terça-feira, 22 de setembro de 2020

Uma breve história do movimento progressista: eugenia, drogas, Lei Seca e Ku Klux Klan. Andrew Syrios para o Instituto Mises

 

Uma breve história do movimento progressista: eugenia, drogas, Lei Seca e Ku Klux Klan.


Se o objetivo é a igualdade — como muitos autodeclarados progressistas afirmam —, então qualquer progresso rumo a uma maior igualdade tem de ser considerado, é claro, um progresso. Artigo de Andrew Syrios para o Instituto Mises:


Os progressistas têm um jeito com as palavras que chega a ser realmente impressionante. Talvez tudo tenha começado quando eles roubaram, nos EUA, o termo 'liberal' dos libertários. 

Desde então, a coisa virou uma bola de neve e saiu totalmente de controle. 

De "justiça social", "identidade de gênero" e "pró-escolha" (exceto quando a escolha se refere a armas ou lâmpadas incandescentes), passando por vários "ismos" criados pejorativamente para rotular seus opositores, os progressistas são especialistas em tais feitos linguísticos. 

E embora os conservadores e até mesmo os libertários também, e infelizmente, utilizem várias frases triviais em vez de argumentos sólidos, os progressistas são os campeões invictos neste quesito. 

A melhor prova disso é o próprio termo progressista que eles utilizam tão excessivamente: quando se referem a uma medida que apóiam, tal medida é progressista; quando se opõem a algo, tal medida é reacionária.

Esta simples dicotomia é um enorme prazer para aqueles indivíduos incapazes de um raciocínio mais elaborado e que gostam de ver suas crenças resumidas em chavões simples, quase sempre partidários e rudimentares. 

No entanto, a ideia de que o progresso ocorre ao longo de algum gradiente entre o conservadorismo reacionário e o progressivismo é flagrantemente falaciosa.

O passado que os condena

Supor que o progresso ocorre em uma direção e que a reação ocorre na direção oposta é um tipo de pensamento unidimensional que não se sustenta após uma análise mais sensata. 

Por exemplo, os progressistas do início do século XX defendiam coisas (e se aliavam até mesmo a grupos religiosos) que os progressistas de hoje abominariam. 

Foram os progressistas daquela época que, em conluio com protestantes, agitaram pela aprovação da Lei Seca, e criticaram violentamente aqueles "conservadores econômicos que brigaram tanto para revogá-la", como relatou o historiador Daniel Okrent

O famoso progressista William Jennings Bryan foi um inflexível defensor da Lei Seca. Como observou seu biógrafo Paolo Coletta:
Bryan era a epítome da visão proibicionista: protestante e nativista, hostil às grandes corporações e aos malefícios da civilização urbana, dedicado à regeneração pessoal e ao evangelho social. 
Ele acreditava sinceramente que a Lei Seca contribuiria para a saúde física e para o aperfeiçoamento moral do indivíduo, estimularia o progresso cívico e acabaria com os notórios abusos relacionados ao comércio de bebidas.
A descrição acima parece mais com a de um conservador contrário à descriminalização das drogas, a quem os progressistas desprezam. 

Com efeito, se o assunto é drogas, foram os progressistas de antigamente que também aprovaram, nos EUA, a primeira lei federal de desestímulo ao comércio de drogas, Harrison Narcotics Tax Act, de 1914. 

Enquanto isso, o presumivelmente reacionário H.L. Mencken descreveu os defensores da Lei Seca como seres motivados por uma "aberração psicológica chamada de sadismo".

Foram organizações progressistas que apoiaram, em 1882 e 1924, leis de restrição à imigração de chineses. Vários sindicatos "progressistas" eram abertamente racistas, nativistas e nacionalistas

Até mesmo a segunda encarnação da Ku Klux Klan, no início do século XX, além de ser abertamente racista, também defendia várias reformas progressistasMargaret Sanger, sexóloga, feminista, defensora do aborto e heroína dos progressistas americanos, chegou a palestrar em um dos eventos da KKK.

Ela também foi uma defensora declarada da eugenia, assim como vários outros progressistas da época. Os principais proponentes de teorias sobre superioridade e inferioridade genética eram figuras icônicas da esquerda, de ambos os lados do Atlântico.

Na Europa, John Maynard Keynes ajudou a criar a Sociedade Eugênica de Cambridge. Intelectuais adeptos do socialismo fabiano, como H.G. Wells e George Bernard Shaw, estavam entre os vários esquerdistas defensores da eugenia.

Foi praticamente a mesma história nos EUA. O presidente democrata Woodrow Wilson, como vários outros progressistas da época, eram sólidos defensores de noções de superioridade e inferioridade racial. Ele exibiu o filme O Nascimento de uma Nação, que glorificava a Ku Klux Klan, na Casa Branca, e convidou vários dignitários para a sessão.

Reitores da Universidade de Stanford e do MIT estavam entre os vários acadêmicos defensores de teorias sobre inferioridade racial — as quais eram aplicadas majoritariamente aos povos do Leste Europeu e do sul da Europa, uma vez que, à época, era dado como certo o fato de que os negros eram inferiores.

Como observou o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker:
Contrariamente à crença popular difundida por cientistas ideólogos, a eugenia foi, durante grande parte do século XX, uma das bandeiras favoritas da esquerda, e não da direita. 
Ela foi defendida por vários progressistas e socialistas, dentre eles Theodore Roosevelt, H.G. Wells, Emma Goldman, George Bernard Shaw, Harold Laski, John Maynard KeynesSidney e Beatrice Webb, Margaret Sanger e os biólogos marxistas J.B.S. Haldane e Hermann Muller. 
Não é difícil entender por que todos eles se alinharam a esta causa. Protestantes e católicos conservadores odiavam a eugenia porque a viam como uma tentativa das elites intelectuais e científicas de brincar de Deus. Já os progressistas adoravam a eugenia porque era um movimento em prol da reforma e contrário ao status quo. 
Para eles, a eugenia era um ativismo e não um laissez-faire; era uma responsabilidade social e não um individualismo egoísta.
A ironia

Quando se entende esse histórico, chega a ser irônico que conservadores e libertários sejam atualmente rotulados de eugênicos — mais especificamente, de 'darwinistas sociais' — pelos progressistas quando defendem a liberdade econômica. 

Também não é surpresa que o conservador católico G.K. Chesterton tenha escrito Eugenics and Other Evils, e que o grande Ludwig Von Mises tenha criticado a intervenção socialista dizendo que "… [um homem] se torna um peão nas mãos dos engenheiros sociais supremos. Até mesmo sua liberdade de criar sua prole será abolida pelos eugenistas".

E os nacional-socialistas — mais popularmente conhecidos como nazistas —, que foram os mais famosos defensores da eugenia? Eles definitivamente não eram progressistas, certo? Afinal, seu professor de história garante que não. 

E, com efeito, a plataforma de 25 pontos do programa nazista defendia medidas verdadeiramente "anti-progressistas", como "estatização de todos os conglomerados... divisão dos lucros das grandes indústrias ... [e] um generoso aumento nas pensões". 

Se, por um lado, os nacional-socialistas não são hoje o exemplo seguido pelos atuais guerreiros da justiça social, por outro, é incontestável que eles representavam o completo oposto do que defendem os libertários e os conservadores.

Os progressistas de hoje

Em termos puramente políticos, o progresso é algo extremamente subjetivo. 

Por exemplo, na Dinamarca, os progressistas legalizaram a prostituição; já na Suécia, os progressistas a tornaram ilegal. Podem ambos ser progressistas? 

Já em termos econômicos, científicos e tecnológicos, o progresso definitivamente existe. Ou ao menos é de se imaginar que exista. Porém, algumas pessoas muito progressistas acreditam que os luditas que quebravam máquinas representavam um "heróico movimento de resistência em prol dos direitos da classe operária". Ou seja, destruir tecnologia é igual a progresso. 

Há também os progressistas que se opõem aos atuais progressos tecnológicos, como os aplicativos de transporte e de entrega.

E o que dizer sobre a Revolução Industrial, a qual — não obstante várias dificuldades — elevou sobremaneira a renda per capita da população? Até hoje, há progressistas que ainda não aceitam os pontos positivos da Revolução Industrial.

E há aqueles que entendem por progresso o regresso às condições humanas vigentes nas sociedades tribais — cujos níveis de violência eram absurdos e apavorantes — de antes da Revolução Agrícola. O biólogo evolucionário Jared Diamond rotula a invenção da agricultura como "o pior erro da história da raça humana". 

Aliás, esqueça esses moderados. Vamos logo abolir toda a raça humana aderindo ao hiper-progressista movimento voluntário da extinção humana. Isso, sim, seria progresso…

Progredindo ao regresso

O que é o progresso e o que é reacionarismo dependem muito do ponto onde você começa e do ponto para onde quer ir. 

Se o objetivo é a igualdade — como muitos autodeclarados progressistas afirmam —, então qualquer progresso rumo a uma maior igualdade tem de ser considerado, é claro, um progresso. Se esse é o caso, então o comunismo tem de ser visto como a mais progressista de todas as causas. 

E, com efeito, o comunismo assim foi considerado por vários intelectuais do passado. 

Karl Marx via a história como uma marcha já pré-determinada do progresso: o comunismo primitivo levou à sociedade escravocrata que levou ao feudalismo que levou ao mercantilismo que levou ao capitalismo que levará ao socialismo que finalmente levará ao comunismo pleno. 

Ademais, a União Soviética, a China e outros regimes comunistas sem dúvida nenhuma executaram um número considerável de reacionários e contra-revolucionários. Para eles, isso foi um progresso.

Para concluir

Felizmente, o comunismo está politicamente morto há três décadas, e nenhum progressista de hoje teria a mais mínima simpatia por absolutamente nenhum aspecto deste regime sanguinário. 

Certo?

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Contra a radicalização tribal - João Carlos Espada

 



Sem regras comuns de conduta decente e respeito mútuo, o legítimo e indispensável debate político transforma-se num conflito tribal — em que a força, não a moderação, acabará por ser o árbitro final. Artigo do professor João Carlos Espada, publicado pelo Observador:


Num dos seus notáveis artigos de domingo no Público, António Barreto escreveu ontem mais um poderoso argumento contra a radicalização da nossa vida política e intelectual. No texto intitulado “Ruptura e Cooperação”, António Barreto recorda que os nossos séculos XIX e XX foram férteis em conflitos irredutíveis, rupturas com o passado e perseguições mútuas entre tribalismos rivais. O autor argumenta em seguida, muito certeiramente em meu entender, que essa preferência pela ruptura está também na origem da fragilidade das nossas instituições: “Ruptura e terra queimada: eis as razões para a inexistência ou a fragilidade das instituições. Aqui estão as causas das mudanças de famílias e de clientes. De saneamento. De corrupção. De nepotismo. Aqui se encontram as origens da ‘confiança política’, um dos piores traços da vida pública portuguesa, que mais não é do que um salvo-conduto para legitimar o favoritismo, a partidocracia, o nepotismo e a corrupção”.

Diz ainda António Barreto que as consequências da preferência pela ruptura, em detrimento da cooperação, são claras e foram experimentadas no passado: “Guerra política, classe contra classe, ideologia contra ideologia. […] O centro será assim estilhaçado, dissolvido e desfeito nas grandes vagas da alternativa radical, sonho dos revolucionários, desejo dos justicialistas e obsessão dos populistas”.

Curiosamente, e talvez sintomaticamente, esta mesma tribalização do debate político e intelectual é o tema do artigo de Anthony O’Hear, intitulado “D’où parles-tu? The Post-truth world”, na mais recente edição da revista Standpoint de Londres. Recordando a obra de Karl Popper — sobre a qual, em 2004, coordenou quatro volumes na Routledge de Londres — O’Hear argumenta que as vagas actuais de tribalismo são produto do relativismo niilista pós-moderno.

Recordando os argumentos de Nietzsche, Foucault, Derrida, Baudrillard e Lyotard contra a existência de padrões objectivos de verdade e de decência, Anthony O’Hear retoma o vigoroso alerta de Popper: o abandono da ideia de padrões objectivos de verdade e de decência conduzem — estão a conduzir — à simples gritaria entre denúncias rivais: “Se a verdade é uma ilusão, tudo o que podemos perguntar é ‘d’où parles-tu?’, em vez de ‘será verdade o que tu dizes?’[…] Se não existe verdade nem justiça para além das ‘construções’ de cada um para servir os seus próprios interesses, então nada resta para discutir entre opiniões diferentes senão perguntar de onde vem cada uma das opiniões, que interesses servem, que propósitos obscuros visam. […] Isto conduz à divisão do espaço público entre amigos e inimigos, com todo o potencial para censura e repressão que são características das sociedades fechadas.”

Anthony O’Hear, que é membro fundador do International Advisory Board do IEP-UCP e assíduo participante no Estoril Political Forum, recorda em seguida a fundamental distinção de Popper entre verdade objectiva e conhecimento subjectivo falível da verdade objectiva. Porque somos falíveis, discordamos sobre diferentes percepções da verdade objectiva — cuja certeza nos está vedada. Mas, porque acreditamos que existe verdade objectiva, encetamos civilizadamente um diálogo crítico sobre as nossas percepções falíveis — e confiamos que podemos aprender com os erros mutuamente detectados através desse diálogo crítico. É nesta esperança reformista que se fundam as sociedades abertas e as democracias liberais.

Estas mesmas preocupações estão no centro do livro de Pedro Rosa Ferro recém-editado entre nós pela Almedina. No centro de Política, Ciência e Consciência está também a percepção de uma degradação do debate público e uma crise de confiança na democracia liberal. À semelhança de Anthony O’Hear, Pedro Ferro coloca o relativismo niilista na origem desta crise: “Uma das causas da crise da democracia — do cansaço da democracia liberal — será precisamente o obscurecimento das suas fundações morais. Se a democracia for percebida apenas como um mecanismo de decisão colectiva — mero registo de factos empíricos e mecânica eleitoral, sem referências valorativas —, é natural que as pessoas se voltem, em períodos de tensão, para alternativas aparentemente mais eficazes.”

A questão central recordada por Pedro Ferro — sintomaticamente também central no texto de O’Hear — é que da premissa de que os valores são arbitrários ou equivalentes não se extrai necessariamente a conclusão de que devemos respeitar os valores dos outros. Na verdade, a conclusão mais plausível é que qualquer conclusão é válida — dado que qualquer conclusão será ainda um valor, e os valores, de acordo com a premissa niilista, são arbitrários e equivalentes.

Por esta razão, o cepticismo total da premissa niilista não conduz à defesa da liberdade e da tolerância. Pelo contrário, abre caminho a uma luta — sem regras comuns de conduta decente — em que a força, não a moderação, acabará por ser o árbitro final. Como recordam Pedro Ferro, Anthony O’Hear e António Barreto, foi este niilismo radical que permitiu o crescimento do comunismo, do nacional-socialismo e do fascismo no início do século passado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

O problema não é a "cultura do cancelamento", mas a do conformismo. - GREG WEINER

 

O problema não é a "cultura do cancelamento", mas a do conformismo.


A "cultura do cancelamento" pode esconder algo ainda mais perigoso: o despotismo suave da conformidade. Artigo de Greg Weiner, traduzido para a Gazeta do Povo:


Greg Patton é professor de Administração da University of Southern California, pelo menos por enquanto. Ele estava dando uma aula online sobre o uso de “palavras de preenchimento” na fala quando usou um termo que soou parecido com uma ofensa racista. “Se você tem muitos ‘ums’ e ‘errs’, isto é culturalmente específico, baseado na sua língua nativa. É igual na China, a palavra mais comum é ‘isso, isso, isso’. Então na China poderia ser ‘nèi ge, nèi ge, nèi ge’”, disse o professor [que soa parecido com nigger, um termo considerado racista nos EUA].

E por ter cometido o ultrajante ato de repetir uma expressão chinesa, ele foi colocado de licença pela universidade. Patton é um dos mais recentes casos de acadêmicos vítimas da cultura do cancelamento nos campi.

Seu caso também serve como um aviso de que, embora a cultura do cancelamento seja um fenômeno real que se apresenta como um claro risco à liberdade acadêmica, ela pode esconder um perigo ainda mais insidioso: o despotismo suave da conformidade.

O nome de Patton agora ficou conhecido, e ainda bem que é assim, entre os defensores da liberdade acadêmica. Seu caso ilustra os embaraços bizarros aos quais o cancelamento está inclinado. Ele estava ensinando os estudantes sobre o idioma chinês e a cultura daquele país, e ainda assim foi cancelado em nome da diversidade cultural.

A aula de Patton dizia respeito ao uso da linguagem, mas ainda assim seu reitor Geoffrey Garrett usou indevidamente a palavra obrigatória “segurança” (que de acordo com o Dicionário Oxford significa “o estado de ser protegido contra danos ou lesões”) para descrever a ansiedade sentida pelos alunos ofendidos.

Esses episódios são todos problemáticos. Eles invertem o propósito da aprendizagem, que implica um certo nível de desconforto inerente, bem como uma condição básica para a pesquisa acadêmica, a liberdade. O cancelamento de Patton ocupa uma categoria especial, e talvez especialmente absurda, no sentido de que ele nem sequer expressou uma ideia controversa daquelas que a liberdade acadêmica deveria proteger.

Mas esses casos explícitos da cultura do cancelamento trazem uma vantagem: eles são bem visíveis e se tornam bem conhecidos. Quanto mais notórios forem, mais atenção eles chamam. Uma questão maior paira por detrás: quem nunca fala em primeiro lugar? Pode-se imaginar professores iniciantes, em particular, tomando o caso de Patton como um aviso: ofendeu estudantes, vai ser suspenso.

Os casos mais difíceis – que são, diferente dessas situações pontuais que ganham repercussão, desconhecidos – são aqueles nos quais os acadêmicos restringem a própria língua não por medo, mas sim por cansaço. Para eles, não se trata das consequências geradas pela controvérsia, e sim se eles têm tempo e energia para entrar na polêmica.

A resistência não é inútil; é simplesmente exaustiva. Supostas ofensas e o silenciamento que elas trazem são eventos identificáveis que tendem, pelo menos entre aqueles que se preocupam com elas, a virar notícia. A autocensura, quando é realmente autoconsciente, é como o cão que nunca latiu, e justamente por isso não vira notícia.

A dinâmica do cancelamento é pelo menos tangível. Pessoas são ofendidas. Elas fazem protestos ruidosos e exigem reparação. Geralmente, sua intenção é que haja reeducação e supressão. Mas sabemos quando isso ocorre, e podemos nos opor a isso. Para deixar claro, o cancelamento é o porrete da conformidade. Sua influência como condição de fundo é inegável.

Mas a intenção daqueles que buscam a obediência pelo caminho mais suave não é necessariamente hostil ou pesada. Eles podem, pelo contrário, perceber-se sinceramente como caridosos. A dinâmica resultante é menos severa e possivelmente mais insidiosa: são os que policiam, ou melhor, moldam a fala não com a intenção de suprimir a dissidência, mas sim no que consideram ser a suposição benevolente de que todos concordam com eles.

Esta atitude é familiar nos meios acadêmicos, mas também escapa para fora de seus muros. Fica evidente em conversas que não se destinam a reeducar, mas sim reforçar o que se supõe ser tido como verdadeiro por todos.

Muitos dos proponentes da teoria crítica racial – cuja ideia animadora é que a raça é a única coisa significativa, a única lente pela qual todos os outros fenômenos devem ser observados – estão realmente tentando forçar uma conformidade.

Mas eles ainda trabalham sob a crença de que todos concordam com eles. Para esse público, isso é um ato sincero de caridade: pessoas razoáveis concordam comigo, e todas as pessoas com quem eu me encontro são razoáveis.

Há a suspeita, por exemplo, de que o treinamento sobre teoria crítica racial suspenso recentemente pelo presidente Donald Trump em agências federais é na maioria das vezes menos destinado a forçar cada indivíduo a obedecer a um padrão do que refletir uma suposição de que todos já o fazem.

Na verdade, isso traz resultados bizarros: a uniformidade em nome da diversidade; a educação centrada no que supostamente já é conhecido. Mas enquanto o tom do noticiário é colocar os defensores da teoria crítica racial contra seus adversários, aqueles que adotam uma abordagem mais suave para atingir essa conformidade podem não ser vistos como guerreiros da justiça social. Guerreiros apreciam a luta. E isso é menos sobre guerra e mais sobre burocracia.

É sobre uma uniformidade de opinião que não precisa ser conquistada na base da briga, e sim por procedimentos repetitivos que refletem uma vitória que já foi alcançada. É ficar mais intrigado do que indignado com esta ação de Trump.

É algo que se manifesta na forma de uma deflação constante da linguagem. Programas baseados na teoria racial crítica, segundo um artigo publicado recentemente no site Politico, foram descritos como “treinamentos de igualdade racial”.

Será que o autor do artigo quis, de forma consciente, tornar sua linguagem benigna de modo a esconder a controvérsia que realmente cercava esse treinamento? Talvez. Mas, e esta é a possibilidade mais sutil – e, portanto, mais perigosa -, talvez não.

A repetição casual e acrítica de termos como “racismo sistêmico” sugere suposições semelhantes. Por que, é de se perguntar, os americanos estão assinando petições cobrando punições individuais quando esses comportamentos individuais são produto de um “sistema”?

Jornalistas têm interesse pela integridade das palavras. Elas são a matéria-prima dos escritores. Um modelo de negócio que desvaloriza tanto assim a própria matéria-prima não se sustentará por muito tempo. Uma política que trafega em contradições se dividirá ainda mais porque muitas pessoas passarão a se ver como falantes de uma outra língua.

Greg Weiner é cientista político do Assumption College, pesquisador visitante do American Enterprise Institute e autor de "Old Whigs: Burke, Lincoln e a Política de Prudência".

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Cármen, o Exército e a Amazônia. - J. R. Guzzo

Cármen, o Exército e a Amazônia.



Desde quando Exército Brasileiro tem de pedir licença à ministra Cármen, ou a quem quer que seja, para ir a algum lugar do território nacional? Coluna de

Cármen, o Exército e a Amazônia.

 para a Gazeta do Povo:


Os atuais ministros do STF estão numa disputa cada vez mais agitada para ver quem, entre os onze, consegue fazer os piores papéis. Há, é claro, os grandes craques, gente da qualidade de um Gilmar Mendes ou Dias Toffoli, Edson Fachin ou Luís Roberto Barroso – especialmente esse Barroso, que se esforça todos os dias para ser nomeado guardião supremo da virtude no Brasil e, possivelmente, no resto do mundo. Mas sempre há um lugarzinho para a turma da segunda divisão tentar alguma coisa. É o caso da ministra Cármen Lúcia, que andava entregue à pequenez habitual de sua presença na mídia, hoje mais excitada com colegas que falam de “genocídio”, de “dictatorship” etc. É a velha história. Se ninguém está prestando atenção em você, tenha um ataque de nervos; sempre haverá quem pare um pouco para olhar.

O último chilique da ministra foi dar “cinco dias” para o Exército explicar a sua “presença” na Amazônia. Como assim? Desde quando Exército Brasileiro tem de pedir licença à ministra Cármen, ou a quem quer que seja, para ir a algum lugar do território nacional? Tanto quanto se saiba, as forças armadas têm o direito de estar presentes em cada palmo dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados deste país. Não podem ir para o Paraguai ou para a Bélgica, mas aqui dentro podem, sim. Ou melhor, têm a obrigação legal de estar presentes – não podem dizer que nesse ou naquele lugar “a gente não vai”. Porque a ministra Cármen não pergunta, então, o que o Exército está fazendo no Paraná? Ou em Pernambuco? Perderam a noção.

A maior parte das fronteiras do Brasil com os seus vizinhos fica na Amazônia. Uma das principais funções de um exército, em qualquer lugar do planeta, é vigiar as fronteiras nacionais; se não fizer isso, quem vai fazer em seu lugar? Uma ONG? A PM de Alagoas? Os “capinhas” do STF? O Exército não precisa preencher um formulário em quatro vias para explicar por que mandou o pelotão “X” ou “Y” se deslocar do ponto “A” ao ponto “B” dentro do território brasileiro. Só num lugar como o atual STF, em seu show diário para convencer a si próprio que manda no “governo militar, antidemocrático e fascista” que está aí, daria para encontrar quem acha o contrário.

É, para resumir a ópera, mais uma comprovação da crescente incapacidade do STF em funcionar como uma corte de justiça de país decente. Para piorar o que já é ruim, o despacho da ministra Cármen foi feito para satisfazer – acredite se quiser – um pedido do Partido Verde, que conta com quatro deputados (4) entre os 513 que formam a Câmara. Pode isso, Arnaldo? Sobra, melancolicamente acima de tudo, a clara sensação de mais uma palhaçada top de linha. Por acaso o Exército Brasileiro vai abandonar a Amazônia para atender ao Partido Verde, ou à doutora Cármen? Não vai. Então chega.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A matemática "opressora" - Flávio Gordon

A matemática "opressora"

A missão, diz o pedagogo revolucionário da USP, é “conscientizar os futuros professores de Matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos”. Flavio Gordon, via Gazeta do Povo:


“A pedagogia, como é hoje considerada, está desligada do saber, pretende substituí-lo e ocupar o seu lugar. A ‘pedagogia’ tem um aspecto social: atrai o intelectual proletaroide, prometendo-lhe uma revanche contra o competente e o sábio”. 
– Alain Besançon, prefácio de A Escola dos Bárbaros, de Isabelle Stal e Françoise Thom (1985)

No último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado em 2018 e divulgado em dezembro do ano passado, o Brasil ficou na 70.ª colocação entre 79 participantes da avaliação de matemática e raciocínio lógico. Como se lê em editorial desta Gazeta do Povo: “Em Matemática, quase sete em cada dez estudantes estão no pior nível de proficiência, sendo incapazes de realizar algumas tarefas básicas que envolvem números e operações aritméticas”. Na época da divulgação, o presidente do Inep, Alexandre Ribeiro Lopes, chegou a dizer que “a educação brasileira produz excluídos: 68% dos jovens de 15 anos não sabem o básico de matemática”.

Mas esse que, do ponto de vista dos pais e da sociedade em geral, é sem dúvida um resultado alarmante, não parece sê-lo da perspectiva de uma certa pedagogia “crítica” e “progressista”, cuja concepção da matemática e de suas funções é bastante peculiar. A fim de melhor compreender essa concepção – não apenas peculiar, mas também esdrúxula, já adianto –, podemos recorrer ao conceito de “erro categorial” (category-mistake), do filósofo Gilbert Ryle (1900-1976). Comete-se um erro categorial quando se atribui a um ente qualquer uma propriedade ontologicamente incompatível com a natureza desse ente.

Ilustrando a ideia, o filósofo pede-nos para imaginar uma pessoa comum, pouco afeita ao universo acadêmico, visitando Oxford pela primeira vez. Chegando lá, pergunta sobre a localização exata da universidade, imaginando vir a obter uma resposta do tipo: “É logo ali, ao lado da sala dos professores”. Ao conceber a universidade como uma edificação específica, e não como o conceito funcional que engloba todas as suas partes, a pessoa em questão teria cometido um erro categorial.

As crianças são mestras na produção de divertidíssimos erros categoriais. Temos um erro categorial clássico quando, por exemplo, um pequeno queixa-se a um móvel no qual acabou de bater a cabeça: “Mesa malvada!”. Ou quando indaga: “Qual é o gosto da cor verde?”, “Qual é a cor do seu nome?”, etc.

Nas crianças, o erro categorial faz parte do desenvolvimento cognitivo natural. Já em adultos, o fenômeno pode indicar certo lapso de inteligência, embora homens intelectualmente brilhantes não lhe sejam imunes (como, para Ryle, era o caso de Descartes). Ressalve-se, claro, que o erro categorial só se caracteriza no âmbito do discurso literal, denotativo. O uso consciente e figurado de “más” atribuições de propriedade não constitui erro algum, evidentemente.

Mas, voltando ao nosso assunto, gostaria de falar de um erro categorial tragicômico: a matemática opressora. Sim, num Brasil tomado por aquele marxismo “volatilizado e atmosférico” de que falava Nélson Rodrigues, era fatal que chegássemos até esse ponto. E o pior: o erro não parece ser fenômeno isolado, muito menos escandaloso. Ao contrário, cometê-lo, cá em Pindorama, pode conferir a quem o faz o título de doutor nas nossas principais universidades.

A matemática opressora é, por exemplo, o tema de uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação da USP, cujo resumo transcrevo na íntegra:

“Nossa investigação é uma pesquisa teórica de cunho histórico-filosófico-educacional, que tem como objetivo principal discutir as contribuições de Paulo Freire e de Ubiratan D’Ambrosio para a formação do professor de Matemática no Brasil. A dialética e as técnicas de análise de conteúdo constituem a metodologia adotada. Desse modo, nos impusemos como tarefa analisar a formação do professor de Matemática de modo contextualizado com a nossa realidade social atual e reconstituindo a função histórica que a nossa escola e a formação docente desempenharam como reforçadora das desigualdades sociais e mantenedoras do status quo da sociedade capitalista. No levantamento histórico, utilizamos as contribuições de G. Freyre, S. B. de Holanda, C. Prado Júnior, L. Basbaum, C. Furtado, F. de Azevedo, J. K. Galbraith, O. de O. Romanelli, A. Teixeira, entre outros. E, em nossa análise, nos valemos das contribuições de K. Marx, F. Engels, A. Gramsci, M. Chauí, L. Althusser, J. Contreras, O. Skovsmose, A. Ponce, M. Gadotti, K. Kosik e outros referenciais próprios da área. A formação do professor de Matemática é vista como resultado de um processo histórico-cultural que mantém ainda uma forte herança de elementos de uma sociedade colonial, corroborado pela não participação democrática do povo brasileiro em seu processo de constituição sociocultural numa sociedade capitalista e excludente. E o trabalho demonstra que os atuais processos de formação de professor de Matemática ainda são fortemente sedimentados numa formação alienada aos ditames de uma sociedade de classes, que não permite ao futuro professor compreender e fazer uso da necessária autonomia inerente à sua atuação, o que o faz atuar como um intelectual orgânico a serviço da consolidação da hegemonia da classe dominante. Nesse sentido, os constructos teóricos de P. Freire e de U. D’Ambrosio mostram-se como indicadores de encaminhamentos possíveis no processo de formação de um professor de Matemática crítico/libertador e, por isso, consciente de sua tarefa como agente ativo na formação de um educando não especialista em matemática, mas inserido em sua realidade social como um sujeito transformador e em transformação, que encontra na matemática uma ferramenta para o processo dialético de sua própria construção. Assim, a investigação indica a necessidade de uma atuação dos formadores no sentido de conscientizar os futuros professores de Matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos, dos explorados em geral. Ou seja, a investigação aponta a necessidade de a formação inicial se constituir como um antidiscurso ao discurso ideológico da classe dominante.” (grifos meus).

Temos aí um exemplo típico de trabalho acadêmico que pedagogos e educadores de esquerda têm, há décadas, produzido no Brasil. São pessoas como o seu autor as que ditam, na prática, os rumos de educação, ocupando posições importantes no sistema educacional. São elas que formam os professores brasileiros e, portanto, deformam a inteligência dos nossos estudantes.

Evidentemente, os objetivos educacionais desses pedagogos revolucionários não são os mesmos que os do restante da sociedade. E reside aí, talvez, o principal problema da educação brasileira, que precisamos começar a compreender e enfrentar: enquanto a sociedade espera que os professores ensinem aos estudantes Matemática, Português e Ciências, muitos dos profissionais que formam os professores não estão interessados em nada disso. Essas disciplinas servem-lhes apenas como meios para a doutrinação de crianças e jovens no discurso comunista (em versão gramsciana-freiriana) da luta de classes. “A pedagogia é a propedêutica do socialismo”, escreve acertadamente Alain Besançon no texto referido em epígrafe.

Que assim seja o confessa o próprio pedagogo da USP, para quem sua missão, não custa repetir, é “conscientizar os futuros professores de Matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos”. E você aí, ingênuo leitor, pensando que a tarefa do professor de Matemática fosse ensinar a fórmula de Bhaskara...

Escreve Ortega y Gasset em Misión de la Universidad (1930): “Princípio de educación: la escuela, como institución normal de un país, depende mucho más del aire público en que íntegralmente flota que del aire pedagógico artificialmente producido dentro de sus muros. Sólo quando hay ecuación entre la presión de uno y otro aire la escuela es buena”.

No Brasil contemporâneo, há um desencontro total entre o “ar público” e o “ar pedagógico” artificialmente produzido dentro dos muros escolares. Logo: acá la escuela no es buena. A sociedade como um todo optou por abdicar da educação infantil, delegando a missão para os especialistas em pedagogia, e conferindo a estes um prestígio (e, logo, um poder) totalmente imerecido e desproporcional. Todos parecem concordar com a fórmula mágica “mais verba para a educação!”, desatentos para o fato de que isso implica mais pedagogia – e, portanto, menos Matemática, Português, Ciências e demais disciplinas “opressoras”.

Lavamos as mãos, confiando que a meta dos especialistas correspondia aos nossos anseios. Erramos gravemente, e é preciso reconhecê-lo com urgência. Temos de acabar com o monopólio que a “falsa ciência” da pedagogia crítica, nos dizeres de Besançon, exerce sobre a educação brasileira. Até lá, talvez a proposta de “mais verba para a educação” não seja, de fato, uma boa ideia.

Karl Jaspers: A questão da culpa - a Alemanha e o nazismo.



O Estado da Arte publica a introdução do filósofo Karl Jaspers ao livro A Questão da Culpa, uma série de palestras sobre a situação na Alemanha no imediado pós-guerra:

Concebido em 1945, o livro veio a lume no ano seguinte — quando os terríveis crimes do regime nazista foram revelados nos julgamentos de Nuremberg. Ainda é atualíssima a reflexão de como o embate de opiniões, sem que nenhum lado quisesse realmente escutar o outro, ainda na década de 1930, ajudou a gestar a mentalidade que culminaria no nazismo. Jaspers — que foi afastado de seu posto universitário em 1937 pelo fato de ser casado com uma judia — voltou do isolamento e desempenhou, a partir do pós-guerra, o papel de consciência moral de um país que precisava se reconstruir em todos os campos. Este livro fundamental é a maior prova de sua emblemática honestidade intelectual. Mais do que isso, é um livro que diz muito sobre o espírito de seu tempo — e nosso também.
Karl Jaspers
Precisamos nos orientar espiritualmente uns em relação aos outros na Alemanha. Ainda não temos o chão comum. Tentamos nos encontrar.

O que lhes apresento aqui cresceu a partir do diálogo, algo que nós todos, cada um em seu círculo, executamos.

Cada um terá de lidar a seu modo com os pensamentos que exponho aqui — não deverá simplesmente aceitá-los como válidos, mas ponderar —, porém não deverá simplesmente refutar, mas experimentar, presentificar e examinar.

Queremos aprender a falar uns com os outros. Isso significa que não queremos apenas repetir nossa opinião, mas ouvir o que pensa o outro. Não queremos apenas afirmar, mas de uma forma contextualizada refletir, ouvir argumentos, permanecer dispostos a uma nova percepção. Queremos experimentar nos colocarmos na perspectiva do outro. Sim, queremos mesmo sair em busca daquilo que nos contradiz. Acolher o que é comum no contraditório é mais importante do que o estabelecimento prematuro de pontos de vista exclusivos, com os quais se encerra a conversa pela ausência de perspectivas de sucesso.

É tão fácil defender juízos firmes carregando nas emoções; é difícil elaborar de forma serena. É fácil interromper a comunicação com afirmações bruscas; é difícil penetrar incessantemente no fundo da verdade, para além das afirmações. É fácil adotar uma opinião e mantê-la para poupar-se o trabalho de continuar pensando; é difícil avançar passo a passo e não impedir mais questionamentos.

Precisamos restabelecer a disposição ao raciocínio. Parte disso é que não nos anestesiemos em meio a sentimentos de orgulho, de desespero, de indignação, de resistência, de vingança, de desprezo; mas que coloquemos esses sentimentos de lado e vejamos o que realmente está aí.

Mas vale também o inverso em relação ao falarmos uns com os outros: é fácil pensar sem compromisso e nunca se decidir; é difícil tomar a decisão certa em meio à claridade do pensamento aberto para todas as possibilidades. É fácil usar a fala para se esquivar da responsabilidade; é difícil manter a decisão, mas sem renitência. É fácil a qualquer tempo seguir o caminho de menor resistência; é difícil manter o caminho decidido ao atravessar toda a mobilidade e a maleabilidade do pensamento conduzido pela decisão absoluta.

Adentramos o espaço das causas quando realmente conseguimos falar uns com os outros. Para tanto, sempre deve permanecer em nós algo que confia no outro e que merece confiança. Então, na fala alternada, torna-se possível aquele silêncio em que se escuta e se ouve conjuntamente o que é verdade.

Por isso, não fiquemos com raiva uns dos outros, mas tentemos encontrar o caminho juntos. A emoção depõe contra a verdade do falante. Não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro, não queremos enaltecer em autossatisfação aquilo que pretende ofender o outro. Mas não deve haver barreiras impostas por limites moderadores, nem benevolência por meio de omissão, nem consolo baseado em ilusão. Não há pergunta que não possa ser feita, não há obviedade cara, nem sentimento ou mentira que devam ser protegidos. Mas, principalmente, não deve ser permitido bater-se no rosto com ousadia em razão de juízos desafiadores, infundados e levianos. Nós somos um conjunto; precisamos sentir nossa causa comum quando dialogamos.

Nesses diálogos, ninguém é juiz do outro, todos são ao mesmo tempo réu e juiz. Por todos esses anos, ouvimos como foram desprezadas outras pessoas. Não queremos dar continuidade a isso.

Mas isso sempre funciona apenas em parte. Todos nós tendemos a nos justificar e a nos atacar, quando sentimos forças antagônicas, por meio de acusações. Hoje, mais do que nunca, precisamos nos examinar. Deixemos claro o seguinte: pelo andar das coisas, parece que sempre o sobrevivente tem razão. O sucesso parece confirmar isso. Quem está por cima acredita ter a seu lado a verdade de uma causa justa. Encontra-se aí a profunda injustiça da cegueira diante dos fracassados, dos impotentes, daqueles que sempre são pisoteados pelos acontecimentos.

É assim a todo tempo. Foi assim com o barulho prussiano-alemão depois de 1866 e 1870, que provocou o horror de Nietzsche. Foi assim também com o barulho ainda mais feroz do nacional-socialismo desde 1933.

Então, agora precisamos perguntar a nós mesmos se não estamos sucumbindo novamente a outro barulho, se não estamos ficando presunçosos, se não estamos nos concedendo uma legitimidade pelo simples fato de termos sobrevivido e sofrido.

Tenhamos claro o seguinte: o fato de vivermos e sobrevivermos não ocorre graças a nós; o fato de estarmos em novas situações com novas chances em meio à terrível destruição não foi conquistado com esforço próprio. Não nos atribuamos uma legitimidade que não é nossa de direito.

Como todo governo alemão hoje é um governo autoritário instituído pelos Aliados, então todo alemão, cada um de nós, hoje, deve seu espaço de atuação à vontade ou à permissão dos Aliados. Este é um fato cruel. Nossa honestidade nos obriga a não esquecê-lo nem um único dia. Ela nos protege da soberba, ensina-nos a humildade.

Hoje também, como a todo tempo, há pessoas indignadas, que acreditam ter razão e entendem como fruto de seu esforço aquilo que aconteceu por meio de outros.

Ninguém pode se esquivar totalmente dessa situação. Nós mesmos estamos indignados. Que a indignação se purifique. Nós lutamos pela purificação da alma.

Faz parte disso não apenas o trabalho da razão, mas, estimulado por ela, um trabalho do coração. Os senhores, que estão ouvindo esta preleção, estarão em sintonia comigo ou terão sentimentos contra mim, e eu mesmo não me movimentarei sem agitação nas profundezas de meu pensamento. Mesmo se nesta preleção unilateral não estamos falando de fato um com o outro, não posso evitar que um ou outro se sinta interpelado quase pessoalmente. De antemão, peço aos senhores: desculpem-me se ofendo. Não quero fazê-lo. Mas estou decidido a ousar os pensamentos mais radicais com a maior ponderação possível.

Quando aprendemos a falar uns com os outros, conquistamos mais do que a conexão entre nós. Criamos, assim, a base imprescindível para podermos falar com os outros povos.

É na abertura e na sinceridade plenas que residem não somente a nossa dignidade — que também é possível na impotência — mas também a nossa própria oportunidade. A questão que se coloca para todo alemão é se ele quer seguir por esse caminho, correndo o risco de todas as decepções, correndo o risco de mais perdas, e do cômodo abuso por parte dos poderosos. A resposta: esse caminho é o único que preserva a nossa alma de uma existência de pária. O que resultará desse caminho veremos adiante. É uma ousadia espiritual e política à beira do abismo. Se o sucesso for possível, então ele será somente a longo prazo. Ainda desconfiarão de nós por muito tempo.

Uma postura que silencia, orgulhosa, por um breve momento pode ser uma máscara justificada, atrás da qual se busca respirar e recobrar a consciência. Mas ela se transformará em autoengano e em astúcia diante do outro se for permitido esconder-se, renitente, em si mesmo, se ela impedir o esclarecimento para escapar da compungência da realidade. O orgulho que, erroneamente, se julga masculino e que, na verdade, se esquiva, toma o silêncio como a última postura de luta que ainda permanece em meio à impotência.

Falar um com o outro está difícil hoje na Alemanha, mas é a mais importante das tarefas, porque nós somos extremamente diferentes uns dos outros em tudo o que vivemos, sentimos, desejamos e fizemos. Debaixo da coberta de uma comunidade forçada pelo exterior, escondia-se aquilo que está cheio de possibilidades e que agora pode desabrochar.

Precisamos ver as dificuldades nas situações e posturas divergentes das nossas próprias e aprender a compartilhá-las.

Em linhas gerais, talvez nós, alemães, tenhamos em comum apenas coisas negativas: pertencermos a um povo de um Estado irremediavelmente derrotado, entregues à graça ou à desgraça dos vencedores; a falta de um chão comum que nos una a todos; a dispersão: cada um essencialmente só tem respaldo de si mesmo e, ainda assim, enquanto indivíduo, está desamparado. Comum a nós é a ausência de comunidade.

Em meio ao silêncio por baixo das falas niveladoras da propaganda pública desses doze anos, adotamos posturas internas muito diversas. Na Alemanha, não temos uma Constituição unificadora de nossas almas, juízos de valor e desejos em comum. Justamente porque aquilo em que acreditamos por todos esses anos, que julgávamos ser verdade, que para nós era o sentido da vida, era tão divergente, agora também a transformação precisa ser diferente para cada um. Todos nós nos transformamos. Mas não trilhamos todos o mesmo caminho em direção ao novo chão da verdade comum, buscado por nós e que nos unirá de novo. Numa tal catástrofe, cada um poderá se refundir num renascimento, sem temer tornar-se desonrado nesse processo.

O fato de eclodirem agora essas diferenças é consequência da impossibilidade de um debate público durante doze anos, e mesmo na vida privada tudo o que fosse oposição se limitava a conversas ultraparticulares, sendo que mesmo diante de amigos se era reticente. Público e geral — e por isso sugestivo e quase óbvio para a juventude que cresceu nesse contexto — era apenas o modo nacional-socialista de pensar e de falar.

Como hoje podemos falar livremente de novo, sentimo-nos como se viéssemos de mundos distintos. E, apesar disso, falamos todos a língua alemã, todos nascemos neste país e temos aqui a nossa pátria.

Queremos nos encontrar uns com os outros, conversar, buscar nos convencer.

Nossas concepções sobre os acontecimentos eram divergentes ao ponto da incompatibilidade: alguns vivenciaram a ruptura já em 1933 com a experiência da indignidade nacional, outros a partir de junho de 1934, outros ainda em 1938 com os pogroms judaicos, muitos a partir de 1942, quando a derrota era possível, ou então desde 1943, quando ela era certa, e alguns apenas em 1945. Para os primeiros, 1945 foi a libertação para novas possibilidades, já para os outros, foram os piores dias, por ser o fim do Reich supostamente nacional.

Alguns viram a origem da desgraça com radicalismo e tiraram as conclusões disso. Já em 1933, eles desejavam a intervenção e a entrada das Forças Ocidentais. Como agora as portas do presídio alemão estão trancadas, a libertação só poderá vir de fora. O futuro da alma alemã estava atrelado a essa libertação. Se a destruição da essência alemã não se completasse, então essa libertação deveria acontecer o mais rápido possível através dos Estados irmãos de mentalidade ocidental, em nome do interesse comum europeu. Essa libertação não aconteceu, mas o caminho levou até 1945, para a mais terrível destruição de todas as nossas realidades físicas e morais.

Mas essa concepção não é comum a todos nós. Além daqueles que viam ou ainda veem no nacional-socialismo a era de ouro, havia opositores ao nacional-socialismo que estavam convictos de que uma vitória da Alemanha de Hitler não teria como consequência a destruição da essência alemã. Antes eles viam numa vitória da Alemanha as bases de um grande futuro, porque acreditavam que uma Alemanha triunfante se livraria do partido, fosse imediatamente, fosse pela morte de Hitler. Eles não acreditavam na máxima de que todo poder de Estado só se segura pelas forças que o fundaram, e também não acreditavam que o terror, pela natureza da coisa, justamente depois da vitória seria inquebrável, que depois de uma vitória e depois da dispensa do Exército a Alemanha seria mantida sob controle pela SS como um povo escravo, para exercer um domínio mundial árido, aniquilador, desprovido de liberdade, em que tudo o que era alemão seria sufocado.

Em sua configuração especial, a miséria hoje é bem diferente. Certamente todos têm preocupações, limitações severas, sofrimento físico, mas trata-se de algo bem diferente: se alguém ainda tem casa e objetos de casa, ou se vive diante da perda de tudo por bombardeios; se alguém sofreu ou teve perdas na luta no front, em casa ou no campo de concentração; se foi perseguido pela Gestapo ou se foi beneficiário do regime mesmo com medo. Quase todos perderam amigos próximos ou parentes, mas a forma pela qual os perdeu — pela luta no front, por bombas, campos de concentração ou assassinatos em massa por parte do regime — tem como consequência posturas íntimas muito diferentes entre si. O sofrimento varia de acordo com o tipo. A maioria só entende realmente o próprio sofrimento. Todos tendem a interpretar grandes perdas e sofrimento como sacrifício, mas a razão desse sacrifício tem interpretações tão abissalmente distintas que num primeiro momento isso separa as pessoas.

Impactante é a diferença pela perda de uma fé. Apenas uma fé eclesiástica ou filosófica de base transcendente consegue manter-se ao longo de todas essas catástrofes. O que tinha validade no mundo esfacelou-se. O nacional-socialista devoto só consegue ir atrás de sonhos obsoletos através de pensamentos ainda mais absurdos do que aqueles do seu tempo de poder. O nacionalista encontra-se desorientado entre a rejeição do nacional-socialismo, que ele percebe, e a realidade da situação da Alemanha.

Todas essas diferenciações levam-nos constantemente à ruptura entre nós, alemães, e ainda mais porque falta à nossa existência a base comum ético-política. Temos apenas a sombra do chão político realmente comum, e poderíamos ser solidários permanecendo de pé sobre ele, mesmo nas disputas mais intensas. Falta-nos em grande medida falarmos uns com os outros e ouvirmos uns aos outros.

Isso ainda é agravado pelo fato de que tantas pessoas não querem pensar realmente. Elas buscam apenas palavras de ordem e obediência. Elas não perguntam e elas não respondem, a não ser pela repetição de fórmulas batidas. Elas só sabem afirmar e obedecer, e não examinar e reconhecer, e por isso também não podem ser convencidas. Como falar com pessoas que não querem ir aonde se examina e se raciocina, onde as pessoas buscam a sua autonomia por meio do reconhecimento e da convicção?

A Alemanha só poderá voltar a si se nós, alemães, nos encontrarmos na comunicação. Se aprendermos a realmente falarmos uns com os outros, nós o faremos apenas com a consciência de nossa grande diversidade.

Unidade por coerção de nada serve; ela se esvai como um clarão na catástrofe. Consenso através do diálogo e da compreensão leva à comunidade que se sustenta.

Quando representamos o típico, ninguém precisa se classificar. Quem se sentir representado o faz por conta e risco.


Nossos agradecimentos à todavia, personificada aqui por Leandro Sarmatz e Nathalia Pazini.