quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A ideologia racista dos militantes "antirracistas" - Jarred Stepman




Em artigo traduzido para a Gazeta, Jarred Stepman, colaborador do Daily Signal, analisa os três conceitos-chave da ideologia "antirracista":


Neste nosso verão de desgosto, de protestos seguidos de baderna e destruição – vistos por muitos como uma espécie de acerto de contas racial que se seguiu à morte de George Floyd pelas mãos de policiais –, temos visto ideias radicais como o corte de verbas para a polícia se tornarem a regra.

Não só isso, vimos também instituições progressistas como o The New York Times se curvar perante as mobilizações dos militantes, e cancelar aqueles que não cedem aos caprichos da esquerda radical.

Mais: vimos empresas nos Estados Unidos endossando quase que universalmente o Black Lives Matter, uma organização radical com raízes marxistas.

Mas por quê?

Coisas como estas não surgem do nada.

Dois escritores em particular cresceram em popularidade junto à esquerda, dominando as listas nacionais de livros mais vendidos enquanto garantiam uma atenção cada vez maior da imprensa: Robin DiAngelo, palestrante e autora de “White Fragility: Why It’s So Hard for White People to Talk About Racism” (“Fragilidade Branca: porque é tão difícil para as pessoas brancas falar sobre o racismo”, em tradução livre), e Ibram X. Kendi, diretor do Centro de Pesquisas Antirracistas da Universidade de Boston e autor do livro “How to Be an Antiracist” (“Como ser um antirracista” em tradução livre).

Embora trabalhem em áreas distintas, ambos os escritores promovem uma ideologia chamada por eles de “antirracismo”.

Estes dois autores estão moldando o discurso moderno dos militantes e as ideias que têm se tornado politicamente dominantes nos EUA, pelo menos entre a esquerda.

Ter uma compreensão a respeito das crenças destes autores é crucial.

Por exemplo, por que uma manifestação contrária à supremacia branca ataca estátuas tanto de donos de escravos quanto de abolicionistas?

Seria este apenas um exemplo de destruição irracional e arbitrária? Ou talvez os manifestantes estejam abraçando um conjunto de ideias que criam uma brutal dicotomia entre racistas e antirracistas?

Aqui estão três conceitos chave aos quais os antirracistas têm se atrelado.

1º. O Racismo Redefinido

Tanto para DiAngelo como para Kendi, todas as pessoas precisam escolher qual caminho seguir: racismo ou antirracismo. Há apenas essas duas opções, nenhuma mais. E dizer “não sou racista”, como escreveu Kendi, não é bom o suficiente, nem significa que esta pessoa não é racista de verdade.

DiAngelo define a “fragilidade branca”, o tópico principal de seu livro, como um processo pelo qual pessoas brancas retornam “ao nosso conforto racial e à manutenção de nossa dominância perante a hierarquia racial.”

“Embora a fragilidade branca seja desencadeada pelo desconforto e ansiedade, ela nasce da superioridade e do direito”, escreveu DiAngelo. “A fragilidade branca não é uma fraqueza por si só. De fato, é um meio poderoso de controle racial branco e de proteção às vantagens brancas.”

Basicamente, se uma pessoa branca se sente desconfortável em falar sobre o racismo ou se ela nega a sua “branquitude” fundamental, ela é culpada tanto por ser racista quanto pela sua fragilidade branca.

De acordo com os argumentos de DiAngelo e Kendi, mesmo uma negação ao racismo pode ser considerada como uma evidência de racismo.

Isso já foi descrito por muitos outros autores, inclusive Mark Hemingway em seu livro “O Federalista”, como uma “armadilha de Kafka”. É um artifício retórico “no qual quanto mais você nega algo, mais aquilo prova que você é culpado.”

DiAngelo e Kendi criaram uma variação racial das narrativas “opressor versus oprimido”, vistas em muitas das ideologias de esquerda. As classes, que guiam toda uma ideologia econômica marxista, são substituídas pelas raças em um cenário onde só pode haver vencedores ou perdedores.

Kendi e DiAngelo argumentam que o racismo não é só um ato individual de discriminação ou preconceito contra alguém baseado na cor da pele.

Em vez disso, o racismo é definido como uma condição coletiva que resulta em desigualdades sociais.

Kendi argumenta que aqueles que são vistos por muito americanos como racistas de verdade são até menos perigosos do que a real ameaça representada pela aceitação comum de uma suposta cegueira em relação à cor da pele. Ele escreve:

“O movimento racista mais ameaçador não é a caminhada dos integrantes da alt-right em direção a um ‘etnoestado’ branco. É sim a marcha dos americanos comuns em busca de um estado com ‘raças neutras.’ A construção de uma neutralidade de raças de fato alimenta a vitimização dos nacionalistas brancos por dar-lhes a noção de que qualquer política de proteção ou de equiparação para os americanos não brancos é uma ‘discriminação reversa’.”

Kendi rebaixa os “assimilacionistas” a um nível tão baixo quanto o dos “segregacionistas.”

Assimilação é o processo pelo qual as diferenças entre grupos são reduzidas ou até eliminadas em uma determinada sociedade como forma de criar uma cultura comum.

Kendi se opõe aos assimilacionistas, assim definidos por ele, porque segundo ele estes atribuem um caráter comportamental aos resultados desiguais oriundos dos diferentes grupos étnicos.

Assim, o simples fato de questionar o porquê de grupos diferentes terem resultados estatisticamente diferentes em uma sociedade, qualquer que seja o quesito analisado, pode ser construído como um argumento racista.

DiAngelo concorda com a construção de racismo feita por Kendi, e escreve que “se nós acreditarmos de verdade que todos os humanos são iguais, então qualquer disparidade de condições só pode ser resultado de uma discriminação sistêmica.”

Tal argumento essencialmente quer dizer que quaisquer discrepâncias raciais na sociedade são exemplos de racismo.

Dessa forma, se uma sociedade tem um número desproporcional de pessoas ricas e brancas comparadas às ricas e negras, isso é racismo. Se algum desses lados tem uma taxa de mortalidade maior em relação à determinada doença, mais uma vez o culpado é o racismo.

É claro que Kendi é altamente seletivo em relação às estatísticas citadas por ele para demonstrar que “pode não haver privilégio branco mais perceptível do que a própria vida.”

Como escreveu Coleman Hughes, no City Journal: “Ao pinçar seletivamente os dados para mostrar que os negros sofrem mais que os brancos, Kendi transforma aquela que deveria ser uma batalha unificada, neutra em relação à raça – mais especificamente, a luta dos seres humanos contra as doenças que matam – em uma espécie de batalha ‘por procuração’ na luta contra o racismo.”

Hughes, assim como Kendi, é negro.

2º. O “Daltonismo Racial” é um problema, e é racismo

O conceito de oportunidades iguais é fundamentalmente rejeitado pelas doutrinas de DiAngelo e Kendi. Eles argumentam que em uma sociedade profundamente racista condicionada à supremacia branca, garantir a igualdade de oportunidades por meio das leis é perpetuar a desigualdade.

Tanto DiAngelo quanto Kendi criticam a ideia de um suposto “daltonismo racial”, quando não se enxerga a diferença entre brancos e negros. DiAngelo o faz não só em caráter cultural. Ela afirma que essa cegueira seletiva é essencialmente um sinal de um privilégio branco, uma manipulação da mensagem de Martin Luther King Jr. para perpetuar mais e mais racismo.

“A ideologia desse ‘daltonismo racial’ torna a abordagem a certas crenças inconscientes mais difícil para nós”, escreveu DiAngelo. “Enquanto a ideia de uma cegueira seletiva em relação à cor da pele tenha começado de forma até bem intencionada, uma estratégia para interromper o racismo, na prática ela serve apenas como uma negação do racismo como algo real e, assim, mantê-lo em seu lugar.”

As pessoas brancas precisam desenvolver uma “energia racial”, argumenta DiAngelo, para sobrepujar sua fragilidade branca.

O caminho para se chegar a esse resultado começa em reconhecer, adotar e examinar criticamente a “identidade branca” como um antídoto contra a “fragilidade branca”. DiAngelo escreve que “como é uma pessoa que está inserida neste contexto” ela pode falar de sua experiência como pessoa branca, mas que ela usa sua identidade branca como uma forma de “desafiar o racismo.”

DiAngelo deixa para as pessoas brancas a responsabilidade – para alguns, o fardo – de atacar e derrotar o racismo e a “branquitude.”

3º. O Racismo é derrotado por meio da discriminação

Kendi se inclina mais fortemente para outro caminho, o de criar leis que especificamente promovam o antirracismo. Para serem efetivas, ele diz, precisam ser discriminatórias.

Kendi aponta que uma das formas de promover a igualdade é por meio de leis discriminatórias, e que estas podem ser até mesmo desejáveis e necessárias:

“Se a discriminação está criando igualdade, então ela é antirracista. Se a discriminação está criando desigualdades, então ela é racista. Ajudar permanentemente um grupo racial super-representado a atingir bons níveis de riqueza e poder por meio da reprodução da desigualdade é totalmente diferente do que alguém desafiar essa desigualdade ajudando temporariamente um grupo racial sub-representado a atingir um nível relativo de riqueza e poder até que essa igualdade seja alcançada. O único remédio para a discriminação racista é a discriminação antirracista. O único remédio para a discriminação feita no passado é a discriminação feita no presente.”

Se o dedo da discriminação estiver apertando o botão da “igualdade”, quaisquer que sejam as definições dadas por Kendi e outros antirracistas, então tudo bem.

Christopher Caldwell, autor de “The Age of Entitlement: America Since the Sixties”, em artigo para o National Review escreveu que Kendi rejeita a noção – que deriva de muitos dos defensores dos direitos civis – “de que tudo vai bem quando continuamos tratando as pessoas com igualdade, neutralidade e respeito.”

“Isto não é legítimo. É uma obstrução ‘racista’”, pontuou Caldwell.

Kendi propôs uma emenda antirracista à Constituição Americana, sobre a qual ele escreveu um pequeno artigo no site Politico. Vale a pena trazê-lo aqui na íntegra:

“Para reparar o pecado original do racismo, os americanos precisam aprovar uma emenda antirracista na Constituição dos Estados Unidos que consagrem dois princípios-guia antirracistas: A desigualdade racial é evidência de políticas racistas, e diferentes grupos raciais devem ser tratados como iguais.

“Tal emenda determinaria limites sobre os quais certas desigualdades raciais devem ser tratadas como inconstitucionais, assim como inconstitucionais seriam também as ideias racistas de agentes públicos (com uma clara definição a respeito de ‘ideias racistas’ e ‘agentes públicos’). Ela estabeleceria e criaria a dotação orçamentária para o Departamento Antirracista [DOA, na sigla em inglês], órgão comprometido a oferecer treinamento formal a especialistas em antirracismo sem nenhum viés político.

“O DOA seria responsável por fazer uma checagem prévia em todas as políticas públicas, municipais, estaduais e federais, para garantir que em nenhuma delas haja qualquer tipo de desigualdade racial. Essa responsabilidade se ampliaria no sentido de monitorar essas políticas públicas, investigar outros pontos que possam trazer desigualdades raciais e monitorar agentes públicos em busca de expressões de ideias racistas. O DOA pode ser incumbido de ferramentas disciplinares para executar seu trabalho sobre e contra os criadores de políticas públicas que não mudarem voluntariamente suas políticas e ideias racistas.”

Esta proposta feita por Kendi efetivamente acabaria com a autonomia das pessoas e tornaria nula a Carta de Direitos. Um quadro de intelectuais abrigado no Departamento de Antirracismo teria o poder de decidir quem pode ou não se candidatar e quais leis podem ou não ser aprovadas com base em sua interpretação do que é racista.

De novo, o racista, segundo Kendi, é aquele que “apoia atitudes racistas por meio de suas ações ou omissões, ou por expressar ideais racistas.”

Quais ideais se enquadrariam sob a rubrica de racista ou antirracista?

Todos eles.

“Qualquer atitude em qualquer instituição, em qualquer comunidade de qualquer nação está produzindo ou sustentando tanto a igualdade quanto a desigualdade racial”, escreveu Kendi.

Para aqueles que acreditam que podem escapar das terríveis implicações da guerra cultural por trás dessas ideias e se concentrar nas políticas econômicas ou fiscais, é importante perceber que abraçar o socialismo e lutar contra o capitalismo é um elemento crucial na promoção do antirracismo.

Então, ou você combate o capitalismo, ou senão…

Um exemplo de políticas racistas, segundo Kendi, é baixar os impostos sobre ganho de capital.

Desta forma, um apoiador da ideia de impostos mais baixos sobre o ganho de capital – ou até mesmo alguém que não está ativamente em oposição à queda nas taxas sobre o ganho de capital – pode ser impedido de concorrer a um cargo público por um time de burocratas irresponsáveis de uma agência federal com financiamento permanente.

A cereja do bolo, neste caso, seria o fato de essa agência ter o poder de evitar a votação de uma redução dos impostos sobre ganho de capital no Congresso.

Assim se esvaem as noções dos direitos individuais ou da autonomia dos cidadãos. Assim se vão as proteções constitucionais aos direitos de liberdade de associação e liberdade de expressão.

Assim se desmancham os alicerces do sistema criado pelos Pais Fundadores da Nação, a Constituição, que guiou todo o sistema americano, antes falho, no caminho da liberdade e da justiça.

A isso nós damos um nome: tirania.

Jarrett Stepman é colaborador do The Daily Signal e co-apresentador do podcast The Right Side of History. Ele também é o autor do livro "The War on History: The Conspiracy to Rewrite America's Past".

sexta-feira, 3 de julho de 2020

"A lei da mordaça", por J.R. Guzzo

José Roberto Guzzo sai de Veja e critica a revista | Poder360

Os senadores aprovaram a mais agressiva legislação de censura que o Brasil já viu. Nem o AI-5 permitia a prática da censura em qualquer um de seus 12 artigos

Éuma realidade baseada na lógica, comprovada pela prática de séculos e que há muito tempo dispensa qualquer comprovação através da experiência; não está mais em discussão, ou talvez nunca tenha realmente estado.
Ela ensina uma verdade simples e potente. 
Todas as vezes em que algum governo, em qualquer época, regime político ou lugar deste mundo, quis regular a liberdade de expressão, o resultado foi o mesmo, sem nenhuma exceção: essa liberdade foi reduzida, falsificada ou simplesmente extinta. 
Não é uma questão de ponto de vista. 
É a consequência inevitável da pretensão de melhorar algo que é um direito evidente, por natureza, do ser humano. 
Esse direito não pode, objetivamente, ser melhorado por leis — da mesma forma como não é possível melhorar, por alguma espécie de ato administrativo, o direito do homem a pensar ou a existir. Conclusão: em vez de melhorar, ele só piora, todas as vezes em que se mexe com ele.
É o que acaba de acontecer, nesta corrida cada vez mais descontrolada do Brasil rumo à escuridão, com o “Projeto de Lei das Fake News” no Senado Federal — sem debate público, sem sessão plenária, por “voto eletrônico”, num momento em que o país está arrasado por uma epidemia a caminho de matar 60 mil pessoas e por apenas 44 votos, de um total de 81 senadores. 
Se não há acordo nem entre os próprios senadores sobre o tema, que respeito se pode esperar de uma lei dessas? 
A verdade, pela evidência dos fatos, é que o Senado Federal do Brasil tratou um direito fundamental do homem, incluído como “sagrado” nessa bendita Constituição que não sai da boca de políticos, juristas e pensadores brasileiros em geral, com o pouco-caso de quem está trocando um nome de rua em algum fundão perdido do interior.
Naturalmente, como fazem todas as ditaduras nos momentos em que tentam dar um cheiro de legalidade a ações de banditismo contra os direitos democráticos, os autores da lei disseram que seu objetivo era “aprimorar”, ou até mesmo “proteger”, a liberdade de expressão. 
É mentira, como se pode verificar pela leitura do que está escrito no texto aprovado pelos 44 senadores. 
A autoridade pública — também podem chamar de “polícia” — tem a partir de agora o direito de “rastrear” todas as comunicações feitas pelos cidadãos através dos meios eletrônicos. 
É, para começar, uma violação grosseira do direito à privacidade na comunicação entre as pessoas: pela nova lei, mesmo a sua conversinha num simples grupo de WhatsApp entre os familiares, os amigos ou os vizinhos do prédio pode ser gravada por quem manda nos governos, sem licença da Justiça ou de quem quer que seja. 
Para continuar, é uma agressão direta à liberdade de manifestação do seu pensamento, pois tudo o que você disser poderá ser utilizado contra você — ou contra as plataformas por intermédio das quais as suas conversas são feitas.
Como é possível uma sociedade livre entregar ao Estado a função de decidir o que é verdade e o que é mentira?

Como uma lei que pretende combater a mentira nas comunicações públicas, punindo a transmissão de “notícias falsas”, pode ser construída, ela mesma, em cima de uma mentira? 
O fato é que toda essa lei se baseia na falsificação da verdade. 
Ela pretende castigar o mau uso da liberdade de manifestação, segundo os autores asseguram piedosamente nos seus propósitos — mas isso já é feito, desde 1940, pelo Código Penal Brasileiro. 
A calúnia, a difamação e a injúria são os únicos três crimes que alguém pode cometer utilizando-se do seu direito à livre expressão; até hoje, ninguém foi capaz de descrever alguma outra possibilidade. 
Muito bem: esses três delitos estão previstos nos artigos 139, 140 e 141 do Código Penal, e caso o réu seja condenado está sujeito a penas de multa, prisão ou reclusão. 
Pode ser punido, até mesmo, o crime de calúnia contra um morto. 
Será que já não está bom assim? 
É a regra que vem valendo há 80 anos, sem nenhuma observação em contrário, para as mentiras ditas pela imprensa, ou por outros meios de comunicação. 
Por que, agora, estão achando que é preciso fazer mais?
No que talvez seja o seu pior momento, a lei manda que se forme um “conselho” para julgar o que há de errado e quem errou em tudo o que se diz na internet — um surto de mania de grandeza que, além do mais, pretende “certificar” (ou não) as virtudes dos serviços a ser criados pelos “provedores de redes sociais” e “serviços privados de mensageria” para controlar o que os brasileiros dizem na internet. 
“Conselho”? 
Que raio quer dizer isso? 
Então a Justiça brasileira, com seus 18 mil juízes, desembargadores, ministros, tribunais inferiores, superiores e supremos, não é o lugar certo para julgar as questões que envolvem uma das garantias essenciais da Constituição? 
É uma aberração: ao entregar a uma montoeira indefinida de deputados, senadores, burocratas, diretores de “agências reguladoras”, comunicadores e gente da “sociedade civil” o direito de definir o certo e o errado em tudo aquilo que se diz num celular no território nacional, a nova lei está privatizando a Justiça. 
Como é possível uma sociedade livre entregar a um “conselho” — entregar ao Estado, na verdade — a função de decidir o que é verdade e o que é mentira?
O que os políticos querem é combater tudo o que se possa dizer contra eles e comprar a tolerância do STF

A degeneração moral, lógica e política que os autores da lei criaram autoriza a coleta em massa de informações sobre o cidadão e sobre o que ele vai dizer daqui para diante em seus aparelhos de comunicação — se quiser exercer o direito legal de falar o que pensa, terá de se esconder num canto qualquer onde as autoridades não possam ouvi-lo. 
Você, por acaso, confia na honestidade de quem vai estar na escuta das suas palavras — um senador, por exemplo? 
Está seguro de que ele não vai usar em proveito próprio o que ouviu? 
A lei das fake news, em mais uma das suas deformações tóxicas, também exige que qualquer empresa que queira operar no país através de redes sociais terá de ter “sede no Brasil” — uma patriotada primitiva, ignorante e destrutiva que significa atraso tecnológico direto na veia. 
Acima de tudo, enfim, os senadores aprovaram a mais agressiva legislação de censura que o Brasil já viu. 
Nem o AI-5 de 1968, tido como a pior agressão à liberdade que alguém jamais escreveu num pedaço de papel em toda a história nacional, permitia a prática da censura em qualquer um dos seus 12 artigos. 
Permitia fechamento do Congresso, confisco de bens e negação de habeas corpus para crimes políticos. Mas não permitia censura.
Não adianta, como dizem os autores da lei, garantir que não há censura no texto aprovado, no sentido de proibir alguém de dizer alguma coisa. 
Não há a palavra “censura”, mas há a censura — sempre há, todas as vezes em que a autoridade tem a vontade, ou a pretensão, de julgar o bem e o mal naquilo que as pessoas pensam. 
O fato é que até hoje nenhum país civilizado, onde há o máximo possível de liberdades — e tantas notícias falsas circulando nas redes sociais como no Brasil —, fez nada de parecido com o que está se tentando fazer aqui. 
Não ocorreu a ninguém, até agora, banir a mentira da vida pública de uma nação. 
Alguém acredita que os senadores que aprovaram essa lei sejam os únicos a ver o que mais ninguém viu?
O que condena a “lei das fake news”, acima tudo, é a sua hipocrisia de nascença. 
Nunca foi objetivo de seus patrocinadores combater notícia falsa nenhuma. 
O que os políticos querem é combater tudo o que se possa dizer contra eles (e o que eles fazem) nas redes sociais — e, mais até do que isso, comprar a tolerância, o apoio e a cumplicidade do Supremo Tribunal Federal no julgamento dos seus atos. 
O STF é o verdadeiro inventor dessa deformação agora usinada como lei pelo Senado — e que teve por origem real o medo dos próprios ministros de responder penalmente pelos atos de que são acusados ou suspeitos. 
Todo o resto é conversa-fiada. 
“Protejam a gente; em compensação, vamos proteger vocês quando forem julgados aqui” — essa é a mensagem. 
Não poderiam encontrar parceiros tão dispostos a cooperar. 
O Senado, como todo mundo sabe, é a casa de gigantes da honestidade como Renan Calheiros, Jader Barbalho, Ciro Nogueira e tantos outros heróis da política nacional — esse último, aliás, acaba de ver o próprio STF, por 3 a 2, autorizar seu processo penal por corrupção e lavagem de dinheiro, na condição de chefe do “quadrilhão do PP”. 
Você acha que ele votou a favor ou contra a “lei das fake news”?
“A lei não é contra as notícias falsas, é contra as liberdades individuais. 
Não é contra a mentira; é a favor da censura. 
Não é para defender o cidadão; é para defender quem tem poder de quem não tem poder”, afirmou o deputado gaúcho Marcel van Hattem, do Partido Novo — que, junto com seus colegas de bancada Paulo Ganime, do Rio de Janeiro, e Vinicius Poit, de São Paulo, tem sido uma das vozes mais ativas na denúncia do projeto que passou pelo Senado. 
Eles vão lutar, agora, pela sua rejeição na Câmara dos Deputados. 
É um perfeito sinal dos tempos que as suas vozes não apareçam na mídia que chama a si própria de “grande”. 
Estão confinadas às redes sociais — essas mesmas que os donos do Brasil velho querem calar.

Revista Oeste

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Ideologia über alles: a decadência dos intelectuais.- João Leonardo Marques Roschildt



Se existe um movimento flagrantemente anti-intelectual denunciado por intelectuais, é exatamente aquele que é liderado pelos próprios intelectuais. Famintos por militância “progressista” e empanturrados de ideologia esquerdista, seus membros tem ampla predominância no ambiente acadêmico, seja nos EUA ou no Brasil. Artigo do professor João Leonardo Marques Roschildt, via Gazeta:


O descrédito dos intelectuais contemporâneos surge com a decadência de seus intelectos. Sem qualquer vergonha, nos últimos anos alguns saíram do armário e deixaram as antigas vestes de pensadores para assumirem de vez sua militância progressista. Outros, ainda enrustidos, tentam mascarar suas ideologias coletivistas com posturas sisudas, “técnicas” e isentas. E ainda existem aqueles que travestem suas ideias conforme a “música” do momento.

Se em uma crise de meia-idade descobre-se a perda do brilho da juventude e o início de uma opaca velhice, pode-se afirmar que a intelectualidade se encontra nesse estágio. Seus membros, antes vistos como ilustres sábios por boa parte da sociedade, nos últimos anos caíram em desgraça na mesma proporção de boa parte dos grandes veículos de comunicação. Assim, como as pessoas que atravessam aquela fase da vida, estes intelectuais passaram a conviver diariamente com a insegurança das mudanças sociais e políticas ocorridas. Desanimados com a falta de aceitação social, desenvolveram um saudosismo por um passado político recente “nunca antes visto na história” dos intelectuais. No fundo, a revolucionária intelectualidade contemporânea é bastante reacionária. Em alguns casos, buscando o sossego da solidão como forma de não serem perturbados pelos governos “fascistas” ou cobrados pela sociedade, os mais abonados optaram pelo autoexílio. Nunca nos “paraísos” socialistas, mas sempre em países alinhados com o “demoníaco” capitalismo, como Alemanha, Estados Unidos e França.

As acusações mais levianas sobre a origem dessa rejeição pública à classe intelectual repousam naquilo que poderia ser denominado de anti-intelectualismo. Na essência, esse movimento teria asco a tudo que é produzido por estudiosos nas mais diversas áreas do conhecimento. Nos dizeres da “autoexilada filósofa” Márcia Tiburi, “há um ódio que se dirige atualmente à inteligência, ao conhecimento, à ciência, ao esclarecimento, ao discernimento”, o que definiria o anti-intelectualismo. Em suma, é a negação bestial daquilo que o intelecto humano supostamente é capaz de produzir de mais glorioso para a resolução dos seus problemas.

Mas aqui mora um perigo, visto que em toda impulsiva incriminação há uma ausência de prudência. No caso em questão existe um adicional: a maldade ideológica por parte dos acusadores. Dentro da miopia progressista, o espaço para críticas centrais às suas diversas formas de pensar no mundo deve estar resguardado no esquadro dos aspectos toleráveis definidos pelo próprio progressismo. Em resumo, as mirabolantes ideias de um progressista só podem ser criticadas legitimamente por outro progressista. No jogo de aparências desenvolvido não existe uma real discordância. E todo aquele que afrontar o “tolerável” ou desaprovar alguma “vaca sagrada” da esquerda será classificado como antidemocrático, reacionário, machista, sexista, racista, homofóbico e intolerante. Para estes mestres do pensamento esquerdista, a pluralidade deve ser entre iguais.

Em alguma medida, os que denunciam uma suposta existência no Brasil de um movimento anti-intelectual são bons exemplos do que foi dito e padecem dos males que atribuem a seus antagonistas. Ou, para ficar em um caso, alguém duvida que Márcia Tiburi não é o pleno enquadramento da definição de anti-intelectualismo? Nesse embate, no córner vermelho está o progressismo, ao passo que no córner azul está o conservadorismo, apelidado pejorativamente (e com muita ignorância) de reacionarismo. Desta forma, pode-se afirmar sem dúvida alguma que, na linha de raciocínio progressista, a anti-intelectualidade congrega tudo o que se contrapõe ao seu modus operandi. Para a “fina flor” da falsa erudição, se existe alinhamento mental com o dito “progressismo”, aqui há uma intelectualidade, ao passo que, se sobram proximidades com o conservadorismo, aqui jaz anti-intelectualidade.

Desta forma, o “progressismo” tenta blindar-se das críticas mais contundentes e severas, sempre atribuindo ao seu inimigo uma imaginária aversão à sabedoria e à racionalidade, o que constituiria uma prática irregular para o embate de ideias. Como maciçamente os “especialistas” da grande mídia são “progressistas”, algo que se reproduz (ou é reflexo?) nas universidades, vende-se a ideia de que a menor discordância das ideias “iluminadas” significa o início do obscurantismo. O encanto da maior parte dos veículos de comunicação com essa vanguarda a favor do “progresso” produz a inventiva perspectiva de consenso sobre uma abordagem, o que por inúmeras vezes não corresponde à realidade. O meio acadêmico, recluso em seus prédios, concebe ideias “inovadoras” estapafúrdias que são continuamente aplaudidas entre os pares, o que infla o ego dos “especialistas”.

Em razão de esses experts não lidarem muito bem com a verdadeira oposição de ideias, qualquer rejeição à sua visão de mundo ou agenda ideológica é sinônimo de irracionalidade. Nada mais natural; afinal, um “progressista” crê piamente que seus ideais representam a marcha do progresso. Logo, se alguém é um firme obstáculo às suas convicções, deve ser alguma besta não esclarecida. E se tal atitude “retrógrada” provém do povo, do senso comum, pior ainda; afinal, não se espera algo de diferente do ignorante patuléu que precisa ser instruído adequadamente para pensar e executar as teorias dos visionários de gabinete.

No fim de abril de 2020, uma professora de Direito de Harvard, Elizabeth Bartholet, fez uma severa crítica ao homeschooling, também chamado de educação domiciliar no Brasil. Em sua visão, exposta na Harvard Magazine, tal situação é descrita como extremamente perigosa para as crianças em razão do controle autoritário que os pais têm sobre seus filhos no cenário da educação domiciliar. Com a firme ideia de que este modelo educacional deve ser banido, Bartholet diz que qualquer prática que não oferte uma “educação significativa” (uma educação que faça sentido) estaria violando os direitos das crianças ao impedi-las de contribuírem positivamente para uma sociedade plural e democrática. E, sem titubear, acrescentou que o homeschooling não protege as crianças de serem abusadas, visto que, ao isolarem os infantes do convívio público, principalmente no caso das crianças de 4 a 5 anos de idade, os principais “repórteres obrigatórios”, os professores, que alertam as autoridades diante das evidências que remetem a abusos ou negligências, não conseguiriam cumprir tal tarefa exatamente pelo fato de a criança não estar na escola. De acordo com ela, tais violências perpetradas por pais que defendem o homeschooling são comuns nos EUA.

Ao falar sobre a realidade norte-americana, Bartholet declarou que as situações de homeschooling só estão regulamentadas com as exigências mínimas para que os pais possam executar essa prática em 12 dos 50 estados dos EUA. Isso traz como consequência que há a possibilidade de que pais que não sabem ler possam manter seus filhos longe da escola privando-os do conhecimento, o que, de acordo com a professora, não seria algo incomum.

Fazendo referência a um longo artigo de sua autoria, publicado na reconhecida Arizona Law Review, Bartholet reforça que os pais escolhem a educação domiciliar, de acordo com pesquisas, por inúmeras razões: proteção contra bullying, possibilidade de práticas esportivas diversas ou até mesmo flexibilidade de horários para outras atividades. Mas, na maior parte dos casos (mais de 90%), os norte-americanos optam por retirar seus filhos das escolas porque são cristãos conservadores que não concordam com a cultura “progressista” do sistema de ensino, o que para ela constitui um grave erro, pois estes pais não estariam engajados com os valores democráticos, com o fim da discriminação e com o ideal de tolerância. E a professora reforça que existem casos em que algumas famílias duvidam do valor da ciência, estimulam a subserviência feminina e a supremacia branca.

Assim, frente a este verdadeiro atestado de atrocidades infantis, resta a Bartholet apresentar o seguinte questionamento retórico: “nós achamos que os pais devem ter todo o tempo, essencialmente um controle autoritário sobre seus filhos de zero a 18 anos?” Como uma levantadora de vôlei que coloca a ponteira pronta para finalizar, a professora responde: “Eu acho que é sempre perigoso colocar pessoas poderosas no comando de impotentes, e dar total autoridade aos poderosos”. Logo, banir o homeschooling é a solução.

Bem, sem se dar conta do que falou, Bartholet é exatamente a poderosa que quer guiar os impotentes. Afinal, é a “especialista” que deseja planejar a vida social dos “ignorantes” e “reacionários” pais que não sabem educar seus filhos. Como na crítica “racialista” e “elitista” feita pelo mainstream aos homens brancos, de baixa instrução e do interior dos EUA que elegeram Donald Trump, a “estudiosa” direciona sua raiva aos cristãos conservadores. E é na escola que se aprendem os valores do pluralismo e da democracia...

Esta espécie de “intelectual”, além da mera arrogância que caracteriza boa parte da classe “pensante”, julga-se poderosa o suficiente para modificar, de um gabinete, a vida dos cidadãos. Estes “sábios” acreditam estar vivenciando a ascensão das trevas morais, sociais e políticas por não comungarem de nenhum dos valores conservadores que emergiram nas eleições recentes ao redor do mundo ocidental. E, diante disso, creem que a iluminação típica das divindades esteja pairando sobre suas cabeças para que elaborem ações sociais que “eduquem” compulsoriamente os indivíduos.

No caso da professora, expressando o mais íntimo rancor para com cristãos e conservadores, e generalizando casos pontuais de abusos e maus-tratos com crianças por parte de seus pais para justificar suas alegações, há a construção de uma narrativa que transpõe a luta de classes para dentro do seio familiar, seguindo no melhor esquema dos herdeiros do marxismo. Enquanto os pais são vistos como “poderosos” e “autoritários”, os filhos são classificados como “impotentes”. É a versão de opressores versus oprimidos turbinada pelo homeschooling. Com essa preconcepção entendida como verdadeira dentro da narrativa fantasiosa de Bartholet, existe um firme espaço que legitima o banimento da educação domiciliar. Afinal, como alguém pode defender uma educação que não seja significativa, com abusos, negligências e atos tirânicos dos pais, supostamente algo típico de famílias conservadoras cristãs que defendem a intolerância, o preconceito, o racismo e a misoginia, algo avesso à democracia? Se a narrativa está certa, a professora “especialista” está correta. E como não estar certa em um mundo constantemente narrado por “progressistas”?

Como bem apontou o professor Tom Lindsay em artigo para a Forbes, Bartholet não tem nenhuma evidência que consiga comprovar suas principais alegações, quais sejam, a de que existem abusos constantes contra crianças em educação domiciliar. Citando um estudo do pesquisador Brian D. May, intitulado “Child abuse of public school, private school, and homeschool students: evidence, philosophy, and reason”, publicado em 2018, Lindsay aponta que existem índices relevantes de abusos contra crianças cometidos por funcionários de escolas, exatamente aqueles que seriam “repórteres obrigatórios” para denunciar tais violências. E ainda acrescentou, citando May, que, com os dados disponíveis até o momento, pode-se dizer que “a taxa de abusos de crianças em famílias homeschool é mais baixa do que o público em geral”.

A conclusão mais simples e objetiva é a de que os “especialistas” são pródigos em ideologias e escassos em evidências. Não há laço de amizade entre um “progressista” e os fatos. E Bartholet é só mais um exemplo que resume essa realidade. Estes “estudiosos” para o “progresso” não se envergonham em proferir ideias que não correspondem a fatos porque são adulados pela grande mídia sem sofrer o mínimo desconforto do confronto firme de ideias. Assim, encontram um terreno fértil para atingirem a tradição e as atitudes de vida daqueles que não gozam de seus prestígios: os cidadãos comuns.

Todavia, o Brasil tem “sua” Bartholet. Aliás, com um ano de antecedência e expressando a mesma opinião de Bartholet, o professor Paulo Modesto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), já defendia praticamente as mesmas ideias no ano de 2019. Em texto divulgado no site Conjur, intitulado “Homeschooling é um prejuízo aos direitos da criança e do adolescente”, Modesto não foi modesto nas críticas ao ensino domiciliar.

Defendendo como a escola é um local de aprendizado, de reconhecimento e de “equalização de diferenças”, Modesto diz que o homeschooling “promove o enclausuramento do educando e o torna vulnerável a discursos homogêneos, estritamente vinculados à ideologia dos pais ou de grupos em que estes estejam inseridos (igreja, partido, sindicato), sem participação plural ou o contraditório de outra instância crítica. Há perda da vivência comum ou coletiva, risco acrescido de negligência e violência doméstica, enfraquecimento do sentido de horizonte comum e de cidadania”. Ainda acrescentou que a escola é um local que protege as crianças contra violência doméstica, pois permite a fiscalização comunitária do desenvolvimento das crianças e adolescentes. Só não apareceram as palavras “autoritário” e “perigoso”. Lembrando que “igreja” equivale a cristão e que “cristão”, na mente de “progressistas”, equivale a conservador, logo, na prática, não faltou palavra alguma. De resto, Bartholet parece ter copiado a tese do professor da UFBA, o que mostra o “internacionalismo” do “progressismo”. Claro que os críticos dirão que é uma teoria da conspiração...

Da mesma maneira, as assertivas de Modesto são um produto exclusivo de seu intelecto. Nada do que afirmou guarda correlação necessária com a realidade. Na essência é a sua ideologia que está sedenta pelo poder de determinar os caminhos da educação domiciliar no Brasil. Como pode-se afirmar que há enclausuramento do educando? Ele não pode conviver com outras crianças e adolescentes? E como os filhos ficam vulneráveis às ideologias dos pais sem convívio plural? Na escola brasileira não existem indícios de uma doutrinação ideológica? Pode-se falar em risco acrescido de violência doméstica com base em que evidências? Por qual razão se enfraquece a cidadania? A ideia de uma adequada cidadania só se aprende na escola? Mesmo com o Brasil ocupando péssimas posições em rankings internacionais que avaliam nossos estudantes, a escola é um local de aprendizado? Vivência coletiva só ocorre na escola?

No fundo, Modesto e Bartholet, ao expressarem de forma cifrada que tudo é na escola, nada contra a escola, e nada fora da escola, dialogam com a célebre frase de Mussolini que ajuda a entender o conceito de fascismo: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”. O fato é que a imaginação totalitária nem sempre se julga totalitária. Tentando esquivar-se do suposto autoritarismo familiar e de todos os males “antidemocráticos” que parecem representar o espírito dos lares daqueles que optam pela educação domiciliar, os dois “pensadores” recaem na fantasia de um mundo perfeito no ambiente escolar. No melhor modelo do seriado de humor Chaves, os intelectuais fazem tudo “sem querer querendo”: rejeitam modelos tirânicos propondo tiranias; defendem a pluralidade de ideias prescrevendo uma única visão de mundo; “livres” de preconceitos e embebidos de tolerância, não perdem tempo em rotular negativamente cristãos e conservadores; criticam as ideologias sendo ideólogos; contrários à discriminação, são campeões em discriminar.

Se existe um movimento flagrantemente anti-intelectual denunciado por intelectuais, é exatamente aquele que é liderado pelos próprios intelectuais. Famintos por militância “progressista” e empanturrados de ideologia esquerdista, seus membros, com ampla predominância no ambiente acadêmico, seja nos EUA ou no Brasil, lançam mão de um sentimentalismo travestido de pseudociência para defenderem agendas doutrinárias importantes para suas causas. Estes “pensadores” refletem o que há de mais anticientífico, paranoico, obscuro, avesso à sabedoria e incapaz de racionalidade que a humanidade conseguiu produzir. Podem ter a chancela de instituições de ensino renomadas, que foram paulatinamente aparelhadas pelo corporativismo “progressista”, mas não escondem o quão afastadas estão suas ideias de uma razoável instrução intelectiva.

A verdadeira anti-intelectualidade é nociva para a sociedade. Mitomaníacos por natureza, estes “sábios” adulteradores da realidade mentem compulsivamente sobre fatos para agradarem seus cúmplices, para obterem notoriedade pública, para ascenderem na carreira universitária e para implementarem suas fantasias teóricas. Não há perigo maior do que estar à mercê destes autoritários.

João Leonardo Marques Roschildt é professor do curso de Direito do Centro Universitário da Região da Campanha (Urcamp) e autor de A grama era verde. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Os exageros de governadores, prefeitos, juízes etc. - J. R. Guzzo

Os exageros de governadores, prefeitos, juízes etc.

O interesse comum é a última coisa que está sendo levada em consideração. Francamente: você confia, mesmo, no seu governador? E no seu prefeito? E no fiscal que dá ordens em nome deles? Se a resposta for “sim”, pode relaxar. E então? Coluna de J. R. Guzzo, publicada pelo Estadão:


Um dos aspectos mais perversos dos tempos de aflição que a pandemia do coronavírus trouxe para o Brasil tem sido a aberta “partidarização” que as ameaças à saúde geral trouxeram para a gestão do problema todo. A maioria da população, simplesmente, está com medo; não quer se contaminar, nem contaminar as pessoas queridas, e por conta disso está disposta a obedecer às ordens que recebe. O problema, é claro, está em quem dá as ordens. Um mínimo, mas realmente um mínimo, de honestidade, faria qualquer pessoa reconhecer que a autoridade pública brasileira é geralmente um desastre – ou alguém, sinceramente, acha que não é? Pois é essa gente, e ninguém mais, que está mandando: uma manada de 27 governadores, 5.500 prefeitos, 18.000 juízes de direito, ministros de todas as variedades e mais do mesmo. Seu problema não é apenas a incompetência. A maioria deles, desgraçadamente, tomou partido diante de uma questão que deveria ser tratada apenas com o conhecimento científico e a aptidão técnica para gerir a saúde pública.

O resultado é que a população está sendo submetida a decisões que, muitas vezes, não têm nada a ver com as melhores regras para o combate da epidemia. Têm a ver, acima de tudo, com o partido que os governantes tomaram em relação ao problema. A grande maioria tomou o partido que você sabe muito bem qual é: o que vai render mais vantagem política para quem dá as ordens. Uma parte, talvez a mais numerosa, aposta que o grande cabo eleitoral do momento, ou aliado político, é o medo. Estão convencidos que o sentimento mais forte entre a maioria da população, no momento, é o temor pela sua vida; exploram isso, então, tomando partido de tudo o que signifique repressão aos movimentos das pessoas e das empresas. Outra parte acha que os cidadãos estão, mais que tudo, angustiados com a paralisia do País – e jogam suas fichas no enfrentamento com a turma do “fecha tudo”.

Estamos assistindo a muitos dos piores momentos da nossa vida pública recente: um drama humano sem paralelo nas experiências do país ser tratado como um caso de marketing, de dígitos nas redes sociais e de bajulação desesperada aos meios de comunicação. A pergunta que interessa é: se eu fizer isso ou aquilo eu vou ser elogiado na mídia? Ou: como vou me aproveitar dos números, falsificar fatos e mentir, pura e simplesmente, para levar vantagem? O interesse comum é a última coisa que está sendo levada em consideração. Francamente: você confia, mesmo, no seu governador? E no seu prefeito? E no fiscal que dá ordens em nome deles? Se a resposta for “sim”, pode relaxar. E então?