quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MARIO GUERREIRO - OS QUATRO FUNDAMENTOS DO ISLAMISMO

Allah_simbolo_islamismoComo se sabe, o islamismo, por sua própria formação, recusa-se a ser uma religião universal. Digo isto porque penso que uma religião universal deve reconhecer que todos os homens são iguais perante Deus.
Complementou esse princípio religioso o princípio de igualdade jurídica, de acordo com o mesmo todos os homens são iguais perante a lei.
Além dessas duas formas de igualdade, temos ainda outras duas: a igualdade da matemática e a igualdade produzida pela morte: somos todos iguais perante os vermes da terra. “Pó és e ao pó voltarás”. Mas igualdade social é pura utopia socialista.
Ocorre que, para o islamismo, existem dois tipos de seres humanos: os islamitas e os não islamitas, ou “infiéis” (judeus, cristãos, budistas, etc.).
O islamita tem a obrigação de rezar 5 vezes ao dia, com a cabeça voltada para Meca, num tapete de preferência verde porque verde é a cor sagrada do Islã.
E ao menos uma vez na vida fazer uma peregrinação (Hadji) à Meca e circular em torno da Caaba, uma pedra que caiu dos céus branca, mas que ficou preta por causa dos pecados humanos. Teria sido um simples meteoro?
Mas os muçulmanos não aplicam a si mesmos as regras que aplicam aos infiéis. Essa estória é nossa velha conhecida: “Aos amigos tudo; aos inimigos o frio rigor da lei”. “Uma lei para si e outra para os outros”.
E é por esse particularismo que sua “ética” não pode ser universalizada.
Engana-se redondamente quem pensa que eles não têm ética. Eles têm, mas o problema é que ela só se aplica a quem é muçulmano. Para os infiéis, as regras são outras.
Nisto eles em nada diferem da Máfia. Mafiosos também têm um código de honra: a omertà, com regras claras e bastante explícitas.
Por exemplo: mafioso não pode roubar outro mafioso. Mafioso deve obediência cega ao “padrinho da família”, entenda-se: o chefão da quadrilha.
Mas se um mafioso rouba e/ou mata um não mafioso, está tudo bem. É escusado dizer que todas as regras daomertà não admitem reciprocidade em relação aos não mafiosos. Só valem para uso interno.
Tal como a “ética” muçulmana, ela só tem validade para um grupo ou comunidade humana, não para quaisquer outros fora dela.
E é justamente por isso que tanto as regras dos muçulmanos como as da Máfia não são universalizáveis, mediante regras gerais tais como: “Não matar”, “Não roubar”, “Não prestar falso testemunho”, etc. extensíveis a todos os seres humanos sem exceção.
DezMandamentos_RembrandtEssas regras gerais já estavam nos Dez Mandamentos da Lei Mosaica, mas foram endossadas pelo Direito Romano e, após receberem importantes exceções, como a legítima defesa, o furto famélico, etc., passaram a fazer parte dos códigos legais de todos os países civilizados.
Supomos que os direitos dos países muçulmanos (árabes, indonésios, etc.), baseados que estão em Al Koran (A Recitação), contêm os mesmos princípios.
Mas assim como os romanos tinham direitos aplicáveis tão somente aos cidadãos romanos, e para os estrangeiros havia um direito distinto – o Jus Gentium –, os direitos dos países muçulmanos aplicam-se somente aos muçulmanos.
Mas como são os “infiéis” encarados pelos islamitas? Ora, aos infiéis se aplicam quatro regras necessariamente na ordem a seguir:
Regra 1: Tentar convertê-los à única religião verdadeira: o islamismo. (Como se vê, eles não são ecumênicos.) Caso resistam à conversão, então…
Regra 2: Pagar tributos aos muçulmanos pelo simples fato de serem “infiéis”.
Regras 3: Caso se recusem a pagar, por atos de desobediência civil, ou por qualquer outro motivo, deverão ser transformados em escravos.
Regra 4: Caso isso não seja possível, por qualquer motivo, serão mortos.
Em relação especificamente a Israel, como não conseguiriam aplicar nenhuma das três primeiras regras, eles estão aplicando a quarta: exterminar todos os judeus. E depois, pelo mesmo motivo, todos os cristãos.
Se você ficou chocado com esse grau de intolerância e de selvageria, fique sabendo que isso funciona assim desde a época de Maomé (570-622 a.D) até a época da globalização.
Na Idade Média, cristãos e muçulmanos eram muito parecidos em seu fanatismo e intolerância. Durante a época das Cruzadas, ambos diziam estar fazendo uma “guerra santa” (jihad em árabe). Chamavam uns aos outros de “infiéis”, etc.
Um dos primeiros passos dados pelo mundo ocidental foi a laicização do Estado, ou seja: o Estado ficou independente da religião e os soberanos europeus não invocavam mais o direito divino dos reis.
No mundo islâmico isso não ocorreu até hoje! Seus regimes políticos são inseparáveis da religião; seus soberanos, além de reinarem pela Vontade de Allah, são absolutistas, ou seja: fazem o que bem entendem sem prestar contas a ninguém. Só prestarão contas a Allah, no dia do Juízo Final.
A propósito: “Califa” em árabe quer dizer “sucessor” (do primeiro califa, isto é: Maomé).
Em síntese: no passado fomos muito parecidos, mas nós mudamos no curso da história, e eles continuaram na Idade Média! Basta ver o modo como eles encaram as mulheres todas vestidas de preto e cobertas da cabeça aos pés, como se fossem freiras.
Se eles tratassem suas mulheres desse modo em sua cultura, não teríamos nada a ver com isso. Acontece que eles imigram para países ocidentais e pretendem viver neles como se estivessem nos seus.
Já ocorreu nos EEUU, uma muçulmana que queria tirar carteira de motorista de burca. Como o funcionário do departamento de trânsito não aceitou tal coisa, ela esbravejou alegando discriminação religiosa. Pode?
burca_Group_of_Women_Wearing_BurkasPor esta mesma época na Arábia Saudita, as mulheres fizeram uma marcha de protesto reivindicando o direito de dirigir. Mas não creio que sua demanda incluísse tirar carteira de burca…
Os muçulmanos não dão a menor importância ao antigo dito: “Entre os persas, comporte-se como um persa, entre os gregos como um grego e entre os romanos como um romano”.
Mas a recíproca não é válida: quando um ocidental vai para um país muçulmano, ele deseja se comportar como um cidadão muçulmano.
Só cometerá uma infração por desconhecimento, por não saber o que ele não pode fazer. Por exemplo: dar um beijo na boca em público. Isto é haram (proibido, pecado), coisa do Grande Satã, i.e. o Ocidente.
Devemos a Samuel Huntington um importante livro: O Choque de Civilizações, conflito este que, para ele, está ocorrendo entre a civilização ocidental – Israel incluso, apesar de estar no Oriente Médio – e a civilização muçulmana, incluindo a Indonésia, o maior país islâmico do mundo, e parte da Índia.
É preciso acrescentar que nem todos os islâmicos são árabes e nem todos os árabes são islâmicos. Há árabes cristãos maronitas e ortodoxos, i.e. pertencentes à Igreja Ortodoxa com sua sede em Istambul, a antiga Constantinopla.
Huntington diz que, após o fim da guerra fria, o mundo adquiriu uma nova bipolaridade: civilização ocidental e seus costumes e civilização muçulmana e os seus.
Não vou discutir se o que está em jogo é uma bipolaridade que sucedeu a anterior, o Bloco Ocidental liderado pelos EEUU e o Bloco Oriental liderado pela URSS, ou se a bipolaridade foi substituída por uma multipolaridade, como querem alguns.
Mas discordo de Huntington quando ele fala em civilizações diferentes, cada qual com costumes e instituições, não só são diferentes como também incompatíveis.
Segundo penso, o conflito sempre existiu em todas as épocas da História, porque se trata de um forte atrito entre civilização e barbárie.
Se hoje a barbárie é representada pelo islamismo, ontem foi representada por outros povos.
Muralha_da_China_em_JinshanlingO primeiro imperador da China mandou construir a Muralha da China, para proteger seu país civilizado das invasões dos bárbaros mongóis vindos do norte.
Juntamente com a China, o Egito foi uma das primeiras civilizações, mas estava sempre em luta com povos bárbaros que invadiam o reino do faraó, embora hoje no atual Egito os bárbaros estejam dentro desse país muçulmano. Vide a Irmandade Muçulmana proscrita pelos próprios egípcios.
A Grécia foi uma civilização notável: um dos três pilares da nossa civilização, juntamente com Roma e com a cultura hebraico-cristã. Mas a Grécia era sempre invadida pelos persas, povos bárbaros vindos do Oriente.
Na realidade, a civilização tem coexistido com dois grupos de bárbaros: os que são resquícios da barbárie dentro da própria civilização atentando contra a mesma e os que vêm de fora com o intuito de destruí-la.
Se o leitor não ficou convencido do que estou afirmando com base somente nos Quatro Fundamentos do islamismo, vou mencionar mais alguns fatos para fortalecer minha afirmação.
O mundo se voltou quase todo contra Israel quando a mídia mostrou o efeito dos bombardeios na Faixa de Gaza. Nem alvos não militares foram poupados pelas bombas israelenses matando, assim, civis: velhos, mulheres e crianças.
O que as pessoas não foram informadas, ou mesmo querem ignorar por antissemitismo e antissionismo, é que Israel sempre avisa aos palestinos os lugares e a que horas ele vai bombardear.
Se por acaso é um alvo não militar – uma escola, uma mesquita, etc. – Israel o bombardeia porque sabe que ele contém mísseis e estes estão apontados para o território israelense.
Além de colocar armamentos em escolas, mesquitas e hospitais, os palestinos, sob a liderança despótica de Al Hamas, ainda colocam crianças e mulheres de seu próprio povo como escudos humanos!
Nas escolas palestinas, as crianças, desde os 6 anos de idade, são doutrinadas a morrer pelo Islã. Aliás, “Islã”, em árabe, significa “submissão” – submissão de todos os muçulmanos à Vontade de Allah, submissão da esposa e filhos em relação ao marido, seu proprietário, juntamente com camelos e demais utensílios.
Essa “Vontade de Allah” é semelhante à Vontade Geral de J.J. Rousseau. Não se identifica com a Vontade da Maioria em regimes democráticos porque um só homem – um tirano na Europa do século XVII ou um Xeique (Emir ou Califa) pode encarná-la e expressá-la.
No caso dos Palestinos, a Vontade de Allah é o que o Hamas diz que é e quem contrariá-la será visto como insubmisso à Vontade de Allah – o maior de todos os pecados para o islamismo.
Na realidade, “escudos” não é a palavra apropriada, porque um escudo é uma arma de defesa e estes deles nada podem fazer contra explosões provocadas por mísseis.
Por que então eles adotam essa prática inócua, do ponto de vista bélico defensivo? Porque seu objetivo não é a defesa, mas sim o ataque. Não o ataque em termos militares, mas sim um ataque da propaganda na mídia.
Gaza_bombardeada_The_home_of_the_Kware_family_after_it_was_bombed_by_the_militaryA toda hora aparecem na TV os escombros produzidos pelos mísseis israelenses, geralmente acompanhados de comentários hipócritas e cínicos do tipo: “Vejam até onde vai a crueldade de Israel contra um inimigo mais fraco!”.
E as pessoas se sensibilizam e ficam sempre do lado mais fraco, sem se indagar quem são os verdadeiros responsáveis pela destruição de alvos não militares.
Ora, alvos militares são geralmente pontes, artilharia antiaérea, depósitos de armamentos, aeroportos militares, etc.
Uma igreja e uma escola não foram criadas com finalidades bélicas, mas se são colocados explosivos e mísseis dentro ou muito próximos delas, elas passam a ser alvos militares como quaisquer outros.
Não creio que a Convenção de Genebra não pense desse modo. Tenho razões para acreditar que Israel está fazendo uma guerra defensiva e obedecendo estritamente à ética militar.
Mas pensem bem até que ponto chegaram os fundamentalistas islâmicos que não hesitam nem por um minuto em sacrificar civis do seu próprio povo, para ter vitórias na mídia, uma vez que sabem não poder ter uma vitória militar contra um país muito mais forte e competente do que o deles.
Israel possui um exército muito bem preparado para se defender e se vê obrigado a participar do jogo sujo proposto pelos palestinos. São sempre eles que iniciam os intermináveis bombardeios a Israel.
Se há uma “desproporção” nas mortes de ambos os lados, isto não se dá pela crueldade israelense, mas sim por uma competência militar muito superior à dos palestinos.
Israel avisa sobre os alvos a serem atingidos, de tal modo que os civis possam ser evacuados e ninguém ser atingido. Os palestinos não avisam seus alvos: lançam mísseis inesperada e indiscriminadamente sobre cidades israelenses.
Seu estrago só não é maior porque Israel tem uma coisa da qual os palestinos carecem: um bom sistema antimísseis, para interceptar e destruir os mísseis palestinos no ar. Mesmo assim, alguns conseguem escapar e destroem alvos não militares onde não há escudos humanos, mas sim vítimas civis israelenses.
Nos insaudosos tempos da guerra fria (1945-1991), todos os países do mundo tinham que se alinhar com os EEUU ou com a URSS (Tertium nom datur). Esse negócio de “política externa independente” foi uma lorota do Itamaraty só aceita por desconhecedores da política internacional e pelos parvos que pululam neste País.
Neste tempo de conflito de “civilizações”, todos os países do mundo têm que se alinhar com a civilização ocidental (incluindo Israel e o Japão atual) ou se alinhar com a barbárie (incluindo países islâmicos e fundamentalistas de esquerda em todo o Ocidente).
O Brasil já fez sua opção desde o tempo em que apoiava Ahmadinejad, aquele líder raivoso iraniano que queria “empurrar Israel para o mar” e para quem o Holocausto nunca existiu:
Foi uma criação cinematográfica ordenada pelo general Eisenhower que, diante de um campo de concentração, após a Segunda Guerra, deu uma ordem e fez uma profecia:
Campo_concentracao_Bergen_belsen_April_1945“Fotografem e filmem tudo. Quero tudo muito bem documentado porque ainda chegará um dia em que um idiota dirá que isso nunca existiu”.
O dia chegou e o idiota Ahmadinejad fez a referida afirmação! E pensar que este facínora tem muitos admiradores no Brasil, a começar por Lula e pelos fundamentalistas das esquerdas.
Muita coisa mudou no período pós-guerra fria, após a dissolução da URSS (1991). Mas outras tantas em nada se modificaram.
Por exemplo: quando eu afirmo que o comunismo internacional é aliado de ditadores cruéis como Bashar Al-Assad, da Síria, e de todos os grupos terroristas muçulmanos, garanto que não estou tomado pela teoria conspiracionista.
Desde os tempos da guerra fria que essa aliança está em jogo. Um exemplo disso é a invasão de Israel pela RAU (República Árabe Unida composta de Egito e Síria). O líder da RAU, o egípcio Gamal Abdel Nasser, era apoiado pela finada União Soviética e Israel, apoiado pelos EEUU.
E por acaso hoje essas alianças mudaram? Não porque estamos diante de um conflito de muito maior magnitude: Civilização X Barbárie.
A Invasão dos Bárbaros, este foi o título que Guy Sorman deu a um livro em que examina os efeitos negativos da imigração islâmica na Europa e, particularmente, na França.
Com os europeus tendo em média 1,5 filho e os imigrantes islâmicos tendo em média 6 filhos – e supondo que esse ritmo de crescimento se mantenha – dentro em breve os muçulmanos serão maioria em muitos países da Europa.
Sendo maioria, elegerão representantes políticos que abolirão gradativamente as leis de seus países de adoção e colocarão em seus lugares as leis da Shariah, com as bênçãos de Allah.
Diante desse quadro grotesco, tomar partido por Israel é tomar partido pela civilização em sua luta contra a barbárie islâmica e seus aliados das esquerdas caquéticas dando tiros nos seus próprios pés!
Neste sentido, concordo inteiramente com o que li no Blog do César Maia, em 11/8/2014, como resposta da Chancelaria de Israel ao governo brasileiro:
“O Governo de Israel, que vem exercendo seu legítimo direito à autodefesa, expressa profunda estranheza face à postura crítica do governo do Brasil, por sua ingerência, indevida e ilegítima, em seus assuntos internos, tais como o são a proteção à sua população, vítima de ataques terroristas diários, pelas razões a seguir expostas:
1) O governo do Brasil tem aliança com governos autoritários, totalitários e repressivos, que não permitem eleições nem o pluripartidarismo, chegando inclusive a financiá-los, e por consequência financiando a repressão e morte de opositores a tais governos;
2) O governo do Brasil tem contra si inúmeras denúncias de atos de corrupção comprovados, o que atenta contra seu próprio povo, em última análise.
3) O governo do Brasil é exercido por um partido que tem membros fundadores hoje na prisão, envolvidos diretamente em escândalos de corrupção mundialmente conhecidos.
4) Se o governo do Brasil supostamente preocupa-se tanto com vítimas de conflitos, que atente para os milhões de brasileiros mortos, vítimas de roubos, assaltos e de uma criminalidade fora de controle

A Armadilha da Mediocridade - SIMON SCHWARTZMAN

Os economistas falam da “armadilha da renda média”, de países que, como o Brasil, conseguiram chegar aos US$ 10 mil ou US$ 12 mil por habitante por ano, mas não conseguem chegar perto dos US$ 30 mil a US$ 50 mil, como os países desenvolvidos. Um outro nome seria a armadilha da mediocridade.
mousetrap
O Brasil chegou aonde está graças às exportações de minérios e produtos agrícolas e ao crescimento da indústria e dos serviços que acompanharam a expansão das cidades. Fez parte desta história a ampliação da Previdência Social, dos serviços de saúde e da escolaridade. Para os governos, bastava cobrar impostos e distribuir para quem solicitasse conforme a força de cada um, dos políticos amigos às indústrias protegidas, passando pelos funcionários públicos e sindicatos, e chegando aos pobres com o Bolsa Família.
Esse tipo de crescimento já não tem como continuar. Acabou a migração do campo para as cidades, mas a violência urbana parece fora de controle e o transporte público é péssimo. A desigualdade vinha caindo, mas já não cai mais. A miséria se reduziu, mas a pobreza continua. Já quase não se morre de diarreia, mas o SUS mal consegue atender os enfermos de câncer e do coração. Já não há crianças fora da escola, mas elas mal aprendem. O acesso ao ensino superior cresceu com mais dinheiro para as universidades públicas, cotas, bolsas e crédito educativo, mas a qualidade da maioria dos cursos é ruim e as vantagens de ter um diploma são cada vez menores.
Os economistas sabem muito do que precisa ser feito para sair dessa armadilha: equilibrar as contas públicas, fortalecer a capacidade regulatória do Estado, abrir as empresas à competição internacional, criar regras claras para o uso de incentivos públicos e garantir ao setor privado a segurança jurídica necessária para seus investimentos. Mas isso não basta, porque o “custo Brasil” não vem somente do protecionismo, dos entraves burocráticos e da má qualidade da infraestrutura física, mas, sobretudo, da ausência de uma população bem-educada e capacitada, da condição de vida precária das cidades e da incerteza gerada por um sistema político desmoralizado.
Não será mais possível continuar crescendo e se desenvolvendo como se fez até aqui. Para sair da armadilha da mediocridade, é preciso redirecionar a política econômica e social, mas também olhar em volta, para os países que conseguiram superar essa barreira, e ver o que têm a nos ensinar sobre educação, saúde, proteção à velhice, gestão dos espaços urbanos, política ambiental, política energética, modernização do Estado e reforma do sistema político.
Nestas eleições, a grande pergunta é quais candidatos continuam olhando para trás, fazendo e prometendo mais do mesmo, satisfeitos com o que temos, e quais têm as condições de abrir espaço para um país capaz de avançar nestes novos caminhos. Para todos será uma longa aprendizagem, sujeita a erros e acertos. Mas não há dúvida de que está na hora de renovar.

Um soco na onipotência - ROBERTO DAMATTA


quarta-feira, outubro 08, 2014


 

O GLOBO - 08/10

O lulopetismo está convencido (como ocorre com todo radical) que o Brasil e o mundo começam com eles


Todo mundo deve saber que a onipotência é o poder infinito e esmagador de um deus ou de uma figura dotada de capacidades titânicas para o bem ou para o mal.

No Brasil, os onipotentes que chegam ao poder são idolatrados porque nossa cultura tem como base e modelo a gradação e a hierarquia e ambas têm uma extraordinária afinidade com o puxa-saquismo, com a bajulação, com a hipocrisia e com o bater em cavalo morto. É fácil torcer para o Brasil quando ele é pentacampeão e é mais fácil ainda negá-lo mil vezes, como fez São Pedro com Cristo, quando o Brasil perde de 7 a 1 para a Alemanha. Essa Alemanha que voltou a ocupar o lugar de superior em tudo — disciplina, coerência, treinamento e — quem sabe — a velha pureza racial que nós ainda lamentamos em certas situações.

O passado não discutido com sinceridade volta. Ele é apenas eclipsado.

_____

Começo essa crônica numa bela manhã de domingo e estou irremediavelmente dividido. Um lado meu gostaria que o PT perdesse — que fosse, para ser arriscadamente franco e para entrar em mais algumas listas negras, defenestrado do poder (mas, note bem, jamais da política brasileira). Um outro, porém, está convencido de que Aécio achou o seu papel e o seu tom e vai ganhar num segundo turno. Como essa coluna sai na quarta-feira e o segundo turno vai ocorrer no dia 26, estou sendo moído pela angústia. Angústia que hoje faz parte do meu modo de ser. Não saber o futuro e aceitar o sofrimento é um modo de admitir a minha fragilidade diante da vida. Eu aprendi esse segredo. Por isso, não fujo da minha angústia, mas deixo que ela se manifeste e recebo-a no meu coração. Procuro saber o que quer e, quando é possível, tomo um Joãozinho Caminhador com ela, o que nos envolve na felicidade dos apaziguados. Dos que têm consciência de que, na vida, é preciso ter a noção do suficiente para sermos relativamente menos infelizes.

Sempre soube que não sabia, mas hoje tenho a mais absoluta certeza disso. Mas o não saber não me eximiu de ter declarado meu voto e ter sido admoestado por algumas pessoas que, muito mais sábias, me alertavam do risco que corria.

_____

Pois bem. Aécio Neves, com sua tranquilidade, batalhou, enfrentou e virou o jogo. Foi o único que, no famoso debate da Globo, falou que todos os candidatos a presidente e, por implicação, a qualquer cargo eletivo — cargos que implicam não em grana e poder, mas em servir ao Brasil — se somavam. Todos os presidenciáveis, disse ele, continuavam projetos e planos que foram inventados e instituídos por seus antecessores. O único partido que negou isso foi o PT, que realizou sistematicamente o discurso lulista do “nunca antes neste país” — exceto com ele e com o PT e que, no governo Dilma, usa o onipotente “nós” como a chave em todos os seus confusos discursos. O lulopetismo está convencido (como ocorre com todo radical) que o Brasil e o mundo começam com eles. Aécio foi o único que falou numa continuidade de projetos como os de distribuição de renda que, em vez de separar, juntam posições do PT com as do governo de PSDB.

_____

Estou seguro de que esta eleição será, com Aécio, a da descoberta da soma e da continuidade. O Brasil, amigos, é muito maior que nós. Ele é um palco que não escolhemos para atuar e viver. A língua que falamos e os lugares onde nascemos e adquirimos consciência de nós mesmos e do mundo não foram inventados por nós. Do mesmo modo e pela mesma lógica de uma implacável finitude que desmancha onipotências, um dia sairemos do Brasil por mais que tenhamos achado que fazíamos todas as diferenças. Alguém se lembra do ministro da Saúde do governo Rodrigues Alves? Aliás, leitor culto e educado, você sabe quem foi Rodrigues Alves?

_____

Um mundo em rede exalta individualidades, mas tem um lado oculto. Ele nos obriga a ver como estamos presos uns aos outros e como o discurso orgulhoso e valente do grande, mas iludido, século 19 tem que ser modificado. Não basta ser contra banqueiros ou contra o nosso sistema produtivo, colocando-se no velho modelo dos revolucionários. É preciso saber como a rede nos afeta quando um pedaço dela se modifica. Estar enredado não significa estar enjaulado, mas se conhecer como uma parte menor, embora significativa, de um país e de um planeta. Um todo que segue somente em parte planificado porque o inesperado existe e faz parte — como prova essa eleição — da vida e do cosmos.

_____

Acabo de saber que vai haver um segundo turno e que o Aécio lá chegou. Minha angústia diminuiu de um lado, mas aumentou do outro.

_____

Cabe finalizar que, com essas eleições, iremos controlar os personalismos lulistas de índole malandra e neofascista. Todos os resultados pedem mais honestidade e seriedade com o governo da coisa pública. Tenho a esperança de liquidar com esses donos espúrios de um Brasil que é de todos nós. Esse é o pleito que nocauteou a onipotência e, com ela, a demagogia, a roubalheira, o aparelhamento do estado pelo governo, a corrupção deslavada, os dois pesos duas medidas no plano jurídico e econômico e, por último, mas não por fim, a autoridade absoluta de um partido cujo objetivo era muito mais o de trabalhar para um projeto de poder do que para o poder do Brasil.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

EDUCAÇÃO LIVRE OU EDUCAÇÃO ESTATAL? - J.O. de Meira Penna

EDUCAÇÃO LIVRE OU EDUCAÇÃO ESTATAL?

Revista Leader IEE

J.O. de Meira Penna 



Deve a educação em seus três níveis, fundamental, médio e superior, ser livre e mantida pela iniciativa privada; ou deve ela ser estatal e inteiramente dependente do poder público?

Minha resposta a essa questão se sustenta na realidade de uma educação brasileira medíocre. Registamos ainda um alto coeficiente de analfabetos, um número vergonhoso de iletrados funcionais e nosso sistema universitário é tão precário e comprometido que qualquer jovem desejoso de elevar-se numa carreira profissional liberal é obrigado a fazer ou complementar seus estudos na Europa ou nos Estados Unidos.

Verifica-se que o Estado, notoriamente corrupto e ineficaz, possui um poder dominante no ensino de primeiro grau e no ensino superior. O ensino médio é o único com uma presença marcante da iniciativa privada. Isto cria um gargalo que favorece as classes altas, abastadas. O jovem de família de classe média para cima vê aberto o final de sua educação em Universidades, federais e estaduais, gratuitas - numa estrutura anti-democrática arcaica que favorece o controle patrimonialista do poder. O atual esforço dirigido contra as escolas privada tem por fim estatizá-las e completar o domínio de toda a educação pelos marxistas da vertende gramsciana. Os professores, em grande parte filiados à CUT, exigem aumento de salários e contaminam o ensino com seus preconceitos ideológicos de esquerda, enquanto os pais dos alunos pedem redução de mensalidades e o Estado aumenta os impostos. O objetivo óbvio é liquidar com o único ensino que pretende ser livre em nosso país. No Ensino universitário, a concorrência desleal, exercida pelo poder político que fornece um ensino gratuito para as classes patrimonialistas ligadas ao Estado - representa um privilégio da Nomenklatura burocrática e um escândalo perverso do ponto de vista da alegada “justiça social”. Significa estar o país deliberadamente dando as costas às perspectivas de progresso, desenvolvimento econômico e integração no novo mundo globalizado, segundo os princípios da democracia liberal moderna.

O baixo nível geral da educação está associado a essa hegemonia exercida pelo Estado - um estado centralizador segundo o modelo positivista-socialista, imposto ao país com a República e autoritário na tradição da Contra Reforma e do Absolutismo monárquico ibérico - servindo-se da educação para recrutar burocratas subservientes e egoístas. Que esse Estado é corrupto e ineficiente, a prova empírica a obtemos diariamente pelo noticiário da imprensa e da TV. Os países adiantados da Europa e América do Norte, com alto nível educacional, seguiram o modelo anglo-saxônico que entregou o ensino a corporações privadas, originariamente de natureza religiosa e sustentadas por doações filantrópicas, e às comunidades municipais. A tradição da public school, não obstante o nome, era a de um ensino descentralizado em que o Estado, substituindo-se à Igreja da Reforma, não metia o bedelho. Foi essa public school privatizada quem forneceu a elite responsável pelos prodígios da civilização moderna.

sábado, 27 de setembro de 2014

"Reflexões de um pai judeu sobre Gaza", por Gustavo Ioschpe

"Reflexões de um pai judeu sobre Gaza", por Gustavo Ioschpe

Veja


 
Crianças palestinas obervam a destruição em uma mesquita, na cidade de Gaza, em 30/07/2014, depois que o local foi atingido por um ataque israelense durante a madrugada
Crianças palestinas obervam a destruição em uma mesquita, na cidade de Gaza, em 30/07/2014, depois que o local foi atingido por um ataque israelense durante a madrugada - Mahumud Hams/AFP/VEJA


Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de três vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou doze prêmios Nobel - tem mais prêmios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmônicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos.

Apesar do seu tamanho minúsculo, é o terceiro país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelense. O Waze também. A Teva, maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.

Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20 mil quilômetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas essas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelenses não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.


Conflito -- A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestino.  Algo inconcebível. Enquanto houver palestinos vivos, eles vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida por dois milênios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.

Eu acompanho esse conflito com lupa há pelo menos vinte anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelenses e seus apoiadores disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”.  Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelenses morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação Chumbo Fundido, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinos e treze israelenses.

A operação atual, no momento em que escrevo essas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinos e 66 israelenses, além de um soldado sequestrado. A imagem internacional do país se deteriorou sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores dessa operação não percebam a sua inutilidade: Israel está usando todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.


Guerrilha -- Muito tem se escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinos. Não pretendo me ater a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnã nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelense não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.

Não entendo essas pessoas que ficam apontando as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que essa é uma organização digna e honrada. O que essas pessoas esperam? Que ao denunciar as vilezas do Hamas seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelenses para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão jogando foguetes contra cidades israelenses? Não vai acontecer.

O segundo fato, portanto, que essa operação deixa claro é que o problema israelo-palestino precisa ser resolvido na mesa de negociação. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelense: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelenses chamam de “aparar a grama”: ações militares periódicas que causam bastante morte e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelense e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).

Pra ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinos morando, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido por milênios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, primeiro premiê israelense: “Se eu fosse um líder árabe, eu jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que eles têm a ver com isso? Nosso Deus não é o deles. O único que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que eles deveriam aceitar isso?”


História -- Os palestinos e os vizinhos árabes cometeram um erro histórico ao não aceitar o plano de partilha da ONU em 1947 e declarar guerra a Israel em 1948. Pagaram por esse erro com uma derrota fragorosa, exílio e morte, naquilo que chamam de “Naqba” (“Catástrofe”), e continuam pagando até hoje. Em 1947 eles lutavam por 100% da terra. Agora lutam por apenas 22%, a área correspondente à Cisjordânia e Faixa de Gaza.  A ideia de que não há parceiro do outro lado deriva da ideia de que os palestinos rejeitaram ofertas “generosas” de Israel, que previam a devolução de até 95% dos territórios ocupados. Mas mesmo para os palestinos moderados, qualquer coisa que não seja a totalidade dos 22% que lhes restaram é um insulto. Não haverá paz enquanto todos os territórios não forem devolvidos.

Há várias propostas na mesa que chegam muito perto do fim do conflito, como o que foi negociado em Taba em 2001, a Iniciativa de Genebra de 2003, a proposta da Liga Árabe de 2002. Creio que um governo israelense com respaldo popular para chegar a um acordo conseguiria concluí-lo em poucos meses de negociação. A questão que parece mais espinhosa é provavelmente o direito de retorno dos refugiados palestinos, mas ao contrário do que os radicais israelenses espalham, 90% dentre eles não querem voltar para o Estado judeu, e sim para um eventual Estado palestino. Se você tem dúvida sobre a confiabilidade da informação, vale dizer que ela foi auferida por um pesquisador palestino que, ao divulgá-la, teve seu escritório depredado por seus conterrâneos radicais (esse dado, assim como todos os outros mencionados ao longo deste artigo, estão disponíveis em twitter.com/gioschpe).


Cenário -- Creio que a maior oposição a um acordo justo e duradouro venha do atual governo israelense, que acredita na manutenção do status quo, talvez desejando que em algum momento os palestinos desistam de suas aspirações ou que alguma mudança radical aconteça no Oriente Médio (muitos ainda imaginam que algum dia será possível fazer um Estado palestino na Jordânia...). Creio que quem analisa os dados friamente, e não através do prisma do pensamento mágico, haverá de concluir que a passagem do tempo é altamente contrária ao interesse israelense. Por quatro motivos: demográfico, geopolítico, sociológico e de relações internacionais.

Demográfico: em Israel, hoje, aproximadamente 75% da população é judia e 21% é árabe. Dentro da população judia, os ortodoxos representam 10% do total. Mas, devido ao diferencial de fertilidade – 7 filhos por mulher ortodoxa versus 2,3 para as judias não-ortodoxas – hoje os religiosos são 20% da população judia com menos de 20 anos. Em 2050, a projeção demográfica é de que os religiosos representem 30% da população judia. Os árabes israelenses também têm fertilidade mais alta do que os judeus não-religiosos: 3,5 filhos por mulher, versus 3,0 para a população judia como um todo. Ou seja, a proporção de árabes e ortodoxos aumenta e a de judeus não-religiosos diminui. Se já é difícil chegar a um consenso hoje, imagine quando talvez a maioria da população for composta de judeus ortodoxos e árabes.

Além disso, há a população palestina nos territórios ocupados. Se a incluirmos, hoje temos aproximadamente 12 milhões de pessoas vivendo entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. 52% desses são judeus e 45% árabes. Segundo o demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém, essa proporção se inverte em poucos anos; em 2030 os palestinos representarão 56% da população. Imagine se a Autoridade Palestina se dissolver e Israel voltar a ter controle legal sobre toda essa população...

Geopolítico: hoje Israel consegue manter o status quo porque os Estados Unidos oferecem apoio diplomático – vetando sanções no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo – e militar. Com o fim da Guerra Fria, caiu a razão estratégica para o apoio americano. Com a descoberta do gás de xisto americano e a reduzida dependência deste país do petróleo do Oriente Médio, a razão econômica também se enfraqueceu. Resta a motivação da política interna, com a pressão da comunidade judaica e, em menor escala, evangélica em favor de Israel. Mas, como mostram críticos como Peter Beinart, o apoio da juventude judaica americana a Israel é menor do que a da geração de seus pais. Mas mesmo que, apesar de todos esses fatores, o apoio americano continue firme e forte (o que me parece improvável), é difícil que ele seja suficiente em um mundo que caminha para a bipolaridade, com a China ocupando o posto de maior economia mundial. A China não tem, nem nunca teve, uma comunidade judaica expressiva.

Não é, nem nunca foi, uma democracia. Com 69 carros por 1.000 habitantes (vs. 786 nos EUA) e poucas reservas de petróleo, é difícil de se imaginar que a China irá se alinhar com Israel e não os países árabes. No próprio Oriente Médio, a Primavera Árabe foi mais um sinal de alerta. Quando as populações árabes depuseram seus ditadores militares, em alguns casos escolheram movimentos radicais islâmicos em seus lugares. Quando o Egito foi governado pela Irmandade Muçulmana, houve grande cumplicidade entre o presidente Mursi e o Hamas, incluindo o tráfico de armas. Se a situação de hoje é difícil, o que acontecerá se o Egito voltar a ser governado pela Irmandade, o Líbano pelo Hezbollah, a Síria e o Iraque pelo Isis?

Sociológico: a ocupação militar de outro povo corrói uma nação democrática. É difícil se imaginar que um jovem israelense passe três anos (o período do serviço militar obrigatório para os judeus israelenses; mulheres servem dois anos) suprimindo a liberdade alheia e depois transforme-se em um democrata exemplar.

O filósofo israelense Yeshayahu Leibowitz escreveu essas palavras proféticas em um ensaio de 1968, enquanto a população israelense ainda estava embevecida com as conquistas territoriais do ano anterior: “Um Estado dominando uma população hostil de [à época] 1,5 a 2 milhões de estrangeiros necessariamente se tornará um Estado policialesco, com todas as consequências que isso traz para a educação, liberdade de expressão e instituições democráticas. A degeneração característica de todo regime colonial também prevalecerá no Estado de Israel.” Assim está sendo. Atualmente, manifestantes contrários à campanha de Gaza têm sido espancados por militantes de direita e até presos pela polícia.

Os apoiadores da ação militar vão às ruas cantando, abertamente, “Morte aos árabes!” e “Morte aos esquerdistas!”. Não é preciso um PhD em Ciência Política para saber que esse ódio e sectarismo são sinais de uma profunda falência democrática, normalmente vista apenas em períodos pré-convulsão civil.


Heitor Feitosa/VEJA.com/VEJA.comEconomista Gustavo Ioschpe
O economista Gustavo Ioschpe


Comunidade internacional -- Por último, e talvez mais importante, Israel está virando um pária aos olhos da comunidade internacional. É o único país que domina outra população, e é a única democracia ocidental que desrespeita leis internacionais, impõe bloqueios a outro povo, causando enormes dificuldades e sofrimento desde 1967. Muitos judeus veem nesses ataques da opinião internacional o espectro do antissemitismo e até do nazismo, como se criticar o governo israelense fosse sempre uma versão sublimada de ódio antissemita. Discordo, mas não vou entrar nessa discussão. Atenho-me ao fato: a percepção de Israel na comunidade internacional está em queda livre desde a segunda intifada. Já há vários países, ONGs, universidades e igrejas que boicotam o país e incentivam seus membros a não comprar produtos ou ações de companhias israelenses.

Para um país minúsculo em estado de conflagração com quase todos os seus vizinhos, é impossível para Israel manter o seu nível de desenvolvimento caso as sanções da comunidade internacional evoluam para um boicote do estilo imposto à África do Sul da época do apartheid. Pode ser que os esforços propagandísticos do governo israelense surtam efeito, mas eu duvido fortemente que – por mais que o Hamas seja odiado – a comunidade internacional tolere a morte e as privações que as ações israelenses vêm impondo aos civis palestinos.


Israel -- Quero concluir com uma experiência muito pessoal. Nessas férias de julho, minha mulher, israelense, foi com nossos filhos visitar sua família, perto de Tel Aviv. Eu não pude ir, por motivos de trabalho. Eles chegaram lá no segundo dia da operação em Gaza e ficaram por duas semanas. Como os que me leem devem saber, considero-me um racionalista, humanista e pacifista. Desde a adolescência. Pois quando minha mulher me contou que teve de ir, junto com os nossos filhos, para um abrigo antiaéreo para se proteger dos foguetes do Hamas, durante algumas horas eu pensei com o fígado, e tive vontade de que o exército israelense despejasse sobre Gaza todo tipo de armamentos, nas quantidades que fossem necessárias, para que os foguetes parassem de cair e eu pudesse ter os meus de volta e em segurança.

Comecei a sair desse estupor ao ver o indescritível sofrimento de pais e familiares que tiveram seus filhos destroçados pelos mísseis que eu desejara que caíssem sobre eles. Antes de ser um judeu sionista sou um ser humano, e por ser humano e pai consigo sentir a dor que acomete um pai que precisa viver como realidade aquilo que, como um mero temor, já me causara tamanha angústia. Se eu tive esse acesso de bile mesmo morando a milhares de quilômetros de distância e tendo familiares no conflito por duas semanas, posso imaginar como se sentem os israelenses que passam por isso, constantemente, há anos. E, ainda mais, o que passa pela cabeça dos habitantes de Gaza, cujo sofrimento é infinitamente maior. Consolidou-se em mim a crença de que esses dois povos, sozinhos, não conseguirão superar seus ódios e medos e chegar a um acordo de paz justo e duradouro.


Caminhos -- Hoje, acredito que Israel tem apenas três alternativas. A primeira é seguir o caminho atual, e confiar em sua supremacia militar e na aliança com o poder hegemônico. Esse é um caminho que, no curto prazo, vai levar apenas a mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e rupturas internas. No longo prazo, tende a levar a um segundo Holocausto. Quem conhece História sabe que o atual atraso econômico e militar do mundo árabe é uma aberração. Enquanto as potências ocidentais de hoje chafurdavam nas trevas da Idade Média, povos árabes representavam a vanguarda do conhecimento e da riqueza. Voltemos mais alguns milênios no tempo e veremos os judeus como escravos do faraó egípcio. Em algum momento esse pêndulo há de fazer o movimento inverso; se a vida dos israelenses depende apenas da supremacia tecnológica, o fim desta trará a extinção daquela.

Os outros dois caminhos envolvem um acordo de paz sendo imposto pela comunidade internacional.

Minha única dúvida é se essa imposição virá dos amigos de Israel ou de seus inimigos. Se vier dos inimigos significará que o país foi subjugado pela pressão/boicote internacional. Para chegar a esse ponto, significará que Israel perdeu todo seu apoio internacional. O conflito interno será tremendo, e os termos de um acordo com os palestinos e demais países árabes serão francamente desfavoráveis aos israelenses, talvez exigindo reparações financeiras exorbitantes, perda de território, incorporação de refugiados. Talvez nesse cenário o país sobreviva, mas duvido que como uma democracia plena, com pujança econômica.

O terceiro cenário é aquele em que um acordo de paz é estimulado pelos amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional. Esse seria um acordo em uma posição de força, que permitiria um entendimento justo e o fim das hostilidades, e liberaria Israel para continuar seu caminho de desenvolvimento econômico e social. Entendo que muitos judeus e sionistas não-judeus acham que o melhor que podem fazer por Israel é dar apoio incondicional a qualquer ação de qualquer governo. Respeito essa opinião, apesar de saber que aqueles que a professam provavelmente não respeitam a minha. Mas gostaria de, respeitosamente, discordar.

Pessoas tomam péssimas decisões sobre suas vidas, e países, mesmo democráticos, também escolhem líderes errados e políticas ineptas. Algumas pessoas acham que os verdadeiros amigos apoiam qualquer sandice e são só elogios. Já eu acredito que os verdadeiros amigos são aqueles que criticam quando acreditam que a crítica é necessária, que falam as verdades duras. Hoje eu acredito que aqueles que apoiam uma política cujo resultado é a inércia diplomática e o crescimento exponencial de cadáveres de inocentes são os que, inadvertidamente, enterram a paz e levam Israel e os palestinos a um beco sem saída.

Para terminar, preciso confessar que não tenho certezas. Talvez já tenhamos atravessado o Rubicão.

Talvez os ódios já sejam insuperáveis. O que significa dizer que talvez, mesmo depois de concluído um acordo de paz justo, os foguetes continuem a cair em Israel. Talvez esse conflito seja sobre mais do que terra, como quer a direita israelense. Pode ser. Mas prefiro tentar o caminho do entendimento e da justiça, que tem alguma chance de fracasso, do que persistir no caminho atual, cuja chance de sucesso é zero. E prefiro que os foguetes venham agora, quando Israel e o povo judeu têm uma capacidade de reação que nunca tiveram em toda a sua milenar história, do que em um momento em que já não nos restará mais nenhum cartucho, nem nenhum aliado

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nelson Rodrigues, aos 100, ainda é a cara do Brasil real - AUGUSTO NUNES




Nelson Rodrigues, aos 100,
ainda é a cara do Brasil real
Augusto Nunes
O dramaturgo Nelson Rodrigues inventou o teatro brasileiro em 1943, com a peça Vestido de Noiva. O romancista, com o pseudônimo Suzana Flag ou sem camuflagens, devassou e simultaneamente seduziu o universo habitado por aquela que muitos anos depois seria batizada de “nova classe média”. O cronista do Brasil real - enquanto colecionava achados metafóricos que o transformariam num frasista incomparável e concebia imagens magnificamente exatas - pariu criaturas que, conjugadas, mostram não o que os nativos da terra gostariam de ser, mas o que efetivamente são. O torcedor apaixonado do Fluminense descobriu que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana” e foi o primeiro a coroar Pelé. Ele foi e fez tudo isso - e muito mais - em apenas 68 anos de vida. É compreensível que o dia da morte física de Nelson Rodrigues tenha sido também o primeiro dia do resto de sua eternidade.
A imortalidade de Nelson Falcão Rodrigues, nascido no Recife em 23 de agosto de 1912, é reafirmada pelo centenário do gênio. Diferentemente das efemérides do gênero, desta vez não foi preciso reapresentar o país a outra vítima da amnésia endêmica que chegou com as primeiras caravelas. Desde a década de 70, quando começou a transformar-se numa prova contundente de que nem toda unanimidade é burra, Nelson está livre da temporada no limbo a que são condenados os grandes mortos. De lá para cá, não se passou um só dia sem que estivessem em cartaz peças teatrais ou filmes baseados em sua obra, ou sem que fossem vendidos exemplares dos livros que continuaram a multiplicar-se em edições sucessivas. Também é certo que neste momento, em alguma esquina ou mesa de botequim, alguém está animando a roda de conversa com a evocação de uma frase ou criatura de Nelson Rodrigues. Ou apenas Nelson, porque basta o prenome para a identificação de um velho conhecido.
A admiração por Nelson hoje é compartilhada por todos os brasileiros com mais de dez neurônios - sejam quais forem a idade, a filiação política, a tendência ideológica, o signo, o peso e a estatura. E assim sempre será, porque os muitos grandes momentos de Nelson Rodrigues nunca ficarão grisalhos. A crítica de teatro Barbara Heliodora prevê que, como ocorre com a obra de William Shakespeare, pelo menos quatro peças de Nelson - Vestido de Noiva, Boca de Ouro, A Falecida e O Beijo no Asfalto - continuarão encantando plateias daqui a 500 anos. Os descendentes dos nossos tetranetos reconhecerão uma similar de Engraçadinha na garota ao lado, ou dormirão imaginando que espécie de veículo estará transportando Solange, a dama que, no Brasil do século XX, caçava aventuras no lotação.
“Ele será sempre um grande autor”, afirma Barbara Heliodora, que atribui a Nelson Rodrigues a subida aos palcos dos diálogos que reproduzem a língua falada pelas plateias. “Nelson era um repórter extraordinário, e foi muito influenciado pela experiência como jornalista”, diz. “Tinha um ouvido tão maravilhoso que conseguiu captar o brasileiro falando. Nós aprendíamos na escola que poderíamos falar errado, mas deveríamos escrever corretamente. Os autores escreviam certo, esquecidos de que aquilo era para ser falado.” Só depois de Vestido de Noiva os atores começaram a falar o português das ruas. A descoberta do diálogo em brasileiro fez de Nelson Rodrigues, segundo o crítico Sábato Magaldi, “um autor seminal, que fecundou a nossa 

Nelson diverte crianças de colégio com uma encarnação da “cabra vadia”, personagem que testemunhava entrevistas imaginárias que ele conduzia

Nas redações, Nelson parava, tomava café e fazia uma piada com os colegas. Segundos depois, sentava à mesa e já começava a batucar mais uma de suas histórias

Nelson Rodrigues com Sebastião Araujo, técnico do seu time do coração, o Fluminense, no difícil ano de 1979, quando o time perderia o campeonato carioca para o Flamengo
Se Barbara Heliodora consegue distinguir o jornalista do dramaturgo, os amigos do singularíssimo pernambucano criado no Rio de Janeiro sempre enxergaram um Nelson só, que parecia vários por ser, na definição do jornalista e escritor Otto Lara Resende, um feixe de paradoxos. “É um profundo individualista e vive da emoção coletiva”, disse Otto. “Foi um conservador e tem uma obra revolucionária. Orgulha-se de ser um reacionário e foi um dos autores mais censurados do Brasil.” O psicanalista e escritor Hélio Pellegrino achava que todas as versões do amigo viviam sob “o império da fantasia, em que realidade e invenção sempre se misturam”. Se a opção se impunha, a realidade sofria outra derrota: “Nelson é fiel à sua imaginação”.
Nelson Rodrigues era perigosamente imaginoso tanto com desafetos quanto com os mais íntimos amigos. Um deles só descobriu que fora transformado no nome alternativo da peça que entraria em cartaz naquela noite ao ler o enorme letreiro em neon: “Bonitinha mas Ordinária ouOtto Lara Resende”. A brincadeira que ultrapassara os limites do sarcasmo suspendeu por algumas semanas as conversas diárias entre o autor da homenagem e o integrante do grupo que reunia o que a usina de superlativos qualificava de “amigos além da vida e além da morte”. Anistias concedidas por Nelson Rodrigues eram amplas e irrestritas, mas tinham prazo de validade. Consertado o estrago, o parceiro ofendido não demorava a pousar em alguma história contada por quem sempre desprezou a fronteira que separa o real do imaginado.

“A crônica policial piorou porque os repórteres de hoje não mentem”, lastimava o homem que ainda menino enfeitava com detalhes fantasiosos histórias de casais que se matavam por amor. Nas crônicas ou nos romances de Nelson, o verdadeiro tirava o irreal para dançar o tempo todo. Com um sotaque lisboeta que nunca existiu, Otto Lara Resende era repatriado de Portugal para contracenar com a cabra vadia, única espectadora de entrevistas imaginárias conduzidas em um suposto terreno baldio - ou, ainda, para testemunhar mais um assombro provocado pelo Sobrenatural de Almeida, que alterava bruscamente uma situação ou o resultado de um jogo do Botafogo. Passados mais de trinta anos, está claro que histórias e personagens jamais ficarão datados. As criaturas que se tornaram inverossímeis num Brasil menos primitivo viraram documentos de época.
Tem lugar assegurado no Museu Nacional do Maniqueísmo, por exemplo, o padre de passeata, religioso que comparecia em trajes civis às manifestações de rua contra a ditadura militar. Estará ao lado de sua versão feminina, a freira de minissaia, e a poucos metros da estudante de psicologia da PUC, que queria saber o que o cronista achava da morte de Deus, e da estagiária de calcanhar sujo, que se formara em jornalismo para esbanjar autossuficiência e mau humor nas redações. Todos nascidos em 1968, são filhotes do direitista atormentado pelas atividades clandestinas do primogênito, engajado na luta armada. Em alguns episódios, Nelson foi longe demais na louvação de uma ditadura que torturava e matava inimigos. Mas o conjunto da obra é tão luminoso que revoga as manchas escuras.
Outras invenções do ficcionista delirante são atemporais e continuarão por aí durante séculos. O idiota da objetividade, por exemplo. A vizinha gorda e patusca. Palhares, tão definitivamente canalha que, na casa do irmão, beija à força o pescoço da cunhada que passa pelo corredor. Esses seguirão contracenando com personagens que iluminam a face do Brasil que tenta, inutilmente, esconder as taras, as vergonhas familiares, a guerra conjugal, o adultério, os preconceitos, a sexualidade reprimida, a mesquinhez patológica. “Se todo mundo conhecesse a vida íntima de todo mundo, ninguém cumprimentaria ninguém”, resumiu Nelson Rodrigues.

Os habitantes desse universo fantástico têm o olho rútilo e o lábio trêmulo, reagem à adversidade com arrancos de cachorro atropelado, seu pensamento é tão raso que uma formiguinha poderia atravessá-lo com água pelas canelas. Grã-finas com narinas de cadáver suportam maridos com três papadas e três bochechas em cada lado do rosto. A cabeça dos intelectuais tem a aridez de três desertos, os especialmente infelizes se sentam no meio-fio para chorar lágrimas de esguicho, caem tempestades de quinto ato do Rigoletto, há homens bonitos como havaiano de cinema, faz um calor de rachar catedrais e existe gente varada de luz como santo de vitral. Um mundo assim, espalhado por dezessete peças, nove romances, sete livros de contos e crônicas e milhares de artigos em jornais, merece mais que uma única vez sobre a face da Terra. O mundo maravilhoso que Nelson Rodrigues criou merece existir para sempre.
Obsessivo confesso e sem cura, obcecado especialmente pela morte, Nelson jurava que, durante a infância, fugia da escola para assistir a velórios. Aos 13 anos, estreou como repórter de polícia no jornal do pai, cobrindo um caso de suicídio passional. Adolescente, ouviu o som do tiro de revólver disparado por uma mulher que, inconformada com o noticiário que lhe devassara a vida íntima, resolveu vingar-se com o assassinato do dono do jornal, Mário Rodrigues, ou de algum de seus filhos. À morte do irmão, o ilustrador Roberto Rodrigues, seguiu-se a do pai. Depois vieram os anos de pobreza, a tuberculose que lhe impôs duas internações em Campos do Jordão, as chuvas do trágico verão carioca de 1966 que mataram o irmão Paulo e toda a família, o fim angustiante do primeiro casamento, as turbulências do segundo, o nascimento da filha cega, as torturas infligidas ao seu filho Nelsinho no cárcere. Em 21 de dezembro de 1980, o homem que passou a vida inteira pensando na morte se foi. Nunca se saberá se já tinha descoberto que era imortal.

Matéria publicada originalmente em VEJA, edição 2283, de 22 de agosto de 2012


Otto Lara Resende entrevista Nelson Rodrigues em 1977
Os 10 tipos inesquecíveis do cronista
“A companhia de um paulista é a pior forma de solidão „
“Só os profetas enxergam o óbvio„
“No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal „
Fotos

O jornalista e escritor Nelson Rodrigues recebe homenagem de alunos da Escola Gonçalves Dias e ganha de presente uma cabra (alusão ao quadro Cabra Vadia, do programa Noite de Gala) e flores, em 1969