sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU): um plano para a escravização global da humanidade sob os pés das grandes corporações

Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU): um plano para a escravização global da humanidade sob os pés das grandes corporações

Por Mike Adams [*]
Esta semana, Michael Snyder publicou um artigo importante intitulado A agenda de 2030: este mês A ONU lança um plano para uma nova ordem mundial com a ajuda do Papa.
Esse artigo faz referência ao documento “Agenda 2030 da ONU”, que visa implementar o “desenvolvimento sustentável” em todo o mundo.
Esse documento descreve nada menos do que a usurpação da soberania de todas as nações do planeta por um governo global. Os “objetivos” deste documento não são mais do que palavras codificadas para uma agenda fascista de um governo corporativo que aprisionará a humanidade em um ciclo de pobreza devastador, enquanto enriquece as corporações globalistas mundiais mais poderosas do mundo, como a Monsanto e a DuPont.
No intuito de ajudar a despertar a humanidade, resolvi descodificar os 17 pontos da Agenda 2030 para que todos os leitores possam entender o que esse documento realmente está reivindicando. Para conseguir entendê-lo, você precisa compreender como os globalistas disfarçam suas agendas monopolistas numa linguagem “amistosa”.
Aqui está a decodificação ponto-a-ponto. Observe cuidadosamente que em nenhuma parte esse documento afirma que “alcançar a liberdade humana” é um de seus objetivos. Também não explica COMO esses objetivos serão alcançados. Como você verá aqui, cada ponto desta agenda da ONU é para ser concretizado através docontrole governamental centralizado e de regimes totalitários que se assemelham ao comunismo.
Decodificação da “Agenda 2030 da ONU: modelo para um governo globalista” da ONU (controlado por interesses corporativos)
Objetivo 1: Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
Decodificação: Colocar todos no sistema de previdência do governo, dê vale-refeição, subsídios à habitação e doações que os tornem escravos obedientes ao governo global. Nunca permita mobilidade para a ascensão social das pessoas. Em vez disso, ensine a vitimização em massa e a obediência a um governo que ofereça “mesadas”para necessidades básicas como alimentos e remédios. Rotule isso como “combate à pobreza”.
Objetivo 2: Acabar com a fome, alcançar segurança alimentar e melhoria da nutrição, e promover a agricultura sustentável.
Decodificação: Invadir todo o planeta com alimentos transgênicos e as sementes patenteadas da Monsanto, enquanto há aumento do uso de herbicidas mortais sob a falsa alegação de “aumento da produtividade” de culturas alimentares. Projetarplantas geneticamente modificadas para impulsionar produtos químicos vitamínicos específicos, sem ter idéia das consequências a longo prazo da contaminaçãogenética ou de experimentos genéticos entre espécies realizados abertamente em um ecossistema frágil.
Objetivo 3: Garantir uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
DecodificaçãoAutorizar mais de 100 vacinações obrigatórias para todas as crianças e adultos, ameaçando os pais com detenção e prisão caso se recusem a cooperar. Obrigar o uso intenso de medicação em crianças e adolescentes, enquanto programas de “diagnóstico” são executados. Chame a medicação em massa de programas de “prevenção” e afirme que ela melhora a saúde dos cidadãos.
Objetivo 4: Garantir educação inclusiva, equitativade qualidade e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
Decodificação: Empurrar uma história falsa e uma educação abaixo dos padrões, ou seja, de “base comum,” que produza trabalhadores obedientes ao invés de pensadores independentes. Nunca deixar as pessoas aprenderem a história real,senão elas podem perceber que não querem repeti-la.
Objetivo 5: Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
Decodificação: Criminalizar o Cristianismo, marginalizar a heterossexualidade, demonizar os homens e promover a agenda LGBT em todos os lugares. O objetivo real nunca é “igualdade” mas a marginalização e a humilhação de qualquer pessoa que expresse qualquer característica masculina. O objetivo final é feminizar a sociedade, criando ampla aceitação da “obediência gentil” junto com as idéiasfragilizantes de propriedade comunitária e “compartilhamento” de tudo. Tendo em vista que apenas a energia masculina possui a força para se levantar contra a opressão e a lutar pelos direitos humanos, a supressão da energia masculina é fundamental para manter a população em um estado de conformação eterna.
Objetivo 6: Garantir disponibilidade e gerenciamento sustentável de água e saneamento para todos
Decodificação: Permitir que empresas poderosas aproveitem o controle dos suprimentos de água do mundo e cobrem preços monopolistas para “construir novas infra-estruturas de entrega de água” que “garanta disponibilidade”.
Objetivo 7: Garantir acesso a energia barata, confiável, sustentável e moderna para todos.
DecodificaçãoCoibir o carvão, o gás e o petróleo enquanto exige os subsídios de energia “verde” condenada ao fracasso para startups encabeçadas por amigos da Casa Branca que irão falir em cinco anos ou menos. As startups verdes fazem discursos impressionantes e tem cobertura de mídia, mas porque essas empresas são lideradas por idiotas corruptos em vez de empresários capazes, elas sempre irão à falência. (E a mídia espera que você não se lembre de toda a fanfarra que rodeou seu lançamento original.)
Objetivo 8: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.
Decodificação: Regular os pequenos negócios de forma a serem extintos pelos salários mínimos exigido pelo governo, que levará à falência todos os setores da economia. Forçar os empregadores a cumprir quotas de contratação de trabalhadores LGBT, e ao mesmo tempo, exigir níveis salariais sob uma economia de trabalho com planejamento central, ditada pelo governo. Destruir economia de livre mercado e negar alvarás e licenças para as empresas que não obedeçam aos ditames governamentais.
Objetivo 9: Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação.
Decodificação: Colocar as nações em dívida extrema com o Banco Mundial, gastando dinheiro da dívida para contratar empresas americanas corruptas para construir projetos de infraestrutura em larga escala que prendam os países em desenvolvimento em um ciclo de dívida sem fim. Veja o livro Confessions of a Economic Hit Man, de John Perkins, para entender os detalhes de como esse esquema foi repetido inúmeras vezes nas últimas décadas.
Objetivo 10: Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
Decodificação: Punir os ricos, os empresários e os inovadores, confiscando quase todos os ganhos daqueles que optam por trabalhar e se destacar. Redistribuir a riqueza confiscada para as massas não trabalhadoras de parasitas humanos, que se alimentam de uma economia produtiva, enquanto não contribuem com nada (…) tudo isso feito aos gritos por “igualdade”.
Objetivo 11: Tornar as cidades e assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
Decodificação: Proibir o porte de armas para os cidadãos, concentrando armas nas mãos de agentes governamentais obedientes que dominam uma classe desarmada e escravizada de trabalhadores empobrecidos. Criminalizar a moradia na maioria das áreas rurais através da criação de “áreas protegidas” no estilo Jogos Vorazes, as quais o governo alegará ser de propriedade do “Povo”, mesmo que nenhuma pessoa possa viver lá. Forçar todos as pessoas a ir para as cidades densamente povoadas, fortemente controladas, onde estarão sob vigilância 24 horas por dia e sujeitas a fácil manipulação pelo governo.
Objetivo 12: Garantir padrões de consumo e produção sustentáveis.
Decodificação: Começar a cobrar impostos punitivos sobre o consumo de combustíveis fósseis e eletricidade, forçando as pessoas a viverem em condições precárias que se assemelham cada vez mais às condições do Terceiro Mundo. Usar campanhas de persuasão social na TV, filmes e mídias sociais para envergonhar as pessoas que usam gasolina, água ou eletricidade, estabelecendo uma construção social de bobos e fofoqueiros que denunciam seus vizinhos em troca de recompensas de crédito alimentar.
Objetivo 13: Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos.
Decodificação: Definir quotas de consumo de energia para cada ser humano e começar a punir ou mesmo a criminalizar “escolhas de estilo de vida” que excedam os limites de uso de energia estabelecidos pelos governos. Instituir a vigilância total dos indivíduos para acompanhar e calcular o consumo de energia. Penalizar a propriedade privada de veículo e forçar as massas para o transporte público, onde os trogloditas da TSA[1] e as câmeras de reconhecimento facial podem monitorar e registrar o movimento de cada pessoa na sociedade, como uma cena tirada diretamente do filme Minority Report.
Objetivo 14: Conservar e usar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.
Decodificação: Proibir a maior parte da pesca oceânica, diminuir o abastecimento de alimentos até a escassez extrema e causar inflação desenfreada no preços dos alimentos, o que coloca ainda mais as pessoas em desespero econômico. Criminalizar a operação de embarcações pesqueiras privadas e colocar todas as operações de pesca oceânica sob o controle do planejamento central do governo.Permitir apenas que corporações favorecidas ocnduzam operações de pesca oceânica(e tomar essa decisão com base inteiramente em quais empresas dão a maioria das “doações” à campanha dos legisladores corruptos).
Objetivo 15: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerenciar de forma sustentável florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.
Decodificação: Implantar a Agenda 21 e forçar os humanos a saírem do campo e migrar para as cidades controladas. Criminalizar a propriedade privada da terra, incluindo fazendas e trechos agrícolas. Controlar rigorosamente toda a agricultura através de um governo burocrático e corrupto, cujas políticas são determinadas quase inteiramente pela Monsanto, sendo certificadas pelo USDA[2]. Proibir fogões a lenha, coleta de águas pluviais e jardinagem doméstica para criminalizar a autonomia e forçar a dependência total ao governo.
Objetivo 16: Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar acesso à justiça para todos e criar instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
Decodificação: Conceder imunidade legal a estrangeiros ilegais e grupos minoritários “protegidos”, os quais serão livres para se envolver em qualquer atividade ilegal – incluindo chamada aberta para o assassinato em massa de policiais – porque eles são a nova classe protegida na sociedade. “Instituições inclusivas” significa conceder estruturas fiscais favoráveis e subsídios governamentais a empresas que contratem trabalhadores LGBT ou de quaisquer grupos que estejam a favor dos planejadores centrais no governo. Usar o IRS[3] e outras agências federais para punir seletivamente os grupos desfavoráveis com auditorias punitivas e assédio regulatório, ignorando as atividades criminosas das corporações favorecidas que são amigas da elite política.
Objetivo 17: Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
Decodificação: Aprovar leis de comércio global que anulem as leis nacionais, e ao mesmo tempo, concedem poderes imperialistas irrestritos a empresas como Monsanto, Dow Chemical, RJ Reynolds, Coca-Cola e Merck. Aprovar pactos de comércio global que ignorem os legisladores de uma nação e anulem leis de propriedade intelectual para garantir que as corporações mais poderosas do mundo mantenham monopólios totais sobre drogas, sementes, produtos químicos e tecnologia. Anular as leis nacionais e exigir total obediência global aos acordos comerciais criados por corporações poderosas e certificadas pela ONU.
Escravidão total do planeta até 2030
Como diz o documento da ONU, “Comprometemos-nos a trabalhar incansavelmente para a plena implementação desta Agenda até 2030.”
Se você ler o documento completo e puder ir além do apêndice e frases de relações públicas, você perceberá rapidamente que esta agenda da ONU será forçada a todos os cidadãos do mundo através da invocação da coerção do governo. Em nenhum lugar este documento afirma que os direitos do indivíduo serão protegidos. Também não reconhece a existência de direitos humanos concedidos aos indivíduos pelo Criador. Mesmo a chamada “Declaração Universal dos Direitos Humanos” nega totalmente aos indivíduos o direito à autodefesa, o direito à escolha médica e o direito ao controle parental sobre seus próprios filhos.
A ONU está planejando nada menos do que uma tirania de governo global que escraviza toda a humanidade enquanto chama o esquema de “desenvolvimento sustentável” e “igualdade”.
1984 chegou, finalmente. E é claro que tudo está sendo desenvolvido sob o rótulo fraudulento do “progresso”.
Tradução: Cássia H.
Revisão: Yuri Mayal
[1] Transportation Security Administration
[2] Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
[3] Receita Federal Americana

domingo, 6 de agosto de 2017

Tudo o que é mais sagrado por Rafael Carneiro Rocha

Roger Scruton afirma que o mundo sem vínculos transcendentes é um mundo onde não estamos verdadeiramente em casa.

“A alma do mundo: A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos”, de Roger Scruton (Record, 2017, 238 páginas)
Após uma longa pausa reflexiva em que lembrava-se de suas crenças de juventude, Sócrates afirmou para Cebes que outrora parecia-lhe suficiente um certo “exame da natureza” para conhecer as causas ou explicações de tudo, ou por que as coisas surgem, existem e perecem. Contudo, num certo momento de sua vida reflexiva, o exame da natureza decepcionou definitivamente o jovem Sócrates, conforme ele confidenciou a Cebes. A busca por explicações somente em termos de éter, ar, água e outras coisas materiais passou a ser tida por Sócrates como absurda, porque, embora a causa ou explicação material faça sentido, ela não é suficiente para exaurir todos os “por quês?” que podemos fazer. A uma pergunta do tipo “por que Sócrates está sentado?”, a resposta em termos da transmissão do exercício muscular aos ossos e articulações pelos tendões não era suficiente para explicar que a razão do sentar-se de Sócrates enquanto conversava com Cebes era em virtude de, naquele momento, ao invés de ter mobilizado sua estrutura locomotiva para fugir da morte, ele achou melhor aceitar a pena que os atenienses lhe impuseram.
De acordo com o que podemos inferir da passagem acima, extraída do diálogo Fédon, é difícil fazer corresponder o que Platão compreendia como causa material aos tipos de explicações fornecidas pelas ciências que, conforme compreendemos hoje, a partir de métodos empiricamente validados, tratam das causas e das leis da realidade física. Talvez, a causa eficiente introduzida por Aristóteles seja uma correlata mais próxima. Contudo, a confidência de Sócrates a Cebes parece inaugurar um tipo de argumentação a que os filósofos ao longo da história habitualmente recorrem para refutar tanto quem ainda não se deu conta de que argumenta indevidamente a partir do pressuposto reducionista de que determinada explicação é para ser considerada apenas num único sentido, quanto aqueles que transpõem explicações de uma determinada ordem de sentido para um domínio que demandaria outra categoria de resposta – para citarmos um exemplo simplório, àqueles que poderiam responder três quilômetros à pergunta sobre o horário da Voz do Brasil.
Essa é uma das estratégias argumentativas que Roger Scruton escolhe para desenvolver a tese central de sua mais recente obra lançada no Brasil, A alma do mundo, publicada pela Editora Record e traduzida com bastante cuidado conceitual por Martim Vasques da Cunha. O livro é a versão publicada das Stanton Lectures que o autor ministrou na Faculdade de Teologia da Universidade de Cambridge em 2011[1]. Scruton tem como objetivo nos atentar para o sentido de uma visão sagrada e monoteísta sobre o mundo. Ele não está interessado em provar a existência de Deus a partir de uma argumentação racional, mas em esclarecer que ignorar o sentido religioso do mundo por apego à descrição científica é um contrassenso, porque envolve um reducionismo cujas implicações tornariam ainda desconhecidas uma série de afirmações sobre as pessoas, os relacionamentos, as leis e as artes que verificamos na realidade.
Segundo Scruton, livrar-se de hábitos reducionistas é a verdadeira tarefa da filosofia. Conforme sugerimos no exemplo do primeiro parágrafo, quando o jovem Sócrates procurava explicações tão somente materiais para tudo o que existe, ele ainda não se portava como filósofo, mas como um ingênuo materialista que reduzia as explicações do mundo às descrições do domínio físico. Porém, quem considera que determinada predicação verdadeira sobre algo é a explicação suficiente e definitiva, embora possa ser, nos melhores casos, um excelente conhecedor da descrição científica que tem o algo como objeto de pesquisa, parece ainda ignorar que ter consciência de algo demanda uma certa ação mental que, ao tematizar o alvo de seu direcionamento, ou seja, ao intencioná-lo, não pode ser descrita apenas como um evento físico de um ser humano (embora realmente o seja), mas como uma inclinação em busca do sentido que caracteriza a subjetividade da pessoa. Para Scruton, o pecado original é propriamente a história verdadeira de uma queda do reino da subjetividade para a objetivação: aprendemos a nos olhar como objetos do mundo e nos esquecemos dos sentidos que emergem a partir das relações interpessoais.
Quando nos esquecemos daquela vida subjetiva de consciência que nos abre camadas de sentido cada vez mais originais, tendemos a reduzir as nossas considerações sobre um algo ao que pode ser mais facilmente predicado como objeto de pesquisa. A pessoa humana é animal, a lei é relação de poder, o amor sexual é desejo de procriação, a casa é máquina para viver, a música é sequência de sons afinados e Mona Lisa é uma série de pigmentos espalhados em uma tela. Porém, compreender o que todas aquelas coisas são a partir do reducionismo das descrições físicas ou científicas não esgotam o sentido do que elas realmente são.
Um alvo de Scruton é a psicologia evolucionista que procura reduzir tudo aquilo que podemos, em nossa vida de consciência, tematizar sobre o mundo a benefícios para a reprodução e a sobrevivência. Na vida do eu, ou seja, no domínio da autoconsciência em que percebo, entre outras vivências, que penso, recordo, sinto, desejo e me emociono, embora isso tudo possa ser mapeado fisiologicamente e, dessa maneira, avaliado pela psicologia evolucionista como adaptações que nos garantem benefícios como território, segurança e cooperação, nenhuma descrição física de estados da vida de consciência exaure o sentido da nossa inclinação de conferir significado para os objetos intencionados pela consciência.
A intencionalidade, conceito central em A alma do mundo, pode ser compreendida como uma tendência para conhecer e preencher uma dada intenção significante. A intencionalidade é consciência de algo. Para Edmund Husserl (1859-1938), a intencionalidade exprime a propriedade fundamental da consciência que conduz à visão da essência, ou um voltar originário à coisa mesma.
Dessa maneira, a atividade da consciência não pode ser reduzida ao processo fisiológico. A tentativa de descrever uma certa ação de consciência (isto é, a sua intencionalidade) em linguagem científica implicaria num intercâmbio de perspectivas de conhecimento que são incomensuráveis. A via de sentido que descreve a intencionalidade da consciência se difere daquela que descreve o fisiologismo das operações cerebrais. De fato, Scruton sugere que o mundo pode ser compreendido em duas vias incomensuráveis: o caminho da ciência e o caminho do entendimento interpessoal.
A incomensurabilidade entre as duas possibilidades cognitivas que Scruton sugere é uma herança assumida da filosofia de Espinosa (1632-1677). A partir do período final da filosofia escolástica, surgiram esforços cada vez maiores de diminuição dos conceitos metafísicos sobre a realidade.  Descartes (1596-1650), por exemplo, reduz a totalidade dos objetos de estudo da filosofia em três tipos de substâncias: Deus, mente (cujo atributo principal é o pensamento) e corpo (cujo atributo principal é a extensão). Por sua vez, em Espinosa, o conceito de substância é unívoco, de maneira que há uma única substância: Deus ou Natureza. Embora, influenciado por Descartes, Espinosa considere pensamento e extensão não como coisas, mas como atributos, o seu deflacionamento metafísico é mais acentuado, de maneira que corpo e alma não são mais duas realidades distintas, mas gêneros de uma mesma atividade auto-produtiva da natureza que não interagem. Ora, se o atributo principal da mente é o pensamento e o do corpo é a extensão, do ponto de vista lógico é insustentável que, por exemplo, predicados corporais extensos estejam subordinados a um eixo de atribuições inextenso (que é o pensamento) e, do mesmo modo, que atributos inextensos se subordinem ao eixo de predicações da extensão que define uma substância corporal.
Roger Scruton
O precedente de Espinosa sobre a incomensurabilidade entre pensamento e extensão é importante para a tese de Scruton, segundo a qual podemos conhecer o mundo tanto por meio da física (que tem como objeto o mundo enquanto extensão), quanto por meio do estudo das ideias (que nos faz conhecer o mundo como pensamento). Scruton trata isso como dualismo cognitivo. Temos um modo duplo de ver o mundo: o mundo à maneira da explicação científica e o mundo como formado pela vida consciente do eu (o mundo da vida/Lebenswelt[2]).
Parece, dessa maneira, que Scruton busca precedentes filosóficos para fortalecer o seu argumento central. Se a maior parte dos argumentos ateístas pretende se sustentar por uma imagem científica do mundo, reconhecer que o mundo é realmente mais do que a ordem natural descrita pela física é o primeiro passo para a busca de Deus. Porém, ainda seria falacioso deduzir a presença de Deus no mundo apenas pela constatação de que os argumentos dos ateus têm insuficiências . Dessa maneira, Scruton se esforça para sugerir que a experiência do sagrado é o que garante não apenas importantes conquistas civilizacionais, mas a própria emergência do ser humano enquanto pessoa.
Por meio do conceito de pessoa, conhecemos a nós mesmos e os outros como pertencentes a um mundo humano. Neste mundo, a subjetividade constituinte de sentido valida a emergência de “melodias” a partir de sons, de “rostos” a partir de fisionomias e de “significados” a partir de causas. Este mundo humano contém, cientificamente falando, as mesmas coisas do mundo dos animais, por exemplo. Porém, trata-se de um mundo diferente, do mesmo modo que a Mona Lisa é diferente de todos os seus pigmentos.
No mundo humano, estabelecemos, além do mais, compromissos, obrigações e promessas. A esta ordem que emerge da ordem da natureza, Scruton denomina ordem da aliança. Na ordem da aliança vários poderes são criados de maneira a pautar o gerenciamento de nossos conflitos e conciliações. Nesse sentido, o contrato, por exemplo, é uma realidade humana que só pode ser compreendido em termos do mundo da vida. A linguagem científica é insuficiente para explicar o conceito de um direito.
Contudo, ainda é fato que as nossas relações mais importantes não podem ser previstas por um contrato, de maneira que se sobrepuja à aliança uma ordem em que há votos, deveres devocionais e vínculos não transferíveis. O sacramento do matrimônio, por exemplo, não pertence ao mundo dos acordos negociados. Que o processo de secularização torne o casamento um contrato é, para Scruton, exemplo de um mundo que perde aquilo que sempre caracterizou as sociedades duráveis: o vínculo com o sagrado. O casamento remodelado para a era secular é uma instituição na qual desaparecem certas obrigações santas e indestrutíveis. O discurso do autor, longe do moralismo reacionário, pontua perdas civilizacionais que surgem quando não emerge, da ordem da aliança, uma ordem que caracteriza com mais pessoalidade proteções ao amor conjugal e ao futuro das crianças surgidas dessa união. Dessa maneira, Scruton afirma que o mundo sem vínculos transcendentes é um mundo onde não estamos verdadeiramente em casa.
As próprias casas, num mundo onde não há mais referência ao sagrado, se caracterizam do ponto de vista arquitetônico mais pela utilidade da máquina para viver do que como imitação de um templo. Fazendo uma genealogia da cidade, Scruton afirma que os assentamentos surgiram como dom outorgado pelos deuses que protegiam seus residentes e autenticavam suas leis. A conservação da terra era, para as sociedades com vínculos transcendentes, uma maneira de fazê-la santuário duradouro para Deus e o homem. Dessa maneira, o autor sugere que a consciência ambiental, tão bem valorizada atualmente, tem no fundo origem religiosa. A degradação ambiental, do mesmo modo que a degradação moral, surge pela representação impessoal de lugares e pessoas. Moradias e pessoas se tornam meramente objetos a serem usados.
O autor se refere ao tema da habitação, porque as sociedades sobrevivem quando estão assentadas. Por sua vez, não há assentamento sem devoção e autossacrifício. As comunidades não resistem sem sacrifícios: as pessoas se sacrificam em tempos de guerra, se sacrificam pelo bem de suas crianças e, nos afazeres cotidianos, são incitadas a realizar o sacrifício diário do perdão.
Os caminhos do sacrifício e do perdão caracterizam, por sua vez, aquela emergência que se sobrepuja à ordem da aliança, porque o que faz sentido não são mais os cálculos contratuais, mas o reconhecimento de nós mesmos e do mundo como dom. Esse é o sentido da visão sagrada do mundo contada silenciosamente por algumas das experiências humanas que mais nos caracterizam como pessoas e que nos aproximam do Único que é a resposta para a pergunta “por quê?” feita ao mundo como todo.
A pergunta pode não ter resposta, mas ela é um direcionamento (oração, em sentido religioso) que somente um único Deus pode se responsabilizar como direcionado. O direcionamento pode ser feito em ordens diferentes. Porém, somente quando nossas obras de amor e de sacrifício são oração aceitamos devidamente a realidade ocasionada pela Queda: a saber, o trabalho e a morte. Por sua vez, quando não deixamos emergir outro sentido para o mundo além daquele que é previsto pela ordem natural, as nossas obras são reduzidas em sentido, porque são apenas distrações contra a morte.
Para quem reconhecer experiências pessoais de sacrifícios, paixões e encantamentos naquilo que o autor descreve como emergências que contam a eterna história de nossa relação com o sagrado, A alma do mundo, mais do que uma distração, valerá  verdadeiramente como vivência espiritual. Trata-se, além do mais, de uma obra que demonstra, a partir de uma articulação bem costurada de diferentes perspectivas filosóficas, que a filosofia mesma, ao contrário do que os apologistas da preeminência do discurso científico poderiam supor, é desde sempre uma elevada forma de conhecimento.
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NOTAS:
[1] Roger Scruton aprofunda e continua temas que ele tratou nas Palestras Gifford, no ano anterior (2010), na Universidade de St. Andrews. O resultado dessas palestras também foi publicado em formato de livro e lançado no Brasil com o título O rosto de Deus (tradução de Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2012). Nas duas palestras, o autor procura tratar seus habituais temas de interesse a partir de uma perspectiva aberta à especulação teológica.
[2] O conceito husserliano de Lebenswelt (mundo da vida), bastante utilizado em A alma do mundo, abrange o domínio “originário”, constituidor de sentido daquilo que pode inclusive ser descrito cientificamente.