sábado, 18 de fevereiro de 2017

As garras da Esfinge René Guénon e a islamização do Ocidente Olavo de Carvalho Verbum, Ano I, Números 1 e 2, Julho-Outubro de 2016


As garras da Esfinge
René Guénon e a islamização do Ocidente
Olavo de Carvalho
Verbum, Ano I, Números 1 e 2, Julho-Outubro de 2016
          


I

    As transformações históricas e espirituais profundas que vão determinar o futuro da humanidade estão tão distantes da nossa mídia, da nossa vida universitária e, de modo geral, de todos os debates públicos neste país, que com certeza aquilo que vou dizer neste artigo parecerá estratosférico e alheio à realidade imediata.
    O doente incurável que geme de dor num leito de hospital dificilmente se interessará, nessa hora, pelas controvérsias médicas, bioquímicas e farmacológicas que se desenrolam em países longínquos e em idiomas que ele desconhece, mas das quais poderá vir, um dia, a cura da sua doença. O que mais de perto diz respeito ao seu destino lhe parece distante, abstrato e alheio à sua dor.
    Os que se interessam pelo futuro do Brasil deveriam prestar atenção ao que vou lhes dizer aqui, mas será muito difícil fazê-los ver que que uma coisa tem algo a ver com a outra.
    Vou começar analisando a resenha que um autor desconhecido neste país  faz do livro de outro autor igualmente ignorado por aqui.
    O livro é False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism, and the Quest for a One-World Religion, de Lee Penn (Sophia Perennis, 2005), que já recomendei muitas vezes mas poucos leram, por ser um calhamaço de documentos longos e chatíssimos. O resenhista é Charles Upton, autor de The System of the Antichrist (id., 2001), que foi menos lido ainda, já que o recomendei com menos ênfase e constância. A resenha foi publicada num livro mais recente de Upton, Findings: In Metaphysic, Path, and Lore, A Response to the Traditionalist/Perennialist School (id., 2010) e reproduzida na revista eletrônica da editora, http://www.sophiaperennis.com/discussion-forums/sophia-perennis-book-reviews/false-dawn-the-united-religions-initiative-globalism-and-the-quest-for-a-one-world-religion/.
    O livro de Lee Penn descreve e documenta com abundância de fontes primárias a formação e desenvolvimento de uma religião biônica  mundial, com todas as características de uma paródia satânica, sob os auspícios da ONU, do governo americano, de praticamente toda a grande mídia ocidental e de um punhado de megafortunas. Iniciado em 1995 por William Swing, bispo da Igreja Episcopal, com o nome de United Religions Initiative (URI, v. http://www.uri.org), embora extra-oficialmente existisse desde muito antes (remontando ao Lucis Trust fundado em 1922 por Alice Bailey), o empreendimento, sustentado por recursos financeiros incalculavelmente vastos e apoiado por todo um cast de estrelas do show business e da política, conquistou até o apoio informal do Papa Francisco (v. http://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/511-pope-francis-and-the-united-religions-initiative).
    Com o lindo objetivo de criar “um mundo de paz, sustentado por comunidades engajadas e interconectadas, comprometidas com o respeito à diversidade, com a resolução não-violenta dos conflitos e com a justiça social, política, econômica e ambiental”, o movimento reúne, em festivas celebrações ditas “ecumênicas”, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, xintoístas, animistas, espíritas, teosofistas, ba’hais, sikhs, adeptos da New Age, da Wicca, do satanismo, do Reverendo Moon, dos Hare Krishna e de qualquer culto indígena ou ufológico que se apresente, dando a tudo um sentido de fraternidade universal que dissolve entre sorrisos de condescendência mútua as mais óbvias e insuperáveis incompatibilidades entre essas diversas crenças.
    Todas as religiões e pseudo-religiões somadas, fundidas e mutuamente neutralizadas reduzem-se assim a um instrumento auxiliar do projeto globalista voltado à criação de um Governo Mundial.
    Grosso modo, a ideologia que gruda uns nos outros esses elementos heterogêneos e inconciliáveis é o universalismo low brow da “Nova Era”, que, copiando mal e mal a linguagem da tradição hindu, proclama serem todas as religiões nada mais que aspectos locais e acidentais assumidos por uma Revelação Primordial única, donde se conclui que, por este ou aquele caminho, todo mundo chegará mais dia, menos dia, aos mais altos estágios da realização espiritual humana ou mesmo sobre-humana.
    Essa ideologia teve precursores no século XIX, como Allan Kardec, Helena Petrovna Blavatski, a célebre teosofista e – literalmente – batedora de carteiras, Jules Doinel, fundador da Igreja Gnóstica francesa (1890), Gerard Encausse, mais conhecido como “Papus”, Jean Bricaud e, de modo geral, todos os componentes do movimento que viria a se chamar “ocultista”.
    Esse “universalismo”, que no início do século XX soava apenas como uma fantasia exótica, acabou por penetrar tão fundo no senso comum das multidões que hoje a equivalência de todas as religiões em dignidade e valor é um dogma subscrito por toda a grande mídia mundial, pelos parlamentos, pelas legislações da quase totalidade dos países e pela maioria das próprias autoridades religiosas.
    Longe de ser um fenômeno espontâneo, essa radical transformação das crenças coletivas reflete o trabalho incessante dos onipresentes agentes da URI, a cuja interferência nenhuma organização socialmente relevante está imune.
    Não é necessário, portanto, enfatizar a importância desse projeto dentro dos planos globalistas, nem, é claro, é possível negar o valor do trabalho de Lee Penn ao reunir e ordenar documentação mais que suficiente para provar a unidade de inspiração e de estratégia por trás de fenômenos que ao observador leigo podem parecer dispersos e inconexos.
    O resenhista, Charles Upton, enaltece os méritos do livro e acrescenta-lhe um esclarecimento que, diz ele, já havia transmitido pessoalmente ao autor, com total concordância deste.
    O esclarecimento é este: Não se deve confundir o “universalismo” paródico da Nova Era e da URI com o universalismo high brow da escola dita “tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
    É verdade. São muito diferentes. Com muita antecedência, o fundador da escola, René Guénon, já havia submetido a devastadoras análises críticas toda a ideologia “ocultista” que décadas mais tarde viria a constituir a base doutrinal – se cabe o termo -- da “Nova Era” e da URI.
    Membro e até bispo da Igreja Gnóstica na juventude, Guénon logo saiu atirando e não fez prisioneiros. Nem um pouco mais intactos ficaram o espiritismo de Allan Kardec, a teosofia de Madame Blavatski e mil e um outros movimentos nos quais Guénon via a encarnação mesma daquilo que ele chamava “pseudo-iniciação” e “contra-iniciação” – a primeira constituindo a imitação simiesca da espiritualidade, a segunda a sua inversão satânica.
    Na verdade o contraste entre o universalismo da URI e o da corrente guénoniana-schuoniana vai muito além da mera diferença entre low brow e high brow, embora essa diferença seja patente aos olhos de quem os compare.
    De um lado vemos um pastiche de sincretismos inconseqüentes reforçados por alguma retórica humanitária sentimentalóide ou futurista (ora “progressista”, ora “conservadora”, para agradar a todos) e adornado no máximo, aqui e ali, pela adesão superficial de algum escritor da moda, como Aldous Huxley e Allan Watts.
    Do outro lado, construções intelectuais sofisticadas, uma compreensão profunda e organizada dos símbolos religiosos e esotéricos  de todas as tradições, um domínio cabal das fontes reveladas e uma técnica comparatista que se aproxima, em precisão, quase que de uma ciência exata. Por acréscimo, algumas das análises mais consistentes da crise civilizacional do Ocidente nas suas várias expressões: cultural, social, artística etc.
    A diferença salta aos olhos de qualquer leitor culto. Em contraste com a mixórdia sincretística da “Nova Era”, temos aqui um universalismo no sentido forte da palavra, uma visão abrangente e ordenadora que não somente apreende com extrema agudeza os pontos comuns entre as várias cosmovisões espirituais, mas dá a razão e fundamento da sua diversidade, de modo que a essa articulação do uno e do múltiplo se subordina, na verdade, toda a história universal das idéias e das crenças, das teorias e práticas, numa palavra: tudo o que o ser humano fez e pensou na sua caminhada sobre a Terra. Não há praticamente nada, nenhum fenômeno, nenhum pensamento, nenhum acontecimento fausto ou infausto, que de algum modo não encontre alguma explicação “perenalista” eficiente e persuasiva, quando não irrefutavelmente certa. 
    Do ponto de vista do buscador comum que, proveniente dos meios revolucionários, modernistas e ateísticos, é alertado para a importância dos temas “espirituais” e, após uma ilusão temporária com a “Nova Era”, se desilude com a sua superficialidade e sai em busca de alimento mais nutritivo, a passagem ao tradicionalismo de Guénon e Schuon é um upgrade intelectual formidável, um impacto desaculturante, quase uma transfiguração interior que repentinamente o isolará do ambiente mental em torno, marcado a um tempo pelo descrédito das religiões e pela vulgaridade sem fim do ocultismo onipresente, e o deixará sozinho, face a face com a sua consciência. Cumpre-se assim, na escala individual, a célebre profecia emitida por um biógrafo anônimo de René Guénon logo após a morte do mestre:
    “Chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade.”1
    Raros, raríssimos são os que chegam a esse ponto – a maioria vai tombando pelo caminho --, mas, para aquele que chega, é difícil resistir, então, ao impulso de fazer contato pessoal com os círculos guénonianos e schuonianos, em busca de alívio, apoio e orientação. É por esse processo de seleção espontânea que se forma a “elite intelectual” que, como veremos adiante, Guénon tinha em vista no livro Oriente e Ocidente, de 1924.
    Pois é evidente que, entre as várias cosmovisões em luta, a mais abrangente, que absorve e explica todas as outras, está no topo. É o cume da consciência de uma época, o nec plus ultra  da inteligência e do inteligível.
    O que confere ainda mais autoridade ao ensinamento perenialista é a afirmação reiterada de seus expositores, de que ele não é invenção sua, mas o mero traslado, em linguagem teórica atual, de revelações imemoriais que remontam a uma Fonte originária única, a Tradição Primordial. Afirmação idêntica, na superfície, à dos próceres da “Nova Era”, mas agora fundamentada numa superabundância de provas documentais, de argumentos racionais, de toda uma ciência organizada do simbolismo universal e do comparatismo, da qual nascem tours de force intelectualmente deslumbrantes como os Symboles de la Science Sacrée do próprio René Guénon2 e A Treasury of Traditional Wisdom, de Whitall N. Perry,3 um dos mais próximos colaboradores de F. Schuon nos EUA, monumental coletânea de textos sacros organizados de modo a ilustrar, acima de qualquer dúvida razoável, a convergência essencial das doutrinas e símbolos das grandes tradições religiosas e espirituais, a Unidade Transcendente das Religiões como a denominava Schuon no título de um livro que ninguém menos que T. S. Eliot considerou o maior feito de todos os tempos no campo da religião comparada.
    Toda semelhança com o “universalismo” da URI é enganosa.
    Em primeiro lugar, todos os perenialistas, sem exceção, insistem que as doutrinas, símbolos e ritos das várias tradições em particular, malgrado apontem sempre para uma Realidade suprema que é a mesma em todos os casos, têm uma integridade própria, não podem ser objeto de fusão, mescla ou sincretismo. Ou seja: não podem sofrer o tipo de operação unificante que, precisamente, caracteriza a “Nova Era”.
    Em segundo lugar, nem tudo o que se apresente com o nome de religião, espiritualidade, esoterismo ou coisa parecida pode entrar nessa síntese. Bem ao contrário, é comum a todos os perenialistas a distinção precisa, rigorosa e até intolerante entre Tradição, Pseudo-Tradição e Antitradição. Boa parte do material compactado na “Nova Era” entra nestas duas últimas categorias e, longe de integrar a unidade da fonte primordial, representa a paródia ou negação de tudo o que vem dela.
    Em terceiro e mais importante lugar, a unidade transcendente das religiões é mesmo transcendente, não imanente. As religiões aí estão unificadas apenas pelo topo, pelo cume e núcleo vivo das suas concepções doutrinais, e não pela variedade irredutível das suas liturgias, dos seus códigos morais e das suas diferentes “vias” de realização espiritual. E onde, precisamente, está esse núcleo e topo? Está nas suas respectivas concepções metafísicas, que de fato são convergentes, como a simples coletânea organizada por Whitall Perry basta para demonstrá-lo acima de toda possibilidade de controvérsia. Nesse sentido, as religiões e tradições espirituais podem ser vistas, sem distorção, como adaptações de uma mesma Verdade Primordial às condições histórico-culturais, lingüísticas e psicológicas dos vários tempos, lugares e civilizações. Os vários exoterismos refletiriam, nas suas diferenças, a unidade de um mesmo esoterismo primordial. Os homens que chegaram a apreender claramente a unidade desse esoterismo superaram, intelectivamente, a diferença entre as religiões, mas, como não são feitos de puro intelecto e têm ainda uma existência histórico-temporal de pessoas de carne e osso, continuam subordinados cada um à sua respectiva tradição religiosa, sem poder fundi-la ou misturá-la com qualquer outra. O exemplo clássico é o grande mestre sufi Mohieddin Ibn’ Arabi. Afirmando explicitamente que seu coração podia assumir todas as formas – a do brâhmana hindu, a do rabino cabalista, a do monge cristão ou qualquer outra --, ele continuava, na sua vida de indivíduo real e concreto, inteiramente fiel à mais estrita ortodoxia islâmica.
    Mas é aí que começam os problemas.
II

    Desde logo, essa concepção exige, ao lado da diferenciação “horizontal” entre as várias tradições no tempo e no espaço, uma distinção “vertical”, ou hierárquica, entre as partes “inferiores” e “superiores” de cada uma. As “inferiores”, ou exotéricas, são historicamente condicionadas e por elas as tradições de afastam umas das outras até o ponto da hostilidade mútua e da total incompatibilidade. As partes “superiores”, esotéricas, refletem a eternidade imutável da Verdade, onde todas as tradições convergem e se encontram.
    Há, em suma, uma religião popular, feita de ritos e normas de conduta, igual para todos os membros da comunidade, e uma religião de elite, apenas para as pessoas “qualificadas”, que por trás dos símbolos e das leis podem apreender o “sentido” último da revelação. Pela prática dos ritos de agregação que os integram na tradição religiosa e pela obediência as normas, os homens do povo obtêm a “salvação” post mortem das suas almas. Por meio de ritos de iniciação, os membros da elite obtêm já em vida, e muito acima da mera “salvação”, a realização espiritual que os arrebata do simples “estado individual” de existência para transfigurá-los na própria Realidade Última, ou Deus.
    É bom não falar muito dessas coisas perante o público em geral, que pode escandalizar-se ante a decifração de um mistério que deve permanecer opaco para a sua própria proteção espiritual. É bem conhecida a história do sufi Mansur Al-Hallaj (858-922), que após ter chegado à última “realização espiritual”, saiu gritando “Ana al-Haqq!” (“Eu sou a Verdade”) e foi decapitado pelas autoridades exotéricas. Al-Haqq não quer dizer somente “a verdade” no sentido genérico e abstrato. É um dos noventa e nove “Nomes de Deus” impressos no Corão, de modo que a declaração de Al-Hallaj equivalia literalmente a “Eu sou Deus”. Do ponto de vista da ortodoxia esotérica, isso resultava em negar o princípio corânico da unicidade de Deus, constituindo um crime que devia ser castigado com a morte. Mais tarde os juristas islâmicos admitiram que afirmações proferidas por sufis em estado de “arrebatamento místico” escapavam à alçada da justiça comum e deviam ser aceitas como mistérios indecifráveis.
    No sentido explícito, legal e oficial, a distinção entre exoterismo e esoterismo só existe numa única tradição: o Islam. Corresponde à distição entre shari’ah e tariqat. De um lado, a lei religiosa obrigatória para todos; de outro, a “via” espiritual, de livre escolha, só para as pessoas interessadas e dotadas. A aplicação dessa distinção a todas as outras tradições é meramente sugestiva ou analógica – uma figura de linguagem e não um conceito descritivo apropriado. Com isso o edifício inteiro do “perenialismo” começa a balançar um pouco.
    Existem, por exemplo, exoterismo e esoterismo na tradição hindu, justamente aquela de cujo vocabulário René Guénon se serve mais freqüentemente, por julgar que o hinduismo alcançou clareza máxima na exposição da doutrina metafísica? Evidentemente não. A distinção de castas é algo de completamente diverso. Primeiro, porque o ingresso na casta superior não é de livre escolha: o sujeito nasce shudra, vaishia, kshatyia ou brâhmana e assim permanece para sempre. Segundo, porque acidentalmente membros das castas inferiores podem alcançar os mais altos níveis de realização espiritual sem mudar de casta. Terceiro, porque os ritos da casta superior, ou brâhmana, nada têm de secreto ou discreto: qualquer zé-mané pode conhecê-los, só não tem a autorização de praticá-los.
    Existe um “esoterismo cristão”? A coisa, aí, complica-se formidavelmente. Existiram e existem, aqui e ali, organizações esotéricas que se professavam cristãs e que, por meio de ritos especiais, diferentes dos sacramentos da Igreja, transmitem iniciações. A Companheiragem, os Fedeli d’Amore, a Maçonaria e a Ordem Templária são exemplos. Mais modernamente, inúmeros ocultistas, como Madame Blavatski, Rudolf Steiner e Georges Ivanovich Gurdjieff apresentaram seus ensinamentos como modalidades de esoterismo cristão.
    Mas restam alguns fatos que bastam para dar por terra com essas pretensões.
    Desde logo, não há traços de nenhuma organização esotérica cristã nos primeiros dez séculos da Igreja. Em segundo lugar, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou taxativamente: “Nada ensinei em segredo.” Mesmo Suas parábolas, cujo sentido não era imediatamente evidente a todos, eram ditas em público, não a um círculo reservado. Como é possível então que o núcleo do ensinamento do Salvador fosse conservado em segredo durante dez – ou vinte -- séculos?
    Em contraste, no Islam a diferença de exoterismo e esoterismo aparece nitidamente desde o primeiro momento. Ao ver um grupo de companheiros do Profeta praticando certos ritos estranhos, diferentes das cinco preces diárias, os fiéis foram perguntar a ele de que se tratava. Ele explicou que eram devoções voluntárias, meritórias mas não obrigatórias. Esse foi o primeiro sinal da existência do tasawwuf ou “sufismo”, o esoterismo islâmico.4
    Em terceiro lugar, e mais decisivo: os sacramentos da Igreja não são meros “ritos de agregação”. São iniciáticos de pleno direito. Não dão acesso somente à comunidade de fiéis – ou à sua “egrégora” ou  consciência coletiva --, mas, Deo juvante, ao conhecimento mais íntimo da Realidade Suprema a que um ser humano pode aspirar. “Não sou mais eu que existo”, diz o Apóstolo, “é Cristo que existe em mim”.
    João Paulo II, no seu Catecismo, declara explicitamente que os sacramentos são os passos “da iniciação cristã”, e não é concebível que, num texto tão formalmente doutrinário, usasse o termo como mera figura de linguagem.
    O Pe. Juan González Arintero, em dois livros memoráveis que provavelmente constituem o cume da literatura mística no século XX, demonstra com abundância de argumentos e exemplos que a via dos sacramentos foi aberta justamente para dar a todos, sem exceção, o acesso aos mais altos patamares da realização espiritual.5 A distinção de exotéricos e esotéricos só serve aí como metáfora  para designar o diferente aproveitamento espiritual obtido por este ou aquele indivíduo conforme suas aptidões, seu empenho e os movimentos da Graça divina.
    Todos os cristãos que receberam os sacramentos são, portanto, iniciados, no sentido estrito que o perenialismo dá a essa palavra. A diferença entre os vários resultados espirituais obtidos pode ser explicada por um conceito desenvolvido pelo próprio René Guénon, o de iniciação virtual. Nem todos os ritos de iniciação produzem imediatamente os resultados espirituais que lhes correspondem. Esses efeitos podem permanecer retidos por muito tempo até que algum fator externo – ou a evolução do próprio recipiente -- os convoque à plena manifestação.
    Para complicar um pouco mais as coisas, o próprio F. Schuon reconheceu que os sacramentos cristãos tinham alcance iniciático. Para vocês avaliarem o quanto essa questão é espinhosa para a escola perenialista, basta lembrar que, publicada a opinião de Schuon a respeito, Guénon reagiu com indignação e fúria, chegando a romper relações com o seu discípulo e continuador.6
    Guénon continuou teimando que os sacramentos cristãos eram apenas ritos de agregação e que autênticas iniciações só existiram em determinadas organizações secretas ou discretas, como a Companheiragem ou a Maçonaria. Para sustentar essa tese, inventou uma das hipóteses históricas mais artificiosas que alguém já viu: o cristianismo teria surgido inicialmente como um esoterismo, mas, em vista da decadência geral da religião greco-romana, teria sido forçado ex post facto a popularizar-se, acabando por reduzir-se a um exoterismo. Não há absolutamente nenhum sinal de que isso jamais tenha acontecido. Bem ao contrário, Jesus falou abertamente às multidões desde o início da sua pregação, e os sacramentos não sofreram nenhuma mudança substancial de forma ou conteúdo ao longo dos tempos. Quaisquer que possam ter sido os seus erros em outros domínios, nesse ponto Schuon estava com a razão.
    É também só como figura de linguagem que a distinção de exoterismo e esoterismo – ou de ritos de agregação e de iniciação – pode se aplicar ao judaísmo, já que os cultores de mistérios cabalísticos ali não são outros senão os próprios sacerdotes do culto oficial.
    Tão inapropriada é a aplicação dessa dupla de conceitos ao território extra-islâmico, que membros da própria escola perenianista acabaram tendo de reconhecer a existência de iniciações “exo-esotéricas” e até “exotéricas” ao lado das propriamente “esotéricas”,7 o que já basta para mostrar que esses conceitos servem para pouca coisa.
    A falta de argumentos razoáveis e a reação desproporcional de Guénon ante o que poderia ter se limitado a uma discussão entre amigos  sugerem que nesse episódio ele podia estar escondendo alguma coisa. Não podendo falar claro, apelou a uma hipótese absurda e tentou reduzir o interlocutor ao silêncio mediante uma exibição de autoridade, que Schuon educadamente rejeitou.
    Qual a razão pela qual Guénon teria escolhido enquadrar à força  todas as tradições numa dupla de conceitos que não se aplicava apropriadamente a nenhuma delas exceto o islamismo em particular? Por que esse homem, tão criterioso em tudo o mais, se permitiu tamanha arbitrariedade, colocando-se assim numa posição vulnerável que se viu posta em risco tão logo Schuon levantou a questão das iniciações sacramentais? Quase com certeza teve, para fazê-lo, motivos que, ao menos naquele momento, não podiam ser discutidos abertamente.
    Mas antes mesmo de esclarecer esse ponto é preciso levantar uma outra questão.
III

    Que as tradições materialmente diferentes convergem na direção de um mesmo conjunto de princípios metafísicos é algo que não se pode mais colocar seriamente em dúvida. A tese da Unidade Transcendente das Religiões é vitoriosa sob todos os aspectos.
    Só há um detalhe: Que é propriamente uma metafísica? Não uso o termo como denominação de uma disciplina acadêmica mas no sentido muito especial e preciso que tem nas obras de Guénon e Schuon. Que é uma metafísica? É a estrutura da realidade universal, que desce desde o Primeiro Princípio infinito e eterno até os seus inumeráveis reflexos no mundo manifestado, através de uma série de níveis ou planos de existência. 
    O fato de que ela seja essencialmente a mesma em todas as tradições indica que existe uma percepção normal da estrutura básica da realidade, comum a todos os homens de qualquer época ou cultura.
    Essa percepção exige uma consciência clara ou ao menos um pressentimento da escalaridade do real, isto é, das distinções entre diferentes planos ou níveis de realidade, desde os objetos sensíveis da percepção imediata até a Realidade última, o Princípio absoluto, eterno, imutável e infinito, passando por uma série de graus intermediários: histórico, terrestre, cósmico, angélico etc.
    A perfeita submissão da subjetividade humana a essa estrutura está subentendida em todas as tradições como uma conditio sine qua non da vida religiosa e, mais ainda, da realização espiritual. Sua negação, mutilação ou alteração é a raiz de todos os erros e desvarios da humanidade.
    É por isso que F. Schuon propõe uma distinção entre heresia essencial e heresia acidental. A palavra “heresia” vem de uma raiz grega que tem as acepções de “escolher” e “decidir”. Um heresiarca é alguém que, por vontade própria, escolhe da verdade total as partes que lhe interessam e ignora as demais.
    Heresia acidental, segundo Schuon, é a negação, mutilação ou alteração dos cânones de uma tradição em particular, como por exemplo o monofisismo na Cristandade (a teoria de que Jesus tinha só a natureza divina, não a humana) ou o associacionismo no Islam (associar Deus a outros seres).
    Heresia essencial é a negação, mutilação ou alteração da própria estrutura da realidade – um erro, portanto, que seria condenado não apenas por esta ou aquela tradição em particular, mas por todas elas. O materialismo ou o relativismo, por exemplo.
    Tudo isso está muito bem, mas há um problema lógico. Se a metafísica é comum a todas as tradições, como pode ser o topo e a suprema perfeição de cada uma delas? Por definição, a perfeição de uma espécie não pode estar no seu gênero: tem de estar na sua diferença específica. A perfeição do leão e da pulga não pode residir no simples fato de que ambos são animais.
    É admissível que, na escalada iniciática do indivíduo, a chegada à Realidade Suprema, que o eleva acima do seu estado individual e o absorve no próprio Ser da divindade, é a culminação dos seus esforços. Ela corresponderia também, segundo o perenialismo, ao momento em que as diferenças entre as tradições espirituais são definitivamente transcendidas, sem deixar de continuar valendo para a existência empírica do iniciado no plano terrestre. É Mohieddin Ibn ‘Arabi sendo cristão, zoroastriano ou judeu “por dentro” sem deixar de ser ortodoxamente muçulmano “por fora”.
    Mas, por isso mesmo, a metafísica só pode ser a culminação das tradições enquanto tais se aceitarmos uma indistinção entre a ordem do Ser e a ordem do conhecer, que, segundo ensinava Aristóteles, são inversas. O topo da escalada iniciática não pode ser, ao mesmo tempo, a culminação das religiões porque, sendo comum a todas elas, é apenas o gênero a que pertencem e não a suprema perfeição específica de cada uma.
    Mais razoável seria supor que a Tradição primordial é a base comum não só a todas as tradições espirituais, mas a todas as culturas e, no fim das contas, ao núcleo de inteligência sã presente em todos os seres humanos. Partindo dessa base, ou origem, as várias tradições se desenvolvem em direções diferentes, cada uma buscando refletir mais perfeitamente o Princípio absoluto e dar aos homens os meios de retornar a Ele. Nesse sentido, a culminação de cada tradição não é o Princípio em si, mas o sucesso que obtém na operação de retorno. E não há por que supor que, das várias espécies, todas expressem igualmente bem a perfeição do gênero: as pulgas e os leões são igualmente animais, mas nem por isso a pulga expressa a perfeição da animalidade tão bem quanto o leão, para nada dizer do ser humano.
    Schuon afirma que a pretensão de cada religião de ser “melhor” que as outras só se justifica pelo fato de que todas elas são “legítimas”, isto é, refletem a seu modo a Tradição Primordial, mas que vistas na escala da eternidade e do absoluto, essa pretensão se revela ilusória.8 No entanto, se a perfeição de uma espécie não pode residir apenas no seu gênero, e sim na sua diferença específica, não há nenhum motivo para dar por provado que todas as espécies representem por igual a perfeição do gênero. Todas as religiões remetem a uma Tradição Primordial, OK, mas todas a representam igualmente bem? A pergunta é inteiramente legítima, e em parte alguma a escola perenialista lhe ofereceu – ou tentou oferecer -- uma resposta aceitável. Na verdade, nem colocou a pergunta. Será que até nessas altas esferas encontraremos o fenômeno da “proibição de perguntar”, que Eric Voegelin discerniu nas ideologias de massa?
IV

    “A geração da Escola Tradicionalista reunida em torno de Frithjof Schuon – escreve Charles Upton – apresentou e revelou as religiões em suas essências celestiais, sub specie æternitatis.”9
    Se as essências celestiais das religiões são substancialmente a mesma, a diferença entre elas é puramente terrestre e contingente, as formas particulares de cada uma nada tendo de sagrado em si mesmas  sem a seiva que recebem da Tradição Primordial: só esta, a Religio Perennis,10 é verdadeira em sentido estrito. As demais são símbolos ou aparências imperfeitas de que ela se reveste na suas várias encarnações terrestres.
    Mas – prossegue o mesmo Upton – “essas revelações são consideradas ramos da Tradição Primordial, mas esta Tradição não é presentemente vigente enquanto sistema religioso; não é uma religião que possa ser praticada. Os únicos caminhos espirituais viáveis existem sob a forma – ou dentro – das presentes revelações viventes: Hinduísmo, Zoroastrismo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islam.”11
    Mas esses caminhos levam somente à “salvação” numa vida post mortem. Para subir um pouco mais alto já na vida presente é preciso, sem abandoná-los, filiar-se a uma organização esotérica e praticar, além dos ritos e mandamentos da religião popular, alguns ritos e mandamentos especiais, de caráter iniciático.
    Dito de outro modo, a religião popular é um atestado de qualificação exigido do postulante na entrada do caminho iniciático. Para o muçulmano, isso não é um grande problema. Embora tenham uma existência à parte, as tariqas (turuq, em árabe) são em geral reconhecidas como legítimas pela religião oficial, de modo que o fiel interessado pode transitar livremente entre os dois tipos de práticas.
    Para o hindu, também não é problema: ainda que inexistindo propriamente um esoterismo hindu, o hinduísmo aceita e absorve todas as práticas de outras religiões, de modo que – descontados os conflitos políticos entre hinduístas e muçulmanos – nada impede que um hindu se filie a uma tariqa, à Maçonaria, a uma Tríade chinesa ou a qualquer outra organização esotérica sem mudar de estatuto na sua sociedade de origem.
    No caso de um católico, porém, a coisa se complica. Segundo Guénon, todas as organizações iniciáticas cristãs foram desaparecendo depois da Idade Média, deixando os pobres fiéis limitados a um exoterismo espiritualmente capenga. Sobraram só uns resíduos de organizações extintas e... a Maçonaria.
    Acontece que uma sentença do Papa Clemente XII, em 1738, condenou à excomunhão automática todo fiel católico que se filiasse à Maçonaria (ou a qualquer outra sociedade secreta). A decisão foi reforçada pelo Papa Leão X em 1890 e formalizada pelo Código de Direito Canônico de 1917. O novo Código do Papa João Paulo II, em 1983, falava somente em “sociedades secretas”, sem mencionar nominalmente a Maçonaria, o que por breves instantes deu a impressão de que a excomunhão fora suspensa, até que a Congregação para a Doutrina da Fé, em novembro daquele mesmo ano, esclareceu que não era nada disso, que a proibição de ingressar na Maçonaria continuava em vigor.
    Isto é, o fiel católico que lesse René Guénon e acreditasse nele, vendo na perda da dimensão iniciática a raiz de todos os males do mundo moderno, era espremido contra a parede pela opção entre desistir de vez do esoterismo, contentando-se com o exoterismo cada vez mais reduzido a um moralismo exterior, e aceitando portanto ser cúmplice da degradação espiritual moderna, ou então buscar uma iniciação maçônica e ser excomungado, isto é, perder a filiação exotérica que, segundo o mesmo Guénon, era a conditio sine qua non do ingresso no esoterismo.
    O conflito não era somente de ordem legal. Embora tivesse origem remota em organizações esotéricas professadamente cristãs, a Maçonaria tinha se tornado, em várias partes do mundo, uma força ostensivamente e violentamente anticatólica, incentivando perseguições e matanças de católicos, principalmente na França (durante a Revolução e depois de novo no princípio do século XX),12 no México (onde isso provocou a guerra dos Cristeros) e na Espanha, onde, com a mal disfarçada conivência do governo republicano maçônico, padres e fiéis foram mortos a granel e muitas igrejas destruídas antes mesmo da eclosão da Guerra Civil.
    Quer dizer: o católico que se filiasse à Maçonaria não apenas incorria em excomunhão automática, mas se tornava um traidor de seus correligionários assassinados.
    Guénonianos católicos como Jean Tourniac fizeram o diabo para provar que as doutrinas maçônicas eram compatíveis com o catolicismo, mas, é claro, isso ficou na teoria.13 Conversações entre líderes católicos e maçons em busca de um acordo não deram em nada. A excomunhão continuava em vigor, e o risco moral continuava altíssimo.
    A partir dos anos 60, quando esses problemas começaram a tornar-se objeto de discussão mais aberta nos círculos de interessados em  tradicionalismo, o grupo perenialista começou a sugerir ao católico encurralado as seguintes soluções possíveis:
    1. Largue tudo e converta-se ao Islam.
    2. Busque abrigo na Igreja Ortodoxa Russa, onde ainda há um resíduo de esoterismo e cujos sacramentos, no fim das contas, são aceitos como válidos pela Igreja Católica.
    3. Filie-se à tariqa multiconfessional de F. Schuon, onde você poderá praticar ritos iniciáticos islâmicos sem conversão formal e mantendo-se a uma prudente distância dos muçulmanos exotéricos.
    A primeira opção era com certeza a mais traumática. Afinal, o próprio Schuon tinha escrito que “mudar de religião não é como mudar de país: é como mudar de planeta”.14
    A segunda era mais confortável, mas esbarrava num obstáculo que jamais vi algum autor perenialista sequer mencionar: a Igreja Ortodoxa Russa estava infestada de agentes da KGB, sendo quase impossível ao recém-chegado orientar-se naquela selva selvaggia de conspirações e fingimentos. Não por coincidência, a KGB estava, naquele mesmo momento, organizando e treinando organizações terroristas islâmicas para a guerra contra o Ocidente cristão.15
    Sobrava a terceira, a mais fácil e natural. A tariqa de Schuon estava, de fato, repleta de membros de origem católica – a começar pelo próprio Schuon e por alguns de seus colaboradores mais próximos, como Martin Lings, Titus Burckhardt e Rama P. Coomaraswamy, dos quais os dois primeiros converteram-se ao Islam, o terceiro continuou católico ao menos em público, sem deixar de prestar ao sheikh o voto regulamentar de obediência total exigido nas tariqas.16
    Nas almas daqueles que permaneciam católicos – ex professo ou de coração apenas --, realizava-se assim, em escala microscópica, o plano que, desde 1924, René Guénon traçara para o Ocidente inteiro.

V
   
    Após descrever com as cores sombrias de um genuíno Apocalipse a degradação espiritual da civilização no Ocidente, atribuindo-a à perda das “verdadeira metafísica” e das ligações entre a Igreja Católica e a Tradição Primordial (ligações que só poderiam ter sido mantidas por intermédio das organizações iniciáticas),17 René Guénon prevê três desenvolvimentos possíveis do estado de coisas no Ocidente:18
    1. A queda definitiva na barbárie.
    2. A restauração da tradição católica, sob a orientação discreta de mestres espirituais islâmicos.
    3. A islamização total, seja por meio da infiltração e da propaganda, seja por meio da ocupação militar.
    Essas três opções reduziam-se, no fundo, a duas: ou o mergulho na barbárie ou a sujeição ao Islam, seja discreta, seja ostensiva.
    A eclosão da II Guerra Mundial pareceu mostrar que o Ocidente preferira a primeira opção, sendo um detalhe irônico o fato de que importantes autoridades religiosas islâmicas deram apoio total ao Führer, especialmente na questão do extermínio dos judeus.19 Coincidência  macabra ou profecia auto-realizável? Não sei.
    Após a Guerra, a colaboração íntima entre governos islâmicos e regimes comunistas no esforço anti-Ocidental conjunto veio a se tornar tão notória que nem é preciso insistir nesse ponto. Não deixa de ser oportuno lembrar que hoje em dia a esquerda mundial empenhada em corromper o Ocidente “até fazê-lo feder”, como preconizava André Breton, é a mesma que apóia ostensivamente a ocupação muçulmana do Ocidente pela imigração em massa, bem como boicota por todos os meios qualquer esforço sério de combate ao terrorismo islâmico, de modo que há entre os dois blocos como que um acordo leninista de “fomentar a corrupção e denunciá-la”. Novamente cabe a mesma pergunta do parágrafo anterior, com a mesma resposta.
    Para o aspirante de origem católica, tudo o que a tariqa oferecia era a escolha entre tornar-se muçulmano ou ser católico sob orientação muçulmana. A mesma escolha que Guénon oferecia a todo o mundo Ocidental.
    Creio que com isso fica mais clara a intenção de Guénon ao espremer todas as religiões, especialmente a cristã, no molde forçado de um conceito descritivo islâmico, a distinção exoterismo-esoterismo. De fato, como dominar toda uma civilização sem enquadrá-la primeiro no sistema de coordenadas intelectuais da civilização dominadora, onde ela deixará de ser uma totalidade autônoma para se tornar parte de um mapa  abrangente? Também é óbvio que não bastava fazer isso em teoria: era preciso conquistar para essa nova visão das coisas os elementos mais valiosos, mais ativos intelectualmente, da elite da civilização-alvo. Só quando esta começasse a se compreender a si mesma nos termos do dominador, em vez dos seus próprios, ela estaria madura para aceitar, sem maiores reações, uma operação mais vasta de ocupação cultural. Tanto mais que a redução do cristianismo ao binômio exoterismo-esoterismo, acompanhada do diagnóstico sombrio da perda da dimensão esotérica, culminava inexoravelmente na conclusão de que a “restauração da cristandade”, das suas conexões com a Tradição Primordial e portanto das dimensões mais altas da sua espiritualidade, só poderia realizar-se sob a direção de um “esoterismo vivente”, isto é, do sufismo. Para usar os termos do próprio Guénon, era preciso submeter o Ocidente à “autoridade espiritual” do Islam antes de submetê-lo ao seu “poder temporal”.
    A teoria de Schuon, segundo a qual os sacramentos cristãos conservavam o seu poder iniciático, parecia atenuar um pouco a força do argumento islamizante, mas na verdade não o fazia de maneira alguma. Sem a devida instrução espiritual, que só um “esoterismo vivente” poderia lhe oferecer, o portador de uma “iniciação virtual” permanecia inconsciente de tê-la recebido e não apenas ficava paralisado no meio da escalada iniciática, mas se arriscava, com isso, a sofrer toda sorte de distúrbios espirituais e psíquicos. Só a espiritualidade sufi – encarnada, neste caso, na pessoa de F. Schuon – poderia salvar os católicos de si mesmos.
    A islamização do Ocidente – discreta ou ostensiva, pacífica ou violenta – é o objetivo central e, na verdade, único, de toda a obra de René Guénon. Ela inteira converge para essa meta, não como uma mera conclusão lógica, mas como uma espécie de única saída à qual o leitor – e, idealmente, o Ocidente inteiro -- vai sendo levado, entre os muros de uma construção labiríntica, por um senso de fatalidade inexorável. Excluído esse objetivo, ela não passaria de um conjunto de especulações teóricas sem finalidade, um edifício de belas possibilidades espirituais irrealizáveis, coisa que ele sempre negou que ela pudesse ser.
    Se fosse preciso uma confissão explícita para confirmá-lo, bastaria lembrar que, justamente no momento em que F. Schuon voltava da Argélia com o título de sheikh, alardeando sua intenção de “islamizar a Europa” (sic), Guénon declarava que a fundação da tariqa de Schuon em Lausanne, Suíça, era o primeiro e único fruto produzido pelo seu esforço de décadas.
VI

    O que pode tornar esse objetivo nebuloso ou até invisível aos olhos do público são dois fatores:
     Primeiro: Guénon afirma reiteradamente seu total desprezo por qualquer atividade, corrente ou ideologia política, assegurando que seus interesses nada têm a ver com a luta pelo poder e se voltam exclusivamente à esfera do espiritual e do eterno. Isso parece colocá-lo, aos olhos de muitos, incomparavelmente acima da atual disputa entre os países islâmicos e o Ocidente.
    Esse modo de ver não é propriamente falso, é apenas vazio. É óbvio que Guénon não está disputando poder político. Está disputando algo que está infinitamente acima disso e do qual, segundo ele mesmo explica, o poder político não é senão um reflexo secundário, quase desprezível: está disputando autoridade espiritual. Está disputando-a com a Igreja Católica, colocando-se muito acima dela e pretendendo orientá-la desde as alturas sublimes da espiritualidade sufi (não necessariamente em pessoa, é claro).
    Ele é muito explícito quanto a esse ponto. A Igreja Católica, em algum ponto da sua história, diz ele, perdeu contato com a Tradição Primordial e já não tem sequer uma compreensão das “partes superiores” da metafísica: detém-se na pura ontologia, ou teoria do Ser, sem penetrar nos mistérios supremos do Não-Ser (Schuon prefere dizer “Supra-Ser”).
    Já me expliquei em outras ocasiões quanto ao que me parece ser a absurdidade intrínseca da doutrina do Não-Ser, e não vou voltar a esse assunto aqui. O que interessa no momento é salientar que, segundo Guénon, o catolicismo, a partir dessa mutilação inicial, veio decaindo acentuadamente até reduzir-se a uma mera devoção sentimental para as massas.
    Como só quem pode reerguê-la desse abismo é quem ainda possua a conexão originária com a Tradição Primordial, é evidente que a salvação da Igreja e, através dela, de todo o Ocidente, só pode vir de fora. De onde, precisamente?
    Do budismo não pode ser, já que Guénon nem mesmo o considera uma tradição inteiramente válida.
    Do hinduísmo também não, porque não pode ser praticado fora da Índia nem por quem não seja de nacionalidade indiana. Tudo o que o hinduísmo pode fornecer é uma compreensão mais aprofundada da doutrina metafísica – e de fato Guénon recorre abundantemente aos textos hindus para isso --, mas a mera compreensão teórica, sendo indispensável, nem de longe pode fornecer por si mesma a autêntica “realização metafísica”.
    Do judaísmo, menos ainda, pois seria inconcebível que a Igreja, tendo nascido dele, voltasse ao ventre materno sem anular-se ipso facto e cessar de existir.
    Da Maçonaria? Impossível, não só por causa das incompatibilidades acima apontadas e jamais superadas, mas porque, segundo Guénon, as iniciações maçônicas são apenas de “Pequenos Mistérios”, segredos do cosmos e da sociedade que nem de longe tocam as alturas da suprema realização metafísica, os “Grandes Mistérios”.
    De obstáculo em obstáculo – não é preciso examinar todas as alternativas --, a conclusão inexorável é que o labirinto de impossibilidades só tem uma saída: o catolicismo só pode ser devolvido à sua integridade originária se consentir em submeter-se ao guiamento de mestres islâmicos. Ou isso, ou a ocupação do Ocidente pelos muçulmanos. Tertium non datur.
    Que, en passant, Guénon e seus continuadores tenham feito várias contribuições valiosas até mesmo à compreensão do catolicismo pelos próprios intelectuais católicos, especialmente no que concerne ao simbolismo e à arte sacra, é coisa que ninguém em seu juízo perfeito poderia negar.20
    Mas, também aí, nada a estranhar. Que autoridade poderia um mestre sufi pretender exercer sobre os católicos se, pelo menos em alguns pontos seletos, não provasse compreender a sua religião melhor do que eles mesmos?21
    Os artigos “católicos” de Guénon publicados na revista Regnabit entre 1925 e 1927 não provam, nem mesmo sugerem, que ele tivesse aceitado a independência e muito menos a superioridade do catolicismo em relação ao Islam. Prova apenas que, nesse período, ele ainda acreditava na possibilidade de dirigir o curso das coisas na Igreja Católica por meio da persuasão gentil e da infiltração.22 Sua partida para o Egito, em 1930, com a firme decisão de não mais voltar e de só se comunicar com o seu público daí por diante por meio da revista Études Traditionelles, assinala o momento em ele perde essa esperança e, integrando-se cada vez mais nos meios esotéricos egípcios (até mesmo casando-se com a filha do prestigioso sheikh Elish El-Kebir), passa a bola de volta às autoridades islâmicas que de longe haviam orientado suas ações no quadro europeu. Como as coisas evoluíram desde esse ponto até a adoção da política de terrorismo e “ocupação pela imigração” (coisa que, é claro, jamais aconteceria sem o beneplácito das autoridades espirituais islâmicas), é uma história que ignoramos e que só poderá ser contada, talvez, daqui a várias décadas. O que é absolutamente certo é que Guénon, desde o início da sua atividade pública, declarou não falar em seu nome próprio mas seguir estritamente as orientação de “representantes qualificados das tradições orientais”, entre os quais, sabe-se hoje, principalmente o próprio sheikh El-Kebir. É uma bobagem descomunal dizer que Guénon “se converteu ao Islam” em 1930. Ele já era membro regular de uma tariqa pelo menos desde os vinte e um anos, o que basta para mostrar que foi longamente preparado para a missão dificílima que iria desempenhar.
VII

    O segundo fator que dificulta a percepção da identidade de Guénon como agente islâmico é o próprio impacto da obra dele sobre os seus discípulos. Qualificada como “o mais deslumbrante milagre intelectual da nossa época”,23 essa obra lança tantas luzes imprevistas sobre o fenômeno religioso e sobre a decadência espiritual do Ocidente, e é tão grande o seu contraste com todo o pensamento moderno ateu ou cristão, que se torna  quase irresistível a tentação de encará-la realmente como um milagre, uma intervenção divina no curso da História. Seyyed Hossein Nasr, em Knowledge and the Sacred,24 não hesita em apresentar toda a história intelectual do Ocidente como se fosse uma longa, tateante e semicega preparação para o advento das luzes guénonianas. Vista desse modo, a obra de Guénon parece uma mensagem supra-histórica vinda da aurora dos tempos, da própria Tradição Primordial e não de um sheikh egípcio contemporâneo.
    O desejo de apagar suas raízes contemporâneas e pairar acima das contingências históricas é manifesto em vários trechos dessa obra, e reforçado ainda por várias expressões de desprezo à “mera” perspectiva histórica, segundo Guénon um ilusório véu de aparências passageiras encobrindo a realidade das coisas eternas. Ele chega a criticar o apego da mentalidade ocidental aos “fatos” como se fosse um vício de pensamento.
    Jean Robin, caracteristicamente, proclama o guenonismo uma intervenção providencial e “a última chance do Ocidente”.25 É um direito inalienável do discípulo entusiasta celebrar a obra do mestre com os qualificativos mais enfáticos. Mas um qualificativo nada significa quando separado da substância que ele qualifica. Uma coisa é falar, genericamente, de “última chance do Ocidente” – e todos bem sabemos que o Ocidente precisa de uma. Mas outra coisa completamente diversa é esclarecer que não se trata de uma chance qualquer, de uma abstrata e genérica “restauração da espiritualidade” e sim de uma salvação pela islamização. Jean Robin simplesmente omite esse ponto.
    Também é muito justo privilegiar o eterno e imutável acima do temporal e transitório. Mas qualquer fiel católico habituado ao sacramento da confissão entende que o salto para o eterno, sem passar pela consciência dos detalhes factuais da vida terrestre, tão freqüentemente humilhantes e deprimentes, não é espiritualidade, é angelismo. O apóstolo que afirma “Já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim” é o mesmo que confessa trazer “um espinho na carne” até o fim dos seus dias.
    O desejo de voar para o mundo dos arquétipos eternos saltando por cima da realidade histórica concreta não aparece somente nos perfis hagiográficos da “missão de René Guénon”, mas em pelo menos três   livros de importantes autores perenialistas sobre o Islam.
    Ideals and Realities of Islam, de Seyyed Hossein Nasr,26 Comprendre l’Islam, de Frithjof Schuon,27 e Moorish Culture in Spain, de Titus Burckhardt,28 mal escondem sua estratégia retórica de mostrar a vida muçulmana só pelos arquétipos eternos que simboliza, contrastando-os, explícita ou implicitamente, com as misérias factuais brutas do Ocidente materialista. A coisa chega mesmo a ser um pouco ingênua. Até uma criança percebe que não é justo comparar as virtudes de um com os defeitos do outro, em vez de virtudes com virtudes e defeitos com defeitos.
    Tudo isso torna difícil, tanto ao leitor recém-chegado quanto às vezes aos próprios porta-vozes do perenialismo, admitir o óbvio: a obra de René Guénon pode ter todo o caráter providencial e salvador que se deseje, com a condição de que se admita claramente o óbvio: que, no fim das contas, ela jamais ofereceu outra via de salvação para o Ocidente exceto a islamização.
     Também é certo que qualquer cristão inteligente, católico ou não, pode tirar proveito dos ensinamentos de René Guénon sem aderir ao projeto guénoniano, mas como recusar adesão sem saber ou querer saber que o projeto existe? Todo idiota útil é idiota e útil na medida mesma em que nega a existência daquele que o utiliza. 
    Muitos cristãos, católicos ou não, sentiram-se tão indignados ante os ensinamentos de René Guénon que fizeram várias tentativas de refutá-lo e até de achincalhá-lo. Essas tentativas só provaram a superioridade intelectual do adversário e caíram no ridículo ou no esquecimento.
    Sob esse aspecto, os discípulos de Guénon não estavam totalmente errados ao considerá-lo insuperável (a “bússola infalível”, dizia Michel Valsân). Mas Guénon não precisa ser combatido nem vencido. Ao adotar o pseudônimo de “Esfinge” nos seus primeiros escritos, ele sabia que aqueles que não decifrassem a sua mensagem seriam engolidos e reduzidos à obediência. Aqueles que esperneiam entre gritos de revolta  não deixam se prestar-lhe obediência, a contragosto ou mesmo inconscientemente.29 Uma vez decifrada, porém, a Esfinge não tem remédio senão soltar gentilmente a presa, que sairá das suas garras não somente livre, mas fortalecida.
    
    Petersburg, VA, 2 de julho de 2016

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

FANTÁSTICO! Tradutores de Direita legendam entrevista histórica de Carlos Lacerda

FANTÁSTICO! Tradutores de Direita legendam entrevista histórica de Carlos Lacerda

A página Tradutores de Direita é, sem dúvidas, a que mais contribui para o conhecimento geral de pessoas de direita no Brasil. Inúmeras palestras, entrevistas e vários vídeos de políticos e intelectuais são trazidos ao público brasileiro por meio das legendas feitas pelos membros dos Tradutores.
Agora, eles foram além: conseguiram a entrevista de Carlos Lacerda ao intelectual americano William Buckley na íntegra e traduziram-na para o povo brasileiro. Essa entrevista não estava disponível ao público, só para quem comprasse o arquivo diretamente com a instituição que possui os direitos do programa feitos pelo Buckley.
Essa entrevista foi feita em 13 de novembro de 1967, quando Lacerda já estava contra o regime militar. É possível perceber como Buckley pressionava Lacerda a responder sobre seu apoio à intervenção militar de 64 e sua mudança de posição.
Obrigado, Tradutores de Direita, por conseguirem esse material importantíssimo para o Brasil.
Confiram:

Não Deturparam Marx Marx foi deturpado? Bem, vamos por partes… POR RODRIGO JUNGMANN


Tomo como assente o fato de que o comunismo mata. E que matou em pouco mais de um século de existência muito mais pessoas do que qualquer outra forma de organização econômica e social. Não pretendo perder mais do que uns poucos parágrafos para rebater as alegações revisionistas de uma certa historiografia esquerdista de quinta categoria.  A julgar pelos textos que já chegaram às minhas mãos, os proponentes da tese de que o comunismo “não matou tanto assim” são invariavelmente comunistas a citar outros comunistas num exercício autofágico permanente e sem qualquer consulta a informações externas aos seus próprios textos.
A verdadeira natureza do comunismo foi estabelecida para além de qualquer dúvida, e com farta consulta a fontes primárias, por historiadores competentes, em cujo rol significativamente, se incluem alguns comunistas arrependidos. Nesta lista figuram militantes que um dia acordaram para a realidade, tais como Stephane CourtoisNicolas Werth, e os demais autores do Livro Negro do ComunismoNesse elenco de notáveis estão presentes escritores do quilate de Robert Conquest, Richard Pipes, Orlando Figes, Robert Service, Archie Brown, Anne Applebaum, Norman Davies, Joshua Muravchik, Humberto Fontova e até mesmo o especialista em morticínioso auto-nomeado atrocidologista Matthew White, entre tantos outros.
À luz do que é provado nos escritos desses senhores, não há como negar em boa-fé que o comunismo tenha sido, em todos os países em que foi adotado e sem uma única exceção, uma usina monstruosa de produção de pilhas de cadáveres. Já nem me ocupo aqui da ineficiência econômica intrínseca ao sistema. Para meus propósitos imediatos, deixo de parte a ubiqüidade da censura e da ausência das liberdades tidas como sagradas na Civilização Ocidental. Pouco caso faço, pelo momento, do estado de partido único.
Segundo os melhores especialistas em retórica, é desnecessário delongar-se em argumentos subsidiários quando se tem pouco tempo ou espaço e um único argumento é quanto basta. Reitero. O comunismo mata. A menor estimativa de fonte respeitável com que já me deparei está contida no Grande Livro das Coisas Horríveis, do já citado Matthew White. O autor cautelosamente nos fornece a cifra de 70 milhões de almas. O Livro Negro do Comunismo estima a carnificina em cerca 100 milhões de vidas extirpadas – e em tempos de paz. Houvessem sido “apenas”  70 milhões de seres humanos – por execuções, trabalhos forçados ou fome, alguém ousará dizer que o comunismo não matou tanto assim?
Assentados esses preliminares, eis-nos aqui finalmente às voltas com o tema levantado pelo título deste artigo.
Como todos sabem, o comunismo moderno é de clara inspiração marxista. Comunistas os há de todos os matizes. Entre aqueles a quem desejo chamar de “comunistas minimamente sãos” deparamo-nos com os que já desistiram de negar a realidade dos fatos históricos e se limitam, por assim dizer, a pedir mais uma chance, sob a alegação, infindavelmente reiterada, de que o comunismo real teve pouco ou nada a ver com as ideias de Marx e de seu colaborador Engels. É desse tipo de gente que parte o chavão bradado vezes sem conta e ad nauseam: “Deturparam Marx”.
Como podemos responder a essa alegação? A meu juízo, impõem-se ao menos três linhas de argumentação. Em primeiro lugar, urge ressaltar, desde já, que não se contavam na categoria dos imbecis ou dos analfabetos os intérpretes de Marx e Engels que buscaram implementar suas ideias na prática. Lênin, advogado de formação e leitor ávido do corpus marxista, era um homem singularmente dotado do ponto de vista intelectual. Stálin não se formou em nada, mas, ao contrário de um mito persistente, foi um homem de considerável cultura, em cuja biblioteca pessoal, segundo seu maior biógrafo, Simon Sebag-Montefiore, se contavam alguns milhares de volumes. É certo que Mao Tsé-Tung foi um teórico medíocre e que, como tal, teve sua obra desdenhosamente tratada por Leszek Kolakowski em seu monumental Main Currents of Marxism. Ainda assim, não faz sentido negar os seus dotes mentais. Nem os do advogado Fidel Castro. E muito menos os dos comunistas Ho Chih Mihn e Pol Pot, que receberam primorosa educação na metrópole colonial dos seus países.
E assim o padrão se repete. Pessoas inteligentes e cultas, por alguma razão misteriosa, simplesmente não conseguem entender ou cumprir o recôndito – e supostamente benigno – ideário marxista. Mas isso é mesmo possível? Se o admitirmos, temos de reconhecer de imediato que há um problema insanável no Marxismo. Com toda a evidência, seria por alguma razão inerente à sua própria natureza, o corpo teórico mais deturpável de que se tem notícia. O amável leitor, a quem não há de faltar aquele robusto bom-senso e apreço pela realidade, encontradiço em toda sorte de gente, das pessoas mais humildes às mais cultas, não se furtará à conclusão de que, se um ideal é, de tal sorte, e, por sua própria natureza, tão infalivelmente deturpável e deturpado, claro está que esse ideal não vale rigorosamente nada.
Resta-nos considerar dois outros aspectos.
O comunismo não negou, mas, muito ao contrário, implementou fielmente a determinação marxista de abolir tanto quanto possível a chamada “propriedade privada dos meios de produção”.
O ponto crucial, portanto, é que o comunismo abole qualquer separação entre poder político e poder econômico. Como disse o Prof. Olavo de Carvalho em inúmeras manifestações públicas, por escrito ou em vídeos, o poder econômico dos capitalistas só lhes pode ser tirado por um poder político ainda mais agigantado do que aquele em vigência na ordem burguesa suplantada. E, no caso em análise, veremos que o que só pôde surgir pela força, só se pode manter pela força, visto que o comunismo só pode vigorar se pela força for mantida a separação entre as duas esferas de poder contrastantes que fazem a liberdade pulsar nas democracias capitalistas. É que, extinta a distinção entre poder político e o poder econômico, segue-se inapelavelmente que um indivíduo oprimido pelo Estado não se pode socorrer na própria riqueza ou naquela de seus possíveis defensores no mercado livre. E o reverso é verdadeiro. Nas democracias capitalistas, mesmo os mais pobres podem buscar o abrigo do Estado, confiando-se num judiciário independente. Ora, no comunismo, não há judiciário independente. Comunismo, como já o disse tão sucintamente o Prof. Olavo de Carvalho, é “não ter para onde correr”.
Como todos sabem, um chavão comum entre esquerdistas de matiz diverso, expõe-se no seu hábito de fazer pouco caso das instituições burguesas, que, haveriam, segundo se diz, de necessariamente atender da forma mais servil os interesses da classe dominante. Não vi jamais entre os que bradam esse chavão a mais remota capacidade de explicar por que motivo a justiça brasileira costuma com grande frequência dar ganho de causa aos trabalhadores e não aos seus patrões nas lides trabalhistas. Ainda mais difícil, sob essa ótica, seria explicar por que o bilionário investidor Donald Trump foi, certa feita, processado   por uma senhora idosa de condição modesta e perdeu o litígio em última instância. Considere ainda, caro leitor que mora num país em que vige o direito à propriedade privada, os seguintes fatos. Nem Eike Batista, com todos os seus bilhões, pode lhe tomar sua casa contra a sua vontade. Nem Bill Gates, em toda a sua glória, pode simplesmente apossar-se a bel-prazer da fazenda de um caipira no Texas. Coisa totalmente diversa se deu nos países comunistas. Figuras tão bem conhecidas como Lenin, Stalin, Che Guevara, Fidel Castro, Ceausescu e outros tantos, uma vez implantados no poder, muito simplesmente demandaram para si mesmos dachas, mansões, ilhas particulares e palácios nababescos, sem que seus moradores anteriores lhes pudessem oferecer qualquer resistência, seja de ordem física, seja de ordem jurídica.

Por fim, àqueles que sustentam que Marx e Engels foram ao menos profundamente bem-intencionados e que seu ideário humanista e benévolo foi traído pelos homens práticos que teriam se esmerado em deturpá-lo, umas poucas citações de suas obras são tudo o que basta para nos livrarmos dessa edulcorada visão. Marx e  Engels simplesmente   jamais se empenharam por nenhum ideal humanitário.

Não me ocuparei longamente do fato de Marx ter vivido por quase toda a sua vida adulta numa dependência financeira parasitária de seu amigo Engels, abastado filho de um rico industrial. Deixarei de parte o fato de ele ter engravidado a empregada que serviu a sua família em Londres, sem jamais ter assumido a paternidade do menino proletário. Será desconsiderado até mesmo o Marx farsante, aquele que, em O Capitaldeliberadamente manipulou as estatísticas acerca da condição da classe operária inglesa, tentando fazê-la parecer pior do que realmente era, como o demonstrou cabalmente Paul Johnson em seu primoroso estudo IntellectualsTodas essas acusações, embora perfeitamente verdadeiras, poderiam levar alguns incomodados a me lançar a pecha de usuário de uma falácia de ad hominem.  Por tudo isso, meu foco será o exame do que foi inequivocamente dito por Marx e Engels em suas próprias palavras.

Neste ponto, valeria lembrar o leitor de que a alegação de que alguém teria deturpado Marx sugere que as belas intenções de Marx foram de alguma maneira traídas. Mas como haveríamos de atribuir intenções nobres a um autor em cujas obras são encontradas declarações tenebrosas que não diferem muito no conteúdo de assertivas de teor semelhante às de Hitler em Mein Kampf?

Há uma certa ironia em notar que os movimentos negros se socorrem do pensamento marxista. Talvez os seus líderes não tenham sido informados de que Marx se referiu a Ferdinand Lassalle, um rival nas hostes socialistas, como alguém cujo formato craniano revelaria uma ancestralidade negroide e cuja “capacidade de importunar é semelhante à de um crioulo” (Carta de Marx a Engels, 30 de julho de 1862, volume 41  dos Collected Works of Karl Marx and Frederick EngelsMECW, p. 388) .

Talvez não saibam os líderes do movimento negro que Marx  exaltou de forma explícita a manutenção da escravidão nos Estados Unidos em sua polêmica contra Proudhon, intitulada A Miséria da Filosofia. Ora, a Quarta Observação, contida no segundo capítulo da obra referida, nos traz o endosso de Marx à escravidão. Lá se lê que a “escravidão é uma categoria econômica da maior importância”, cuja abolição faria dos Estados Unidos “um país patriarcal” e levaria a América a desaparecer do “mapa das nações”. As citações se encontram na p. 137,  volume 4, dos  Collected Works of Karl Marx and Frederick EngelsMECW). Engels se expressou de maneira ainda mais chocante acerca da raça negra. Um certo Paul Lafargue pretendeu concorrer a uma vaga no conselho de um distrito parisiense que continha um zoológico. Em carta dirigida à mulher de Paul Lafargue, datada de 26 de abril de 1887, Engels não hesitou em afirmar que  “Estando na sua qualidade de crioulo num degrau mais próximo do reino animal do que o resto de nós, ele  é indubitavelmente o representante mais apropriado para aquele distrito” . A carta de Engels a Laura Lafargue está no volume 48,  p. 52,  dos Collected Works of Karl Marx and Frederick EngelsMECW).
A isso se poderia naturalmente obstar que Marx e Engels não eram muito diferentes de um europeu branco comum do seu tempo. Mas o que dizer da sua aversão antissemita que Marx nutria por seus ancestrais judeus? Em seu ensaio “Sobre a Questão Judaica”, Marx não hesita em denegrir a fé judaica e o povo judeu. Algumas citações servirão para ilustrar o ponto: “O dinheiro é o Deus mais ciumento de Israel e nenhum outro Deus pode competir com ele”, e ainda “Vamos considerar o judeu real, o judeu mundano – não o judeu do Sabá, como o faz Bauer, mas o judeu do dia-a-dia. Qual é a base secular do judaísmo? A necessidade prática, o interesse pessoal. Qual é a religião mundana do judeu? O trabalho rasteiro do mascate. Qual é o seu Deus mundano? O dinheiro”. O artigo completo está no volume 6 dos Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, MECW, pp. 146 a 174). Vê-se que o desprezo de Marx pelo povo judeu prefigura o tipo de linguagem estereotipada encontrada na propaganda nazista.

Ora, dirão talvez que Marx, como tantos judeus secularizados ilustres, tinha algum tipo de relação conflituosa com sua origem étnica, que porventura nos daria algum motivo para relevar essa passagem.

Não creio, contudo, que haja justificativa possível para o entusiasmo de Karl Marx por ações de terror. Segundo Marx, em seu artigo para a Nova Gazeta Renana, n. 136, datado de novembro de 1848 , “o próprio canibalismo da contrarrevolução convencerá as nações de que há um único modo pelo qual as assassinas dores mortais da velha sociedade e os sangrentos espasmos do parto da nova sociedade podem ser abreviados, simplificados e concentrados, e que esse modo é o terror revolucionário”.  Não se diga que me valho só de traduções. Esta passagem, tomada do artigo “Sieg der Kontrerevolution zu Wien”, “A Vitória da Contrarrevolução em Viena” está disponível na página 457 da coleção Karl Marx Friedrich Engels Werke, volume 5, Dietz Verlag, Berlin.
A isso se poderia obstar, é claro, que o terror preconizado aqui por Marx é uma simples resposta ao prévio terror contrarrevolucionário. É sem dúvida uma pena para os marxistas o fato de que seu herói advogava o mais duro tratamento extrajudicial possível para os seus inimigos vencidos e já prostrados diante da revolução. Em uma mensagem para o Comitê Central da Liga Comunista, publicada em março de 1850 como “Ansprache der Zentralbehörde an den Bund vom März”, Marx se expressou em palavras que seriam endossadas por qualquer monstro comunista do Século XX: “Longe de nos opormos aos chamados excessos – casos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra prédios públicos com os quais estão associadas memórias odiosas, o partido dos trabalhadores deve não apenas tolerar tais ações como dar-lhes direção”. (Karl Marx Friedrich Engels Werke, volume 7, p. 247, Dietz Verlag, Berlin).

Engels, por seu turno, não sofreu qualquer reprimenda de Marx, o editor-chefe da Nova Gazeta Renana, quando em seu artigo “Pan-eslavismo Democrático” apresentou o “ódio aos russos” como a “paixão revolucionária principal dos alemães” e quando concluiu este artigo exigindo  uma luta mortal contra os “eslavos traidores da revolução”, uma “luta de extermínio e terror implacável – não no interesse da Alemanha, mas nos interesses da Revolução” (Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, volume 8, p. 362). Mais do que uma apologia do terror, encontramos aqui uma defesa explícita do genocídio. Não há qualquer razão para crer que Marx se oporia a uma tal manifestação assassina, publicada num jornal que dirigia, sem que se tenha jamais registrado de sua parte o mais tímido protesto.
Diante do exposto, o bem conhecido telegrama de 9 de agosto de 1918 em que Lênin determinava que seus subordinados se entregassem a uma campanha de “terror implacável contra kulaks, padres e guardas-brancos”, tidos como elementos contrarrevolucionários, não se revela como uma deturpação dos ideais de Marx e Engels. (Telegrama para Yevgenia Bosch, Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1971, Moscou, Volume 36, página 489).
Claramente, nenhum Lenin, Stalin, Mao, Guevara ou Pol Pot deturpou a mensagem de Marx. Antes, foram seus hábeis executores e fiéis depositários.

Rodrigo Jungmann
Doutor em Filosofia pela University of California – Riverside

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

ENTREVISTA COM JORDAN B. PETERSON, PESQUISADOR E TERAPEUTA CANADENSE

Jordan B. Peterson (Imagem: Marta Iwanek)
Jordan B. Peterson é um experiente psicólogo, pesquisador e terapeuta canadense. Nesta entrevista, conta como veio a se rebelar contra o que vê como autoritarismo politicamente correto de ativistas de sua universidade (U. de Toronto) e de seu país, e contra um projeto de lei que torna obrigatório o uso de pronomes inventados para pessoas “transexuais não-binárias”.
Jordan B. Peterson (Imagem: Marta Iwanek)
(Imagem: Marta Iwanek)
Você pode nos dar uma breve contextualização da sua carreira acadêmica e dos seus interesses?
Nos dois primeiros anos da minha graduação estudei ciência política e literatura inglesa. Eu era muito interessado em política, mas o que eu estava aprendendo em economia e ciência política simplesmente não estava certo. Havia ênfase demais colocada na ideia de que os interesses econômicos eram o motivador primário para seres humanos, e isso não era nem um pouco óbvio para mim. Eu estava gastando muito tempo pensando na Guerra Fria, e a Guerra Fria não foi primariamente um problema econômico. Então comecei a cursar aulas de psicologia, e estava interessado em psicologia clínica. Fiz meu PhD orientado pelo Dr. Robert Pihl, e trabalhei com abuso de drogas, alcoolismo e agressão – havia uma ênfase biológica pesada. Fiz meu pós-doutorado com o Dr. Pihl e Maurice Dongier. Então lecionei em Harvard por seis anos, e estou na Universidade de Toronto desde então.
Meu interesse primário sempre foi a psicologia da crença. Parcialmente crença religiosa, e ideologia como uma subcategoria da crença religiosa. Uma das proposições de Jung era que qualquer coisa que uma pessoa dá o mais alto valor é seu deus. Se as pessoas acham que são ateias, isso significa que elas estão inconscientes de seus deuses. Em um sistema religioso sofisticado, há uma polaridade positiva e negativa. Ideologias simplificam essa polaridade e, fazendo isso, demonizam e simplificam demasiadamente. Fiquei interessado em ideologia, em grande parte, porque fiquei interessado no que houve na Alemanha nazista, na União Soviética, e na Revolução Cultural na China, e ocorrências equivalentes em outras partes do mundo. Eu me concentrei mais na Alemanha nazista e na União Soviética. Eu estava particularmente interessado no que levou pessoas a cometerem atrocidades a serviço de suas crenças. O lema do Museu do Holocausto em Washington é “não devemos esquecer nunca”. Aprendi que você não pode se recordar do que você não entende. Pessoas não entendem o Holocausto, e elas não entendem o que aconteceu na Rússia. Tenho esse curso chamado “Maps of Meaning” [NT: Mapas de Sentido], que é baseado em um livro que escrevi com o mesmo nome, e ele descreve essas ideias. Uma das coisas de que estou tentando convencer meus alunos é que se eles tivessem vivido na Alemanha na década de 1930, eles teriam sido nazistas. Todo mundo pensa “eu não”, e isso não está correto. Foram em grande parte pessoas comuns que cometeram as atrocidades que caracterizaram a Alemanha nazista e a União Soviética.
Parte da razão pela qual eu me vi envolvido com essa controvérsia [sobre identidade de gênero] foi devido ao que eu sei sobre como as coisas deram errado na União Soviética. Muitas das doutrinas que fundamentam a legislação à qual eu me oponho compartilham estruturas similares com as ideias marxistas que dirigiram o comunismo soviético. A coisa à qual eu mais me oponho era a insistência para que as pessoas usassem essas palavras inventadas como ‘xe’ e ‘xer’ [NT: pronomes ditos neutros, equivalentes a “elx”/”delx” em português] que são construções de autoritários. Não existe a menor esperança de que eu use a linguagem deles, porque eu sei a onde isso leva.
Há vários casos onde a expressão livre tem sido atacada, por que você escolheu esse assunto particular?
Esse é um discurso muito coercitivo. A Suprema Corte nos Estados Unidos considerou que discurso coercitivo é inaceitável por duas razões. Uma é para proteger os direitos de quem fala, outro é para proteger os direitos do ouvinte. O ouvinte tem o direito de ser informado e instruído sem ser indevidamente influenciado por fontes ocultas. Se seu discurso é coercitivo, não é você quem está falando, é uma outra entidade que está compelindo seu discurso. Então eu atualmente acho que o Projeto de Lei C-16 é inconstitucional. Estou usando um caso legal americano, mas os princípios se aplicam. Isso só não chegou à nossa Suprema Corte ainda.
Para mim isso se tornou um problema porque não existe a menor chance de que eu vá usar linguagem radical, autoritária. Eu estudei isso psicologicamente, e sei o que isso faz.
Eu também fui profundamente influenciado pelo livro de [Aleksandr] Solzhenitsyn Arquipélago Gulag. As pessoas dizem que o marxismo real nunca foi tentado – não na União Soviética, nem na China, em Camboja, na Coreia, aquilo não era o marxismo real. Eu acho esse argumento especioso, chocante, ignorante, e talvez também malévolo ao mesmo tempo. Especioso porque Solzhenitsyn demonstrou sem uma sombra de dúvidas que os horrores [do sistema soviético] eram uma consequência lógica das doutrinas embrenhadas no pensamento marxista. Eu acho que Dostoyevsky viu o que estava a caminho e Nietzsche escreveu sobre isso extensivamente na década de 1880, expondo as proposições que são encapsuladas na doutrina marxista, e alertando que milhões de pessoas iriam morrer no século XX por causa dela.
Você pintou um quadro bem sombrio para o futuro.
Há coisas sombrias acontecendo. Para começar, o Projeto de Lei C-16 codifica construtivismo social no tecido da lei. O construtivismo social é a doutrina de que todos os papeis humanos são socialmente construídos. Eles são desvencilhados da biologia subjacente e da realidade objetiva subjacente. Então o projeto C-16 contém um ataque à biologia e um ataque implícito à ideia da realidade objetiva. Isso também é flagrante nas políticas da Comissão dos Direitos Humanos de Ontário e na Declaração dos Direitos Humanos de Ontário.Ele diz que a identidade é puramente subjetiva. Então uma pessoa pode ser homem em um dia e mulher no próximo, ou homem em uma hora e mulher na próxima.
Jordan B. Peterson (Imagem: Marta Iwanek)
(Imagem: Marta Iwanek)
Como você vê o futuro do discurso público nesse país se nós não revertermos o curso em coisas como o C-16?
Eu não tenho ideia. Acho que estamos num tempo de caos e nada pode acontecer em um tempo de caos. Eu não sei o que vai acontecer na universidade na próxima semana. Tem um debate no sábado às 9:30 da manhã. Ele será exibido ao vivo no meu canal do YouTube. Eu não tenho ideia de quais serão as consequências do debate, não tenho ideia se estarei lecionando em janeiro. A universidade me disse que cada vez que eu insistir que não irei usar aqueles pronomes [de gênero neutro], a probabilidade de que estarei lecionando em janeiro diminui.
Você acredita que você ou outros poderiam ser presos por se recusarem a obedecer àquelas leis?
Não há dúvida sobre isso. Os tribunais de direitos humanos ganharam o direito de manter pessoas em custódia. Bem, você será mantido em custódia se não pagar a multa. Meus oponentes dizem ‘você está apenas fomentando o medo. Nós não temos de verdade tanto poder assim’. Então por que mudar o código criminal? Por que colocar os corretivos de discurso de ódio lá? A palavra final na lei é o encarceramento. Não há dúvida sobre isso. Quando eu fiz o vídeo em 27 de setembro, disse ‘provavelmente fazer esse vídeo por si é ilegal’. Não só isso, a universidade é tão responsável quanto eu por fazê-lo, porque isso está no código dos direitos humanos. A universidade leu as malditas políticas e seus advogados as escrutinaram, e concluíram exatamente o que eu concluí. É por isso que eles me enviaram duas cartas de aviso. Eles estão no cabide para qualquer coisa que seus empregados disserem, se ou não as consequências do que eles disserem forem intencionais ou não, independente se houve ou não uma reclamação.
Isso inclui coisas que meus empregados dizem em seu tempo privado?
Isso inclui tudo que eles dizem. Não importa se pessoas reclamam ou não. Mesmo se ninguém reclamar, ou mesmo se o efeito não for intencional. A outra coisa que está inclusa nessa lei e nas políticas relacionadas – e isso também é cada vez mais o caso em tribunais de assédio sexual em campi universitários nos quais o governo da [Premiê de Ontário Kathleen] Wynne está fazendo pressão como louco – eles mudaram dois princípios legais. Não é ‘inocente até que se prove culpado’, é ‘preponderância de evidência,’ e não é intenção, é resultado. Essas transformações são tão amplas, é quase inimaginável.
Você está sugerindo que eles alteraram a regra da lei como nós tradicionalmente a conhecemos?
Eles alteraram. Eles dizem ‘o que você diz machuca meus sentimentos’ – e isso é parte do assalto sobre o mundo objetivo – sua intenção é irrelevante. Minha resposta subjetiva é o fator determinante. A ideia de que eles ousariam implodir a doutrina da intenção é inacreditável.
Você está surpreso que quase metade do cáucus do Partido Conservador do Canadá votou a favor do C-16?
Não só isso, não há uma convenção de liderança acontecendo agora? Algum dos candidatos comentou qualquer coisa sobre isso? Não. Por quê? Porque eles estão com medo. Eu acho que o fato de que ninguém comentou sobre isso é uma indicação de como até para conservadores, especialmente no Canadá, a demanda por ortodoxia foi tão longe que mesmo conservadores estão com medo de serem conservadores. Essas coisas não são fáceis de entender. Você pode perguntar, ‘por que você não pode simplesmente perguntar às pessoas do que elas querem ser chamadas?’ Bem, quando alguém questiona seu uso de pronomes, isso coloca você no holofote. Você não sabe por que usa os pronomes que usa. Você os usa porque todos os outros os usam – isso é uma convenção social. Então outra pessoa diz ‘é um sinal de respeito usar um pronome, e é um sinal de respeito usar o pronome de escolha de alguém.’ Esses são assaltos filosóficos de ampla escala. Se você não está preparado para eles, tudo que você pode fazer é ficar desnorteado, e seu padrão vai ser ‘bem, talvez nós devêssemos ser legais’.
Então talvez alguns deles votaram a favor porque eles não entendem os problemas filosóficos e apenas não quiseram ofender ninguém?
É por isso que eu estou tentando separar esses argumentos. Primeiro, “ele” e “ela” não são sinais de respeito. Eles são os termos mais casuais possíveis. Se eu me refiro a alguém como “ele” ou se eu me refiro a alguém como “ela”, isso não é um sinal de respeito, é só categorização do tipo mais simples e óbvio. Não há nada sobre isso que seja individual, ou característico de respeito. Segundo, você não tem o direito de exigir de mim que eu fale qualquer coisa com relação a você que seja respeitoso. O melhor que você pode esperar de mim é neutralidade cética e confiança corajosa. É isso. Isso é o que você consegue de mim.
Você poderia definir esses dois termos?
Neutralidade cética é ‘você é um balde de cobras, assim como eu. Entretanto, se você estiver disposto a manter sua palavra, e se eu estiver disposto a manter minha palavra, então nós somos capazes de nos envolver em interações mutualmente benéficas, logo é isso que nós vamos fazer’. A razão pela qual eu disse confiança corajosa é para distingui-la de inocência. Pessoas inocentes pensam que todo mundo é bom. Isso é falso, todo mundo não é bom. Mas agir de uma forma que seja hostil e cética e antissocial é completamente contraproducente. Então o que você faz se você é uma pessoa madura é você diz ‘bem, beleza, você tem um lado sombrio, eu também. Isso não quer dizer que nós não podemos nos envolver em interações produtivas’. Nós fazemos isso mantendo nossas malditas palavras. A honestidade nos simplifica ao ponto onde nós podemos nos envolver em interações mutuamente benéficas. Mas você certamente não consegue meu respeito exigindo-o. Você não tem qualquer direito de me pedir para marcá-lo como especial de qualquer maneira.
Então nós não deveríamos chamar alguém de ‘sua majestade’ só porque eles pediram isso?
Bem, esse é outro problema que está se escondendo sob o argumento da subjetividade, uma vez que você divorcia a identidade de uma base objetiva. Essas pessoas [defensoras de múltiplas identidades de gênero e leis para protegê-las] afirmam que identidade é uma construção social, mas mesmo que essa seja sua afirmação filosófica fundamental, e que eles a tenham inserido na lei, eles não agem de acordo com aqueles princípios. Ao invés disso, eles vão direto à subjetividade. Eles dizem que sua identidade nada mais é do que seu sentimento subjetivo daquilo que você é. Bem, isso também é uma ideia exageradamente empobrecida do que é que constitui identidade. É como a alegação de uma criança egocêntrica de dois anos, e eu quero dizer isso tecnicamente. Sua identidade não é só como você sente sobre você mesmo. É também como você pensa sobre você mesmo, é o que você sabe sobre você mesmo, é seu julgamento informado sobre você mesmo. Ela é negociada com outras pessoas mesmo se você for vagamente civilizado porque de outra forma ninguém lhe suporta. Se sua identidade não for um híbrido daquilo que você é e daquilo que as outras pessoas esperam, então você é como a criança no parque com quem ninguém pode brincar.
Além do mais, sua identidade é um veículo prático que você usa para manobrar a você mesmo durante a vida. Em sua identidade real, você é um advogado, você é um médico, você é uma mãe, você é um pai, você tem um papel que tem valor para você e outros. Nada disso é subjetivamente definido. Então isso é completamente absurdo, e filosoficamente primitivo, e psicologicamente errado. Ainda assim, está inserido na lei. Eu acho que a lei faz das discussões de biologia e gênero ilegais. Acho que nós tivemos um gostinho disso na entrevista da TVO Agenda que eu tive onde [o professor de estudos transgêneros da U de T] Nicholas Mack disse ‘bem, o consenso científico das últimas quatro décadas é que não há diferença biológica entre homens e mulheres’. Isso é uma proposição absurda. Há diferenças entre os sexos em todos os níveis de análise. Há escalas de masculinidade/feminidade que foram derivadas; elas são basicamente derivações secundárias de descritores de personalidade. Há diferenças enormes de personalidade entre homens e mulheres. Há literatura explorando diferenças entre homens e mulheres em personalidade em muitas, muitas sociedades no mundo todo. Eu acho que a maior publicação examinou 55 sociedades diferentes. E eles ranqueiam as sociedades por igualdade sociológica e política. A hipótese era que se você equaliza o ambiente entre homens e mulheres, você erradica as diferenças entre eles. Em outras palavras, se você trata meninos e meninas igual, as diferenças entre eles desaparecerão. Mas não é isso que os estudos mostraram. Na realidade, elas se tornam maiores. Aqueles são estudos de dezenas de milhares de pessoas. A teoria do construtivismo social foi testada. Ela falhou. A identidade de gênero é muito determinada biologicamente.
Você vê algum paralelo entre esse assunto e outras das causas da ‘justiça social’ que têm surgido nos últimos poucos anos, como Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] ou IdleNoMore [OciosoNãoMais]?
É tudo parte e parcela da mesma coisa. Há uma guerra acontecendo no coração da nossa cultura. Muitas pessoas têm falado sobre politicamente correto, e o fato do quanto isso é pernicioso. Frequentemente, isso apenas desaparece no éter. Eu acho que o que eu fiz foi diferente porque havia algo que eu disse que não faria. Isso pegou o geral e o tornou específico.
No cristianismo, há a ideia do Cristo geral, que é a “Palavra” que Deus usou para transformar o caos em ordem. Por outro lado há o Cristo específico, o carpinteiro no Oriente Médio 2000 anos atrás. Então há essa noção estranha no cristianismo entre esse princípio geral, que é o logos aproximadamente falando; o logos é a coisa que media entre a ordem e o caos e é princípio bastante abstrato; e o ser humano específico que teve uma identidade específica ligada a um tempo e local específico, fazendo o indivíduo arquétipo, e isso faz uma história inacreditavelmente atraente. O arquétipo é muito abstrato. É como falar ‘os caras bons ganharam’ – não há história ali. Eu acho que o que eu fiz foi tornar o geral concreto e específico, e tracei uma linha. Agora o preço que você paga por traçar uma linha – especialmente com o material politicamente correto – é que você vai ser difamado como um fanático. As pessoas da justiça social estão sempre do lado da compaixão e dos ‘direitos das vítimas’, então objetar a qualquer coisa que eles façam lhe torna instantaneamente um perpetrador. Não há lugar onde você possa permanecer sem ser vilificado, e é por isso que isso continua rastejando adiante.
Jordan B. Peterson (Imagem: Marta Iwanek)
(Imagem: Marta Iwanek)
Esse não é o resultado lógico da aplicação tática de Saul Alinsky?
Exatamente certo. A coisa é que se você substitui compaixão por ressentimento, então você entende a esquerda autoritária. Eles não têm compaixão, não há compaixão ali. Não há compaixão alguma. Há ressentimento, fundamentalmente.
Em um editorial opinativo do National Post você escreveu que ‘palavras como zhe/zher [NT: equivalentes a elx/delx] são as vanguardas de uma ideologia de esquerda radical que é assustadoramente similar ao marxismo’. Você pode elaborar?
Identidade atribuída é opressão. Identidade atribuída é a identidade que é atribuída para você pela estrutura de poder – o patriarcado. A única razão pela qual o patriarcado lhe designa um status é para lhe oprimir. E logo a linguagem que lhe liberta do status é linguagem revolucionária. Então, como um exemplo de linguagem revolucionária, nós vamos explodir as categorias de identidade de gênero, porque o conceito de mulher é opressivo. A filosofia antipatriarcado é predicada na ideia de que todas as estruturas sociais são opressivas, e não muito mais que isso. Então atacar a estrutura é questionar seus esquemas categóricos em todo nível possível de análise. E o nível mais fundamental que os radicais antipatriarcado elencaram é gênero. Ele é uma peça de identidade que crianças geralmente assimilam por volta dos dois anos – ele é bastante fundamental. Você poderia argumentar que não há nada mais fundamental. Entretanto, eu não sei de nada que seja mais fundamental, mais básico, e que teria sido considerado como mais inquestionável, mesmo há cinco anos atrás.
Você acredita que a sociedade deveria traçar uma linha no que se refere a limitações para discurso de ódio?
Não. As leis sobre discurso de ódio estão erradas. A questão – não uma questão, mas A questão – é ‘quem define o que é ódio?’ Isso não é o mesmo que dizer que não existe discurso de ódio – claramente existe. Leis contra discurso de ódio reprimem, e eu quero dizer no sentido psicoanalítico. Elas fazem [o discurso de ódio] clandestino. Isso não é uma boa ideia, porque as coisas ficam feias quando você as transforma em clandestinas. Elas não desaparecem, apenas apodrecem, e não são sujeitas à correção. Eu fiz esses vídeos, e eles têm sido sujeitos a uma quantidade tremenda de correção nas últimas seis semanas. Eu não quero dizer apenas por parte da resposta do meu público, mas também parcialmente da resposta da universidade, parcialmente de um grupo de amigos que têm estado revisando meus vídeos e os criticando até a morte. É por isso que a liberdade de expressão é tão importante. Você pode se esforçar para formular algum argumento, mas quando você o lança para o público, há uma tentativa coletiva de modificá-lo e melhorá-lo. Então, sobre o assunto discordo de ódio – digamos que alguém seja um negacionista do Holocausto, porque essa é a rotina padrão – nós queremos essas pessoas lá fora, em público, de forma que você possa lhes dizer que elas são historicamente ignorantes, e porque suas visões são infundadas e perigosas. Se você as torna clandestinas, não é como se elas parassem de conversar umas com as outras, elas apenas não conversam com qualquer outro que discorde delas. Essa é uma ideia muito ruim e é isso que está acontecendo nos Estados Unidos agora. Metade do país não conversa com a outra metade. Você sabe do que você chama pessoas com as quais não fala? Inimigos.
Se você tem inimigos, você tem guerra.
Se você para de falar com pessoas, ou você se submete a elas, ou vai à guerra com elas. Essas são suas opções e não são boas opções. É melhor ter uma conversa. Se você coloca restrições na expressão, então você não pode de fato falar sobre as coisas difíceis sobre as quais se precisa falar. Eu tenho aproximadamente 20000 horas de prática clínica e tudo que eu faço por 20 horas semanais é conversar com pessoas sobre coisas difíceis – as piores coisas que estão acontecendo em suas vidas. Essas são sempre conversas difíceis. As conversas que são mais curativas são simultaneamente as que são mais difíceis e mais perigosas. Muitas pessoas normais não terão essas conversas. É por isso que muitos casamentos se dissolvem. As pessoas não gostam de ter essas conversas. Parte disso também é devido – digamos que você tenha tido uma pequena discussão com sua esposa, e você sabe que tem algo mais ali do que a coisa pequena que lhe está incomodando, e você pergunta ‘sobre o que é que REALMENTE você está chateada?’ Tente voltar atrás. Você pode descobrir que ela está chateada com algo que o seu avô fez à sua avó duas gerações atrás que ainda não foi resolvido na sua família, e esse é o elemento determinante de sua atitude no momento presente. Se você desembalar isso, entretanto, então você não precisa vivê-lo de novo e de novo.
Também há essa ideia de que você não deveria dizer coisas que machucam os sentimentos das pessoas – essa é a filosofia da esquerda compassiva. Isso é tão infantil que está além da compreensão. O que disse Nietzsche: ‘você pode julgar o espírito de um homem pela quantidade de verdade que ele pode tolerar’. Eu também falo isso aos meus alunos, você pode dizer quando está recebendo educação porque você está horrorizado. Então, se for agradável e seguro, é como se você não estivesse aprendendo nada. As pessoas aprendem as coisas do jeito difícil.
O que acontece quando aquela verdade de fato contribui para a violência contra grupos?
Você escolhe seu veneno, e a liberdade de expressão é o veneno certo. Há grupos que advogam pelo ódio, mas esse não é o problema. O problema é se reprimi-los faz as coisas melhores ou piores. Eu diria que [lhes reprimir] apenas as faz piores. Existem muitas horas em que você não tem uma boa opção. As pessoas acham que se não deixarmos eles falarem, isso vai sumir. Não funciona assim de forma nenhuma. Na verdade, se eles são paranoicos, você apenas justifica sua paranoia. Por fazer deles clandestinos, você não os enfraquece. Você apenas lhes fornece algo atraente contra o que lutar. Você os transforma em herois aos seus próprios olhos.
Você pode comentar sobre a resposta específica da Universidade de Toronto, a carta que você recebeu do reitor da Faculdade de Artes, David Cameron?
Eles conversaram com seus advogados, e eles estão fazendo exatamente o que pessoas de RH sempre fazem. Se você quer se livrar de alguém, você lhe escreve uma carta. Fale para eles o que estão fazendo errado, fale para eles pararem, e fale gentilmente. Então você escreve uma segunda carta, e lhes diz as mesmas coisas, só que não tão gentilmente. Então você lhes dá uma terceira carta, e depois de lhes dar uma terceira carta, se eles não acatarem, então você pode fazer o que quiser, você deixou sua trilha de papeis. Os advogados checaram as políticas no website da OHRC [NT: Ontario Human Rights Commission, Comissão de Direitos Humanos de Ontário], e concluíram que minha interpretação da lei está absolutamente correta. É pior que isso, entretanto. É tipo ‘tudo bem, isso é contra a lei, supõe-se que a universidade deve seguir a lei, e eu não estou fazendo isso, pelo menos em princípio.’ Então eles têm uma obrigação legal e ética de fazer o que fizeram, mas eles fizeram de uma forma traiçoeira. Na primeira carta, eles me citaram errado. Então eu lhes disse ‘vocês deveriam pegar essa carta de volta e reescrevê-la porque ela não está precisa, e se vocês querem me dar uma carta de aviso, é do seu melhor interesse fazê-lo certo.’ A segunda carta foi ainda pior. Ela dizia que eu contribuí para esse clima de medo e perigo no campus, o que eu pensei ser uma afirmação especiosa e infundada pra início de conversa, mas quando eles mencionaram que tinham recebido muitas cartas de grupos no campus da universidade, eles não mencionaram as 500 cartas que receberam de pessoas me apoiando, sobre as quais eu sei porque fui copiado nelas. Eles não mencionaram a petição com 10000 assinaturas, que eu também recebi. Essa é a mentira. Eles não precisavam omitir isso. Eles podiam ter dito ‘nós entendemos que há uma variedade de opiniões sobre isso, e você tem apoio público substancial. Mas a verdade é que, até onde podemos dizer, isso é ilegal, e é nossa obrigação lhe dizer que você deve se adequar às políticas da universidade e à lei.’ Eles podiam ter feito isso, mas não fizeram.
Então, quando nós começamos a conversar sobre o debate depois da segunda carta, eu fui falar com David Cameron. Eu achei que já que esse é um assunto de grande interesse público aqui, talvez nós devêssemos ter um debate sobre isso. Isso é o que uma universidade faria, se fosse um lugar civilizado, então foi isso que eu recomendei ao Cameron. Ele levou o assunto para a administração da universidade, e eles concordaram. Mas eles me colocaram uma restrição: no debate, não tenho permissão para repetir a declaração de que não vou usar esses pronomes preferidos. É um pouco absurdo que nós vamos continuar com um debate sobre liberdade de expressão, e eu não posso repetir a afirmação central que iniciou o debate. Então eu lhes escrevi e disse ‘olha, vocês estão fazendo isso errado. Ao invés de me dizer “olha, você não pode dizer isso”, o que vocês DEVERIAM estar fazendo é dizendo “você pode estar errado, mas você dever ter permissão para dizê-lo, e nós vamos apoiá-lo por todo o caminho até a Suprema Corte. Nós usaremos nossos recursos legais e lhes colocaremos à sua disposição, e nós vamos combatê-los através dos tribunais.” Cameron disse categoricamente que eles não iriam fazer aquilo. Eles tiveram que escolher entre justiça social e liberdade de expressão. Eles escolheram justiça social – o que é equidade, ou igualdade de resultado – porque é isso que eles estão ensinando. Eu decidi que iria adiante com o debate de qualquer maneira porque, considerando todas as coisas, você nem sempre tem uma boa opção. Eu decidi escolher entre o pior de dois males e prosseguir com o debate.
Então, só pra clarificar suas ideias sobre o projeto de lei C-16. Você acha que seu vídeo do YouTube definitivamente o viola?
A universidade pensa que sim. Eu pensei que sim. Eu li as malditas políticas. Eu chequei as políticas no website da Ontario Human Rights porque eu acho que aquelas são as pessoas que estão por trás de tudo isso. A escrita naquele website é pavorosa de uma perspectiva técnica – ela é incoerente. Eles são a pequena confraria semiletrada, ignorante filosófica, malévola que está por trás disso. Você esperaria mais do que aquilo de quase-judiciários.
O que você espera alcançar com tudo isso?
Espero que eu possa continuar a educar pessoas, tanto na universidade quanto, se não na universidade, então no YouTube. Pela primeira vez na história humana, a palavra falada tem o mesmo alcance e longevidade que a palavra escrita. Não só isso, o tempo entre sua enunciação e sua publicação é zero. Há três meses, tive alguns assistentes de pesquisa escrevendo as transcrições de minhas palestras para que pessoas pudessem assistir minhas palestras com legendas porque é mais fácil para as pessoas seguirem, e eu estava checando meu crescimento em termos de assinantes, e meio que brincando pensei que logo poderia ter mais assinantes no meu canal de YouTube que a U de T tem de alunos. Eu não sei qual a significância disso. Pode ser que a universidade já esteja morrendo. Isso não me surpreenderia. Quero dizer, eu acho que grandes partes da universidade estão irrevogavelmente corruptas: sociologia, perdida; antropologia, perdida; história, grandes partes dela estão perdidas, os clássicos, literatura, trabalho social, ciência política em muitos lugares, e isso não cobre estudos femininos, estudos étnicos. Eles provavelmente começaram perdidos, e as coisas ficaram muito piores. Eu acredito que agora, com a exceção do ramo das ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM [NT: sigla em inglês]), que universidades fazem mais mal do que bem. Acho que elas produzem servos nos Estados Unidos porque as taxas de ensino aumentaram tanto e você não pode declarar falência sobre seus empréstimos estudantis. Nós estamos ensinando mentiras a estudantes universitários, e passando a mão em sua cabeça, e eu vejo isso como contraproducente.
Há inclusive um programa antipsicológico no OISE [Ontario Institute for Studies in Education, Instituto de Ontário para Estudos em Educação]. Ele começou quando eles se livraram de [Ken] Zucker, e você não para em uma pessoa. Zucker era um psicólogo mais que credível. Ele mantinha um programa muito bom para pessoas que tinham disforia de gênero, e ele era conservador. A atitude de Zucker era que se você tivesse um filho que está reclamando de seu gênero, você os acompanha, e vê o que acontece, e você deriva suas conclusões de sua pesquisa. Oitenta por cento deles se declaram homossexuais, noventa por cento se resolvem com sua identidade biológica quando adultos. Sua conclusão lógica é para manter a maldita faca cirúrgica embainhada, e não trazer os hormônios à cena tão cedo. Bem, tudo isso acabou – é ilegal agora para médicos questionar a decisão de uma criança de três anos de que ele é ela. E se os pais quiserem começar a transformação biológica, é ilegal para os médicos rejeitar isso.
Você viu que Lauren Southern conseguiu identidade de homem do governo de Ontário? Isso lhe mostra o que a lei fez com os médicos. Aquele médico não pôde questioná-la porque isso é ilegal. Então agora Lauren Southern tem identificação governamental como um homem. Ela foi ao quiosque do Serviço de Ontário de salto alto e maquiagem. Ela não esperava conseguir o maldito documento de identificação. Isso também significa que o governo está tão emaranhado nessa bagunça que eles vão de fato sacrificar sua própria identificação. Pense sobre isso – pense sobre o que vai acontecer com nossa sociedade se a identificação das pessoas se tornar instável.
Você disse na sua entrevista com Gad Saad que liberdade de expressão é – “O direito e talvez a obrigação de conduzir discursos que são direcionados à solução de problemas sérios.” O que acontece quando o próprio discurso se transforma em arma?
Erros se acumulam, e o caos toma conta. Eu estudei mitologia por um longo período. A história da enchente significa que se você deturpa as coisas suficientemente, tudo desmorona. Se você interfere com o mecanismo pelo qual as pessoas formulam problemas, os resolvem, e negociam sua implementação, então problemas acumulam e se multiplicam. É isso que é uma hidra – corte fora uma cabeça, sete crescem novamente. Essas coisas podem se multiplicar até sair do controle muito mais rápido do que as pessoas imaginam.
Jordan B. Peterson (Imagem: Marta Iwanek)
(Imagem: Marta Iwanek)
Isso é parte do que explica os resultados da eleição dos Estados Unidos?
Os democratas decidiram na década de 1970 que eles iriam abandonar a classe trabalhadora e brincar de política identitária, e a classe trabalhadora lhes tratou com descaso. [Hillary Clinton] perdeu todos os estados do “rust belt”. Você realmente tem que trabalhar muito para perder os estados do “rust belt” se você for um democrata. Então, eles conseguiram exatamente o que se esperava. E todos os esquerdistas estão preocupados que Trump é um demagogo de direita. Isso é insano – ele é um liberal. Ele foi um apoiador de Clinton. Digo, você poderia dizer que ele é um oportunista, ele é narcisista, mas ele não é um demagogo de direita. Eu não acho que ele é nem um pouco mais narcisista ou oportunista que Newt Gingrich, eu não acho que ele é nem um pouco mais narcisista ou oportunista que Hillary Clinton. Eu não acho que o que aconteceu nos Estados Unidos é de fato uma surpresa. Acho que a esquerda está dizendo “Meu deus, isso é uma catástrofe”. Não é uma catástrofe maior do que Margaret Thatcher ou Ronald Reagan no que se refere a até onde a demagogia de direita vai. Eu não acho que isso é nem um pouco diferente da revolução de Reagan, ou o que aconteceu com Thatcher, em termos de seriedade. Trump é um moderado. Ele é um moderado barulhento, e ele é um pouco populista, mas fundamentalmente ele ainda é um moderado – e as pessoas estão reagindo como se ele fosse Hitler. Você poderia pegar um Hitler – e ele certamente não é Trump. Ele era um candidato qualificado? Não, eu não acho era, mas ele fez várias coisas certo, e uma delas foi que ele não deu o mesmo discurso enlatado o tempo todo, e ele não foi manipulado até à morte. As pessoas viram isso e pensaram “ele não está fabricando cada declaração. Ele é meio que um idiota, mas pelo menos nós sabemos o que ele pensa”. Então as pessoas foram à cabine de votação, e elas pensaram “que se foda, vou votar no Trump” e foi isso que elas fizeram. Foi igual ao Brexit. A esquerda forçou a barra, esculhambou demais, e as pessoas pensaram “nós não vamos mais aguentar isso”, e então os democratas abandonaram a classe trabalhadora. Eu não sou um admirador do [Bernie] Sanders porque eu não acho que o tipo de socialismo que ele promove é uma solução defensável, mas eu certamente entendo que a classe trabalhadora nos Estados Unidos tem sido avacalhada desde 1975. Suas instituições sociais estão desmoronando, seus salários têm sido aplainados, os avanços da Índia e da China têm todos sido colocados nas costas da classe trabalhadora americana. Daí os intelectuais pensam ‘oh, esses caipiras, eles são estúpidos’. Pessoas de negócios NÃO são estúpidas. De fato, elas tendem a ter muito mais senso do que muitos dos intelectuais que eu conheço, ainda que não sejam tão boas em articular seus argumentos.
Como você define justiceiros sociais?
Eles são aqueles que transformam a compaixão em arma.
Você vê a cultura da justiça social como uma ameaça à democracia, e por quê?
Absolutamente. Não há nada sobre os tipos autoritários do PC [NT: politicamente correto] que tenha qualquer gratidão para com qualquer instituição. Eles têm um termo – patriarcado. Isso engloba tudo. Isso significa que tudo que nossa sociedade é está corrupto. Não há linha, eles querem dizer tudo. Vá online, vá checar dez websites de estudos femininos. Escolha-os aleatoriamente. Leia-os. Eles dizem ‘a civilização ocidental é um patriarcado corrupto até seu maldito núcleo. Nós temos que derrubá-la’.
O que significa democracia, o que significa liberalismo, o que significa direitos humanos.
Significa a coisa toda. O edifício inteiro. E ao que eles a comparam? À utopia. Por que você acha que feministas iriam atrás de Ayaan Hirsi Ali? Ela é uma heroína, aquela mulher. Ela é da Somália. Ela cresceu em um patriarcado muito opressor – um real. Ela escapou de um casamento arranjado, e se mudou para a Holanda e se apaixonou pela Holanda. Duas coisas realmente lhe chocaram inicialmente antes de ela ir à universidade e se tornar uma estudante do Iluminismo. Número um – ela esperava em um ponto de transporte público, e uma placa digital diria quando o transporte público iria chegar, e ele chegava exatamente quando o placar disse que iria. Isso era inacreditável para ela. E outra coisa que ela não conseguia acreditar era que a polícia lhe ajudaria. Você sabe que está num país civilizado quando a polícia não lhe estupra e rouba tudo que você tem. As pessoas radicais de esquerda não dão a mínima para nada disso.
Há algo mais que você gostaria de adicionar?
Você perguntou o que as pessoas podem fazer. Elas podem se recusar. Elas podem se recusar a serem empurradas mais nessa direção. Tudo que é predicado sobre identidade de grupo, nós temos que nos livrar disso. Os habitantes de Alberta eram muitos céticos sobre Pierre Trudeau e todas as suas mudanças, especialmente com a introdução da Carta [Estatuto de Direitos Humanos], e eles estavam certos sobre isso também. Nós nunca devíamos ter tido um projeto de lei de direitos humanos no Canadá. Isso foi uma importação da Lei Civil Francesa colocada sobre a Lei Comum Inglesa, e isso foi um erro. Na Lei Comum Inglesa, você tem todos os direitos que existem exceto aqueles que são expressamente proibidos na lei. No sistema francês, você enumera os direitos das pessoas – isso faz parecer que direitos são concedidos para você pelo governo, e isso não é verdade. Então nós começamos a falar mais sobre identidade no Canadá, e isso foi um desvio da tradição do individualismo iluminista.
Você está negando a existência de discriminação baseada em sexualidade ou raça?
Não acho que as mulheres tenham sido discriminadas, eu acho esse argumento chocante. Antes de tudo, você sabe quanto dinheiro as pessoas tinham pra viver em 1885, em dólares de 2010? Um dólar por dia. A primeira coisa que nós vamos estabelecer é que a vida era uma droga para todo mundo. Você não vivia muito. Se você fosse mulher, você estava grávida quase o tempo todo, e você estava cansada e meio morta quando estivesse com 45. Homens trabalhavam sob condições abismais que nós não podemos nem imaginar. Quando George Orwell escreveu O Caminho para Wigan Pier, os mineiros de carvão que ele estudou andavam para trabalhar duas milhas debruçados em um túnel antes que começassem seu turno. Então eles andavam de novo. [Orwell] disse que ele não poderia caminhar 200 jardas em um daqueles túneis sem ter cólicas tão fortes que ele não podia nem se levantar. Aqueles caras não tinham os dentes por volta dos 25, e estavam acabados aos 45. A vida antes do século XX para muitas pessoas era brutal além de comparação. A ideia de que mulheres eram uma minoria oprimida sob aquelas condições é insana. As pessoas trabalhavam 16 horas por dia ganhando apenas para sobreviver. Minha avó era esposa de um fazendeiro em Saskatchewan. Ela me mostrou uma foto da lenha que ela cortava antes do inverno. Eles viviam numa cabana que não era maior do que o primeiro andar desta casa. E a pilha de lenha que ela cortava era três vezes tão longa, e da mesma altura. E isso era o que ela fazia em seu tempo livre porque ela também estava cozinhando para uma turma de debulhadores, tomando conta de seus quatro filhos, trabalhando nas fazendas de outras pessoas como empregada doméstica, e tomando conta dos animais. Então, no século XX, as pessoas ficaram ricas o suficiente para que algumas mulheres pudessem trabalhar fora de casa. Isso começou na década de 1920, e acelerou de verdade durante a Segunda Guerra Mundial porque as mulheres eram puxadas para fábricas enquanto os homens partiam para a guerra. Os homens lutaram, e morreram, e isso é basicamente a história da humanidade. E então na década de 50, quando Betty Friedan começou a reclamar sobre a situação das mulheres, era assim, os soldados voltaram para casa da guerra, todo mundo começou uma família, as mulheres saíram das fábricas porque queriam ter filhos, e foi então que elas ficaram todas oprimidas. Não havia igualdade paras as mulheres antes da pílula anticoncepcional. É completamente insano assumir que qualquer coisa assim pudesse ter possivelmente acontecido. E as feministas acham que produziram uma revolução na década de 1960 que liberou as mulheres. O que liberou as mulheres foi a pílula, e nós vamos ver onde isso vai dar. Há alguma evidência que mulheres que usam pílula não gostam de homens masculinos por causa das mudanças no balanço hormonal. Você pode testar a preferência de uma mulher por homens. Você pode lhe mostrar fotos de homens e mudar a largura da mandíbula, e o que você encontra é que mulheres que não usam pílula gostam de homens de mandíbula larga quando estão ovulando, e gostam de homens de mandíbula estreita quando não estão, e os homens de mandíbula estreita são menos agressivos. Bem, todas as mulheres usando pílula agem como se não estivessem ovulando, então é possível que muito da antipatia que hoje existe entre mulheres e homens exista por causa da pílula anticoncepcional. A ideia de que as mulheres foram discriminadas através do curso da história é chocante.
Agora, grupos que foram discriminados. Sobre o que você está falando? As únicas sociedades que não são sociedades escravagistas são democracias ocidentais iluministas. É isso. Comparadas à utopia, são uma droga. Mas comparadas a qualquer outra coisa – as pessoas não imigram para o Oriente Médio para morar lá, e há boas razões para isso.
A única outra coisa a fazer é uma análise multivariada. Por exemplo, se nós quiséssemos predizer o sucesso de longo prazo da vida em países ocidentais, os dois melhores preditores são inteligência e conscienciosidade. As pessoas inteligentes chegam lá antes, as pessoas conscienciosas trabalham duro. Isso é responsável por cerca de 30 por cento da variância em sucesso de longo prazo na vida. Não há discriminação aí, só competência. E sobre mulheres e o teto de vidro [metáfora que sugere que há barreiras invisíveis ao sucesso das mulheres]? Isso é muito mais complicado do que parece. Por exemplo, eu tenho lidado com muitas empresas grandes de advocacia por anos. Eles não conseguem manter suas mulheres. Todas as grandes empresas de advocacia perdem todas suas mulheres quando elas estão em seus trinta. Você sabe por quê? É fácil. As mulheres se relacionam com pessoas através e acima na hierarquia de domínio, logo mulheres em grandes empresas de advocacia que já passaram dos 30 e que são casadas, talvez elas estejam ganhando $300000 por ano. Seus parceiros também. Eles não precisam ganhar $600000 por ano. Se você quer ganhar $300000 por ano como advogado, essa é sua vida: você trabalha 60-80 horas por semana sem parar, e você está de sobreaviso. Se o seu cliente japonês lhe liga às 3:00 em uma manhã de domingo, sua resposta é ‘sim, eu farei isso imediatamente’ porque eles estão lhe pagando $750 por hora. Essas mulheres têm alta conscienciosidade, são ótimas estudantes, brilhantes na escola de direito, e estelares em seu período de treinamento. Então elas encontram um parceiro, e elas pensam ‘por que diabos eu estou trabalhando 80 horas por semana?’, porque é isso que pessoas sãs pensam. Então só há homens no pináculo absoluto das profissões. Mas não são todos os homens, são essa pequena proporção de homens estranhos. Eles têm QIs de 145 ou mais, e eles são insanamente competitivos e trabalhadores. Não interessa onde você vai colocar uma pessoa assim, ela vai trabalhar 80 horas por semana. A razão pela qual homens fazem isso mais do que mulheres é que o status faz dos homens sexualmente atraentes. Homens são direcionados por status – tanto biológica quanto culturalmente – de uma forma que mulheres não são. Então a questão real, quando você olha essas posições e pensa ‘oh, essas são posições luxuosas, maravilhosas, de plenitude e relaxamento’. Isso é bobagem. Essas pessoas trabalham tanto que é quase inimaginável. Muitas pessoas não só não podem fazer isso, mas não há nem uma chance de que elas gostariam de fazê-lo. Muitas mulheres firmam um relacionamento em seus 30. A parte engraçada é que quando você está nos seus trinta é que só então você realmente começa a ter sua própria vida. Quando você tem 18, você é igual a qualquer outro cabeça-dura de dezoito anos, vocês são todos iguais. Pela época em que você tem trinta, você tem experiência idiossincrática suficiente pra meio que moldar sua própria vida, e muitas pessoas se dão conta que ‘bem, eu não quero trabalhar 80 horas por semana’. Querem ter uma família, e não têm tempo. E quando têm uma família, descobrem que ter um filho – não é um bebê genérico, é uma nova pessoa na sua família. Aquela nova pessoa é A coisa mais importante para você. Ponto. Então as mulheres chegam aí, elas têm dois filhos e elas pensam ‘eu só vou ter filhos pequenos por cinco anos, você acha que eu vou trabalhar por oitenta horas por semana? Para ganhar um dinheiro de que não preciso? Fazendo algo de que não gosto? Ou eu vou passar tempo com meus filhos?’ Eles não conseguem manter mulheres na advocacia – não há um maldito teto de vidro. As profissões do direito estão desesperadas para manter pessoas qualificadas porque elas não têm o suficiente. Elas as buscam de qualquer lugar – especialmente as mulheres que não só são boas advogadas, mas que também podem gerir um negócio. Esse é apenas um pequeno segredo feio sobre a diferença nas estruturas de poder entre homens e mulheres. Os homens fazem quase todos os trabalhos perigosos, os homens trabalham na rua, os homens são muito mais propensos a se mudar do que as mulheres são. Então, se você olha, se você desmonta as estatísticas em termos de salário diferencial, se você equaliza para os outros fatores, mulheres jovens ganham mais dinheiro do que homens jovens. A ideia de que “mulheres ganham $0,70 para cada dólar que um homem ganha” é uma mentira. Pequenos negócios mantidos por homens ganham muito mais dinheiro do que pequenos negócios mantidos por mulheres. Por quê? Porque mulheres começam pequenos negócios quando elas têm filhos, quando elas estão em casa, então os negócios são apenas de meio período. Então é por isso que elas não fazem tanto dinheiro. Não tem nada a ver com preconceito, tem tudo a ver com opções. Então esses argumentos que as pessoas fazem sobre preconceito não estão nem fora da psicologia tribal ainda.
Nós fizemos avanços inacreditáveis em termos de nivelar o campo de jogo, e muito disso foi devido à pura cobiça capitalista. Em sociedades capitalistas, as pessoas são desesperadas por talento. Se elas tiverem que trabalhar com mulheres e minorias, elas geralmente vão. Transformações estão ocorrendo tão rápido que não há nada que você possa fazer para fazê-las ir mais rápido. Todo mundo está gritando ‘preconceito’ – é o pau-para-toda-obra das explicações. Por que a sociedade é assim? Preconceito. Por que ela é assado? Preconceito. Não há nenhum raciocínio envolvido, nenhuma análise multivariada. Isso é repreensível. Warren Farrell escreveu o livro Why Men Earn More [NT: Por que os Homens Ganham Mais]. Ele trabalhava na Organização Nacional das Mulheres em Nova York antes de ter escrito o livro. Ele de fato escreveu o livro, pelo menos em princípio, para suas filhas, porque ele queria ajudar a guiá-las para um status superior. Ele fez uma análise multivariada. Ele foi e viu, e aprendeu mais. Ele descobriu que homens fazem os trabalhos comerciais que pagam mais, são empregos perigosos, são na rua, fazendo trabalho físico duro. Então essas são as outras razões também. Há discriminação com certeza, mas ela conta por talvez dez por cento da variância no sucesso.
Por Jason Tucker e Jason VandenBeukel, em C2C Journal, 1º de dezembro de 2016.