliche Selbstbewußtsein ) como a suprema divindade.
O contexto desta afirmação é o debate sobre a existência de Deus. Quaisquer demonstrações são logicamente inválidas. Os deuses são forma real apenas na imaginação e apenas demonstram a existência da auto-consciência humana. Levem papel-moeda para onde ele não é aceite, e logo verão o que acontece. Na prova ontológica, o ser que é dado é a auto-consciência humana. A forma geral das provas é esta: "Como o mundo está mal organizado, ou é irrazoável, Deus tem de existir". Isto apenas significa que Deus só existe para quem o mundo é irrazoável. Marx sumaria o argumento afirmando que a "irrazão é a existência de Deus". A soberania da consciência e a revolta anti-teística de Marx volve-se, depois, contra os sistemas de Aristóteles e de Hegel: de tal modo explicam o mundo que interrompem qualquer avanço ulterior da filosofia. Sendo impossível o aperfeiçoamento, os sucessores devem virar-se para a prática filosófica e para a crítica da situação. A mente teórica deve virar-se como vontade para a realidade mundana que existe independente dela. Esta semi-contemplação não é muito edificante. Marx estava interessado na filosofia pós-aristotélica de Demócrito e Epicuro porque sentia-a, pessoalmente, em paralelo com a situação pós-hegeliana. A cultura religiosa da Idade Média seria da "era da irrazão realizada", mais uma falácia de Marx. Na verdade, quando se atinge o impasse de Hegel e a especulação filosófica se encontra "concretizada", o que um realista espiritual deve fazer, é abandonar a gnose e regressar às experiências originais da ordem, à experiência de fé. A "necessidade" apontada por Marx era apenas um sintoma da sua revolta demoníaca contra Deus. Uma vez concretizada a auto-consciência, não concebia regressar à irrazão da fé; apenas poderia avançar para a liquidação da filosofia, a crítica radical do mundo e a instauração de novos deuses.
A atitude de revolta efectua-se historicamente mediante a incarnação do logos no mundo, por meio da acção revolucionária. Para Hegel o logos estava incarnado na realidade e poderia ser descoberto pela reflexão do filósofo. O desdobramento da Ideia não era acção humana. A gnose era contemplativa. A definição da figura histórica como pessoa cujas acções se conformam a movimento da ideia não é receita para se tornar uma figura histórica. Esta perversão da gnose activa surge com Marx.
Marx era um paráclito sectário no mais puro estilo medieval, um homem no qual o logos se incarnara e através de cuja acção a humanidade se tornaria o receptáculo do logos tal como Comte, por exemplo. Não concebeu o espírito como um transcendental que desce para o homem, mas como a verdadeira essência do homem que se revela. O verdadeiro homem deve ser emancipado das cadeias. A sua auto-consciência divina é o fermento da história. A grande revolução trará o grande homem. A pneumopatologia de Marx consiste nesta auto-divinização e auto-salvação do homem; o logosintramundano é proclamado contra a ordem espiritual do mundo.

3.2. Teses sobre Feuerbach
Após o estudo do cerne do pensamento de Marx vejamos aCrítica das Teses de Feuerbach, um verdadeiro dicionário de conceitos marxianos. Se estudadas na sua sequência de 1 a 11, seguimos o curso da pseudo-lógica. Mas se invertermos parcialmente a ordem, (11,6,7,4,8,3,1,9,10) compreendemos a especulação . Aponta-se o conflito entre filosofia e não-filosofia na tese 11: "os filósofos só interpretaram o mundo; trata-se agora de o mudar". Mas repare-se que "interpretação" e "mudança" não equivalem a "teoria" e "prática" de Aristóteles. Claro que a função do bios theoretikos é interpretar o mundo e ninguém sério sustenta que a contemplação é um substituto da prática. A prática tem relevância (es kommt darauf an). Ademais apenas se pode agir no mundo e não mudá-lo. A intenção de incorporar na prática uma atitude só é possível em contemplação. A "prática" de Marx pode mudar o "mundo" porque o mundo é compreeendido como fluxo de existência, no qual a ideia se move concretamente. O logos não é uma ordem espiritual, mas uma ideia movendo-se dialecticamente dentro do mundo. Esta praxis pseudológica é atingida se nos lançarmos ao fluxo.
O "mundo" é o fluxo concreto de história. Não existe outro destino senão o social. Marx critica Feuerbach que dissolveu psicológicamente a religião como construção ilusória do homem mas ainda deixou o homem como entidade individual. Para Feuerbach, Deus é a essência do homem, Homo homini Deus. Agora, o espectro de Deus deve ser abatido. Na Tese 6 mostra-se insatisfeito com a dissolução de Feuerbach. Afinal o indivíduo mais não é senão a totalidade das relações sociais. É o meio social que nos confere crenças (Tese 7). É esse o facto da auto-alienação religiosa; e Feuerbach reduziu o mundo religioso à base mundana. Mas falta saber por qual razão a base mundana se separa de si própria e se fixa um céu. A contradição na base mundana tem de ser compreendida e revolucionada. (Tese 4).
A vida social é essencialmente prática (Tese 8). A vida não tem dimensão pessoal nem dimensão contemplativa. Todos os mistérios que poderiam induzir o misticismo em teoria, encontram a sua solução racional na prática humana. Marx leva a cabo o fechamento hermético ou clausura do fluxo de existência prática contra todos os desvios e contemplações e condena tentativas de produzir a mudança social mediante a educação. As circunstâncias apenas podem mudar através da acção humana. A auto-transformação é a "prática revolucionária" (3). A ideia de um sujeito de conhecimento e de moral distinto de objectos de conhecimento e acção moral deve ser abolida e o sujeito concebido como objeccional,gegenstäntdliche, e a actividade humana como actividadde objeccional. A realidade deve ser concebida como actividade humana sensorial (sinnliche menschliche Tätigkeit.) (1). Em termos de tradição filosófica, a prática revolucionária é definida como fluxo existencial em que o sujeito é objectificado e o objecto subjectivado. É essa a posição da humanidade social enquanto distinta do homem individual burguês bürgerliche, (9 e 10).

3.3. Crítica do céu e crítica da terra.
A crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica. Agora o homem pode reconhecer que é o super-homem e deixar de se considerar Unmensch. A religião é a auto-consciência de um homem que ainda se não encontrou a si mesmo, a teoria geral de um mundo pervertido. Confere realidade imaginária à essência humana, Wesen, que não tem verdadeira realidade. A miséria religiosa é a manifestação de miséria real e, ao mesmo tempo, protesto contra ela. A religião é o grito dos oprimidos, "o ópio do povo", KRR p.607. A destruição da religião é o começo da libertação, não é o fim. A felicidade ilusória do povo deve agora ser substituida pela sua felicidade real. As flores imaginárias na cadeia rosacruz não foram rasgadas para que a humanidade ficasse só com cadeias e sem consolação. Deve-se quebrar a cadeia e a flor. 607 ff. A crítica do céu deve ceder o lugar a uma crítica da terra, a teologia à política.
Para levar a cabo esta crítica do direito e da política, Marx não critica instituições mas sim a Filosofia do Direito, de Hegel. Nota a diferença de tempo histórico entre a Alemanha e o Ocidente. As Revoluções francesa e inglesa aboliram o antigo regime e estabeleceram o estado nacional moderno como expressão da sociedade burguesa. Foram realizadas por uma classe mas experimentadas como representativas por nações inteiras. Nem sempre isto é possível. Uma classe tem de evocar um momento de entusiasmo, em si mesma, e nas massas que a reconhecem. "Só em nome de direitos universais da sociedade pode uma classe particular reclamar governo geral para si". Não bastam oSelbstgefühl, o pathos espiritual e a energia revolucionária. Deve também existir uma outra classe que se experimente como a esfera onde se pratica o crime notório contra o todo da sociedade, de modo a que a libertação desta classe surja como libertação geral. Por exemplo, a importância negativa-geral da nobreza francesa e do clero condicionou a importância positiva-geral da burguesia francesa como emancipadora.
A Alemanha ficou para trás porque o ancien régime continuou a existir. Nem tem uma classe cuja rudeza a tornasse representante negativa da sociedade, nem uma outra classe com energia e audácia revolucionária suficientes para se identificar com o povo. Cada classe da Alemanha está ainda envolvida em luta com as classes inferior e superior. O Estado moderno libertou o homem, na medida em que as diferenças de religião e de propriedade já não determinam diferenças de estatuto político para o indivíduo. O estado político perfeito é, por sua natureza, a vida genérica do homem. Contudo, a estrutura da vida egoísta mantém-se fora da esfera do Estado. O homem tem uma vida dupla; na comunidade política, vive como ser genérico, na sociedade vive como indivíduo privado. Ainda não chegou à liberdade através da completa socialização. Mas precisamente porque na Alemanha a situação política é anacrónica, os alemães podem radicalizar a ideia do Estado moderno. Em política, os alemães sempre pensaram o que os outros fizeram. Poderão os alemães p.613 e ss. levar a cabo uma revolução à la hauteur des principes ?
Na oposição entre a Alemanha e outras nações ocidentais, Marx é quase nacionalista. Considerava-se um autor que poderia extrair consequências práticas da filosofia hegeliana do Estado mas duvidava que os alemães a levariam a cabo. Como poderia a Alemanha fazer a revolução sem os passos intermédios já dados por outras nações europeias ? Talvez um dia a decadência geral, Verfall , da Europa tornasse a revolução política possível. A emancipação alemã não seria obra de uma classe particular mas do proletariado que, simultaneamente, faz e não faz parte da sociedade burguesa.
O proletariado é um "estamento" que é a dissolução de todos os estamentos, esfera social cujo carácter universal é devido ao sofrimento universal. É contra ele que se comete a injustiça em geral: de seu só tem a humanidade; por isso só se emancipa a si, emancipando a todos. Como é um zero de humanidade, pode ser um ganho total. Quando o proletariado anunciar a dissolução da ordem presente do mundo, apenas revelará o segredo da sua existência que é dissolução desta ordem do mundo. O proletariado será a arma material da filosofia, emancipador do homem: "A filosofia não se pode tornar realidade sem abolir o proletariado, o proletariado não se pode abolir a si próprio sem realizar a filosofia".
Marx reflecte na Reforma protestante, o passado teórico da Alemanha, uma revolução que começa pela especulação, que quebrou a fé na autoridade e instalou a autoridade de uma fé. Libertou o povo da religião externa mas deixou a religião interna. O protestantismo revelou a questão - combater o sacerdote - mas não deu a resposta certa. A luta contra o "padre exterior" foi ganha. Agora é preciso iniciar a luta contra o "padre de dentro". A guerra dos camponeses quebrou-se contra o muro da nova teologia protestante. Agora, no século XIX, ocorreu a destruição dos símbolos dogmáticos na geração de Strauss, Bauer, Feuerbach e Marx. Neste sentido, o marxismo é o produto final de um dos ramos do protestantismo liberal alemão.

3.4. Emancipação e alienação.
"Toda a emancipação é redução do mundo humano, das relações, ao próprio homem". A emancipação religiosa liquidará a consciência imaginadora de deuses. A emancipação politica converterá o indivíduo em cidadão. O homem individual ficará emancipado quando se tornar um ser com essência genérica (Gattungswesen ); quando reconhecer as suas forças como forças sociais e quando não mais separar a força social da política. A ultrapassagem do Estado é uma questão de tempo, cuja estrutura se assemelha à ultrapassagem da religião:"A constituição política foi até agora a esfera religiosa, a religião da vida popular... o céu da generalidade em oposição à existência terrena...A vida política é a escolástica da vida popular.
A alienação é o passado, a emancipação o futuro. O homem auto-alienado perde-se no além religioso, político, social, etc. O cerne da filosofia marxiana da história consiste em prever o fim das vicissitudes nas relações entre homem e natureza. O processo histórico comporta a origem animal do homem, as fases do processo de produção em que participa, a fase de auto-alienação e as possibilidades de emancipação revolucionária.
Os pressupostos reais da história crítica são os indivíduos reais, as suas acções e as condições materiais de vida. O homem distingue-se dos animais ao produzir os meios de vida(Lebensweise) desde a reprodução sexual e a divisão de trabalho ao nível familiar, até ao nível local, tribal e mercado mundial. O desenvolvimento das ideias é paralelo na política, direito, moral, religião e metafísica, A consciência é só ser consciente (bewußstes Sein). As ideologias são produto do processo material. Não possuem história própria. A história crítica deverá substituir a filosofia.
O processo material de produção é a substância irredutível da história. O trabalho humano é alienado pela especialização decorrente dos conflitos inerentes à divisão de trabalho nas condições da produção industrial para um mercado mundial. A consolidação do nosso produto em sachliche Gewalt é um notável factor de evolução. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz também o trabalhador como mercadoria. O trabalhador torna-se servo do seu objecto, nega-se a si próprio no seu trabalho. É apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores ao seu trabalho. O trabalhador poderá sentir-se livre no desempenho das funções animais de comer, beber, procriar, alojar e ornamentar-se. Mas na função especificamente humana, permanece um animal. Na abstracção que o separa da esfera de acção humana, torna-se tierisch. Só a ciência e a beleza podem conferir forma ao que o homem produz. A actividade produtiva que distingue e vida humana é degradada ao nível de meio de ganhar a vida. A existência livre torna-se meio para existência física. Esta alienação da produtividade humana é inerente à divisão de trabalho e não se resolve por aumentos salariais que nada mais são do que formas de melhorar a sorte de escravos; não conferem maior dignidade nem destino ao trabalhador. Proudhon pede a igualdade de rendimentos: mas isso apenas tornaria a sociedade em capitalismo para todos e não só para alguns. Nenhuma organização social consegue controlar as condições de existência em sociedade.
Estas considerações provam que Marx não estava particularmente impressionado pela miséria dos trabalhadores. A reforma social não era um remédio para o mal que tinha em mente. O mal é o crescimento da estrutura económica da sociedade moderna até se tornar em poder objectivo ao qual o homem se submete completamente. Entre esses males contam-se:1) Separação entre operário e instrumentos. 2) Dependência do emprego face às empresas; 3) A divisão do trabalho tal como é praticada é um insulto à dignidade humana; 4) A especialização, para aumentar a produtividade destrói a qualidade do produtor 5) A interdependência económica gera acções fora do controle humano e social.

3.5. O homem socialista.
Que espera Marx da revolução comunista ? Por estranho que pareça, as características do futuro homem socialista estão estreitamente relacionadas com o sistema industrial de produção. Marx queria reter o sistema industrial e abolir a especialização humana. O novo homem deveria ser um dia poeta, noutro dia operário, depois pescador, etc. Ser tudo de todas as maneiras sem ter de ser nada. (Ideologia Alemã, p.22) A revolução é necessária para que o homem ganhe auto-determinação (Selbstbetätigung ) e assegure a sua existência. Consistirá na apropriação da totalidade das forças produtivas e terá carácter universal. O proletário é o instrumento ideal desta revolução. Como não está limitado (borniert ) por um tipo especial de propriedade, pode subsumir a propriedade em todos. A associação universal de proletários à escala mundial pode quebrar o poder da estrutura actual económica e desenvolver a energia e carácter necessários para a revolução. Depois o trabalho será transformado em auto-realização. A comunidade ultrapassará a divisão de trabalho e cada um poderá subsumir as forças produtivas e desenvolver plenamente as faculdades humanas.
O indivíduo total, ou o homem socialista, é o objectivo da história. A libertação da propriedade seria o último acto deste drama. Só é independente o ser que se sustenta pelos seus próprios pés, que só deve a existência a si próprio, que cria a sua própria vida. E embora a ideia de criação esteja enraizada na mente humana, o ser-por-si da natureza vai contra todas as experiências tangíveis (Handgreiftlichkeiten ) da vida prática. Onde começa a grande corrente de ser ? Marx proibe essa pergunta! Tais abstracções não têm sentido. O homem que não pôe questões é o homem socialista.

3.6. Comunismo em bruto e comunismo verdadeiro
A essencialidade (Wesenhaftigkeit ) do homem na natureza torna a busca de uma essência além da natureza como inessencialidade (Unwesentlichkeit ) do ser alienante divino. Deixará de ser preciso o ateismo como negação de Deus enquanto condição de posicionamento da existência do homem. O socialismo é a auto-consciência positiva da realidade humana sem a mediação da negação religiosa. (Manuscritos 1844, 3, pp.125 e ss.) O comunismo é uma contra-ideia que visa ultrapassar um estado histórico; não é uma reforma institucional; é uma mudança na natureza do homem.
O comunismo em bruto (roher Kommunismus) pretende a propriedade privada geral e o nivelamento social. É movido pela inveja e é uma manifestação de selvajeria, Niedertracht , na comunização dos bens e das mulheres. O socialismo ou verdadeiro comunismo,wahre Kommunismus, Sozialismus, é o regresso do homem a si mesmo como ser social. É um naturalismo humanístico com a solução do conflito entre o homem e a natureza (Ms. 1844 pp.114-116).

3.7. Manifesto Comunista. Dezembro de 1846 - Janeiro 1848.
O Manifesto realiza a naturalização do homem e a humanização da natureza. Como documento de propaganda, nada acrescenta às ideias já expostas. Mas é uma obra-prima de retórica. No preâmbulo, o autor fixa a escala do seu pronunciamento. Trata-se um processo mundial, de um espectro que paira sobre a Europa. Este reconhecimento obriga o novo mundo dos comunistas a clarificarem as suas oposições ao velho mundo reaccionário. A primeira secção desenvolve a perspectiva histórica do comunismo. A história é luta de classes. A visão da sociedade moderna é ainda mais simplista e maniqueista, pois refere apenas a burguesia e o proletariado. A burguesia nasceu dos servos da Idade Média para conquistar o mundo. O seu papel revolucionário na história foi destruir as idílicas relações patriarcais e feudais. Fez milagres maiores que as catedrais, pirâmides e aquedutos; criou a produção cosmopolita, a interdependência das nações, a literatura mundial, fez o campo depender da cidade, o bárbaro do civilizado, o Oriental do Ocidental. Marx louva a burguesia em termos que jamais burguês algum utilizou, fazendo recordar o orgulho absurdo de Condorcet. O esplendor da burguesia é, porém, transitório porque será ela substituida pelo proletariado em várias fases da luta. No começo, há apenas indivíduos que lutam contra a opressão local. Com a indústria, a opressão generaliza-se. As associações de operários terão vitórias e derrotas. A proletarização crescente da sociedade lança grupos educados no proletariado. Surgem os renegados de classe devido à desintegração social. Os burgueses ideólogos juntam-se aos operários, com o que se atinge a época de Marx e Engels.
A segunda secção do Manifesto lida com a relação entre proletários e comunistas. Aqui surgem ideias novas sobre a condução do processo político. Os comunistas não são um partido em oposição a outros partidos operários mas representam o todo. É o dogma fundamental do partido comunista. Não têm que estabelecer princípios próprios distintos do movimento proletário. O que os distingue não é um programa próprio mas o nível universal da sua prática. É a chamada fórmula da vanguarda: os comunistas são a secção mais resoluta dos trabalhadores; são seus objectivos formar o proletariado em classe, derrubar a burguesia, conquistar o poder político. O resto da secção lida com a exposição e defesa dos objectivos finais do comunismo. As ideias comunistas não resultam deste ou daquele reformador (Weltbesserer ). São a expressão das relações actuais de poder na luta de classes. As teses comunistas não são pedidos programáticos para mudar a situação; pelo contrário, revelam a situação e sugerem tendências inerentes ao processo, até se conseguir a sua realização plena. Os comunistas querem abolir propriedade privada. E então ? Quase ninguém a possui ! E se os capitalistas a perderem será expropriação ? Não, porque o capital é poder social, resulta da actividade comum. Se o capital fôr convertido em propriedade social apenas perde o seu carácter de classe. O que os adversários chamam expropriação apenas transforma a situação actual em princípio de ordem pública. O mesmo tipo de argumento é depois aplicado às críticas contra a abolição do casamento burguês, nacionalidade, religião e verdades eternas.
As teses do comunismo elevam a marcha da história à consciência. Fornecem a intuição da ordem que está por vir. Condorcet está presente nesta ideia de um directório que conduz a humanidade, na marcha para o reino da liberdade. Como a história não marcha por si, o directório irá dar uma "mãozinha": a arma é o proletariado como classe extra-social, sem propriedade nem nacionalidade. A conquista do poder será um processo prolongado. Primeiro, a ditadura do proletariado; é preciso centralizar os instrumentos de produção, descapitalizar a burguesia, organizar a classe proletária, aumentar a produção. Através de intervenções despóticas na propriedade, o poder público perderá o seu carácter político por deixar de ser instrumento de classe. Virá então a livre associação em que a liberdade de cada um é condição para liberdade do outro. O Manifesto termina com o célebre apelo, "Proletários nada tendes as perder senão as cadeias. Uni-vos"

3.8. Tácticas.
Em 1850, no Discurso à Liga Comunista, Marx indicara que o principal problema não era a conquista imediata do poder mas a aliança com os grupos democráticos que o tinham alcançado, até que fosse possível traí-los após vitória futura. É a situação da Frente Popular, depois repetida em 1930 e no pós-guerra. É interesse dos comunistas fazerem a revolução permanente para que a pequena burguesia não fique contente com ganhos iniciais. Os comunistas não estão interessados em mudanças na propriedade privada mas na sua abolição; não lhes interessam reformas da sociedade velha, mas a sua liquidação. Todos os meios serão bons para manter a excitação das massas; promessas ao proletariado e ameaças à burguesia; a violência de massas deve ser organizada:"Os pedidos dos trabalhadores devem ser sempre guiados pelas concessões e medidas dos democratas".

3.9. Conclusão
Na raiz da ideia marxiana está uma doença espiritual, a revolta gnóstica de quem se fecha à realidade transcendente. A incapacidade espiritual aliada à vontade mundana de poder provoca o misticismo revolucionário. A proibição das questões metafísicas acerca do fundamento do ser; "Será possível negar Deus e manter a razão ?" destrói a ordem da alma. Mas a par desta impotência espiritual há a vitalidade de um intelecto que desenvolve uma especulação fechada. As Teses sobre Feuerbach mostram que o homem marxiano não quer ser uma criatura. Rejeita as tensões da existência que apontam para o mistério da criação. Quer ver o mundo na perspectiva dacoincidentia oppositorum, a posição de Deus. Cria um fluxo de existência em que os opostos se transformam uns nos outros. O mundo fechado em que os sujeitos são objectos e os objectos actividades, é talvez o melhor feitiço jamais criado por quem queria ser divino. Temos de levar a sério este dado para compreender a força e a consistência intelectual desta revolta anti-teista.
Por outro lado, Marx compreendeu que o crescimento gigantesco das instituições económicas num poder de influência determinante da vida de cada pessoa, inutilizava qualquer debate acerca da liberdade humana. É o único pensador de estatura do século XIX que tentou criar uma filosofia do trabalho humano e uma análise crítica da sociedade industrial. A sua obra principal Das Kapital não é realmente uma teoria económica como as de Smith, Ricardo, Mill. Está cheia de defeitos nas teorias do valor, do juro, da acumulação de capital. É sim uma crítica da economia política, uma tentativa de revelar os supostos nos conceitos da teoria económica e assim chegar ao centro da questão, ou seja, a relação do homem com a natureza e a uma filosofia desta relação, ou seja, o trabalho. Cento e cinquenta anos após Marx é duvidoso que qualquer escola de teoria económica tenha suficientemente desenvolvido este ponto.
O diagnóstico é bom. O sistema industrial está permanentemente ameaçado por impasses, por revoluções adiadas e pela subida do nível de vida. O resultado seria o comunismo bruto. Na sua construção da história, Marx concebeu o desenvolvimento das formas económicas numa humanidade abstracta com um apêndice de ideologias. De facto, o desenvolvimento ocorre em sociedades históricas com vida espiritual.
Podemos chamar "magia" à trasladação da vontade de poder do domínio dos fenómenos para o da substância ou à tentativa de operar nesta como se fosse o domínio dos fenómenos. A tendência para estreitar o campo da experiência humana à area da razão utilitária e pragmática; a tentação de a tornar a preocupação exclusiva do homem; a tentação de a tornar socialmente preponderante por pressão económica e por violência, fazem parte de um processo cultural que visa operar a substância humana através de uma vontade planeadora pragmática. Mas o sonho de criar o super-homem que sucederá à criatura divina, a ideia do indivíduo total que se apropria das faculdades do sistema industrial, para a sua auto-actividade, são empiricamente irrealizáveis. A mudança da natureza humana através da experiência da revolução é um estéril misticismo intramundano. Compreendemo-lo melhor se compreendermos Marx.

GLOSSÁRIO

der vergesellschaftete Mensch homem socializado
umstülpen inverter
Gattungswesen ser genérico descoberto no ser individual
sachliche Gewalt poder objectivo dos produtos que nos rodeiam
sinnliche menschliche Tätigkeit actividade humana sensorial
Selbstbetätigung Auto-determinação, apropriação de forças produtivas
Fetischcharakter der Warenwelt Carácter de feitiço das mercadorias
Handgreiftlichkeiten experiências tangíveis da vida prática
roher Kommunismus Comunismo em bruto,propriedade privada geral
wahre Kommunismus, Sozialismus verdadeiro comunismo/socialismo
Wesenhaftigkeit essencialidade do homem na natureza
Unwesentlichkeit inessencialidade do ser alienante divino
Lebensweise processo de produção material