quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“Coisas estúpidas” - DEMÉTRIO MAGNOLI

“Coisas estúpidas” - DEMÉTRIO MAGNOLI




Dias atrás, enquanto começavam os ataques aéreos americanos no Norte do Iraque, um alto oficial do Pentágono, o general William Mayville, esclareceu seus limites. “De forma nenhuma pretendo sugerir que nós estamos, de fato, contendo ou de algum modo destruindo a ameaça posta pelo Estado Islâmico (EI).” Os bombardeios têm os objetivos táticos de romper o cerco aos yazidis no Monte Sinjar e retardar o avanço dos jihadistas rumo a Irbil, oferecendo tempo para os curdos reforçarem as defesas de sua capital. Mas, reconheceu Mayville, “dificilmente afetarão a capacidade militar do EI ou suas operações em outras áreas do Iraque e da Síria”. Barack Obama substituiu o triunfalismo da Doutrina Bush por algo como uma doutrina de retirada estratégica. As implicações da segunda revelam-se tão desastrosas quanto as da primeira.

Até há pouco, a política externa de Obama sofria apenas críticas públicas dos republicanos, que nunca acertaram as contas com a falência da visão neoimperial de Bush. A proclamação do califado jihadista do EI, contudo, provocou uma ruptura na aparente unidade dos democratas – e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton expôs o cisma à luz do dia. Numa longa entrevista à publicação The Atlantic, a provável candidata presidencial disparou obuses certeiros contra a “doutrina Obama”. Hillary disse que “grandes nações precisam de princípios organizadores” e que “não faça coisas estúpidas” não é “um princípio organizador”.

“Não faça coisas estúpidas”, a expressão irônica cunhada pelo presidente para sintetizar sua política externa, é uma referência óbvia à invasão do Iraque, a “guerra estúpida” de Bush, na definição célebre de Obama. Mas a síntese pela negativa representa também uma adesão ao sentimento isolacionista que perpassa a sociedade americana. Uma expressão sofisticada da orientação política isolacionista, que emerge amiúde nos raciocínios de Obama, é a crítica à noção neoconservadora de “difusão da democracia”. Os EUA não podem moldar o Oriente Médio, ou o mundo muçulmano, segundo um figurino político desenhado em Washington. Hillary está de acordo com isso, mas rejeita as duas alternativas polares: “Quando você está se entrincheirando e recuando, não tomará decisões melhores do que quando está avançando de modo agressivo e beligerante”.

A centelha da cisão foram as decisões sobre a guerra civil na Síria, o evento crucial que congelou a “Primavera Árabe”. Como revelou em Hard choices, seu livro de memórias sobre os quatro anos à frente do Departamento de Estado, Hillary alinhou-se com as propostas de Robert S. Ford, o embaixador que indicara para a Síria, finalmente rejeitadas pela Casa Branca. Inutilmente, Ford tentou convencer o governo americano a respaldar as correntes moderadas da oposição interna síria, fornecendo armas e treinamento para suas improvisadas forças militares. Temendo as consequências de longo prazo do compromisso estratégico, Obama preferiu operar quase exclusivamente no tabuleiro diplomático.

A “coisa estúpida” seria, na análise do presidente, transferir armas que poderiam terminar nas mãos dos jihadistas. Entretanto, como registra Hillary, estúpido foi contribuir, pela inação, para o fracasso do Exército dos Sírios Livres. “O insucesso em ajudar a criar uma força combatente viável dos que estiveram na origem dos protestos contra Assad – correntes islamistas, secularistas e intermediárias – abriu um grande vácuo, que os jihadistas agora ocuparam”, pontuou a ex-secretária de Estado. A instalação de um califado do EI em Mossul, que ameaça provocar a implosão definitiva do Iraque, é uma prova de que a “guerra ao terror” não se concluiu com a eliminação de Osama bin Laden – e um indício clamoroso do erro estratégico de Obama na Síria.

As convicções de Obama sobre política externa foram esculpidas durante os anos loucos de George W. Bush, por oposição à arrogância unilateralista dos neoconservadores, e cimentaram-se na hora de sua chegada à Casa Branca, quando o colapso financeiro forçou o país a desviar o olhar para a reconstrução econômica interna. “Não faça coisas estúpidas” é um reflexo dessa experiência. Contudo, não é exato acusar o presidente de fechar os EUA na concha do isolacionismo – ou mesmo de incapacidade de formular uma estratégia geral de política externa. A estratégia existe, mas passa ao largo do Oriente Médio e subestima as ameaças postas pelo jihadismo.

Confrontado com a ascensão histórica da China, Obama promove um “giro estratégico” na direção da Ásia, uma orientação de largo alcance que se articula em iniciativas políticas, econômicas e militares. As retiradas do Afeganistão e do Iraque são componentes lógicos dessa estratégia, que também se encontra na raiz das hesitações em confrontar a Rússia no teatro da crise ucraniana. Mas “coisas estúpidas” acontecem em rápida sequência no Oriente Médio – e o desengajamento da maior potência do mundo potencializa as instabilidades geopolíticas.

A escolha errada na Síria fechou dramaticamente o leque de opções no Iraque. Mesmo assim, Obama ainda tem a oportunidade de ordenar uma campanha massiva de bombardeios aéreos contra o EI, no Iraque e na Síria, enquanto manobra na esfera diplomática para, com o auxílio paradoxal do Irã, costurar uma coalizão governamental inclusiva em Bagdá. Mas o “não faça coisas estúpidas” paralisa a Casa Branca, que opera por impulsos reativos, a reboque dos eventos. Os ataques aéreos “muito limitados”, nas palavras de Obama, junto com o desesperado fornecimento de armas aos curdos, apenas prolongam os estertores do Iraque, que se inscrevem na moldura de uma guerra regional entre sunitas e xiitas.

Hillary está dizendo que um sinal vermelho não é uma doutrina estratégica. “Coisas estúpidas”, conta-nos a história, costumam acompanhar o desengajamento das grandes potências.

A tragédia do ebola - EDITORIAL FOLHA DE SP

A tragédia do ebola - EDITORIAL FOLHA DE SP



Mesmo considerados os dilemas éticos envolvidos, é difícil criticar a Organização Mundial da Saúde por ter aprovado o uso de tratamentos não homologados na epidemia de ebola, a febre hemorrágica de origem viral que já matou mais de mil pessoas no oeste da África.

Como quase tudo no campo da bioética, decisões terapêuticas devem ser tomadas com base num cálculo que pese os benefícios reais e potenciais contra os riscos conhecidos e os apenas antevistos.

No caso específico do ZMapp, a droga que ficou sob os holofotes da mídia depois de ser ministrada a dois americanos, não há certeza quanto a nenhum termo dessa equação. Antes de ser dada a humanos, fora testada apenas em grupos muito pequenos de primatas.

Há pouco mais que a esperança, fundada em hipóteses teóricas, de que previna a infestação pelo patógeno e ajude quem contraiu a moléstia a recuperar-se.

Levando-se em conta que não existe tratamento próprio para o ebola e que a letalidade do vírus é de 60% no presente surto, tendo chegado a 90% em ocasiões anteriores, torna-se impraticável sustentar a necessidade de seguir os trâmites normais de licenciamento --que demandam anos de pesquisas-- antes de liberar o medicamento para uso humano.

O rito ordinário justifica-se quando existem alternativas eficientes ou quando o malefício provocado pela doença é limitado.

A OMS nem precisaria ter convocado especialistas para chegar a essa conclusão. Com bem menos alarde, a FDA, a agência de medicamentos dos EUA, já liberou duas drogas --o ZMapp e o TKM-Ebola-- para pacientes infectados.

Compreende-se, entretanto, que a OMS tenha optado por dar ampla visibilidade à decisão. Como os dois americanos que tomaram ZMapp parecem ter-se recuperado (embora não haja como afirmar que isso se deva ao medicamento), uma não autorização por certo prejudicaria a imagem da organização internacional.

Há certa teatralidade nesses atos. Existem no mundo 12 doses do ZMapp; nessa escala, mesmo se todos que tomassem a droga se curassem, não seria possível afirmar com certeza que ela funciona.

Ao menos por enquanto, os esforços para conter a epidemia dependem de medidas tradicionais, como tratamento sintomático, isolamento dos infectados e monitoramento das pessoas que estiveram em contato próximo com eles.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

ASSISTAM JOAN BAEZ CANTANDO BOB DYLAN


DICA DE LIVRO: Uma biografia de Josefina, mulher de Napoleão, explica o que ela tinha de atraente para ter conquistado o homem mais poderoso da época


DICA DE LIVRO: Uma biografia de Josefina, mulher de Napoleão, explica o que ela tinha de atraente para ter conquistado o homem mais poderoso da época

IMPERATRIZ CRIOULA — A nova soberana da França retratada como beleza europeia: mais diamantes do que Maria Antonieta
IMPERATRIZ CRIOULA — A nova soberana da França retratada como beleza europeia: mais diamantes do que Maria Antonieta
A DONA DO MUNDO
Uma biografia narra como a feiosa Josefina seduziu Paris e Napoleão, o homem mais poderoso de seu tempo
Resenha de Mario Mendes publicada em edição impressa de VEJA
A exemplo de outras grandes sedutoras da história – como a imperatriz Catarina da Rússia e Cleópatra -, Marie-Josèphe-­Rose de Tascher de La Pagerie não foi nenhuma beldade. Era baixa, gordota, tinha maneiras rudes e sorria cobrindo os lábios com um lenço, para esconder os dentes enegrecidos pelo consumo excessivo de açúcar durante a infância, no engenho do pai na Martinica.
Mas, se as mulheres zombavam dela, os homens se viam imediatamente atraídos por sua pele morena e pela atenção que ela lhes devotava mesmo em uma rápida conversa. “Ela os fazia pensar noboudoir“, diz a escritora inglesa Kate Williams, na biografia Josefina: Desejo, Ambição, Napoleão (tradução de Luís Santos; Leya; 512 páginas; 49,90 reais, ou 33,99 na versão eletrônica).
Historiadora e consultora da rede BBC, Kate conta a trajetória da primeira mulher de Napoleão Bonaparte com o ritmo de uma boa série de TV. Se falta profundidade de análise histórica à narrativa, ela é compensada pela rica descrição da época e, sobretudo, pelo carisma do casal de protagonistas.
O amor entre Josefina e Napoleão – foi ele quem lhe deu o nome pelo qual é conhecida até hoje – era carnal, passional e tão intenso que sobreviveu à separação (motivada pela incapacidade de Josefina, já com certa idade, de gerar filhos) para chegar à beira da morte: consta que ele teria chamado pela amada pouco antes de expirar, na Ilha de Santa Helena, em 1821, seis anos depois de ela ter sucumbido a uma pneumonia, em Paris.
Ambos compartilhavam o mesmo apego ao poder e uma notável habilidade para engendrar intrigas palacianas e diplomáticas e delas se desvencilhar. Uma ligação inflamada e inevitável desde a noite, em 1795, quando em um banquete a viúva do fidalgo Alexandre de Beauharnais se sentou ao lado do ainda jovem e tímido soldado Bonaparte. A relação é bem documentada através da extensa correspondência trocada por eles – o general francês, como se sabe, era excelente missivista.
"Josefina: Desejo, Ambição, Napoleão", de Kate Williams
“Josefina: Desejo, Ambição, Napoleão”, de Kate Williams
Nascida em 1763, em uma família de latifundiários crioulos – como eram chamados os brancos originários do Caribe -, Josefina foi enviada a Paris aos 15 anos, para um casamento de conveniência. Escapou da ruína financeira do pai, mas enfrentou um marido mulherengo e ciumento que, depois de dois filhos, a acusou de adultério e a enviou para um convento que acolhia damas da sociedade caídas em desgraça.
A partir de então teve de se reinventar, primeiro como cortesã em Versalhes – por pouco não foi parar na guilhotina, como o marido – e, depois, como femme du monde na França pós-revolucionária.
No terceiro ato de sua vida, já imperatriz – foi coroada graças a uma manobra de última hora junto ao papa Pio VII -, comprava cerca de 900 vestidos por ano e possuía mais diamantes do que Maria Antonieta. Mas dizia nunca ter sido tão feliz quanto no tempo em que corria livre e despreocupada pelo engenho do pai. Isso, nem o homem mais poderoso do mundo conseguiu lhe devolver.

domingo, 3 de agosto de 2014

HERALDO PALMEIRA: “O cangaceiro manso”, o guerrilheiro cultural, o malabarista da palavra — o imortal de verdade, Ariano Suassuna


HERALDO PALMEIRA: “O cangaceiro manso”, o guerrilheiro cultural, o malabarista da palavra — o imortal de verdade, Ariano Suassuna
(Foto: Tuca Vieira/Folhapress)
Ariano Suassuna, segundo ele mesmo: “um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente, um profeta”. Para nós, outros, um colosso, imortal de verdade (Foto: Tuca Vieira/Folhapress)
MARACATU ATÔMICO
Por Heraldo Palmeira*
Eu era muito jovem quando ouvi um professor dizer que um homem é tanto mais universal quanto mais original se mantém ao representar as riquezas da sua aldeia.
Muito tempo depois eu estava numa grande universidade carioca, envolvido com a produção de um evento dedicado à literatura musical. Naquela semana repleta de nomes conhecidos, o público mal passou de meia casa no enorme teatro.
Até que, numa tarde, foi preciso fechar as portas porque não cabia mais ninguém. Na hora marcada, o homem esguio, lépido e fagueiro entrou. Pelo meio dos comuns, como entram os comuns.
Ao tempo em que ia caminhando em direção ao palco e sendo notado, foi levando a plateia à loucura. Antes mesmo de abrir a boca, provocou uma espécie de convulsão coletiva. Todos estavam ali para viver duas horas de pura felicidade.
O homem subiu ao palco. E ninguém me contou, eu vi com meus próprios olhos: quase dez minutos de aclamação apaixonada, sem que lhe permitissem abrir a boca para uma única palavra de saudação.
O homem começou a andar de um lado para o outro, parando no centro e em cada um dos extremos do palco. A cada parada um assobio forte, com os dedos indicadores enfiados nos cantos da boca no melhor estilo moleque, espalhando seu combustível para ampliar aquele incêndio emocional.
Ali estava o homem que alguns acusaram de burguês que apropriou-se da arte popular do povo simples. Ali estava o nacionalista que reagiu mal à bossa nova, por considerá-la filha da influência do jazz. Que abominou o tropicalismo estrangeirado pelas guitarras dos baianos fantasiados de mutantes.
Ali estava quem chamou o maioral do mangue beat às falas, bradando seu nome com sotaque sertanejo: “Chico Ciência”. E que caiu em prantos na alça do caixão em sua morte prematura. Ali estava quem descia o pau em Michael Jackson, Madonna e John Lennon com astúcia de matuto. Sem machucar. Alguém que relativizava os Beatles com um displicente e gracioso “é claro que já ouvi falar deles, mas…”.
Ali estava o imortal que pouco aparecia na Academia Brasileira de Letras. Ali estava o homem acusado de muita coisa, vítima de muitas invejas e maledicências apenas por ser ele mesmo, daquele jeito. Ali estava um homem com coragem para ser original.
Ali estava um guerrilheiro cultural que fez global a arte popular que lhe acusaram de pegar emprestada do povo simples. Que trouxe o mundo para sua aldeia. Ali estava o malabarista da palavra que nos encheu de felicidade por duas horas. Simples, complexo, interativo, dengoso, matreiro, maroto, certeiro, acolhedor, tonitruante, intransigente, delicado, sedutor, sagrado, profano. Engraçado até o talo.
Ali estava, como ele dizia de si mesmo, “um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente, um profeta”.
Ali estava uma obra de arte ambulante, um maracatu atômico construído por pitadas populares e eruditas como ninguém jamais misturou. O artesão de um reino cujo mapa seguirá secreto.
Ali estava uma personalidade múltipla, o inigualável Ariano Suassuna. A quem não pude negar, num cantinho escuro daquele palco inesquecível, nenhuma das minhas lágrimas de embevecimento por ver de tão perto tamanha força da natureza.
Um Quixote solitário e genial. Um visionário com seus cata-ventos armoriais soprando brasões inimitáveis sobre a terra brasileira. Um cabra arretado capaz de contrariar o sopro comum ao afirmar que “globalização é o nome novo do velho colonialismo”. Um resistente que jamais cedeu ao computador, preferindo desenhar suas letras maiúsculas com caneta sobre papel antes de convocar a velha máquina de escrever para dar curso ao veio precioso.
Um bicho do mato multimídia manual que destroçou com gaiatice a tecnologia que tentavam lhe apresentar, e que corrigia automaticamente seu nome digitado Ariano Villar Suassuna: “Como vou escrever numa coisa que me chama Ariano Vilão Assassino?”.
Um homem que, no mundo real, me deixa de luto para o resto da vida – como um Chicó ou um João Grilo sem pai, a quem resta se agarrar à proteção de Nossa Senhora Compadecida dessa orfandade cultural.
Um homem que, nas terras da Pedra do Reino, seguirá imperador rindo da morte Caetana para todo o sempre. Como cabe aos colossos imortais.
Veja aqui o relato do dia em que um papangu de vazante tentou converter um maracatu atômico:
*Heraldo Palmeira é documentarista e produtor musical.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A VOLTA DA ASTROLOGIA. Texto de Olavo de Carvalho

Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick
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A VOLTA DA ASTROLOGIA.
 
                                                     Texto de Olavo de Carvalho
 
    Ainda hoje, quando falamos em astrólogos, muita gente pensa em homens sinistros de chapéus pontudos, a contemplar o céu de suas altas torres e a interpretá-lo segundo seus delírios. E, no entanto, eles já estão penetrando nos gabinetes e laboratórios da ciência, misturando-se entre químicos, biólogos, meteorologistas, médicos e financistas. . .
    No século passado, Carl Gustav Jung anunciou a volta da astrologia às cátedras universitárias. Na época, isso era verdade apenas em algumas raras escolas de psicologia na Suíça, onde pioneiros corajosos, como o próprio Jung, incentivavam ou promoviam cursos semi-oficiais de astrologia, à noite, para os futuros clínicos, sob os olhos complacentes dos velhos reitores.
    Hoje, a Universidade de Stanford, a Escola Técnica Superior de Zurique e mais sete universidades em todo o mundo promovem estudos regulares sobre a astrologia. Na Universidade de Paris (e a França é o pais mais conservador face a astrologia), o professor Robert Jaulin, no curso de etnologia, concede "créditos" suplementares aos alunos que frequentam aulas de astrologia, e outro etnólogo, Jacques Halbronn, fundos o Movimento Astrológico Universitario, que reúne centenas de estudantes e professores da mesma universidade, e promoveu o último Congresso de Astrologia, em Paris. Desse congresso participaram figuras do porte de um Eric Weil, professor de filosofia em Louvain e pensador de renome universal.

    Que é que houve? Mudou a astrologia ou a opinião maciça dos intelectuais está realizando um 'mea culpa' coletivo perante a arte de Ptolomeu e Kepler, que ainda há algumas décadas era considerada apenas uma diversão de excêntricos amalucados ou prática excusa para iludir a boa fé popular? De onde proveio essa revolução, transformando o que ontem era engodo e ilusão no que hoje é pesquisa profunda e reflexão grave? 

    Em 1666, expulsa das cátedras universitárias
    Para começo de conversa, quem expulsou a astrologia das cátedras universitárias não foi o avanço da ciência, como normalmente se supõe, mas uma interpretação apressada das descobertas de Copérnico. A expulsão foi decretada em 1666, por Colbert, ministro de Luís XIV, com a alegação de que a astrologia não tinha fundamento cientifico.
    Na realidade, a ciência da época não tinha condições mínimas para averiguar isso realmente, e a primeira pesquisa estatística sobre o assunto foi feita só trezentos anos depois. O que Colbert supôs foi que, como os horóscopos eram desenhados geocenteicamente - isto é, com a Terra no meio, e o Sol, a Lua, os signos e os Planetas em torno - não podiam funcionar, já que Copérnico havia demonstrado que o que estava no centro era o Sol e não a Terra.
    Colbert simplesmente não percebeu que o horóscopo não era propriamente geocêntrico mas antropocéntrico, isto é, que representava o universo centralizado não na Terra enquanto realidade física, mas no Homem, no indivíduo. O horóscopo não era um mapa físico do universo (embora fosse também isto), mas um mapa do seu significado, um mapa do sentido do universo, tal como este se apresentava para determinado indivíduo na hora e no local em que este nascia. Para esses fins, o centro do universo, o centro da experiência individual, continuava a ser obviamente a Terra (excetuando-se a hipótese de o consulente ter nascido em Marte ou na Estrela Vega), e o próprio Kepler, que calculou as órbitas heliocêntricas dos planetas, continuou a desenhar horóscopos geocentricamente até o fim dos seus dias.

    Enquanto o mapa astronômico era inteiramente objetivo e material, o mapa astrológico era ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, tal como as mandalas tibetanas, que representam ao mesmo tempo o círculo do universo exterior e o interior do homem. Esta sutileza escapou a Colbert. As universidades alemãs e suíças, mais sensatas, preferiram deixar abertas suas cátedras de astrologia, embora sem ocupantes, e foi esta brecha que permitiu a Jung anunciar uma volta triunfal. 

    Em 1945, reabilitada pelas provas estatísticas
    Essa volta não seria nada triunfal, entretanto, se não se houvesse descoberto, pouco depois, provas eloqúentes de que a relação astroHomem não é uma pura fantasia.
    Essa descoberta veio quando, em 1950, o pesquisador francês Michel Gauquelin resolveu tirar a limpo, pela estatística (sua especialidade acadêmica), a questão das "influências astrais". Desde o começo do século, o grande astrólogo Paul Choisnard pedia aos estatísticos que fizessem isso. Mas era muito difícil, porque um único mapa astrológico (feito para a hora, data e local de nascimento de um indivlduo) tem mais de mil fatores a serem levados em ponta.
    Por volta de 1945, outro astrólogo, Léon Lasson, conseguiu finalmente formular um bom método de aplicar a estatística à astrologia. Gauquelin aperfeiçoou esse método e o empregou numa pesquisa que abrangeu cinco mil mapas astrológicos.
    A pesquisa submeteu à prova uma única doutrina astrológica, porém antiga e fundamental: a de que não só determinados planetas estão associados a determinadas profissões (Júpiter à política e ao teatro, Saturno à ciência, Marte aos esportes e artes militares, Lua à literatura), como também tais planetas exercerão uma influência mais intensa, se no instante do nascimento do indivíduo estiverem colocados em determinados pontos privilegiados do céu. Esses pontos são, segundo a doutrina, o ascendente, que é a parte mais oriental da linha do horizonte, e o meio-do-céu, que é o ponto mais alto do Zodíaco (faixa dos signos) em relação a determinado lugar da Terra.
    Se a teoria estivesse certa, pensou Gauquelin, determinados planetas estariam com maior frequência no ascendente e no meio-do-céu no nascimento das pessoas cujas profissões estivessem relacionadas com esses planetas, do que no nascimento das outras pessoas. Saturno estaria com mais freqüência no ascendente e meio-do-céu dos cientistas, Marte no dos militares, Júpiter no dos políticos e atores, etc. Inversamente, seria raro um Saturno no ascendente ou meio-do-céu dos esportistas ou atores, e assim por diante. Mais ainda: seria preciso que essa freqüência ultrapassasse a média do acaso (no jargão dos estatísticos: feeqüência teórica) de maneira significativa, para se poder acreditar que o fenômeno fosse algo mais do que mera coincidência.
    Do ponto de vista cientifico, a hipótese a ser testada era um absurdo completo, mas as estatisticas foram mais favoráveis ao absurdo do que ao ponto de vista científico. Com uma freqüência que só seria possível atribuir ao acaso com uma possibilidade de 1 contra 10 milhões (isso mesmo), os planetas estavam lá onde os astrólogos diziam que estariam: Júpiter no ascendente e meio-do-céu dos atores e políticos, Saturno no dos cientistas, Marte no dos esportistas e militares, Lua no dos escritores. Inversamente, a Lua não estava no ascendente nem no meio-do-céu de quem não era escritor, Marte no de quem não era militar, etc.
    Embora tudo isso parecesse uma trama diabólica dos astros para confundir o bom senso dos pobres cientistas, Gauquelin, com exemplar honestidade intelectual, publicou os resultados da pesquisa, que se tornaram imediatamente motivo de escândalo e protestos gerais. O diretor do Instituto Nacional de Estatística da França, Jean Porte, convidado pelos adversários de Gauquelin a desmascarar a farsa toda, refez os cálculos e informou depois de algum tempo: lamentavelmente, os cálculos estavam certos. Ainda assim, Gauquelin refez a pesquisa, desta vez reunindo nada menos que 25.000 mapas, na França, na Bélgica, na Holanda, na Itália e na Alemanha, e chegou novamente aos mesmos resultados. Novamente Jean Porte refez as contas, e novamente elas estavam impecáveis.

    Recentemente, nos Estados Unidos, a revista The Humanist publicou um abaixo-assinado de 186 cientistas contra a astrologia. Em resposta, vieram centenas de cartas a favor, e The Humanist resolveu arbitrar a questão promovendo uma pesquisa igual à de Gauquelin, com amostragem menor mas controle estatístico maior. Os resultados, pela terceira vez, foram os mesmos. (No Brasil, durante um debate na TV, o abaixo-assinado de The Humanist foi exibido como o sumo argumento antiastrológico por um psiquiatra, que obviamente não contou a continuação da história . . .) 

    Agora, resta saber qual e natureza do fenómeno
    Todos os debates que houveram serviram para mostrar que a astrologia é um assunto infinitamente mais completo do que seus opositores jamais imaginaram.
    Exemplo. Quando não pôde mais negar os resultados da pesquisa, o mais feroz adversário francês da astrologia, o astrônomo Paul Couderc, então chefe do Observatório de Paris, julgou ter descoberto um argumento fulminante ao declarar que uma correlação era uma coisa, e um mecanismo de causa e efeito, outra; que a pesquisa Gauquelin havia estabelecido uma correlação entre os astros e o Homem, mas não havia de modo algum provado que os astros causam as ações humanas, "como pretendem os astrólogos".
    Os astrólogos limitaram-se a exibir os textos clássicos da sua arte, desde a Tábua de Esmeralda de Hermes Trimegisto (milênios anterior a Cristo) e as Enéadas de Plotino (século 39) até os tratados de Paracelso (século 15), Kepler (século 16) e Robert Fludd (século 17), em que por toda parte se explica a relação entre os astros e os homens como um processo de semelhança, de analogia, de simpatia, de correlação, de sincronismo, e nunca de causa e efeito.
    E completaram: nenhum astrólogo jamais disse que os astros causam as ações humanas, pela simples razão de que o principio de causa e efeito, tão importante para o cientista materialista, é, para os astrólogos, um principio menor e secundário. O princípio maior é a lei de analogia, mediante a qual o grande e o pequeno, o macrocosmo e o microcosmo, a matéria e a consciência, têm uma estrutura e uma dinâmica semelhante, já que são apenas faces diversas do mesmo fenômeno.

    O pobre Couderc jamais imaginou que estivesse mexendo num vespeiro tão grande. Desde essa época, praticamente cessou a polêmica rasteira tipo pró-e-contra a  astrologia, e desencadeou-se um debate teórico de alto nível sobre a natureza do fenômeno revelado pela pesquisa Gauquelin. Se não se tratava de uma relação de causa e efeito, que relação era então? Um sincronismo, como pretendia Jung? Ou, como afirmava o próprio Gauquelin, tenaz estudioso dos biorritmos, existe em cada ser vivo um "relógio cósmico" que o torna receptivo a todos os ritmos do universo ao seu redor? Qual era precisamente o sentido com que os antigos falavam em "analogia"?  Não seria a analogia um instrumento mental utilizável pela ciência, para a análise de fenômenos demasiado grandes e complexos, como a dinâmica da vida social e política, os grandes sistemas ecológicos, a economia das grandes nações? Não teriam os antigos astrólogos tido, milênios atrás, a intuição de um método cientifico para a abordagem de grandes problemas? Não teriam feito, como disse Lucien Malavard, "ciências humanas avant Ia lettre"? Esse é hoje o grande debate astrológico, que envolve algumas das questões mais contundentes e vivas da cultura contemporânea e ocupa alguns dos melhores cérebros da atualidade. 

    Os astros na religião, na biologia, nas finanças . . .
    Paralelamente, prosseguiram as pesquisas. No campo da história, foi possível obter uma vasta coleção de evidências em favor da tese da astróloga Marcelle Senard (e de todos os astrólogos tradicionalistas), segundo a qual o Zodíaco é uma espécie de chave universal de todas as religiões.
    Aplicando um método estrutural a praticamente todas as religiões e mitologias do mundo, o historiador Jean-Charles Pichou descobriu que existem apenas doze mitos básicos em todos os povos e lugares, e que esses mitos se sucedem segundo uma ordem mais ou menos regular.
    Essas estruturas básicas são nada menos que os doze signos do Zodíaco. O trabalho de Pichou é demasiado revolucionário e demasiado volumoso para poder ser endossado ou contestado em bloco, mas certamente permanecerá como um clássico na historiografia das religiões.
    Os biólogos também descobriram algumas coisas agradáveis aos astrólogos. Primeiro, simples correlações entre ciclos planetários e o metabolismo de animais e plantas estabelecidas por Frank A. Brown, da Northwestern University, EUA (o que não tem valor astrológico direto, mas constitui indicio favorável ao tipo de interdependência postulado pelos astrólogos, e que até 40 anos atrás era considerado mera ficção). Depois, um vendaval de confirmações da antiga correlação - esta, puramente astrológica - entre a lua e a fertilidade. Um pesquisador tcheco, Eugen Jorias, médico e astrólogo, chegou a estabelecer um processo astrológico de previsão de períodos de fertilidade das mulheres pela posição da Lua no instante do seu nascimento. Uma pesquisa feita pelo governo tcheco encontrou 94 por cento de acerto no método Jonas.
    Em seguida, o neurologista Leonard Ravitz, da Duke University, descobriu que mudanças marcantes de potencial elétrico emitido pelo corpo humano ocorriam segundo as fases da Lua e, mais ainda (coerente com a doutrina astrológica de que a Lua está relacionada com as doenças mentais, donde a palavra lunático), que nos pacientes psicóticos tais mudanças eram nitidamente mais agudas do que nas pessoas mentalmente sadias.

    Mais recentemente o economista norte-americano L. Peter Cogan procurou averiguar em que medida os ciclos de pessimismo e otimismo dos investidores, com reflexos nítidos na bolsa de valores, coincidiam com posições planetárias. Abarcando o período de 1873 a 1966, seu estudo concluiu que tais ciclos respondiam simetricamente às posições do Sol com relação a Saturno e Urano (planetas que, segundo a astrologia, regem o capitalismo). Os ciclos de pessimismo correspondiam às relações de 180 e 90 graus (ângulos "maléficos", segundo a tradição astrológica). 

    "Bem-aventurado aquele que pode ler no céu estrelado"

    Ao lado disso, o médico holandês Nicholas Kollerstrom, pesquisador do Medical Research Hospital de Londres, refazendo uma experiência do filósofo Rudolf Steiner, de 
    monstrou que certas reações químicas com tons metálicos têm seu resultado alterado quando realizadas sob determinadas conjunções planetárias. Kollerstrom observa que os planetas que tiveram o poder de alterar essas reações foram precisamente aqueles que, segundo a tradição astrológica, estão relacionados com os metais que, em solução, ele usou na experiência. Saturno, cujo metal tradicional é o chumbo, alterava as reações com sulfato de chumbo, e ficava indiferente às demais; a Lua, cujo metal é a prata, só mexia com o nitrato de prata; Vênus só alterava o sulfato de cobre, já que seu metal é o cobre; e Marte, que rege o ferro, alterava as reações de sulfato de ferro.

    Paralelamente, médicos e biólogos de todo o mundo vêm estudando, até sob o patrocínio da Unesco, as relações entre os ciclos planetários e os ritmos biológicos e emocionais humanos, sob o nome de biometeorologia ou de biopsicometeorologia.
    Diante da convergência de tantos caminhos em direção a um fenômeno que há algumas décadas era negado em bloco, os entusiastas da conexão entre homens e astros exultam de alegrias e esperanças. Mas o que importa não é isso, e sim estudar esse fenômeno, aprender a contempla-lo e a compreendê-lo. Épocas inteiras o ignoraram. Kant e sua época viam acima de si o céu estrelado e dentro de si a lei moral. Viam um universo dividido, onde a necessidade interior do homem, a lei moral, não tinha nenhuma relação com a realidade objetiva. Até muito recentemente foi assim.

    Assim no inicio do século XX, entre os horrores da Grande Guerra, o pensador materialista Georg Lukacs dizia: "Bem-aventuradas as épocas que podem ter no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhe estão abertos! Bem-aventuradas as épocas cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para elas, tudo é novo, e entretanto familiar! Tudo é aventura, e tudo lhe pertence, pois o fogo que arde em suas almas é da mesma natureza das estrelas". Ao redescobrir a pista das relações entre o cosmo e o Homem, nossa época recomeça a ver, depois de uma longa escuridão, a lei moral no céu estrelado e as estrelas no coração do Homem. 

    Olavo de Carvalho,
    nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferentes quanto Jorge Amado, Arnaldo Jabor, Ciro Gomes, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, Herberto Sales, Josué Montello e o ex-presidente da República José Sarney já expressaram sua admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho.
    A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia "científica". Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sólido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas antigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carvalho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cultura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas línguas sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, onde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que subentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muitas questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Uma Filosofia Aristotélica da Cultura — Introdução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme "O Silêncio dos Inocentes" ("análise fascinante e — ouso dizer — definitiva", segundo afirma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de cinema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento culmina em O Jardim das Aflições (1995), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de moldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro da cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte.
    É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a amplitude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que introduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mudanças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à linguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma profundidade surpreendente.
    A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmica, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos prestígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que esgotaram em três semanas a primeira edição da obra, e em quatro dias a segunda.
    Contrastando com a imagem de rancoroso ferrabrás que seus adversários quiseram sobrepor à sua figura autêntica, Olavo de Carvalho é reconhecido, entre quem desfruta de seu convívio, como homem de temperamento equilibrado e calmo mesmo nas situações mais difíceis, e como alma generosa capaz de levar às últimas conseqüências, mesmo em prejuízo próprio, o dom de amar, socorrer e perdoar.
    Roxane Andrade de Souza
    http://www.olavodecarvalho.org
    Publicado na Revista Planeta número 64

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Judeus, Cristãos e Muçulmanos Rafael Brasil - 06.10.2001

Judeus, Cristãos e Muçulmanos
Rafael Brasil

Uma das consequências mais graves do atentado terrorista contra os EUA, será, talvez, a demonização, pela mídia, dos povos, e das culturas muçulmanas. Mais especialmente, dos muçulmanos árabes. Ainda mais agora, que os falcões da direita e extrema direita parecem tomar conta da cena política. Ainda mais que, como sabemos, antes os demônios eram os comunistas, mais especialmente os russos. Depois da queda do muro de Berlim, os árabes já tinham sido eleitos como a encarnação do mal. Agora, depois dos tristes acontecimentos do fatídico 11 de setembro, as coisas evidentemente vão piorar. Imaginem vocês ser árabe e muçulmano e morar nos EUA neste momento. As perseguições e humilhações. Vejo nos jornais árabes perseguidos e até apedrejados nas ruas. Cenas horríveis, ainda mais quando conhecemos o tradicional racismo do povo americano, sobretudo dos brancos de origem anglo-saxã.

Já no Brasil, árabes, judeus e demais povos das mais variadas nacionalidades, convivem harmoniosamente há muito tempo, se destacando nas artes, na política, no comércio e nas finanças. Na literatura brasileira, mais especialmente de Jorge Amado, sempre tem um "turco" no pedaço. Falem o que quiser do Brasil, mas felizmente não temos guerras étnicas ou religiosas. Talvez a ortodoxia das religiões amoleçam nestas latitudes tropicais, e felizmente tudo acabe em festa. Claro, aqui por estas bandas existe preconceito racial, e sobretudo preconceito social. Nossas desigualdades sociais são vergonhosas, e nosso sistema judiciário e de segurança está em frangalhos. Mas Não temos problema étnicos ou religiosos comparáveis aos europeus e mesmo norte-americanos. Graças a Deus.
Portanto, demonizar a cultura árabe e muçulmana, não vale. Ainda mais que a Península Ibérica floresceu durante sete séculos, sob a dominação árabe. Que, diferentemente dos cristãos da época, eram tolerantes em relação à religião. Os conquistadores muçulmanos, cobravam mesmo os tributos, e claro, a obediência. Do século VIII, ao século XV os muçulmanos tiveram uma marcante influência sobre os portugueses e espanhóis. Povos pioneiros no processo de expansão marítima, comercial e de pirataria, sobre povos, de vastas regiões desconhecidas. Por isso, sem sabermos, somos um pouquinho árabes. Ou não? Expulsos os árabes, ficaram os judeus até a inquisição. Compunham a nata da inteligência peninsular, pois, cidadãos urbanos, pertenciam aos mais diversos setores do comércio e das finanças, e, claro, das classes inferiores, os excluídos da história. Quando foram expulsos pelos cristãos católicos da contra-reforma, migraram para os países baixos, para a Inglaterra, e depois, claro, para os Estados Unidos.
Os judeus foram implacavelmente perseguidos pelos cristãos, ao longo da história. Cristãos, que perseguiram implacavelmente os povos e as culturas indígenas nas américas, exterminando e dizimando populações e culturas inteiras. Não só os cristãos católicos, diga-se de passagem. Os cristãos protestantes da América do Norte, nem se misturavam aos índios. Matava-os como passarinhos, fria a implacavelmente. Pior do que na América católica.
O cristianismo, de certa forma, origina-se do judaísmo. Uma história sagrada que começa com a criação, e a existência de um setor de homens, a quem Deus ama particularmente. Para os judeus, eles próprios, os escolhidos. Para os cristãos, os convertidos. Para quem não sabe, nós cristãos, conservamos parte da lei hebráica, como o decálogo. E o Velho Testamento, da nossa bíblia, é judaico. Como os cristãos e judeus, os muçulmanos são monoteístas. Para eles, alá é o Deus, Maomé o profeta, o alcorão a bíblia, o livro sagrado. Desde a Hégira, a emigração de Maomé de Meca para Medina, em 622 d.c, que a religião e a cultura muçulmanas, avançam. Islã, quer dizer submissão do homem a deus. Àquele que tem fé em Alá é denominado muçulmano. Por isso, de certa forma, todos somos um pouco muçulmanos. Ou não?
Então, é preciso ter muito cuidado com a xenofobia fundamentalista norte-americana, que tantos males causou para toda a humanidade. Infelizmente, a xenofobia, irmã dos fundamentalismos, político, ideológico e religioso, deve ser combatida pelos democratas e socialistas do mundo inteiro. Senão, como no Apocalipse, entraremos todos na era das trevas. Que Alá nos proteja.

O mundo ficou doido? - Tudo o que é sólido desmancha no ar Rafael Brasil - 21.07.2001


O mundo ficou doido? - Tudo o que é sólido desmancha no ar
Rafael Brasil
Certamente o velho Marx, esteja onde estiver, está dando umas boas risadas com a conjuntura política internacional, dita pós-moderna. As esquerdas são contra a globalização. A direita, e os sociais-democratas, são a favor. A cada reunião de países ricos, o pau quebra. Bem que eles podiam se reunir aqui em Caetés, secretamente, comendo uma buchada na casa do meu amigo Tonho Barbosa, no sítio Pedra Grande. Só assim discutiriam com tranquilidade, os rumos da globalização, e o fazer para, se não acabar, diminuir as desigualdades neste cada vez mais conturbado mundo. O interessante é que as forças de esquerda, sobretudo as mais tradicionais, subitamente esqueceram as tradições internacionalistas, lutando contra a globalização, e consequentemente as previsões mais proféticas do velho Marx, apontando para a internacionalização da economia, e suas consequentes relações sociais. Assim, paradoxalmente, a bandeira do nacionalismo, no passado propagada pela buguesia constitui-se agora na principal bandeira esquerdista. Proletários de todo o mundo: desuni-vos! Que coisa! Seria este o novo lema da esquerda tradicional? Todavia, como sabemos, não é com gritos e palavras de ordem que se pode barrar o desenvolvimento das forças produtivas, da base econômica, para usar uma terminologia marxista. A questão seria: como este desenvolvimento poderia chegar aos povos mais pobres do planeta? Como incluir os excluídos planetários numa sociedade moderna, tecnologicamente avançada, e com estruturas sociais compatíveis com o desenvolvimento humano relativamente saudável? Será que o velho nacionalista responde a essas questões? Ou mesmo o remedo de socialismos que se experimentou, totalitário e estatista? Quais os paradigmas para um novo socialismo?
As desigualdades entre as nações são extremamente gritantes. Por isso o muro de Berlim vem sendo paulatinamente substituído, por um muro, embora invisível, que separa cada vez mais acintosamente os povos ricos, dos pobres. Esta barreira está contida sobretudo nas legislações dos países ricos, que se restringem ao máximo a migração dos pobres e desvalidos do mundo. Os sem terra, sem teto, e sem países, sem estado ou nações. As barreiras ideológicas cedem lugar às economias. O que fazer? Qual o futuro de inúmeros países, sobretudo os africanos, que foram construídos artificialmente, ao sabor dos interesses neo-colonialistas? Onde a corrupção, o autoritarismo, e os assassinatos em massa dizimam populações inteiras? São as sociedades sem estado, vivendo em situações para lá de caóticas, em que milhões de seres humanos sobrevivem, deus sabe como. Em outros termos, como ajudar ou mesmo esperar que estes países façam sua revoluções democráticas, como o consequente reaparelhamento das instituições e do estado? É difícil.
Em relação a nós, países considerados "emergentes", estamos por assim dizer, no meio termo. Ou seja, de consolidação democrática, com o devagar reaparelhamento do estado e suas instituições. Só que as reformas ainda não foram concluídas, e dúvidas pairam no ar, com as perspectivas da sucessão presidencial, com as forças retrógadas e populistas, que se apresentam com chances de levar o pleito. Veremos. E o socialismo? Bem, para chegarmos lá, seria interessante desenvolvermos o nosso cartorial capitalismo, que ademais sempre sobreviveu, de certa forma, às custas do estado. O caminho, como vemos, é tortuoso, difícil, mas não impossível. Afinal, o processo de inserção no capitalismo global, implica mais tecnologia e produção, se conseguirmos fazer uma verdadeira revolução na educação. Existem outros caminhos? Talvez, mas são mais tortuosos e incertos. E de incertezas já estamos cheios. Ou não?

ATRASO NACIONAL - RAFAEL BRASIL 23.11.2006




ATRASO NACIONAL


Novamente mais um governo assume, ou melhor reassume, com a tarefa, muitas vezes difusa de empreender o crescimento econômico, única fórmula para tirar o país da miséria, incluir os chamados excluídos, os hoje dependentes das esmolas oficiais. O que ninguém diz claramente, talvez esta palavra esteja fora de moda, pois foi cunhada em torno dos anos trinta do século XIX, ou mesmo soaria politicamente incorreta, mas o país precisa é de capitalismo. Isto mesmo. O velho capitalismo livre-concorrencial aonde o estado seja forte, mas na regulamentação das atividades econômicas, ou seja, na popular institucionalização das regras do jogo. Que o estado seja transparente, e verdadeiramente democrático, no sentido de ser eficiente para a massa da população nas suas tarefas básicas, saúde, educação e segurança. Que, afinal, o estado não seja objeto de pilhagens por ratos que, costumeiramente privatizam o mesmo, com as contumazes roubalheiras, que nos fazem pensar que o bom mesmo é ser ladrão. Ademais, nunca em toda a história deste país, se roubou tão descaradamente. Precisamos urgentemente, pelo menos neste aspecto, da formação de uma espécie de antigo PT na oposição. O de hoje, comanda a ladroeira nacional, e com a maior cara de pau. Será que tudo que passou foi uma ilusão? Que estamos todos doidos? Ninguém diz, mas precisamos de capitalismo. Que a produção e o consumo sejam despenalizadas, e o estado limpo dos espertalhões.
Neste sentido, seria bom que o presidente fizesse a reforma previdenciária e do estado, propondo à sociedade e aos políticos a cortarem os salários do legislativo e do judiciário. Sete mil já dava demais para estes congressistas, que teriam suas mordomias também reduzidas. Depois o judiciário. É um absurdo um juiz do STF por exemplo, ganhar mais de vinte mil contos. Uns, descaradamente, ainda acham pouco, e dizem isso com a cara mais safada possível, a popular cara lisa, ou mesmo de pau.
Precisamos baixar urgentemente os impostos, sobretudo para quem trabalha e produz, e os programas sociais seriam realmente condicionados a algum tipo de capacitação profissional. Em economia não existe almoço grátis, diria Milton Friedman, o gênio do liberalismo recém falecido. Já que nós pagamos a conta, precisamos da contrapartida, que não pode continuar a ser nenhuma. Até a igreja já criticou a falta de critérios para tal programa, através de sua representação maior, a poderosa CNBB. Que hoje junta padres conservadores com os de passeata, num tremendo colorido, digamos, ideológico cristão.
Capitalismo, eis a palavra, é o que precisamos. Por isso, para acabar ou pelo menos diminuir a corrupção estatal, precisamos, não só de leis mais rígidas, mas profissionalizar o serviço público, tirando dos governantes de plantão o poder de nomear. Milhares de ditadorezinhos iriam chorar por esse imenso país, sem ter o direito de perseguir seus indefesos insubmissos eleitores. Os secretários das prefeituras, como educação e saúde teriam suas vagas asseguradas pelo alcance de metas previamente estabelecidas, dependendo das necessidades do lugar. Se estas metas não fossem alcançadas, seriam imediatamente substituídos, que tal? E o número de secretarias seriam estabelecidas pelos estados, ou mesmo pelo governo federal.
Para melhorar ainda, teríamos que vender o restante das estatais, a começar pela PETROBRÁS, e pelos bancos estatais. Extinguir secretarias inúteis, e mamatas historicamente estabelecidas. Seria preciso mesmo uma revolução, a tão esperada e nunca efetivada revolução burguesa e capitalista, ainda que com pelo menos duzentos anos de atraso. Nossa revolução burguesa, ainda que tardia, talvez seja a nossa esperança de que nesse século não iremos virar uma grande África, ou pelo menos um imenso Paraguai. Diferentemente da música Fado Tropical de Chico Buarque, em lugar de um imenso Portugal, nos transformaríamos num imenso Paraguai, e teríamos um “grande futuro”.
Se o nosso presidente realmente trabaiá, querendo mesmo ver o nosso país crescer e ter futuro, tem que fazer essas coisas, que soam amargas para muita gente que se acha importante nesse miserável país. Mas, um pouco depois, com algumas décadas de atraso, assistiremos o tão propalado milagre do crescimento, que afinal os leitores poderão observar que, não existe parto sem dor, como também , como foi dito anteriormente, em economia, não existe almoço grátis. Viva Milton Friedman mais uma vez, o grande neoliberal que morreu recentemente. Mas será que este presidente tem peito e sobretudo articulação política para fazer tais coisas? Não creio, mas gostaria de morder a língua.

PISANDO NO TOMATE - 02.11.2006




PISANDO NO TOMATE 

Mal ganhou as eleições, Lula e lulistas já começaram a fazer besteiras. O problema é que, muitos pseudo-intelectuais petistas, são mesmo mentirosos de carteirinha, e, pensam que podem fazer, como no tempo do stalinismo, que a mentira prevaleça sobre os fatos, que exprimem a busca da verdade. Querem porque querem, que a imprensa, e parte da intelectualidade não vendida ao petismo de plantão, peçam desculpas pela não existência do mensalão. Ora vejam: Se o próprio procurador da república afirmou que, naquele caso, havia pelo menos quarenta ladrões da alta cúpula petista envolvida até o gogó com a história, como não existir tais fatos? Como não existir mensalão? Nas cabeças stalinistas do governo? Ainda mais, na entrada do próprio palácio, jornalistas da veja e da rede globo foram hostilizados por , não só militantes, mas funcionários lotados no palácio, o que é um absurdo. E, pior, o próprio presidente abriu a boca para falar da imprensa, não só ele, mas seu séqüito, como Marco Aurélio Garcia, dublê de diplomata, e Ciro Gomes, o novo stalinista do nordeste. Querem dizer que tudo o que acinteceu foi culpa da imprensa, que todos são extremamente limpos. Vocês acreditam nisso? E todos com àquela postura autoritária, achando que quem ganha eleições estaria impune às roubalheiras e falcatruas mil. Estaria institucionalizado o “rouba mas faz” do velho Ademar de Barros, o Maluf dos anos cinqüenta de São Paulo.
Um governo que precisa de acordos no congresso para aprovar inúmeras reformas institucionais que o país precisa, pisou de sola na oposição, cobrando moderação e parcimônia da mesma, acenando com um mito que desde a redemocratização volta à tona, o mito do pacto social. Ora, vivemos numa sociedade pactuada pela democracia, há mais de vinte anos. Como bem respondeu Serra, oposição é oposição, quem deve governar é o governo, ora bolas. Claro, se for do interesse nacional, uma oposição conseqüente deve sentar para conversar. Não deve ser é como o PT e Lula no passado recente, quando se negou terminantemente a negociar qualquer coisa com o governo. Estão lembrados? É. Perece que muitas pessoas são desmemoriadas, ou pelo menos minimizam a inteligência dos outros.
Como sabemos, o governo tem que governar, tem maioria no congresso para tal, tem a maioria dos governadores, então mãos à obra. Chega de palavreado. Onde está a pauta de reformas? Por onde o governo pretende começar? O governo pretende abandonar a ortodoxia econômica? O que fará para cortar gastos? Nossa política externa continuará a seguir a cartilha ideológica terceiro-mundista? Ou ficaremos na mesma, com o presidente fazendo comícios, e empurrando tudo, ou quase tudo com a barriga, tal qual fez no governo passado? Fico com a última alternativa. E se aparecer mais casos de corrupção no governo, e ficar provado que tais casos tenham uma ligação mais evidente, digamos do que com os casos recém encontrados e exaustivamente relatados pela imprensa? Vão fechar os jornais? Vão botar a polícia federal em cima de todos? Vão instalar uma republiqueta autoritária, tal qual fez Chávez na Venezuela? Não creio, pois a democracia, embora diariamente vilipendiada sobretudo por seus principais dirigentes, por aqui está mais consolidada. E acho que o exército aqui não deixaria. Mas quando quase toda imprensa era petista, claro eles não reclamavam. Antes pelo contrário. 
Veremos o que vem por aí. Ou o que não vem. Ou o governo faz as reformas capitalistas que o Brasil precisa, ou teremos numa previsão das mais otimistas, estabilidade sem crescimento econômico. Ou seja, nada de novo. Se acelerar a economia sem as reformas, baterá em nossa porta a temível inflação. Aí essa popularidade presidencial se esvairia como fumaça, e essa turma viria a atentar contra a liberdade de imprensa, e contra a verdade, nos quintos do inferno, onde o famoso Zé Pelintra os espera.